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A AMPLIAÇÃO DO CONCEITO DE INTELECTUAL E SUAS

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1 A FORMAÇÃO DOS INTELECTUAIS EM GRAMSCI

1.5 A AMPLIAÇÃO DO CONCEITO DE INTELECTUAL E SUAS

plano de trabalho privilegiando o estudo da história dos intelectuais italianos e posteriormente o vínculo entre estes e o Estado.

Esse estudo leva também a precisar um pouco o conceito de Estado, ordinariamente entendido como a sociedade política (ou ditadura, ou aparelho coercitivo para adaptar as massas populares ao tipo de produção e à economia de uma dada época), e não o equilíbrio entre

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A discussão sobre as dificuldades da ampliação do conceito de intelectual toma como referência o capítulo I, Da questão dos intelectuais à questão do Estado, da obra de: Buci-Glucksman, “Gramsci e o Estado”, de 1980.

a sociedade política e a sociedade civil 22 (ou hegemonia que um grupo social exerce sobre a sociedade nacional inteira, por meio de organizações pretensamente privadas, como a Igreja, os sindicatos, as escolas). (p. 36)

Essas organizações, em suas múltiplas articulações, constituem o que Gramsci denomina de “aparelho de hegemonia de uma classe”. (ibid, p. 36)

Gramsci rompe com a ideia de “grandes intelectuais” e questiona através de Croce a relação de certo tipo de intelectual com a cultura e o Estado, dizendo que [...] “a atividade de Croce aparece como a máquina mais poderosa que o grupo dominante possui hoje para adaptar as forças novas a seus interesses vitais (não somente imediatos, mas futuros), e creio que ele a aprecia dentro de seu justo valor, apesar de algumas divergências superficiais” (BUCI-GLUCKSMANN ,1980, p. 37).

Para a autora “as Cartas do cárcere revelam um progresso contraditório da pesquisa sobre os intelectuais. Como se o estudo predominantemente histórico assumisse pouco a pouco uma importância teórico-política insuspeitada.” (ibid., p. 37)

A construção dos “Cadernos do cárcere” demonstra o salto qualitativo das análises efetuadas por Gramsci. Os Cadernos 4, 6 e 7 mostram “a passagem a um funcionamento multidimensional de uma instância teórico-filosófica.” (ibid., p. 38)

É no movimento de busca e revisão da filosofia do marxismo acompanhado pela reorganização da ciência como política, que Gramsci encontra Maquiavel e o “Príncipe moderno em suas relações com o Estado [...].” (ibid., p. 38). A questão do Estado é analisada à luz da pesquisa política – a relação entre os partidos políticos com as classes e o Estado – em conexão com a pesquisa filosófica “relativa ao lugar e à função da filosofia na superestrutura.” (ibid., p. 39)

A autora aborda a centralidade da dimensão europeia e internacional da questão dos intelectuais em Gramsci mostrando que “[...] ela assume uma conotação falsa, se destacada do seu contexto global: a crise de 1929, a gênese do fascismo e de sua base de massa na pequena e média burguesia, a análise do Estado e dos partidos políticos.” (ibid., p. 40). Ou seja, essa questão só tem sentido se confrontada com o desenvolvimento do capitalismo e a ditadura do proletariado no socialismo. Aponta ainda para a problemática do Estado integral como “[...]

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condição sine qua non para uma reflexão leninista sobre o Estado nos países

capitalistas desenvolvidos.” (ibid., p. 40)

No primeiro Caderno do cárcere, Gramsci destaca a centralidade da questão meridional, “[...] uma pesquisa predominantemente histórica consagrada à questão meridional, ao Renascimento, ao período imediato do pós-guerra”, (GRAMSCI apud BUCI-GLUCKSMANN, p. 41), que apesar de histórica não esconde a profunda motivação política com a retomada constante da questão do fascismo, após o fracasso da revolução e consolidação da ditadura na Itália. Lembra que o lugar e o papel dos intelectuais na constituição de classe se insere na falta de unidade da burguesia italiana e na ausência de uma “verdadeira revolução democrático- burguesa na Itália.” (ibid, p. 42). Gramsci aponta ainda para o fato de haver, na superestrutura, um desenvolvimento desigual onde o Sul desempenha um papel de colônia interna do Norte industrial.

O desenvolvimento cultural desigual reflete “uma estrutura diferente das classes intelectuais, uma dissimetria de sua relação com o Estado” (ibid., p. 42). No sul predominam os intelectuais tradicionais, “que põem as massas camponesas em contato com os proprietários de terra por intermédio do aparelho de Estado” (ibid., p. 42). No norte predomina o intelectual moderno, o técnico industrial que faz a mediação entre operários e classe capitalista.

