UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

A AUSÊNCIA DO GÊNERO CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA NOS PORTAIS JORNALÍSTICOS NATALENSES

Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha

NATAL 2021

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LEONARDO DA VINCI FIGUEIREDO DA CUNHA

A AUSÊNCIA DO GÊNERO CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA NOS PORTAIS JORNALÍSTICOS NATALENSES

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, como exigência parcial para a obtenção do diploma de graduação em Jornalismo.

Orientador: Prof. Dr. Adriano Medeiros Costa

NATAL 2021

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FOLHA DE APROVAÇÃO

A AUSÊNCIA DO GÊNERO CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA NOS PORTAIS JORNALÍSTICOS NATALENSES

Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, como exigência parcial para a obtenção do diploma de graduação em Jornalismo.

Data da aprovação:

BANCA EXAMINADORA:

______________________________________________ Professor Dr. Adriano Medeiros Costa (Orientador) Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

______________________________________________ Professor Dr. Leonardo Gamberini (Membro)

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

______________________________________________ Nathallya Rayanne Macedo Xavier da Silva (Membro externo)

Jornalista do veículo Agora RN

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Dedico este trabalho a Deus, sem O qual eu não teria conseguido chegar até aqui. Aos meus irmãos em Cristo, por terem tido paciência de acompanhar o processo de construção o trabalho. A todos os críticos de cinema de Natal, que por meio desta pesquisa encontrarão respostas para suas indagações.

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AGRADECIMENTOS

Não foi uma jornada fácil até aqui. O período de pandemia do Covid-19, somado ao fato de conciliar trabalho com a vida profissional, foi uma experiência hercúlea. Por pouco, não joguei a toalha. Por isso, considero que há muito para se agradecer.

Agradeço, em primeiro lugar, ao Soberano Deus, Senhor sobre todas as coisas existentes, Autoridade Suprema que exerce domínio até sobre a poeira que voa pelo ar. Ele me agraciou com a habilidade da escrita, por meio da qual pude desenvolver este trabalho. Se não estivesse dentro dos propósitos dEle, eu não teria conseguido entrar no curso de Jornalismo.

Agradeço à minha família, por terem me apoiado por todos os caminhos que decidi trilhar.

Aos colegas e amigos de curso, especialmente do período em que fiz parte do projeto de extensão GRUPERT – Grupo Permanente do Estudo da Entrevista. Ali, criamos um portal chamado Caderneta Nerd, onde publicávamos críticas de filmes e cobríamos eventos. Foram experiências únicas. Agradeço aos meus intrépidos companheiros Douglas Lucena, Pedro Henrique, Marcelha Pereira, Luis Gustavo, Beatriz Nascimento, Ricarla Nobre, e Thayanne. Também aos colegas que adquiri quando precisei passar para o turno da noite: Marcos, Matheus, Letícia, Mariana e Richardson.

Aos professores da graduação, por exibirem o lado nobre de se fazer um jornalismo digno. Aos entrevistados que aceitaram participar dessa pesquisa e a ajudaram a ficar mais rica: Cinthia Lopes, Sergio Vilar, Sihan Felix, Margareth Grilo e Nathallya Macedo.

Aos amigos dos municípios de Natal, Parnamirim e Carnaubais por sempre enviarem palavras encorajadoras durante o desenvolvimento deste TCC. Uma ressalva ao meu grupo de amigos de Carnaubais: Tonny Dantas, Batista Lima, Victor Rodrigues, Mark Moura, Maria Eduarda, Rubian Valentim, Lara Macedo, João Victor, Júlio César, Débora Elana, Tomaz Neto.

Um agradecimento especial à família Henriques, da cidade de Parnamirim, por tudo o que vivemos e todos os conhecimentos compartilhados. À Igreja Cristã Eterna Aliança de Carnaubais, onde iniciei minha caminhada cristã, e à Igreja Cristã Eterna Aliança de

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Parnamirim, por todo o suporte teológico, principalmente em momentos difíceis. À querida dona Hirtes, que me acolheu como um neto em um período que eu estava órfão de avós.

Enfim, a todos que estiveram torcendo de longe, seja com incentivo e orações para que esse trabalho pudesse ser finalizado.

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RESUMO

Este trabalho utiliza-se do gênero crítica como um instrumento indispensável para o jornalismo cultural. Nesse sentido, a pesquisa tem o intuito de desvendar por qual razão a crítica cinematográfica não recebe espaço nos cadernos culturais dos jornais hegemônicos de Natal, mediante a existência da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte, composta em parte por jornalistas de formação. Para alcançar os objetivos propostos, a fundamentação teórica tem como alicerce a Análise do Discurso, baseando-se nos preceitos estabelecidos por Eni P. Orlandi (2001). Parte da pesquisa tem seu foco na coleta de dados por meio de monitoramento dos portais e questionário aplicado com pessoas que gostam de cinema. A outra parte ocorreu com a análise dos discursos das editoras dos cadernos culturais dos jornais hegemônicos, adquiridos através de entrevistas. Com isso, buscamos características ideológicas que compõem a identidade midiática das empresas.

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ABSTRACT

This work uses the critical genre as an indispensable tool for cultural journalism. In this sense, the research aims to discover why film criticism does not receive space in the cultural sections of the hegemonic newspapers in Natal, through the existence of the Rio Grande do Norte Film Critics Association, composed in part by trained journalists . To achieve the proposed objectives, the theoretical foundation is based on Discourse Analysis, based on the precepts established by Eni P. Orlandi (2001). Part of the research focuses on data collection through the monitoring of portals and a questionnaire applied to people who like cinema. The other part occurred with the analysis of the speeches of the publishers of the cultural notebooks of the hegemonic newspapers, acquired through interviews. With this, we seek ideological characteristics that make up the media identity of companies.

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Sumário

INTRODUÇÃO ... 9

CAPÍTULO I - JORNALISMO CULTURAL ... 11

1.1 SURGIMENTO DO JORNALISMO CULTURAL ... 12

1.2 O JORNALISMO CULTURAL CONTEMPORÂNEO ... 17

1.3 O GÊNERO DA CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA ... 20

CAPÍTULO II - A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA NA IMPRENSA POTIGUAR ... 25

2.1 A TRAJETÓRIA DA CRÍTICA DE CINEMA NOS JORNAIS HEGEMÔNICOS DE NATAL ... 25

2.2 A ASSOCIAÇÃO DE CRÍTICOS DE CINEMA DO RIO GRANDE DO NORTE ... 29

2.3 O ESTADO DA ARTE DA CRÍTICA DE CINEMA EM NATAL ... 33

CAPÍTULO III - ANALISANDO O DISCURSO DA CRÍTICA POTIGUAR DE CINEMA . 37 3.1 A ANÁLISE DO DISCURSO ... 37 3.2 METODOLOGIA ... 39 3.3 MOTIVAÇÕES DA SUPRESSÃO ... 52 CONCLUSÃO ... 62 REFERÊNCIAS ... 66 APÊNDICE ... 67

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INTRODUÇÃO

Esta pesquisa ambienta-se no campo do jornalismo cultural, expressão essa que corresponde ao exercício de examinar produtos artísticos, por meio de críticas ou resenhas, com o objetivo de direcionar seus respectivos apreciadores e consumidores. Iremos nos deter não no significado amplo do termo cultura, mas no termo mais genérico, no que diz respeito à maneira que melhor se relaciona ao jornalismo. Iremos nos debruçar na concepção mais popular. Dentro desse ponto de vista, nosso trabalho vai abordar o jornalismo cultural como uma elaboração de conteúdo jornalístico destinado à cultura.

De uma maneira mais específica, nosso foco será na crítica cinematográfica. Vamos, inicialmente, analisar a crítica como um gênero jornalístico. Em seguida, iremos investigar por que esse estilo pouco se destaca nas plataformas digitais dos jornais da cidade de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte.

Essa pesquisa se faz necessária a partir do momento que se identificou que há poucos espaços na mídia tradicional natalense para a crítica cinematográfica, ao passo em que se descobriu a existência da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. Ou seja, existem na cidade produtores independentes de conteúdo que tratam de cinema, mas que não trabalham nos jornais hegemônicos da capital. Levando em consideração a expansão de acesso à informação oriunda do avanço tecnológico e, sobretudo, da internet, o que proporciona o crescimento exponencial do número de público apreciador da arte, buscaremos entender o que faz com que os grandes jornais não usem esse gênero em seus espaços.

