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Rev. paul. pediatr. vol.34 número2

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Academic year: 2018

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RevPaulPediatr.2016;34(2):139---140

REVISTA

PAULISTA

DE

PEDIATRIA

www.rpped.com.br

EDITORIAL

Em

tempo:

doenc

¸a

celíaca

---

alguns

aspectos

atuais

de

epidemiologia

e

investigac

¸ão

In

time:

celiac

disease

---

some

current

aspects

of

epidemiology

and

research

Jorge

Amil

Dias

CentroHospitalarSãoJoão,Porto,Portugal

Recebidoem27deagostode2015

Desdeaassociac¸ãoentreingestãodeglútenedoenc¸acelíaca (DC)porDicke1duranteaIIGuerraMundial,onosso

conhe-cimento sobre a fisiopatologia da enteropatia sensível ao glútentemaumentadodeformavertiginosa,especialmente comos recursosdainvestigac¸ão molecular. Contudo,seé claroqueaingestãodeglútencausaenteropatiaedoenc¸a extraintestinal em indivíduos geneticamente suscetíveis, mantemos umaenorme ignorância sobre osfatores adici-onaisnosmecanismosdedesencadeamentoedeprevenc¸ão dadoenc¸a.

Nadécadade1960,haviaenormetendênciadeintroduzir cereaisprecocementenaalimentac¸ãoinfantilparaprevenir adeficiênciadeferroeaanemia.Emconsequência, rapida-mente severificou umaumentoacentuadodenovoscasos doenc¸acelíacaepareciahavertambémrelac¸ãodadoenc¸a comotipodealeitamento,oqueinfluenciariaa idadede apresentac¸ãodessadoenc¸a.2

Nosanos1980-90,ocorreunotávelaumentode incidên-ciadeDCna Suécia,causandoafamosa‘‘epidemia sueca dedoenc¸acelíaca’’,quemotivounumerosaspublicac¸õese análises.Aexplicac¸ãomaisimediatapareciarelacionar-seà idadedaintroduc¸ãodoglútennaalimentac¸ãoeaopadrão dealeitamento.Apósaimplantac¸ãodemedidasderetardo naintroduc¸ãodeglútennaalimentac¸ãoinfantil,verificou-se acentuadareduc¸ãodonúmerodenovoscasos.3---5

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.rppede.2016.03.012

E-mail:[email protected]

A análise dessa evoluc¸ão sugeriu que a introduc¸ão do glúten durante o aleitamento materno pudesse conferir protec¸ão à ocorrência da doenc¸a. Um importante estudo multicêntrico(PreventCD)comparouaintroduc¸ãodeglúten ouplaceboaosquatromesesduranteoaleitamentomaterno em um grupo de cerca de 900 lactentes com risco gené-ticodeDC.Oresultadodoestudocomseguimentodecinco anosrevelouquenãohouveefeitoprotetordoaleitamento maternoduranteaintroduc¸ãodeglúten.6Outroestudoque

envolveu553crianc¸asavaliadasatédoisanosmostrouque aintroduc¸ãoprecoceoutardiadoglútennãoinfluenciouo riscodeocorrênciadaDC,emborainfluenciasseaidadeda suaocorrência.7 Umarevisãosistemáticaobteve amesma

conclusão,sugeriu quea clássicarecomendac¸ão de retar-daraintroduc¸ãodoglúten atéseismesescarece hojede fundamentac¸ãocientífica.8

É precisoconcluir que nãosabemos aindaquais sãoos fatoresque seguramentepodemreduzirorisco deDC em indivíduosgeneticamentepredispostos.Outrashipótesesde estudo,comoaexposic¸ãointrauterina,infecc¸õesououtros fatoresambientais,necessitamdeseravaliadasnabuscada respostaexata.9

OutroaspectomuitoimportantenoconceitoatualdeDC é aautoimunidade. É hojebem reconhecido que aDC se associaa outrasdoenc¸as autoimunes e que a prevalência deDC em doentes comdiabetes tipo 1(DM1) é mais ele-vadadoquenapopulac¸ãogeral.Apesquisademarcadores sorológicosdeDC deveserfeitaemtodososdoentescom DM1.Aquestãotorna-seaindamaisinteressantenaanálise dequaldoenc¸aprecedeaoutraeapossibilidadede influ-enciar a progressão autoimune.10 Um interessante estudo

(2)

140 DiasJA

foi apresentado em 2015 por Korponay-Szabo: um grupo de 2.690 crianc¸as em idade escolar foi submetido a rastreio de DC em 2005. Em 2014, procedeu-se a um rastreio de DM1 na mesma região, envolvendo 21.724 crianc¸as. Verificou-se então que nenhuma das 45 crianc¸as diagnosticadas previamente com DC e tra-tadas tinha desenvolvido DM1, enquanto a prevalência foi de 0,93/1.000 entre as crianc¸as cujos pais haviam declinado o rastreio de DC em 2005. Esse estudo, que requer confirmac¸ão, sugere que será possível modificar a evoluc¸ão da autoimunidade pelo rastreio e identificac¸ão precocede DC. Segundo osautores, a idade deseis anos parece ser eficaz para esse processo. (Resumo PA-0054, disponível em http://journals.lww.com/jpgn/Documents/ ESPGHAN%202015%20-%20Abstracts%20JPGN%20FINAL.pdf)

A divulgac¸ão da potencial relac¸ão entre ingestão de glúten e doenc¸as tem sido profundamente difundida na comunicac¸ãosocial.Paraalémda‘‘sensibilidadenãocelíaca aoglúten’’’,umrazoávelnúmerodepersonalidades famo-sasanunciou adecisão deadotar umaalimentac¸ão isenta de glúten para emagrecer ou para se sentir bem. As redes sociais rapidamente amplificaram essa moda como formadeser eleganteousaudável(http://glutenull.com/ gluten-free-celebrities/).Perante essaimportante influên-ciadeopiniões,muitas pessoas decidem hojeiniciar uma dietasemglúten,mesmonaausênciadediagnósticoseguro deDC.Nadahá acontestarnoque serefereà adoc¸ãode dietasemglútenpor‘‘moda’’,masháorisco realde tra-tarapenasdeformatemporária(atéqueamodapasse)a DC,caso ela esteja presente,e voltara aumentaro risco decomplicac¸õesaoretomaradietasemrestric¸ão.Poresse motivo,edevidoaoriscoinerente,parecefortemente reco-mendávelqueosprofissionaisdesaúdeaconselhemosseus pacientes a iniciar alimentac¸ão isenta de glúten apenas depoisdetestarcomrazoável seguranc¸a(usar,por exem-plo,osanticorposantitransglutaminaseouantiendomísio)e excluirouconfirmarodiagnóstico.

Apesardofantásticoavanc¸odainvestigac¸ãoedo conhe-cimento,aDCcontinuaaserumadoenc¸afascinante,com componentegenéticoindiscutível,mastambémcom fato-res ambientais que não conhecemos completamente. No futuropróximo,perfilam-senovosavanc¸osnodiagnósticoe naterapêuticaquenosensinarãoaajudarmelhorosnossos pacientes.

Financiamento

Oestudonãorecebeufinanciamento.

Conflitos

de

interesse

Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.

Referências

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