O bloco agrário do sul baseava-se em uma dupla mediação intelectual: de um lado, os intelectuais como camada social ou intelectuais rurais tradicionais e de outro, os grandes intelectuais, como Croce, detentores de um aparelho de hegemonia cultural. Essa função do aparelho da hegemonia cultural dos grandes intelectuais tem por resultado o “afastamento dos intelectuais radicais do

Mezzogiorno das massas camponesas”, fazendo-os participar da cultura nacional-

internacional. Destruir esse bloco agrário-intelectual significa destruir essa dupla mediação, construir uma dupla hegemonia (face aos intelectuais como massa e aos “grandes intelectuais”)23

No norte o intelectual moderno tem uma situação de classe que é resultante do vínculo com as organizações sindicais e os partidos políticos. Esses intelectuais urbanos, “intelectuais orgânicos” (políticos), longe de se colocarem como

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As considerações sobre o bloco agrário têm como referência a nota de rodapé da p. 43 da obra de Buci-Gluscksmann.

“organizadores ideológicos da classe dominante”, encontram-se sob o efeito político da luta de classe operária, que deve organizá-los e aliá-los ao seu combate. (ibid., p. 44)

É importante salientar que, em sua análise, a autora aponta para o fato de que a predominância de um intelectual sobre o outro depende do grau de desenvolvimento capitalista e não da origem, hoje “Em termos gramscianos, os intelectuais modernos (do tipo técnicos, engenheiros...) dominam em função exatamente do desenvolvimento da indústria e das forças produtivas.” (BUCI- GLUSCKSMANN, 1980, p. 44-45)

Em A Questão Meridional, Gramsci esboça “[...] uma dupla relação entre a

classe operária e os intelectuais.” (ibid., p. 45). “ [...] Para se organizar como classe,

o proletariado necessita de intelectuais, isto é, dirigentes” e que “[...] esse intelectual, ao aderir ao partido, estará se reunindo aos intelectuais do proletariado: seus intelectuais orgânicos”. (ibid., p. 45)

Dessa forma, caberia ao partido de vanguarda soldar esses dois tipos de intelectuais. Buci-Glucksmann (1980) então questiona “[...] supondo-se que o partido forme o máximo de intelectuais orgânicos, seus próprios quadros políticos, a questão global dos intelectuais ficaria desse modo resolvida?” (ibid., p. 45). Sugere ainda que Gramsci propõe que “a aliança entre o proletariado e as massas camponesas exige essa „formação‟ (de massa e de esquerda) dos intelectuais, e coloca essa „exigência‟ nas mãos do proletariado e de seu partido, que deve desagregar o bloco agrário-intelectual.” (ibid., p. 46)24

Que significa isso, senão que na definição das forças motrizes da revolução italiana, ao lado das duas forças sociais fundamentalmente nacionais e portadoras de futuro, o proletariado e os camponeses, é preciso acrescentar uma terceira potência: os intelectuais como massa? (ibid., p. 46)

Para a autora, a Questão Meridional se interrompe aí, sem pensar as bases sócio-históricas dessa fratura à esquerda. É então que no primeiro Caderno, Gramsci apresenta novos elementos ao definir como intelectual “[...] toda a massa social que exerce funções de organização em um sentido amplo: seja no plano da

produção, da cultura ou da administração pública.” (GRAMSCI apud BUCI-

GLUCKSMANN, 1980)

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A despeito desse novo conceito de intelectual, a autora questiona:

A determinação do lugar dos intelectuais não deriva portanto apenas das superestruturas ou da ideologia: ela parte daquilo que é específico ao modo de produção, às forças produtivas modernas: o aparelho de produção. A noção de organização não indica então uma dupla ruptura de Gramsci em relação às perspectivas tradicionais sobre os intelectuais? (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 46)

Uma dessas rupturas é a negação do “grande intelectual”, decorrendo daí que os intelectuais não são definidos por nenhum “critério interno”, mas sim pelo seu lugar nas relações de produção, isto é, eles exercem funções. Nesse sentido, “Todos os homens são intelectuais, mas todos os homens não exercem função de intelectual.” (GRAMSCI, 1978, p. 6)

A outra ruptura está ligada a uma teoria materialista da filosofia e contrária à visão marxista ocidental, que não vê como função do intelectual a criação de um modelo ideológico que dê homogeneidade e unidade à classe operária (consciência de classe), e nem mesmo a garantia da crítica ao modo de produção capitalista. “Desse ponto de vista, o lugar de Gramsci no marxismo ocidental revela-se mais do que conflituoso.” (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 47)

A autora analisa as diferentes correntes filosóficas (Luckás, Marcuse e Sartre) que entendem a relação do intelectual com a classe operária como um “fato

ideológico (um fato de consciência), e não a tomada de consciência de sua própria

situação nas relações sociais” (ibid., p. 50), ou seja, é a visão de que o intelectual é o verdadeiro protagonista da unificação dos processos de desalienação.