Entendemos que hoje, em nível nacional, o jornalismo cultural vem se expandindo e ganhando a afeição de leitores em várias regiões do Brasil. A Folha de São Paulo, por exemplo, possui a Folha Ilustrada, seção exclusiva para cultura; enquanto o Jornal do Brasil tem o Caderno B. Mediante a esse aspecto, percebemos que a editoria de cultura dos jornais natalenses poderia ir além, produzindo conteúdos de cinema no contexto regional, nacional e internacional.

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10 Para que nossa proposta estivesse bem estruturada, organizamos a pesquisa da seguinte maneira: no primeiro capítulo, traçamos o histórico do jornalismo cultural em âmbito internacional e nacional. No capítulo dois, por sua vez, investigamos como o gênero crítica cinematográfica já foi e vem sendo trabalhado nas mídias natalenses, dedicamos um espaço para apresentar a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN), e quais os portais locais da atualidade que utilizam a crítica de filmes como ferramenta de trabalho.

No capítulo três, esmiuçamos nosso aparato teórico, fundamentado nos preceitos da Análise do Discurso estipulados por Eni P. Orlandi (2001). Por meio dessa técnica, avaliamos os discursos das editoras dos jornais Agora RN e Tribuna do Norte a fim de descobrir a razão da ausência do gênero crítica nos jornais hegemônicos natalenses. Ainda nesse mesmo capítulo, exibimos dados coletados através de monitoramento e questionário aplicado na modalidade online.

Nesse sentido, tendo em vista que a crítica cinematográfica é um gênero pouco presente na vida dos leitores norte-rio-grandenses, esperamos que esta pesquisa prove à grande mídia potiguar a importância do nosso objeto de estudo e a faça reconhecer o peso que a crítica tem nesse estilo tão admirável de se fazer jornalismo.

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CAPÍTULO I - JORNALISMO CULTURAL

Para que esta pesquisa esteja bem fundamentada, é necessário esmiuçar a gênese do jornalismo cultural, como ele se desenvolveu no Brasil, como o gênero crítica adequa-se na área pesquisada e explicar do que se trata o jornalismo geek. Para isso, iremos nos nortear em documentos e obras de referência.

É interessante, neste primeiro momento, nos posicionarmos acerca do conceito de cultura que o jornalismo cultural normalmente ocupa-se. Ballerini (2015) é bastante objetivo ao declarar que definir o termo cultura é uma tarefa complexa, pois “ele envolve conceitos, costumes, valores, etc” (p. 31). Sendo assim, qualquer tipo de manifestação oriunda de um ser humano participante de uma sociedade pode ser considerada um evento cultural.

De um modo simbólico, Muniz Sodré (2013) faz uma explanação afável por meio da qual a cultura pode ser classificada

cultura não é o mesmo que conhecimento. Imagine-se o conhecimento como um mar em que se deve navegar: a cultura é um mapa, uma carta de navegação. Antes mesmo que se imponha o conhecimento, ela já se faz presente como uma matriz de orientação para fazer diferenças e estabelecer critérios, mas também como um mapa da memória do saber pertinente à reprodução da consciência burguesa (SODRÉ, 2013, apud BALLERINI, 2015, p. 163).

Isto é, a maneira como nos portamos mediante às esferas que compõem o âmbito social, como política, esporte, entretenimento, sociologia etc, expressam traços de uma identidade cultural. Porém, o aspecto ao qual o jornalismo cultural se debruça está mais direcionado a produções culturais concebidas dentro da sociedade com o intuito de trazer apreciação e consumo.

É importante entender, no entanto, que obras artísticas não se resumem apenas ao ato da contemplação. Raymond Williams (1992), em seus estudos, defende a ideia de que os objetos culturais devem ser situados em um espaço de tempo

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[...] toda produção cultural está comprometida com uma referência social do tempo de sua produção, ou seja, são inevitavelmente contextualizáveis, daí a importância do jornalismo cultural não só de “registrar o presente” como em contextualizar as obras analisadas em seus cadernos. Tais obras, porém, são atemporais em termos de apreciação e valor artístico-cultural. Ou seja, apreciar um quadro de Kandinsky ou um livro de Guimarães Rosa só é possível tendo consciência do contexto social e cultural no qual essas obras foram produzidas. Caso contrário, ficar-se-á apenas na apreciação de um borrão e de um livro de histórias de personagens (WILLIAMS, 1992, apud BALLERINI, 2015, p. 32).

E é nesse sentido, na prática de se avaliar uma obra, refletir a respeito do seu significado, trazendo-a para um contexto histórico, que essa pesquisa irá se deter em uma concepção imprescindível para o jornalismo cultural: o gênero crítica, como será exposto mais à frente.

1.1 SURGIMENTO DO JORNALISMO CULTURAL

Agora que postulamos e definimos a visão de cultura que interessa ao jornalismo cultural, iremos traçar o percurso histórico do mesmo no domínio internacional e nacional.

De acordo com Daniel Piza (2009), o jornalismo cultural pode se considerar um dos filhos do Renascimento, uma vez que a imprensa criada por Gutenberg em 1450 contribuiu para o desenvolvimento de máquinas de impressão. Logo se espalharam pela Europa ensaios de cunho literário e teatral, alguns dos quais ajudaram a “dar luz ao movimento iluminista que marcaria o século XVIII” (PIZA, 2009, p. 12-13).

Mas a criação de Gutenberg, apesar de ser um marco efetivamente importante, é ofuscada por outra data que traz mais relevância ao jornalismo cultural:

Um marco dos princípios do jornalismo cultural, não uma data inicial, é 1711. Foi nesse ano que dois ensaístas ingleses, Richard Steele (1672-1729) e Joseph Addison (1672-1719), fundaram uma revista diária chamada The Spectator. A revista falava de tudo - livros, óperas, costumes, festivais de música e teatro, política - num tom de conversação espirituosa, culta sem ser formal, reflexiva sem

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ser inacessível, apostando num fraseado charmoso e irônico que faria o futuro grão-mestre da crítica, Samuel Johnson, sentenciar: „Quem quiser atingir um estilo inglês deve dedicar seus dias e noites a ler esses volumes‟ (PIZA, 2009, p. 11-12).

É perceptível concluir que campos artísticos, como música e artes cênicas, acompanham o jornalismo cultural desde seus tempos primordiais. Ao que tudo indica, o jornalismo cultural ganhou novas nuances com o advento do cinema. Ballerini (2015, p. 133) acredita que o cinema e o jornalismo possuem um relacionamento desde o nascimento da sétima arte. O autor ratifica isso ao relatar que o cinema foi se transformando em uma área nobre para a imprensa, mesmo sendo uma arte caçula em comparação a outras, como a literatura, o teatro, as artes visuais e a música. O cinema, aos poucos, foi contagiando o jornalismo em outras partes do mundo:

[...] o cinema nasceu sendo coberto pela imprensa, uma vez que ela estava bem desenvolvida quando do surgimento do primeiro filme, A chegada do trem à

estação (dezembro de 1895), dos irmãos Auguste e Louis Lumière, criadores do

cinema. A imprensa europeia, asiática e norte-americana foi entusiasta da nova invenção dos franceses, o cinematógrafo, que logo começou a viajar pelo mundo [...]. A imprensa inclusive ajudou a sedimentar as inovações técnicas que foram aprimorando o cinema muito rapidamente nos últimos anos do século 19 e no alvorecer do século 20 (BALLERINI, 2015, p. 134).

Com a difusão da imprensa e da industrialização, que consequentemente facilitava um maior número de produções e o ganho de novos leitores, além de alçar o nome dos escritores da época, o jornalismo cultural tomou conta da Europa.

O ensaísmo e a crítica cultural se tornaram ainda mais influentes. Na Inglaterra, um crítico de arte como John Ruskin (1819-1900) era tratado como semideus pelos seguidores (e, claro, demonizado pelos detratores). Tratando a estética quase como religião, ele marcou sua época de tal maneira que se tornou uma das maiores influências sobre a literatura moderna de um grande francês, Marcel Proust (1871-1922), que também foi crítico militante nas páginas de Le Figaro (PIZA, 2009, p. 14-15).

