1 A FORMAÇÃO DOS INTELECTUAIS EM GRAMSCI
4.4 O PAPEL DE VANGUARDA DO SINDICALISMO DOCENTE
A questão norteadora deste subitem é: “você acha que o movimento dos professores pelo alto nível intelectual da categoria tem condições de exercer uma influência político-ideológica sobre os demais movimentos reivindicatórios, seja de classe média, seja os das classes populares?”
Na verdade, nota-se um enorme conflito entre o que as lideranças sindicais idealizam como luta política ideológica e as bandeiras de lutas dos movimentos reivindicatórios.
Na visão dos sindicalistas os movimentos reivindicatórios dos professores se alinham política e ideologicamente com os movimentos dos operários.
Há, entretanto, uma questão instigante a considerar. Mesmo que a classe trabalhadora lute contra a reforma da previdência que amplia a idade mínima da aposentadoria, dentre outras mudanças, a luta dos professores segue uma direção oposta a essa visto que os professores possuem privilégios que não são encontrados nas classes trabalhadoras. Trata-se, portanto, de uma questão afeta à ideologia meritocrática, no sentido de defender a posição relativa dos salários da profissão na hierarquia salarial.
O professor NB acredita que estarmos vivendo uma conjuntura de muita polarização na sociedade e que o país sofreu um golpe que colocou no poder pessoas que querem desenvolver a luta de classe mesmo, dizendo: “Olha, isso aqui é meu e não é seu. Você vai se aposentar aos sessenta e cinco anos e ainda terá que trabalhar quarenta e nove anos”. Explica que o sindicato até pensou em fazer um debate, mas questiona:
Com o quem vamos debater? Quem vai dizer que é a favor da reforma da previdência? Da terceirização? O sujeito tem que ser dono de uma empresa que presta serviço terceirizado. O professor vai dizer que ele é a favor da terceirização? Nós temos que avançar, no entanto temos que buscar fazer outro discurso, um pouco mais progressista, acredito que este é o papel do sindicato. Tenho colegas que discordam “Tenho que andar com o pessoal...”, mas se você andar com as pessoas o sindicato só vai correr atrás de prejuízos, porque ele já tem essa característica.
O professor tem dificuldade em compreender mesmo quando mexe com o bolso dele. O que está acontecendo agora? A polarização diminuiu agora, Dilma, PT, Lula. Acredito que os professores serão um pouco mais abertos para isso, e estamos otimistas em relação ao dia 28, pois não é possível o sujeito por a mão no seu bolso e não ter nenhuma reação, ou seja, tirando seus direitos, acabando com a previdência, terceirizando seu trabalho, a perspectiva é essa, que sejamos funcionários de empresas terceirizadas, reforma trabalhista, você não poderá mais fazer acordo coletivo. Como é que será negociado com o poder econômico se é apenas uma pessoa? Temos outro momento agora, por isso estou dizendo que depende muito da conjuntura. Estamos enfrentando uma conjuntura, onde os atores não se revelam e ficam no jogo de intrigas e mentiras em meio a um tiroteio verbal, sem provas, sem ação efetiva. A mídia faz o papel dela de mostrar um determinado “lado”, você tem que pensar como as pessoas bem-sucedidas pensam e a mídia faz um pouco disto, não temos um grande canal de televisão que faça debates. No período de eleições temos, mas acredito que é tudo carta marcada. O sindicato tem esse papel de comunicação ser diferente da comunicação oficialista, de vanguarda, de pensar na frente, traçar cenários e ter discursos de que isso vai acabar com o nosso emprego, a terceirização vai destruir com o nossos postos trabalho, iremos ganhar menos. Acredito que esse papel é nosso, é do sindicato, porque a mídia não vai fazer isso. Dependendo da conjuntura pode ser que esse discurso possa ter uma boa penetração. Em uma conjuntura que os atores não se revelam... Como o Temer, ele está se revelando agora. O que ele quer? Defender direitos dos banqueiros, de ricos. Se não, as pessoas da classe média que possuem dois automóveis vão acreditar que são ricos, mas não são. Compreendo aquele sentido cristão que eu sou rico de saúde, mas o rico é no sentido da luta de classe. (NB)
Quando questionado sobre a expressão “Caminhar junto com os professores e ir um pouco mais devagar”, atribuída a alguns colegas sindicalistas, o professor respondeu que:
Existe uma corrente sindical que é uma corrente de resultados, questionando da seguinte forma: O que o professor está querendo? Ele não quer ficar desempregado. Tudo bem, fazemos um acordo ao invés de pedir inflação e mais um ou dois por cento de aumento real, nós pedimos meia inflação e fechamos um acordo com meia inflação e o professor mantém o emprego. Vou falar em meu nome, não posso falar em nome da diretoria, é importante fazer uma
manutenção do emprego, tem que negociar e também é importante que a categoria entenda que ela precisa ser valorizada. [...]. Nós precisamos avançar, precisamos ter salários dignos, porque se você pensa em preservar o emprego, que é importante, mas se você pensar apenas nisso, é como comer somente cenoura, você morre ou vai adoecer, não pode, é necessário trabalhar outros elementos. [...] Quando se refere a outros elementos diz que é necessária uma emancipação em nível da perspectiva política, isso é importante ser trabalhado pelo sindicato porque aqui é o local onde se deve trabalhar a política, não aquela dos senadores que são eleitos com dinheiros empresariais e na eleição por votos do povo e chegando lá, fazem o que querem com os empresários, isso é politica? Isso não é política. O debate é política, o aprofundamento, a discussão, o conhecimento das coisas. É necessário trabalhar nisso, é uma visão minha, deixo claro que não é do sindicato. (NB)
É interessante assinalar que esta é a segunda resposta de entrevistados que faz referência à necessidade de aprofundamento de estudo, de debates, de ideias, de políticas etc. Isso nos leva a pensar no papel do intelectual orgânico em Gramsci, ou melhor, o quanto estamos distantes efetivamente de constituirmos lideranças que sejam construtoras da consciência unitária e da hegemonia da classe à qual estão vinculados.
Quando perguntamos ao entrevistado RG se ele acha que o movimento dos professores pelo alto nível intelectual da categoria, tem condições de exercer uma influência política e ideológica sobre os demais movimentos reivindicatórios, seja da classe média ou das casses populares, ele respondeu que sim, o movimento dos professores tem condições de exercer uma influência sobre os demais.
Eu acho que pode, deve e tem que ir. Porém, isso não garante que estará. Por quê? Exatamente por isso, são as condições concretas reais de existência das pessoas que fazem com que elas pensem de um jeito e de outro, não alguém falando para as pessoas como elas devem ir e pensar. Esse sempre foi um erro da esquerda, isso de vanguarda: “olha a revolução, vamos todos juntos!” não é bem assim que funciona, inclusive, eu vejo muitos professores às vezes se frustrarem. Há aquele professor que tem engajamento e não consegue fazer um diálogo com a comunidade, por conta dessa pretensa ideia de ser o farol do socialismo. Acho que uma coisa é você ter o papel de autoridade moral, intelectual que permita, inclusive, opinar e ser ouvido com respeito; outra coisa é você querer orientar politicamente a organização do povo. Acho muito emaranhado nessa história e acaba indo para lugar algum. Neste ponto de vista, eu acho, que durante a década de setenta, oitenta e noventa, a Igreja, a „teologia da libertação‟ foi mais eficaz nisso. [...]. Mas o professor não tem essa pegada, porque primeiro também não tem uma organização verticalizada como é o caso da igreja, onde se é fechada uma orientação para todo mundo seguir, a parte dos
progressistas, por exemplo, Dom Paulo Evaristo. [...] Não é o caso dos professores, mas eu acho que ele tem condições e tem influência política ideológica, mas ela é muito mais fluída, muito mais dispersa do que era, por exemplo, se comparado com que os movimentos eclesiásticos de base faziam. (RG)
Como seria possível, no quadro descrito por esse entrevistado, o movimento dos professores, pela alta intelectualidade, exercer influência sobre os demais movimentos? Entendemos oportuno retomar a ideia de intelectual orgânico em Gramsci para, a partir daí analisarmos a resposta de RG. Consideremos alguns elementos constitutivos da ideia de intelectual orgânico, cotejados às respostas do entrevistado.