Ora, Gramsci rompe com esse modelo: o intelectual orgânico do proletariado não é aquele que se crê tal (primazia do momento ideológico-crítico), mas aquele que se torna o intelectual político do proletariado. Não são os intelectuais enquanto tais que permitem a uma classe subalterna tornar-se dirigente e dominante, hegemônica. E sim o Príncipe moderno, o partido político de vanguarda como lugar a partir do qual convém repensar a função intelectual, as relações entre a pesquisa e a política, sua tensão recíproca. Em outras palavras, a relação intelectual/classe revela-se diferente quando se trata da burguesia e do proletariado. No primeiro caso, os intelectuais desempenham um papel direto na constituição de classe. No segundo, eles desempenham um papel essencial, mas em um processo político mais amplo: o da organização política de classe, da dialética que une direção consciente e espontaneidade, própria ao partido como “intelectual coletivo”. (ibid., p. 50)

Esta visão gramsciana pode ser apreendida em duas situações muito comuns, críticas recorrentes contra o intelectual “filósofo esclarecido”: “Um erro

bastante difundido é o de crer que qualquer camada social elabora sua própria consciência, sua própria cultura da mesma maneira, com os mesmos métodos, isto é, com os métodos dos intelectuais profissionais.” (GRAMSCI apud BUCI- GLUCKSMANN, 1980, p. 50)25, e também a afirmação corrente de que todos os membros de um partido de vanguarda são intelectuais porque desempenham funções de organização.

Gramsci, portanto, trata a questão do intelectual partindo de sua função

social, ou seja, “dos diferentes tipos de aparelhos onde eles se situam (aparelhos

econômicos, cultural, estatal)” (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 51), e também, da qualificação intelectual diferenciada pelo tipo de atividades desenvolvidas e do lugar na hierarquia social, numa clara abordagem sociológica.

Isso porque a ampliação do conceito de intelectual é tão grande que Gramsci não somente engloba em um mesmo conceito os agentes produtores de ideologias ou de conhecimentos e os “novos intelectuais” modernos: empregados, técnicos, engenheiros, mas também os funcionários do Estado, da administração, os empregados, os organizadores da cultura, os dirigentes de um partido [...]. Em suma, um grande número daqueles que se poderia agrupar nas “classes médias” (excluindo-se a pequena-burguesia no sentido estrito: pequeno comerciante, pequeno agricultor...).” (ibid., p. 52)

Para Gramsci a noção de classe média na Inglaterra está ligada a “[...] um tipo de desenvolvimento capitalista onde a “burguesia não guia o povo””. E na Itália, “ela é sinônimo de pequena e média-burguesia: isto é, dessas camadas que não pertencem ao povo (não operário, não camponês): as camadas intelectuais, as

profissões liberais, os funcionários”. (PIOTTE apud BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p.

52)26

Vemos englobar no conceito de intelectual “organizador” tanto os funcionários do Estado como aqueles que exercem funções subalternas, os “semi-intelectuais”.

Segundo a autora, existem tensões internas não superadas no grande texto metodológico sobre intelectuais no Caderno 4. Se por um lado, Gramsci exclui qualquer critério interno às atividades intelectuais, para apreender os intelectuais e privilegia sua função social de organizar a hegemonia social de um grupo, de outro,

25 Citação da autora da obra de Gramsci “Caderno I”. 26

a atividade intelectual comporta graus: “Ela não é idêntica quando se trata de criadores ou de administradores [...]” (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 54)

Sendo assim, não somos levados a admitir que a “função de organização da hegemonia social e da dominação estatal comporta graus diversos”? Onde se reintroduz, portanto, um critério interno para especificar os critérios externos (função social). (ibid., p. 54,)

Buci-Glucksmann (1980) questiona também se a definição dos intelectuais como “organizadores e mediadores” do consenso não os transforma em ideólogos, porta-vozes da classe no poder.