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14 Nos Estados Unidos, conforme dito por Ballerini (2015, p.18), um dos primeiros nomes a se destacar no jornalismo cultural americano foi o escritor Edgar Allan Poe (1809 – 1849). Ele, conhecido mundialmente por seus contos, foi também um renomado crítico de arte. Já no século 20, o estilo textual do jornalismo cultural passou a ser menos opinativo e mais concentrado em reportagens e notícias.

[...] surgiram profissionais que se formavam e constituíam uma trajetória no jornalismo cultural - ou seja, não mais apenas dramaturgos, poetas e músicos que se aventuravam na escrita crítica (BALLERINI, 2015, p. 19).

Transladando o histórico do jornalismo cultural para o âmbito brasileiro, o surgimento dessa vertente jornalística se deu no século 19. Na visão de Silva (1997 apud Ballerini 2015), o primeiro veículo nacional a adotar uma seção cultural foi o Correio Braziliense (1960 - ), com a seção Armazém Literário. Esse departamento “trazia subdivisões como „Comércio e Artes‟, „Literatura & Ciência‟ e „Miscelânea‟, com assuntos variados” (SILVA 1997; apud BALLERINI 2015, p. 21).

É curioso descobrir que a corrente do jornalismo cultural contribuiu para o nascimento do nosso maior escritor nacional: Machado de Assis (1839 - 1908). O autor iniciou sua carreira escrevendo críticas teatrais e resenhas referentes aos romances de Eça de Queiroz (1845 – 1900). Outros escritores, como José Veríssimo (1857 – 1916) e Mario de Andrade (1893 – 1945), também nasceram como críticos. Das produções nacionais de natureza cultural, merecem destaque as revistas O Cruzeiro (1928 - 1975) e Klaxon (1922 - 1923), a primeira chegando, na ocasião do suicídio de Getúlio Vargas, ao número de 1 milhão de tiragens; já a segunda foi a protagonista do modernismo paulista, proveniente da Semana de Arte Moderna em 1922.

Ainda assim, segundo Silva (1997 apud Ballerini 2015), no decorrer de muito tempo o espaço para o jornalismo cultural nos meios de comunicação se restringia ao rodapé de páginas: “Foi somente a partir da segunda metade do século 19 que ele ganhou mais fôlego no Brasil, especialmente na forma de periódicos literários, que se proliferaram rapidamente” (SILVA 1997; apud BALLERINI 2015, p. 21).

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15 O jornalismo literário no Brasil prosperou bastante com a chegada do Romantismo, período este em que os folhetins conquistaram o público. Sobre isso, Ballerini (2015) diz que

O legado dos folhetins no jornalismo cultural foi apresentar uma linguagem nova mediando jornalista e leitor, com temas amenos porém aprofundados, não só restritos às artes e às letras. O final do século 19 ainda era um momento instável para o jornalismo cultural no país. Diversas revistas literárias nasceram e morreram. A Época, produzida por Machado de Assis e Joaquim Nabuco, durou apenas quatro exemplares. Nesse período, o recém-nascido O Estado de S.

Paulo, sob o nome de A Província de São Paulo, tomou uma atitude pioneira e

mandou o correspondente Euclides da Cunha cobrir a Guerra de Canudos, na Bahia. De lá, ele enviava telegramas e relatórios, material que serviria de rascunho para a obra-prima Os sertões (BALLERINI, 2015, p. 22-23).

No século 20, os jornais passaram pelo processo de modernização, “com máquinas capazes de imprimir milhares de exemplares por hora. Tiragem maior, público maior e a literatura como fonte de mão de obra qualificada para suprir a demanda” (BALLERINI, 2015, p. 23).

No início desse movimento no Brasil, muitos chamavam os textos de resenhas. Conforme proclama Melo (1994, p. 126), o jornalismo brasileiro passou por uma transição ao transformar o termo “resenha” em “crítica”. Antes, tratava-se de um período amadorístico, no qual “os espaços dos jornais e revistas estavam franqueados aos intelectuais para o exercício, eventualmente remunerado, da análise estética no campo da literatura, música, artes plásticas” (p.126). Quando a fase passou a ser profissionalizante, há uma valorização dos produtos culturais, em que passou “a ser feita regularmente, e portanto remunerada, adquirindo caráter mais popular” (p.126).

Melo (1994) ainda fala sobre os novos rumos que o jornalismo cultural tomou, por meio da modernidade, na década de 1930.

Historicamente, a apreciação dos produtos culturais começa na imprensa brasileira pelas áreas artísticas tradicionais: literatura, música, teatro, artes plásticas. E na medida em que os jornais e revistas, até o início deste século, destinavam-se a uma parcela restrita da população, a crítica podia se fazer em

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profundidade. Havendo coincidência entre o público leitor da imprensa periódica e o público consumidor das obras-de-arte, era natural que os editores cedessem espaço para a publicação de matérias bem elaboradas, cujo cerne é a análise da própria obra-de-arte e não a orientação para o seu consumo. Quando o jornalismo atinge escala industrial e, a partir da década de 30, começa a ampliar consideravelmente o público leitor, abrangendo também a classe média e setores do operariado qualificado, a apreciação dos bens culturais busca novos caminhos. (MELO, 1994, p. 127).

Já na década de 1950, no Brasil, o jornal Correio da Manhã criou um caderno de cultura dominical, intitulado Quarto Caderno. Passaram por essa editoria, nos anos seguintes, dois dos maiores críticos de cinema da história do Brasil: Moniz Viana e José Lino Grunewald.

No final da década de 1950 e início da década de 1960, o cinema brasileiro vivenciou o fenômeno do Cinema Novo, etapa que contribuiu para o nascimento de novos críticos e o crescimento da produção de críticas cinematográficas no país, propiciando o começo de festivais e cineclubes (BALLERINI, 2015, p.137). Os cineastas desse período consideravam fazer cinema contando a história do Brasil, como uma forma de protesto nos tempos em que viviam. O surgimento do Cinema Novo “está relacionado com um novo modo de viver a vida e o cinema, que poderia ser feito apenas com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, como prometia o célebre lema do movimento” (CARVALHO, 2006, p. 290).

Na década de 1980, as maiores referências ao jornalismo cultural foram a Ilustrada e o Caderno 2, da Folha (1921 - ) e do Estadão (1875 - ), respectivamente. Segundo Ballerini (2015)

A Ilustrada chegou no final do século com um gosto pela controvérsia e mostrou uma galeria de articuladores e críticos polêmicos, como Paulo Francis, Tarso de Castro e Décio Pignatari, mas aos poucos o peso da opinião diminuiu e a agenda cultural passou a predominar (BALLERINI, 2015, p. 30).

A respeito do domínio crescente da dita agenda cultural, de fato o repertório do jornalismo cultural passou a investir em um espaço maior para programações artísticas

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Aos poucos, os cadernos diários de cultura e entretenimento passam a dedicar pelo menos metade de seu espaço a roteiros, guias e serviços - como programação de cinema, teatro, TV, colunas sociais, horóscopo, palavras cruzadas, quadrinhos etc. A outra metade abarca anúncios publicitários, reportagens, notas, notícias e críticas (BALLERINI, 2015, p. 30).

No final do século 20 e início do século 21, fomos testemunhas de novos suportes - meios tecnológicos - que trouxeram influências para o jornalismo impresso e, consequentemente, promoveram uma nova fase para o jornalismo cultural. E é sobre esse tópico que iremos estudar a seguir.

1.2 O JORNALISMO CULTURAL CONTEMPORÂNEO

Ponderamos que seja interessante iniciar essa seção com uma citação de Daniel Piza (2003), que diz o seguinte

Quero deixar bem claro que, pela minha experiência e também pelas estatísticas, há um contingente sólido, respeitável, de leitores interessados em jornalismo cultural de qualidade; e que sempre há espaço, a ser criado e recriado com persistência, para quem se dispuser a produzi-lo” (PIZA, 2003, p. 9).

Recriação é uma palavra que define bem o caminho que o jornalismo cultural contemporâneo vem trilhando. Com o surgimento da TV nos anos 50 e sua popularização na década de 1960, ela "[...] passou a ser levada a sério pela imprensa" (BALLERINI, 2015, p.163). A partir disso, o jornalismo cultural começou a abordar outros gêneros, como novelas, séries e programas.