Gramsci define intelectual pela função que este desempenha em um sistema de relações sociais e não pelo que é intrínseco à atividade intelectual.
Entendemos que a ideia de intelectual formulada por Gramsci difere da ideia formulada pelo entrevistado ao afirmar que o papel de “autoridade intelectual que
possa opinar e ser ouvido com respeito” pode ser entendido como algo intrínseco à
atividade intelectual, no sentido de alguém que se diferencia pela atividade de reflexão e produção de ideias, próprias do intelectual, e não pela função que exerce no sistema de relações sociais.
Buci-Glucksmann (1980) esclarece que a ideia de intelectual em Gramsci “[...] só tem sentido se confrontada em todos os seus aspectos à problemática do
desenvolvimento capitalista e ao funcionamento da ditadura do proletariado na
construção do socialismo”. (p. 40). Portanto, a função do intelectual seria exatamente a de construir uma sociedade socialista.
Porém, ao criticar seus colegas sindicalistas que possuem uma “pretensa
ideia de ser o farol do socialismo”, o entrevistado deixa de reconhecer que a tarefa
dos “[...] intelectuais orgânicos às classes subalternas têm outra função, a revolucionária: formular, disseminar e consolidar na dinâmica da vida social uma visão de mundo que seja capaz de se tornar força social com potencial suficiente para promover concretamente a transformação radical do modo de vida.” (MARTINS, 2011, p. 145)
Questionamos em seguida se o entrevistado acha que o professor consegue efetivamente atingir a população mais humilde influenciando-os politicamente, já que
anteriormente ele dizia da dificuldade em se estabelecer um diálogo com este segmento social. O entrevistado aponta para a forma de organização dos movimentos religiosos como modelo para vencer a dificuldade de diálogo com a população humilde, isso porque:
A Igreja quando atuava na organização com base nas demandas reais e imediatas da população, mesmo seguindo o ponto de vista educativo de Paulo Freire e a partir da realidade do autor, ou seja, uma concepção bem marxista, gera uma realidade, gera uma reflexão que aí volta para a realidade. Então, vou organizar um movimento em função não do que eu quero, mas em função do que a comunidade quer como, por exemplo, o nosso problema é o esgoto, nosso problema é habitação, saúde. Os movimentos se organizam em função das demandas, você cria o “caldo” dos chamados movimentos populares que saem, brotam de baixo pra cima. É diferente de alguns grupos que chamo de vanguardista, mas não é minha concepção, faço parte da articulação sindical que é um grupo majoritário do sindicato. O mesmo grupo que fundou a CUT do PT, do Lula, tem outra concepção, que é essa ideia de vanguarda de buscar mesmo consolidar a parte da base. Há grupos políticos que atuam aqui que são socialistas, mas a ideia deles é vender uma pauta, fica difícil, não tem nada revolucionário, de marxista nisso. E no caso da relação de professores com a sociedade, tem umas questões que dão liga. Por exemplo, fazer um debate sobre a reforma da previdência que atinge todos os trabalhadores é um elemento fundamental de unificação e conscientização. É real, “você topa se aposentar com 65 anos?”, é isso. Então acho que existem várias coisas, exercer uma influência política, pode e deve procurar fazer. (RG)
Questionamos, neste ponto, a quem ele se referia quando disse da necessidade de se exercer uma influência política, se ele achava que essa era uma tarefa do sindicato.
Não, dos professores. Sindicato, inclusive, é uma visão equivocada de alguns colegas que pegaram os textos clássicos de Lênin, Gramsci etc., porque sindicato não tem nada de revolucionário, pelo contrário, tem de cuidar das lutas mais corporativas. Claro, temos esse acúmulo de leituras, essas correntes que surgiram no novo sindicalismo que questionam isso.
Porém, para Gramsci a forma mais completa de intelectual orgânico é o partido político, o moderno príncipe organizador, educador e dirigente político a quem cumpre o papel de guia cultural e político.