Como última dificuldade, aponta o fato de que a relação dos intelectuais com a política depende de sua posição nas relações sociais, além do que, não formam uma classe e sim, uma massa resultante do sistema burocrático-democrático da sociedade moderna. Sistema esse que acarretou na padronização dos indivíduos, concorrência entre profissões, superprodução escolar, emigração, desemprego, constituição de sindicatos, e que tornaram os intelectuais modernos cada vez mais em “um verdadeiro estado-maior industrial” (ibid., p. 55). Não seriam essas condições objetivas muito diferentes dos intelectuais porta-vozes das classes dirigentes, cabendo, na verdade, abordar questões das relações entre Estado e sociedade?

Para a autora, a análise gramsciana dos intelectuais está estruturada numa

bipolaridade metodológica e política, a oposição entre os intelectuais tradicionais e a

criação do intelectual orgânico do proletariado.

Os intelectuais tradicionais são verdadeiros funcionários das superestruturas,

“porta-vozes do grupo dominante para o exercício das funções subalternas de

hegemonia social e do governo político” (ibid., p. 55), que asseguram a expansão dos seus aparelhos de hegemonia, portanto, excluídos da contradição antagônica do modo de produção capitalista (forças produtivas/relações de produção).

Já os intelectuais assalariados vivem uma contradição decorrente da sua posição nos aparelhos hegemônicos e seu ser social, pois ocupam um lugar de reprodução do sistema de dominação ao mesmo tempo em que vivem experiências da desqualificação, do desemprego etc.

Apesar de os jornalistas, literatos e filósofos pensarem que são os verdadeiros intelectuais, Gramsci identifica a educação técnica associada à indústria

como a base para a formação do novo tipo de intelectual. Isso não seria “senão que o intelectual ideólogo se desdobra em um intelectual produtor?” (ibid., p. 56)

A maneira de ser desse novo intelectual não pode mais consistir na eloquência, agente motor externo e momentâneo dos sentimentos e das paixões, e sim no fato de imiscuir-se ativamente na vida prática como organizador, persuasor permanente. (GRAMSCI apud BUCI- GLUCKSMANN, 1980, p. 56)

Ora, seria então esse novo intelectual, um intelectual orgânico do proletariado, que segundo Gramsci, passa da técnica- trabalho à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, ou seja, um ideólogo-político organizador e persuasor permanente da vida prática? Segundo a autora, essa é mais uma prova de que “a reflexão sobre os intelectuais deve ser vinculada à reflexão sobre o partido em suas relações com a classe operária e com os intelectuais enquanto massa.” (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 56). Esse partido deve realizar a “soldadura entre os intelectuais orgânicos de um grupo determinado, o grupo dominante e os intelectuais tradicionais” (ibid., p. 57), além de elaborar seus “Intelectuais políticos, qualificados, dirigentes, organizadores de todas as atividades e todas as funções

inerentes ao desenvolvimento orgânico de uma sociedade integral” (ibid., p. 57),

projeto só realizável a partir de uma análise profunda da sociedade e do Estado. Seria essa a verdadeira questão de Gramsci?

Desde a época do Ordine Nuovo27, Gramsci busca uma nova relação entre a

cultura e a política. Toma a França como modelo exemplar de cultura nacional baseada no intercâmbio orgânico entre o povo e os intelectuais, o que só é possível a partir da formação de uma consciência unitária do proletariado através da crítica ao capitalismo que origina a “crise dos intelectuais”.

“Gramsci jamais cessou de se apaixonar pela cultura francesa” (ibid., p. 57) e através do grupo Clarté buscou uma nova relação entre a cultura e a política usando, para tanto, a literatura como uma questão de transformação cultural de massa.

“Face à tradição cosmopolita dos intelectuais italianos, face ao fosso que separa os intelectuais do povo, a França não representa um „modelo‟ de cultura

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Periódico semanal, fundado por Gramsci, em primeiro de maio de 1919, junto com alguns jovens socialistas como Palmiro Togliatti.

nacional baseado em intercâmbios orgânicos entre o povo e os intelectuais?” (ibid., p. 58)

Para Gramsci, o caráter revolucionário da filosofia das Luzes “Não foi simplesmente um fenômeno de intelectualismo pedante e árido...” (ibid., p. 58), mas vai além porque a cultura tem uma tarefa crítica, no sentido de realizar uma crítica à civilização capitalista e promover a consciência unitária do proletariado.

“[...] Gramsci observa que a concentração industrial e bancária provoca na França „uma crise da pequena e média-burguesia, que antes parecia dominar‟. Crise dos intelectuais e crise dos modelos de direção política e da classe dirigente.” (ibid., p. 59)

Para repensar a função dos intelectuais e suas relações com a política, Gramsci fundamenta sua análise em Julien Brenda e Emmanuel Berl28. O autor critica Brenda por afirmar que os intelectuais “letrados” assumiram uma posição nacionalista, desertando, assim do seu verdadeiro posto, o de retomar à função clássica do intelectual, que “faz política defendendo o universal, a justiça, a razão”. (BRENDA apud BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 60). Para Gramsci, a adesão dos intelectuais ao nacionalismo se deu, de fato, pela crise da classe média que questionava sua posição ideológica e cultural anterior.