A TV [...] foi criando programas em que a cultura ganhou espaço - como o telejornalismo, no qual o repórter fala sobre uma novidade musical, teatral, literária ou cinematográfica [...] Paralelamente, surgiram também os guias de jornais e revistas, minicadernos ou até livrinhos que saem às sextas-feiras contendo a

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programação de praticamente todas as estreias e obras culturais em cartaz em determinada região metropolitana (BALLERINI, Franthiesco. 2015, p. 177).

Ballerini (2015) continua ao relatar que esses livrinhos contêm "resenhas e críticas pequenas sobre as estreias" (p.177). Dessa forma, embora o espaço seja pequeno, essa plataforma foi um formidável canal de disseminação para o jornalismo cultural.

Contudo, não há como ignorar a chegada da internet e todas as mudanças que ela proporcionou e permanece realizando. Primeiramente, temos a transformação do suporte. Se antes o meio impresso era considerado o mais tradicional, a internet veio para mudar essa regra. E, sendo assim, irrompe o seguinte questionamento: com a ascensão dos smartphones, computadores, tablets - e, por conseguinte, seus status de popularidade - , qual a vantagem de ainda se consumir cultura impressa?

[...] já no início deste século, o jornalismo cultural tinha um campo vastíssimo para divulgação e reflexão de arte e entretenimento. Primeiro surgiram os portais de grandes empresas, que dedicam páginas exclusivas à área. Lá se encontram não só textos analíticos como guias de estreias, serviço e - aí está a grande vantagem da internet - a possibilidade de ilustrar o texto com trechos de música, filmes, clipes e imagens em alta resolução, além de entrevistas ouvidas ou assistidas. Com o barateamento da tecnologia, nascem blogues que abordam todas as áreas do jornalismo cultural, seja por leigos, seja por especialistas da área (BALLERINI, 2015, p.177-178).

Inevitavelmente, grande parte do jornalismo cultural se tornou virtual. Atualmente, com o avanço tecnológico, o surgimento da internet, da TV por assinatura e até mesmo dos mais recentes serviços de streaming, como Netflix, Amazon Prime, Now, HBO Max e o Disney Plus, o jornalismo cultural foi se expandindo e adquirindo ramificações. Isso sem mencionar a criação de novos universos para cobertura: “[...] é o caso de resenhas sobre games, programas de computador e aplicativos para celulares e tablets" (BALLERINI, 2015, p.164). Um desses ramais é o jornalismo geek. Medeiros (2016, p.17) explica que o jornalista dessa área atua “como mediador das produções culturais oferecendo perspectivas sobre o assunto”.

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No caso do [...] jornalismo geek, ele se atém a quadrinhos, filmes, séries, games e assuntos próximos a estes. Segundo o jornalista Arthur Dapieve (2008), por se tratar de um nicho jornalístico específico, é preciso um profissional específico. Não basta uma formação acadêmica, mas um envolvimento e interesse profundo pelo que irá escrever. Dapieve afirma que jornalismo cultural é paixão, e talvez essa seja a razão pela qual o jornalismo geek seja tão lucrativo. Como eles são genuinamente fãs dos produtos que escrevem, fazem-no com propriedade e conhecimento de causa. (MEDEIROS, 2016, p.17-18).

Dessa maneira, partindo dessa perspectiva, o jornalista cultural contemporâneo não deve apenas conhecer boas técnicas de escrita que atraiam o leitor; ele deve ser conhecedor do material, deve se especializar no assunto ao ponto de ter alguma intimidade com a obra, e essa paixão deve se traduzir nas palavras. Ou seja, além de um texto com qualidade técnica, também uma escrita com fundamentos históricos e contextuais. Medeiros (2016) ainda examina um pouco mais, ao descrever as consequências da importância que o jornalismo cultural conquistou com o advento da internet:

Empresas cujo mercado é o cultural, como editoras, produtoras etc, passaram a buscar cada vez mais parcerias com blogs e sites dedicados a fazer resenhas e críticas de produtos culturais. Esses blogs se especializaram e se profissionalizaram cada vez mais, até se tornarem referência no mercado. Apesar de já existirem revistas e jornais especializados em cultura, a possibilidade de convergência entre todas as mídias explica o porquê do crescimento e da valorização do jornalismo cultural na internet (MEDEIROS, 2016, p.19).

O leitor passa a dar mais credibilidade a esses sites, ao passo em que o jornalista cultural torna-se uma referência – algo que já ocorria no passado, a diferença é que desta vez há uma proximidade maior. Plataformas como YouTube, por exemplo, permitem que o público possa assistir e se identificar com alguns críticos. Piza (2009) faz uma colocação que entra em convergência com essa realidade, ao dizer que

O leitor, além do próprio artista, quer essa reação. Quer saber o que Carpeaux pensa do novo livro de poesia de Drummond. Quer saber por que vale a pena - ou não - ir ver o mais recente Spielberg. Desse material o jornalismo cultural sempre foi e será feito (PIZA, 2009, p. 79).

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O jornalismo cultural do século 21 não trouxe mudanças apenas no aspecto externo, mas no interno também. No entendimento de Ballerini (2015), o deadline também sofreu influências no que diz respeito à velocidade: “[...] agora não mais se espera a crítica de teatro no caderno de sexta, mas horas após o crítico ver a peça. O mesmo ocorre com cinema, música, literatura etc” (p.182). Ou seja, o “furo” de reportagem recebe uma responsabilidade maior, pois uma vez que o crítico é um jornalista profissional, tem o dever de transmitir a informação com credibilidade ao mesmo tempo em que precisa publicar antes que os concorrentes.

Por mais que a realidade atual seja favorável ao jornalismo cultural, com uma produção de conteúdo massiva, ainda há obstáculos que precisam ser superados. Se pessoas anônimas, sem necessariamente possuir uma formação acadêmica, podem criar um blog ou um canal no YouTube e se tornarem “fazedores de notícias”, como filtrar o conteúdo em termos de confiabilidade e qualidade? Ballerini (2015) oferece sua opinião sobre isso

[...] é preciso a intermediação do jornalista em muitos casos de produção de notícia, sendo a internet a plataforma que permite a alimentação constante e em tempo real da notícia. [...] Com essa nova plataforma, o leitor pode se transformar em testemunha e, assim, colaborador da notícia, enviando por torpedo, WhatsApp ou e-mail detalhes no “campo” do factual. [...] Sem a intermediação do jornalista, como confiar em tudo que se ouve, vê e lê na internet? Se não há um filtro jornalístico, como saber se tal leitor não está inventando algo sob um pseudônimo ou se tais imagens não são montagens? Ou seja, as novas plataformas parecem ter um potencial imenso de alimentação de notícias e textos opinativos, mas por enquanto não dispensam a valiosa intermediação do jornalista (BALLERINI, 2015, p. 181-182).

Agora que vimos de modo parcial como o jornalismo cultural funciona na atualidade, chegou o momento de versar sobre a importância da crítica para o jornalismo cultural e, por fim, o que é a crítica cinematográfica, objeto essencial para esta pesquisa.

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21 Afinal, qual é realmente o papel da crítica no jornalismo cultural? Essa vertente jornalística pode existir sem a crítica? A princípio, iremos determinar qual é a função desse gênero. Melo (1994) afirma que

Seu âmbito de ação contempla os produtos tradicionais, como literatura e o livro, a música e as artes plásticas, o teatro e a dança, mas atribui ênfase aos novos produtos da indústria cultural que constituem fonte segura de receita publicitária: a televisão, o cinema, o disco, e até mesmo o esporte, a gastronomia e a publicidade (MELO, José de Marques de. 1994, p.134).

Seguindo essa compreensão, nos deparamos com o argumento de Piza (2009, p.28), que decreta que a crítica é “a espinha dorsal do jornalismo cultural”. Essa afirmação entra em harmonia com a proposta desta pesquisa, posto que nossa missão é o enfoque na crítica cinematográfica e a intenção de mostrar sua relevância para o meio jornalístico.

Nesse sentido, uma vez que o gênero crítica é tão primordial para o jornalismo cultural, nos resta refletir acerca de um outro detalhe: como o jornalista cultural - entre outras palavras, o crítico - deve se portar no instante da análise. Para Anchieta (2007 apud Ballerini 2015), esse profissional deve ser um “mediador” no sentido de

[...] revelar de forma simples a complexidade de relações a que cada acontecimento está ligado. [...] um bom mediador é aquele que não se sente intimidado ante a complexidade do acontecimento ou a autoridade e celebridade de pessoa em foco. Tal postura se dá pois se sabe que sua posição nessa relação é a de um codificador. Nesse sentido, cabe a ele traduzir uma realidade complexa em formas simbólicas acessíveis, sem que isso empobreça a informação. Ser simples, sem ser simplório (ANCHIETA, 2013, apud BALLERINI, 2015, p. 49).

Os críticos, portanto, “procuram explicar, esclarecer, orientar o público no contato com as produções de um segmento da indústria cultural” (MELO, 1994, p. 133). E é sábio lembrar que o jornalismo cultural também é uma ponte sólida, um fantástico mediador, entre público e indústria cultural, sendo provável que essa mediação “seja a mais significativa no campo da atuação prática do setor” (BALLERINI, 2015, p. 49).

Diante de tudo que foi exposto até aqui, ficam esclarecidas a função e a influência do gênero crítica para o jornalismo cultural. Resta afunilar o conceito para a crítica

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22 cinematográfica, objeto de estudo desta pesquisa. Altmann (2008) aprofunda seu olhar ao relatar que, no geral, o leitor desse tipo de texto é um cinéfilo, isto é, um sujeito que possui um interesse profundo no cinema. Nesse sentido, ao trazer uma definição da crítica cinematográfica, a autora diz que

a crítica cinematográfica pode ser entendida como a instância que participa ativamente da formação e consolidação de interesses, preferências, conhecimentos e emoções do público que se relaciona com a obra. Ela, então, se torna instrumento reflexivo a dialogar com a sensibilidade do espectador “comum”, face aos problemas da arte e do mundo em que vive. Considerando o cinema como uma forma complexa que se vale de uma linguagem própria, possuindo técnicas e leis particulares, a crítica deveria aportar conhecimentos necessários para a compreensão da obra, trazendo informações e esclarecendo possibilidades de recepção do que é representado na tela. No âmbito da política de autor, creio que uma importante questão a ser levantada sobre o papel da crítica é a seguinte: será que ela privilegia um leitor ideal? (ALTMANN, 2008, p. 618).

Em relação ao mérito da crítica e à magnitude nela depositada, o New York Times, durante as décadas de 1970 e 1980, teve críticos de renome que muitas vezes definiam o sucesso ou fracasso de um filme, ou de qualquer outro produto cultural (PIZA, 2009).

Muitos hão de concordar: dentro do jornalismo cultural, o cinema é um dos campos preferíveis de se cobrir. Conforme diz Ballerini (2015)

Considerada por muitos jornalistas, e até mesmo por leitores, uma das áreas mais privilegiadas da cobertura cultural, o cinema foi eleito “a arte do século 20” por ocupar espaços imensos na imprensa, gerar uma quantidade ainda maior de recursos financeiros e levar consigo jornalistas, assessores de comunicação, cineastas, produtores etc. O cinema tornou-se uma área nobre da imprensa (BALLERINI, 2015, p. 133).

No Brasil, graças ao Graças ao Cinema Novo, Ballerini (2015, p. 137) diz que os críticos passaram a ter como função “esclarecer as relações existentes entre o filme e a sociedade”. Ou seja, o cinema como fator de transformação social. O autor vai além ao continuar falando que

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A partir dos anos 1970, o Cinema Novo no jornalismo cultural cinematográfico vai dando espaço, aos poucos, aos “guias de consulta rápida”, com uma pequena resenha e classificações taxativas. Isso não chega a dominar por completo os veículos impressos, mas guias como Veja São Paulo rotulam diferentes filmes (drama, terror, aventura etc.) com apreciações-relâmpago. Nas décadas seguintes, em especial com o advento da internet, nos anos 1990, o jornalismo cultural cinematográfico tornou-se mais diversificado e mais difícil de ser rotulado. (BALLERINI, 2015, p. 138).

Apesar do histórico positivo entre cinema e jornalismo cultural, na era da internet, muitos profissionais ainda precisam se adequar à vasta possibilidade que as mídias digitais podem oferecer. Ballerini (2015) encerra o capítulo de cinema do livro Jornalismo cultural no século 21 de forma otimista ao concluir que

De qualquer forma, ainda há muito a ser desenvolvido em cobertura cinematográfica nas novas mídias. A começar pelo fato de que poucos jornalistas culturais da área usam com eficiência o potencial audiovisual da internet. A experiência de ler uma reportagem ou uma crítica de cinema na web pode ser muito maior do que nas mídias tradicionais, pois on-line é possível não só ilustrar as palavras com imagens, mas também exemplificar pontos do texto que falam de fotografia, direção de arte, atuação ou edição com trechos dos próprios filmes. Quase uma aula de cinema. E, quando o espectador decidir conferir a obra, terá certamente um contato muito mais rico e interativo com o produto, num processo de melhoria qualitativa também de mão dupla: espectadores mais bem formados procurarão obras de maior qualidade e forçarão o mercado a produzi-las, fortalecendo também os jornalistas que são capazes de decifrá-las. Em outras palavras, se o cinema foi a grande invenção artística do século 20, as novas plataformas midiáticas só tendem a transformá-lo numa experiência ainda mais enriquecedora nos próximos anos (BALLERINI, 2015, p.146).

Sendo assim, o jornalismo cultural exige do seu profissional, especialmente no que concerne ao crítico de cinema, não apenas habilidades que versam no eixo da boa escrita; além de ser um jornalista que tenha entusiasmo e vínculo com a sétima arte, verificando todos os aspectos possíveis em sua avaliação, necessita-se que esse mediador entre o público e a obra fílmica também possua habilidades com as mídias digitais. Dessa maneira, o conteúdo torna-se mais atrativo e interativo com o leitor da atualidade, proporcionando uma demanda cada vez mais interessada nesse ramo jornalístico.

Após essas considerações a respeito da história do gênero crítica e sua função no jornalismo cultural, vamos estreitar nossa pesquisa ainda mais, pois no capítulo seguinte

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24 iremos relatar a história da crítica cinematográfica na imprensa potiguar e nos debruçar na origem da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte.

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CAPÍTULO II - A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA NA IMPRENSA POTIGUAR

Uma vez que no capítulo anterior traçamos o panorama do jornalismo cultural no cenário mundial e nacional, ao passo que fundamentamos a importância do gênero crítica - e especificamente a crítica cinematográfica -, neste capítulo iremos nos dedicar ao âmbito local.

Aqui, nosso percurso acontecerá da seguinte maneira: a princípio, iremos explorar o histórico da crítica cinematográfica nos jornais hegemônicos de Natal, por meio de entrevistas realizadas com antigos funcionários do Tribuna do Norte e Diário de Natal, Cinthia Lopes e Sergio Vilar, respectivamente. Meditamos que os depoimentos desses profissionais enriquecem a pesquisa tomando como base a experiência de ambos na área do jornalismo cultural natalense, o que se tornou fonte essencial de informações para este e o terceiro capítulo.

Em seguida explicaremos o que é a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN) e, por fim, descreveremos como se encontra a situação atual da crítica de cinema na capital potiguar.

2.1 A TRAJETÓRIA DA CRÍTICA DE CINEMA NOS JORNAIS HEGEMÔNICOS DE NATAL

Este foi um tópico difícil de elaborar, pelo simples fato de que nossas investigações não encontraram muitas informações concretas em relação ao gênero crítica de cinema nos jornais hegemônicos de Natal, em termos históricos. De acordo com dados adquiridos em nossas entrevistas, o jornal Tribuna do Norte possui um acervo digitalizado com edições que datam desde 1951. Entretanto, o período que abarca 1992 a 2004 - de suma importância para nossa pesquisa, tendo em vista que foi o espaço de tempo em que os cadernos culturais surgem e prosperam - não foi digitalizado.