Já para Berl, a verdadeira traição dos intelectuais seria a produção de uma literatura submissa, distante do povo, uma literatura, na qual a vida real dos operários está ausente, para finalmente confessar que “o drama do intelectual contemporâneo consiste em que ele gostaria de ser revolucionário e não consegue”. (BERL apud BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 62). Para Gramsci, entretanto, o mundo mudou e o operário taylorizado substituiu o antigo povo, portanto [...] “se a tarefa do escritor é mais difícil, nem por isso ela deve ser negligenciada. [...] Em suma, nem Brenda nem Berl suscitam a adesão de Gramsci.” (BUCI-GLUCKSMANN, 1980, p. 62)

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Obras citadas pela autora à página 59. Nesse contexto, os dois livros de Julien Brenda e de Emmanuel Berl traziam uma preocupação comum: perante essa crise, repensar a função dos intelectuais, suas relações com a política.

Gramsci entra em acordo com Paul Nizan29, no sentido de que uma nova literatura só pode surgir a partir de uma base cultural nova.

Desse ponto de vista, “a crise dos intelectuais”, o questionamento de sua própria função tradicional, de seu lugar nos aparelhos de hegemonia, impõe uma nova frente de luta: a “luta por uma nova cultura como luta por um novo modo de vida”. (BUCI- GLUCKSMANN, 1980, p. 63)

A luta pela transformação cultural “está ligada a uma abordagem do fato cultural como fato global (visão do mundo) e estratificado (em função das classes e camadas sociais), uma vez que é “impossível uma verdadeira transformação cultural sem a superação do divórcio entre uma literatura dita artística para as elites e uma literatura dita popular, ainda majoritária na massa.” (ibid., p. 64)

Nesse sentido,

Para superar o fosso existente entre uma “cultura culta” e “uma cultura popular”, entre os intelectuais e o povo, é importante dirigir o estudo no sentido das diferentes organizações da cultura (“aparelho de hegemonia cultural”: edição, imprensa, audio-visual...), a fim de desenvolver aí uma luta específica e desse modo desagregar todas as “reservas organizativas” que eventualmente possua a classe dominante. (ibid., p. 64)

Buci-Glucksmann (1980) conclui, desta forma, que a crise dos intelectuais, a das classes médias, pode se tornar uma dimensão própria da luta de classes e do partido político de vanguarda, pois “Não cabe a este último promover „uma reforma intelectual e moral de massa‟? Dimensão que precisamente esteve ausente na Itália dos anos 1920” (ibid., p. 64)

Para a autora, “Gramsci retoma o problema das dificuldades encontradas pelo movimento operário italiano dos anos 1920” (ibid., p. 65) e que nos anos 1919-1922, não conseguiu opor nenhuma resistência à vitória do nacionalismo e do fascismo, com exceção de Gramsci e Ordine Nuovo.

Gramsci se preocupava com o fato de, em 1922, a maioria dos intelectuais italianos aderirem ao fascismo e não protestarem diante das violências praticadas.

Em 1926, após as leis de exceção, enquanto centenas de comunistas são presos, “a maioria aceitou o fato consumado”. Nacionalismo, culto da ordem, da autoridade, do Estado forte,

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Paul Nizan (1905-1940). Professor de filosofia, escritor, membro do partido comunista até 1939, quando se desligou em protesto contra a assinatura do Pacto Germano-Soviético. Morto em combate a 23 de maio de 1940, em Dunquarque. (BUCI-GLUCKSMAN, 1980, p. 58, nota de rodapé da autora).

antiparlamentarismo, desprezo, ou até ódio do proletariado, apoliticismo ou romantismo rasteiro contribuíram para alimentar essa “ideologia camaleão” e eclética que será a ideologia fascista. (ibid., p. 65)

É oportuno lembrar esses fatos porque estão implicados na reflexão de Gramsci sobre os intelectuais.

Desde 1920, Gramsci vincula a questão dos intelectuais à do Estado. Na Itália o capital industrial promoveu a “[...] unificação de classe no e pelo Estado: uma ditadura feroz que conquistou a ferro e fogo a Itália meridional, submetendo o Sul aos interesses capitalistas do Norte” (ibid, p. 66). Incorpora e absorve a pequena-

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