O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte possui um acervo de jornais desde o século 19, porém, devido à pandemia do Covid-19, mesmo período em que nossa pesquisa foi desenvolvida, o prédio estava fechado temporariamente. Em relação ao Diário de Natal, seu acervo encontra-se no Museu Câmara Cascudo. Entretanto, ainda não foi disponibilizado para acesso. Dessa forma, buscamos edições

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26 digitalizadas do Diário de Natal no portal da Biblioteca Nacional. Nosso infortúnio é que lá há edições publicadas até 1989, uma época na qual o caderno de cultura ainda não existia.

Em nossas averiguações, pudemos constatar a literatura como o objeto pioneiro do jornalismo cultural potiguar, em virtude de que o jornal A República (1889 - 1987), “[...] nasceu com uma intencionalidade política; embora, posteriormente tenha servido bastante à divulgação de nossa literatura” (FERNANDES, 2006 p. 149 apud REGO, 2012, p. 2). Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986) e Eloy de Souza (1873 - 1959) foram nomes que se destacaram no jornal nessa época.

Há uma evidência, porém, de que o caderno cultural de A República, pelo menos por algum tempo, teve um espaço dedicado ao cinema.

Nos anos de 1942 e 1943, além do noticiário sobre a guerra, “A República” apresentava outras colunas, tais como: “Notas do Palácio”, que trazia notícias curtas sobre os acontecimentos da capital e do interior do Estado; “Notas Avulsas”, com acontecimentos nacionais; “Artes e Artistas”, com notícias culturais, que depois passou a se chamar “Artes e Diversão”, dividida em notícias “De Rádio”, “De Cinema” e “Musicaleria” (AVELINO, 2006, p. 65).

Infelizmente, não encontramos nenhum material que pudesse nos confirmar se o caderno cultural Artes e Diversão se limitava somente a escrever notícias ou se também se aprofundava em críticas cinematográficas.

No que concerne ao Diário de Natal (1939 - 2012), encontramos um ensaio publicado no ano de 2004, intitulado de “Cultura potiguar em xeque”, no qual é analisado o Muito, caderno cultural do Diário. O contexto da época era diferente comparado com o atual, ainda assim Queiroz (2004) nos apresenta um cenário interessante para nossa pesquisa

A sensação que o leitor tem ao procurar textos reflexivos/críticas culturais (de suma importância para a circulação da arte) nos jornais potiguares aos domingos sobre as manifestações artísticas no Rio Grande do Norte é de vazio. E não é por falta de opção. A imprensa potiguar é forte quantitativamente comparada aos outros estados nordestinos. Pernambuco tem somente três jornais diários, muito embora apresente o triplo da população e renda per capita bem maior que a do Rio Grande do Norte. Diariamente chegam às bancas potiguares, no mínimo, seis jornais diários, oriundos de Natal (Tribuna do Norte, Diário de Natal e o vespertino Jornal Hoje) e Mossoró (O Mossoroense, Gazeta do Oeste e o Jornal de Fato), segundo município em importância econômica e social (QUEIROZ, 2004, p. 25-26).

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27 Por meio desse depoimento, podemos conjecturar que a ausência da crítica, seja ela de qual gênero for, não é um problema atual do jornalismo cultural potiguar. No início do século 21, vimos que não apenas Natal como todo o Estado possuía uma boa circulação de jornal impresso. No entanto, a demanda do leitor que buscava por críticas não era atendida adequadamente.

Falando de modo mais específico em relação ao caderno Muito, do Diário de Natal, Queiroz (2004), que em sua pesquisa analisou 11 edições, continua com uma verificação ainda mais densa

A sensação ao ler o caderno “Muito” dominical é de superficialidade, sem aprofundamentos nem interpretações. Melhor prova disso encontra-se no espaço e nos jornalistas destinados a escrever críticas. Das edições analisadas, só há um crítico musical, Jorge Galvão, cuja coluna “Acordes” quase sempre apresenta análises. (QUEIROZ, 2004, p. 36).

Mais a frente, Queiroz (2004, p. 37) continua ferrenho ao afirmar que “Críticas sobre programas televisivos, artes plásticas, exposições, literatura, shows (este último em baixa, também no jornalismo nacional), simplesmente não existem”. Na concepção do pesquisador, naquele período existia uma “indiferença apresentada pelo caderno „Muito‟ com o fazer jornalismo crítico cultural, independentemente de ser agendado ou não” (QUEIROZ, 2004, p. 37).

Em contrapartida, entrevistamos o jornalista Sergio Vilar, que trabalhou no Diário de Natal entre os anos de 2004 a 2011. Ele transitou entre os cadernos Cidade e Política, até ir para a seara que mais aprecia: a cultura, conforme o entrevistado 01 (informação verbal)1 expressa a seguir: “Não lembro ao certo qual ano entrei. Acho que 2008. Mas sempre contribuía com textos e matérias extras para o “Muito”, então editado pelo amigo jornalista Moisés de Lima. Infelizmente o velho DN sucumbiria ao “progresso” e fecharia pouco depois, migrando apenas para o formato online. Era o fim do impresso, até falir por completo em 2011. O Muito e o Viver (caderno de cultura da Tribuna do Norte) eram os espaços privilegiados da cultura potiguar. Isso por décadas. Até surgirem alguns blogs, a exemplo do meu Diário do Tempo e do Substantivo Plural, criado por Tácito Costa no mesmo ano, que aos poucos, com a decadência do jornalismo impresso, foi tomando esse espaço”.

1 Entrevista concedida por VILAR, Sergio. Entrevista I. Entrevistador: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha,

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28 Para nossa surpresa, ao ser perguntado a respeito da publicação de críticas cinematográficas no Muito, Sergio Vilar admitiu (informação verbal)2 que houve um tempo, antes de ele ingressar no Diário de Natal, que o gênero era escrito e publicado por jornalistas da casa: “Iniciei no Diário em 2004 e lembro apenas de colunas regulares para críticas de artes visuais, com Vicente Vitoriano, e de artes cênicas, com Sávio de Luna. Mas numa época anterior houve, sim, críticas cinematográficas, assinadas por Roberto Sadowski (hoje colunista do Uol) e por Rodrigo Hammer. O próprio editor do Muito, Moisés de Lima, um cinéfilo amante de filmes clássicos, também escreveu em uma coluna às quintas chamada Vídeo Arte. Já na minha época de repórter do Muito, fui colunista, mas de comentários gerais e Moisés passou a escrever sobre música”.

Isto é, podemos concluir que em um período anterior a 2003, o caderno Muito era um canal por meio do qual os leitores tinham acesso a críticas de cinema. Os motivos que fizeram cessar a produção do gênero, porém, nos é incerto.

No jornal Tribuna do Norte (1950 - ), o caderno de cultura Viver teve início em 1996, anteriormente intitulado de Segundo Jornal. A jornalista Cinthia Lopes iniciou no Viver como repórter, mas em seguida passou a editar o caderno no mesmo ano de sua criação. Assumiu o cargo de editora até o ano de 2020, quando saiu do jornal e criou o seu próprio portal de jornalismo cultural.

Cinthia explicou (informação verbal)3 que o Viver nasceu no ano em que ocorreu uma grande reforma gráfica dentro da Tribuna do Norte: “Foi o primeiro caderno cultural do RN no formato jornalismo de variedades, ao estilo dos cadernos “b”: reportagem grande de capa, seções de livros, discos, resenhas de shows, programação de tv, colunas de variedades, agenda, quadrinhos, coluna de cinema. Na era analógica ou pré-internet, quase tudo o que podia ser experimentado em jornal impresso, nós tentamos fazer no Viver. Tivemos um interessante momento em que a fotografia e a diagramação (o design) eram parte da própria reportagem – uma foto era capaz de pautar a matéria. Até a primeira década de 2000, a equipe era formada por 1 editora, 3 repórteres (sendo um deles nas pautas do Fim de Semana), 1 diagramador e 2 colunistas sociais, 1 crítico de música como colaborador , de literatura (Carlos de Souza, Tácito Costa) e um de cinema

2 Ibidem

3 Entrevista concedida por LOPES, Cinthia. Entrevista II. Entrevistador: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha, 2021.

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29 (Valério Andrade), que era contratado do jornal. Perto dos grandes jornais brasileiros, era pequena, mas pra Natal era uma boa equipe”.

Segundo essa resposta, temos a confirmação de que houve no caderno Viver um profissional exclusivo para escrever crítica de cinema. Todavia, ao falar sobre trabalhar com crítica no jornalismo natalense, Cinthia Lopes deixou sua opinião (informação verbal)4 diante de tanto tempo de experiência: “O Viver deu ao leitor uma abordagem cultural mais ampla e variada, não se fixando em um tipo de conteúdo. Tínhamos reportagens tradicionais, perfis, entrevistas, abordávamos política cultural, fazíamos coberturas, exercitamos a análise dentro da reportagem. Sobre a crítica, o tempo mostrou que não é tão fácil de fazer em Natal (e acho que no Brasil de um modo geral). Tentamos fazer críticas de shows, de discos, mas geralmente não era bem recebida e quase sempre se desqualificava o crítico em questão. Participei de um bate papo onde se falou sobre esse assunto. Ouvi do Lúcio Ribeiro da Folha, criador do site Popload, que a experiência mostrou ser necessário escolher sobre o que vai falar. Em vez de esculachar com um trabalho ruim de algum artista iniciante, melhor não fazer a resenha. Grandes críticos também tiveram suas derrapadas, foram injustos. Por isso concordo que um texto deve trazer mais que a análise de faixa a faixa, cena a cena. Deve-se levar a importância e trajetória da arte daquele artista para a cena”.

Até aqui, considerando todas as limitações que a pesquisa enfrentou, traçamos um breve histórico da crítica cinematográfica nos jornais hegemônicos de Natal. Percebemos que, no passado, a crítica de cinema existiu no cenário jornalístico da capital potiguar. Os motivos que fizeram o gênero desaparecer na grande mídia natalense é assunto para o capítulo seguinte. Neste momento, iremos nos deter na Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte.

2.2 A ASSOCIAÇÃO DE CRÍTICOS DE CINEMA DO RIO GRANDE DO NORTE

Diante do que foi exposto no tópico anterior, é possível concluir que a crítica cinematográfica é um gênero jornalístico que possuía um lugar de fala na mídia

4 Entrevista concedida por LOPES, Cinthia. Entrevista II. Entrevistador: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha, 2021.

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30 hegemônica do Rio Grande do Norte. Contudo, é surpreendente constatar que, a nível nacional, algumas ações ocorreram de forma tardia.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE), por exemplo, só passou a existir em 2011. Todavia, a associação mais antiga do país, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), foi criada em 1982 e oficializada em 1984. De acordo com o site oficial da ACCRJ, ela atualmente é “filiada à Fipresci – Fedération Internationale de la Presse Cinématographique e, como tal, representa a crítica brasileira em festivais e fóruns internacionais”.

No decorrer de nossa pesquisa, consideramos apropriado procurar Sihan Felix, o atual Presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN) e um de seus membros fundadores. Dessa maneira, muitas das informações descritas nesta seção são provenientes de entrevista realizada com ele no dia 05 de março de 2021, a qual foi transcrita na íntegra.

A ACCiRN foi criada no final de 2017 e é constituída por 18 membros atualmente. Destes, cinco possuem formação acadêmica em Jornalismo. Em conformidade com o que é apresentado no site oficial da ACCiRN5, a lista de membros e seus respectivos cargos é a seguinte:

● Sihan Felix - Presidente;

● Nelson Marques - Vice-Presidente; ● Tatiana Lima - Secretária;

● Marcela Freire - Tesouraria;

● Conselho Fiscal: Dan Hetzel, Rômulo Skraff, João Victor Wanderley, Marcos Trindade (Suplente);

● Membros ativos: Arthur Zé, Gianfranco Marchi, Igor Gomes, Laísa Trojaike, Márcia Regina, Nathalie Alves, Newton Ramalho Júnior, Thales Azevedo, Paula Pardillos, Jonathan DeAssis.

Para definir a função de cada membro, a ACCiRN seguiu o modelo do estatuto de outras associações para construir o seu próprio. Por se tratar de um grupo sem fins lucrativos, os membros é que mantêm a ACCiRN ativa. A anuidade equivale a 10% do

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31 salário mínimo vigente. Entretanto, durante o período de pandemia da COVID-19, foi decidido por um abatimento de 20% em cima dos 10%. Alguns festivais, como o Curta Caicó e o Seridó Cine, costumam doar uma quantia para que a ACCiRN continue exercendo suas funções.

As reuniões da ACCiRN, quando para todos os membros, costumam acontecer na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Quando apenas para a Diretoria, as reuniões são em um escritório localizado nas dependências de uma universidade privada de Natal.

Tornar-se membro da ACCiRN não é muito difícil. Quando questionado a respeito desse procedimento, Sihan Felix explicou que a cada seis meses é aberta uma chamada para novas pessoas ingressarem na equipe, e a divulgação ocorre nos grandes blogues do Estado - não há lembrança ou registro de que já tenha sido divulgado em grandes jornais, segundo ele.

Além disso, existe uma regra básica no estatuto da ACCiRN: o membro precisa escrever, em média, 12 críticas por ano, totalizando uma produção por mês. Ainda dentro dessa mesma resposta, Sihan foi mais adiante (informação verbal)6: “O exercício de escrever crítica é fundamental. Esse é um assunto que sempre entra em pauta, principalmente porque não há veículos para publicar. Começamos escrevendo em blog, mas uma hora a gente para. Cansa, não tem retorno. Eu acredito que a maioria para de produzir porque não tem um canal que possa escrever de maneira a atingir mais pessoas, por onde a crítica possa se tornar um trabalho”.

Esse retorno, vindo do Presidente da ACCiRN, é apenas mais uma comprovação de que existe fundamentação para esta pesquisa. Abordaremos isso com detalhes mais adiante.

Ao ser interpelado sobre o objetivo da ACCiRN atualmente e sua relação com festivais de cinema regionais, Sihan mostrou (informação verbal)7 outra perspectiva: “Pensamos muito no cinema local; nosso cinema está em desenvolvimento e acredito que ele irá se desenvolver muito mais quando ele pensar em se aliar à teoria. Quando a prática entrar em diálogo com a teoria, eu acredito que nosso cinema terá muito mais potencial. E nós, que fazemos crítica, temos um conhecimento teórico e técnico. Em 2018

6 Entrevista cedida por FELIX, Sihan. Entrevista III. Entrevistador: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha, 2021.

Arquivo mp4. (40 min).

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32 e 2019 começamos a participar de festivais dentro do estado. Entregamos os prêmios, fazemos essa parceria e eles ajudam a divulgar a ACCiRN. É muito proveitoso, principalmente pro festival que não tem gasto nenhum. E é importante para os festivais verem um realizador receber o prêmio da crítica. A partir da minha gestão, começamos a entrar em contato com festivais de fora. Temos tentado entrar em contato com festivais da Paraíba, Pernambuco, e estamos tendo uma aceitação bem legal. O Curta Taquary, de Pernambuco, provavelmente terá críticas. Vai ser a primeira vez que iremos escrever para um festival. Estamos entrando aos poucos dentro desse circuito”.

Partindo de modo mais específico para os objetivos da nossa pesquisa, pedimos a opinião de Sihan acerca do fato da crítica cinematográfica sofrer ou não algum tipo de preconceito. A resposta (informação verbal)8 foi a seguinte: “Eu não sei se é a questão da cultura, mas a crítica tem um estigma bem chato. Pessoas pensam que todo crítico é chato. Só fala mal dos filmes, não gosta dos filmes que a maioria gosta. Por que eu digo que é uma questão cultural: quando eu cheguei em Natal, há quase 11 anos, chegou uma rede de cinema aqui na cidade que o slogan dela era “nossas salas são tão boas que até críticos de cinema vão gostar”. Isso, dentro de um shopping, só reforça que o crítico é um chato. Essa é uma questão que nós temos que tentar contornar, com os realizadores etc. Eu mesmo sou um cara que, dificilmente, não gosto de um filme. Eu gosto de todo tipo de filme. Claro que tem alguns que eu gosto mais, outros que gosto menos, mas isso é normal e a crítica é subjetiva. Nós não temos a verdade absoluta. Porém, viemos de uma época em que muitos posam na internet com verdades absolutas. “Eu sou o certo, quem está contra mim é errado”. Muitas críticas têm feito isso. É um desserviço. Eu acho que a crítica aqui em Natal ainda está sendo muito vista dessa forma. Isso gera afastamento de realizadores e festivais talvez pelo medo de serem criticados. Porque se um filme cai para uma associação de críticos, e a gente acaba não gostando, não iremos tratar a obra com tapinhas nas costas; iremos falar dos pontos negativos também”.

Por fim, perguntamos por qual motivo ele acha que os grandes jornais de Natal não escrevem e publicam críticas de cinema. Sihan confessa (informação verbal)9 que isso é um mistério para ele até hoje e que inclusive se ofereceu para ser um crítico na Tribuna do Norte: “Eu já enviei e-mail, mais de uma vez. Para Tribuna do Norte, por

8 Entrevista cedida por FELIX, Sihan. Entrevista III. Entrevistador: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha, 2021.

Arquivo mp4. (40 min).

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33 exemplo. E nunca tive resposta. Mas quando precisaram de mim, eles souberam vir atrás. Eu não sei o porquê disso. Eu lembro que no começo eu me ofereci a fazer críticas gratuitamente, mandei e-mail falando que gostaria de publicar. Eu já tentei pensar, mas eu não encontro justificativa, a não ser essa do crítico ser um chato”.

Com essa última fala de Sihan, nossas indagações aumentam, o que nos estimula a aprimorar o que será visto no terceiro capítulo da nossa pesquisa.

Diante do que foi explicado sobre a ACCiRN, iremos nos aprofundar - no tópico a seguir - nos grupos natalenses que na atualidade escrevem crítica de cinema.

2.3 O ESTADO DA ARTE DA CRÍTICA DE CINEMA EM NATAL

Conforme foi visto na seção anterior, o motivo dos membros da ACCiRN não terem espaço nos jornais hegemônicos de Natal é um mistério que sequer o Presidente da associação sabe classificar a razão exata. Sendo assim, os críticos de cinema da capital potiguar se veem em um contexto local onde precisam escrever de forma autônoma, publicando suas análises em portais independentes.

Durante a entrevista com Sihan Felix, fomos guiados a dois sites que trabalham o cinema de maneira bastante específica. Curiosamente, ambos os portais foram idealizados por algumas pessoas que hoje também são membros da ACCiRN.

Decidimos começar pelo Cine Clube Natal. Segundo o que é dito no site oficial10, o Cine Clube Natal “foi a ideia de um grupo de entusiastas que quiseram retomar uma atividade que ganhou grande notoriedade na Natal da década de 1960, quando o Cineclube Tirol lotava as salas dos cinemas Rex e Nordeste, ambos extintos. A iniciativa partiu sobretudo do professor Giovanni Rodrigues, um dos sócios-fundadores do Tirol e o Cineclube Natal teve sua primeira atividade oficial em 20 de maio de 2005 com uma sessão de Terra em Transe, de Glauber Rocha. Dessa data até então, o cineclube continua funcionando sem hiatos com o propósito de promover a ampla discussão da arte cinematográfica por meio de projeções, debates, cursos, conferências, publicações e atuação na política cultural da cidade”.

Averiguando o site com mais atenção, pudemos notar que a página principal encontra-se desatualizada, com a última crítica sendo de um filme de 2019. Entretanto, na

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34 seção “blog”, a crítica mais recente data de 14 de janeiro de 2021. Percebemos que nesse espaço, os últimos textos, entre os anos de 2020 a 2021, foram escritos por Nelson Marques, Presidente do Cine Clube Natal.

Também há o grupo SetCenas11. De acordo com o que é apresentado no site oficial, o SetCenas “é uma empresa inserida no setor da economia criativa que acredita no poder de transformação do ser humano por meio da arte. Transitando pelo vasto cosmos do audiovisual, buscamos proporcionar aos nossos usuários conexões através de ações nos campos do jornalismo, educação, capacitação profissional, produção de conteúdo e incentivo ao desenvolvimento da cena cinematográfica regional e de seus agentes produtores. Tendo em sua gênese o Portal SetCenas, lançado em 28 de fevereiro de 2016, um web-jornal vibrante e contemporâneo voltado para os amantes do Cinema e suas derivações, feito por apaixonados colaboradores especializados, o atual universo em expansão do SetCenas se desdobra em outras frentes de atuação, através de iniciativas próprias e do estabelecimento de grandes parcerias com importantes instituições regionais e nacionais”.

Verificamos uma maior completude no portal do SetCenas. O que vimos lá não se resume apenas a críticas de cinema; existem colunas e uma seção exclusiva para notícias cinematográficas. Além de tudo isso, o grupo também possui um curso de capacitação audiovisual em parceria com o Instituto de Cinema de São Paulo (InC SP). Mas, com o surgimento da pandemia do COVID-19, não sabemos até que ponto o portal e os projetos estão ativos.

O SetCenas ainda tem um projeto para levar escolas ao cinema, intitulado de “Projeto Fé no Cinema”. Outra parceira do SetCenas é a Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas do Rio Grande do Norte (ABDeC/RN).

Além desses já mencionados, em nossas investigações encontramos outros portais, voltados para a cultura em geral, mas que também abraçam a crítica cinematográfica. É o caso, por exemplo, da Revista Pagu. No seu site oficial12, vimos que o nome dado ao projeto é em homenagem à jornalista Patrícia Galvão (1910 - 1962). De acordo com o que é apresentado na aba que corresponde a “Sobre”, ela foi “uma jornalista e artista brasileira, responsável por ser um dos pilares da formação antropológica e cultural do nosso povo. Patrícia era conhecida por sua influência política,

11SetCenas - Viva a magia do Cinema!

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35 por sua força, garra e clara visão sócio-cultural do Brasil da primeira década do século XX. Nos seus escritos, cultura, política, cidadania e sociologia se misturavam. A Revista Pagu é, claramente, uma homenagem a essa importante figura. No entanto, pedimos licença para nos apropriarmos não apenas de seu nome para de sua energia – que lhe permitia escrever enquanto se posicionava. Escrever enquanto lutava”.

No portal da Revista Pagu, há cinco editorias, entre elas Filmes e TV. No momento em que essa pesquisa foi realizada, a última publicação que diz respeito a filmes data de setembro de 2020.

Descobrimos também o portal Apartamento 702. Assim como o antecessor mencionado, aqui o foco é para a cultura em geral. Segundo o que diz no site oficial13, “Que tal descobrir o que Natal tem de melhor? Sabe aquele restaurante que ninguém conhece, ou aquela festa bacana que você não sabia que rolava na cidade ou coisas do gênero? Nós conhecemos e temos o prazer de te falar sobre. A equipe do Apartamento 702 trabalha com amor para te fazer redescobrir Natal e incentivar a discussão de temas importantes sobre a cidade. O Apartamento 702 é cultura e eventos, mas é também criatividade, sustentabilidade, questões de gênero e ética. Afinal, a nossa missão é ajudar a fazer de Natal uma cidade mais sustentável e mais plural. O Apartamento 702 é um trabalho coletivo de jornalistas e publicitários que tem como único objetivo cavar aquela informação importante para quem mora em Natal”.

Apesar de outros gêneros, como artes cênicas, música, dança e literatura terem aparentemente um destaque especial no Apartamento 702, o portal não deixa a crítica cinematográfica de lado. No momento em que observamos o site, a última crítica fílmica publicada data de 08 de março de 2021.

Existem outros portais culturais produzidos em Natal, como é o caso do Substantivo Plural, o Papo Cultura e o Típico Local. Contudo, os três se limitam a notícias, divulgação de festivais, ou listas temáticas de filmes que devem ser assistidos, sem a presença - até onde pudemos observar - do gênero crítica.

Neste capítulo, conseguimos comprovar que há uma historicidade do gênero crítica cinematográfica nos grandes jornais de Natal. Também conhecemos o que é a ACCiRN e como ela funciona, e confirmamos que pessoas com formação acadêmica em Jornalismo escrevem análises fílmicas em portais independentes.

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36 No capítulo seguinte, iremos nos debruçar sobre a parte teórica da pesquisa, na metodologia escolhida e na análise dos dados que foram apurados, aliando a teoria com a prática. Tudo isso a fim de buscar razões que nos façam entender por que atualmente as mídias tradicionais não publicam críticas cinematográficas.

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