1. A Evolução dos Direitos do Homem.
1.7. A Cidadania Liberal e a Universalidade dos Direitos Humanos.
O termo “Direitos Humanos” nos dá a entender, essencialmente, a noção de que todos os possuem. Deste modo, são considerados universais porque envolvem todos os indivíduos, em todos os lugares do mundo; além de serem iguais para todos, uma vez que ninguém é mais ou menos humano do que o outro; e, por isso, todos necessitam ter os mesmos direitos. Além disso, são considerados inalienáveis, pois como nenhuma pessoa pode deixar de ser humana ou tornar-se mais ou menos humana, também não pode perder estes direitos.
A universalidade dos direitos do homem não expressa uma destruição das culturas para a criação de uma cultura única. Os instrumentos institucionais a serem criados requerem adaptações e diferentes interpretações por espaço territorial e soberania nacional. A justificativa do rápido crescimento econômico a ser alcançado por países mediante a exploração da classe trabalhadora e a opressão de direitos da população em geral, deve ser analisada, ainda, com um olhar crítico; substancialmente, o crescimento econômico trouxe alguma melhoria na qualidade de vida da classe trabalhadora, mas também aumentou o desemprego, a desigualdade social e a concentração da riqueza.
No processo de universalização dos direitos do homem37, a igualdade e a diferença são princípios relevantes para o reconhecimento de novos sujeitos - antes da Declaração eram indivíduos incógnitos - que passam a ser reconhecidos como cidadãos38, conceito importante no momento da expansão dos direitos sociais. Esse processo decorre da mobilização e organização de sujeitos políticos, no mundo ocidental, por melhores condições de trabalho, ao se considerarem explorados pelo capital e acabando por estabelecer novas formas de sociabilidade na luta por direitos.
Portanto, entendemos por cidadania liberal um conjunto de direitos resultante da ação coletiva dos sujeitos políticos, não se caracterizando apenas como um conjunto de direitos formais, mas, como resultante da luta das classes subalternizadas pelo reconhecimento enquanto classe - detentora da força de trabalho – no contexto das contradições sociais e econômicas próprias das sociedades burguesas.
A cidadania, presente desde a polis grega até o Estado contemporâneo, seja através de suas normas de condutas com direitos e deveres até as Constituições e leis complementares, pode ser considerada um avanço em termos históricos, na evolução dos Direitos do Homem. Porém, entendemos que esse conceito, desde a sua origem39, escamoteia a desigualdade econômica entre os cidadãos e, conseqüentemente, as desigualdades sociais existentes entre as classes.
Compreendemos que a busca pela cidadania surge do egotismo do homem enquanto membro da sociedade burguesa. A origem da cidadania liberal tem suas bases na defesa do direito à vida, à liberdade individual, à segurança, cujo objetivo
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O maior argumento contra o universalismo dos direitos humanos é a tentativa do imperialismo do ocidente contra o resto mundo. Aqui, vale lembrar as culturas islâmica e asiática, por exemplo, com relação às mulheres e à religião. O relativismo cultural desenvolve várias discussões sobre o tema.
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As Declarações de Direitos que ocorreram no âmbito internacional, nas últimas décadas do século XX, avançaram em relação à universalidade dos direitos sociais. Em 1952, foi criada a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher; em 1959, a Declaração da Criança; em 1971, a Declaração dos Direitos dos Deficientes Mentais e em 1975 temos a Declaração dos Deficientes Físicos. É importante ressalta que no dia 03 de dezembro de 1982 foi realizada em Viena a primeira Assembléia Mundial, organizada pela Organização das Nações Unidas – ONU, em defesa dos direitos da terceira idade (SINGER, 2003).
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Para Aristóteles, cidadania era status e estava limitado aos autênticos participantes nas deliberações e no exercício do poder, privilegiava-se o grupo dirigente da cidade-estado.
era a preservação da propriedade privada. Dentre a evolução de suas funções nas sociedades burguesas podemos destacar a garantia da reprodução da força de trabalho e das relações de produção.
Ao analisar, na Declaração dos Direitos do Homem de 1795, o direito à segurança, Marx (1991:44/45) afirma que este é a preservação do egoísmo do homem burguês. Ou seja, para o autor, o direito à segurança está baseado no conceito da sociedade burguesa, o conceito de polícia, segundo o qual toda sociedade somente existe para garantir a cada um dos seus membros a conservação da pessoa. Sociedade em que o homem torna-se cada vez mais individualista, usando da força e da coerção para se proteger, para manter sua integridade, seus direitos e sua propriedade privada.
Para Marx (1991:45), este fato torna-se ainda mais estranho, quando
“Verificamos que os emancipadores políticos rebaixam até mesmo a cidadania, a comunidade política ao papel de simples meio para a conservação dos chamados direitos humanos; que, por conseguinte, o citoyen [cidadão] é declarado servo do homme [homem] egoísta; degrada-se a esfera comunitária em que atua o homem em detrimento da esfera em que o homem atua como ser parcial; que, finalmente, não se considera como homem verdadeiro e autêntico o homem enquanto cidadão, senão enquanto burguês”.
A cidadania liberal, a nosso ver, consiste em direitos e deveres formais dos indivíduos em relação ao Estado. Na atualidade, nas sociedades capitalistas, alguns direitos de cidadania estão assentados apenas na esfera da legalidade, por vezes, não são efetivados de fato. Entendemos que o distanciamento entre a formalidade jurídica e a efetivação dos direitos demonstra a contradição existente nas relações sociais dessas sociedades.
É importante lembrar o valor da cidadania liberal como estratégia das classes subalternizadas, que, na organização e mobilização na luta pela expansão e incorporação de direitos, tendem a criar uma consciência crítica e de luta pela hegemonia de classe.
Barbalet (1989:14), ao analisar a cidadania no pensamento de Marx40, afirma que, para este autor, os “limites à cidadania surgida por transformação política podem ser
ultrapassados apenas através de uma revolução social em que a base de classe das desigualdades de condições sociais e de poder seja destruída”.
Assim, ao desvendarmos a cidadania no capitalismo atual, iremos compreendê-la não apenas como um instrumento de dominação ideológica, mas também como mecanismo que traz em si a luta pela hegemonia nas classes sociais distintas, portanto, um mecanismo repleto de contradição. Entendemos que a contradição surge como elemento central para compreender os direitos sociais de cidadania na sociedade contemporânea em que a propriedade privada e a posse dos meios de produção são princípios norteadores dessa sociedade. Em última instância, é o ocultamento das contradições que permite ao capitalismo reproduzir na classe subalternizada a sua coerção.
Neste sentido, é importante resgatar, na concepção de cidadania, o pensamento de Marshall, sociólogo liberal contemporâneo de grande projeção na academia. Antes, devemos situar o leitor na sua obra, Cidadania e Classe Social, datada de 1950. Sua questão central consiste em desvendar como princípios opostos - a cidadania baseada na igualdade e o sistema capitalista na desigualdade - podem florescer e desenvolver-se, lado a lado, num mesmo lugar. O que fez com que eles se reconciliassem e se tornassem, ao menos por algum tempo, aliados ao invés de antagonistas? Como, no século XX, a cidadania e o sistema capitalista se relacionam? Para responder aos seus questionamentos estuda a cidadania na Inglaterra do pós-guerra, ou seja, desde o aparecimento da cidadania até o fim do século XIX; discute o impacto da cidadania sobre as classes e analisa os direitos sociais no século XX.
Seu estudo reflete, ainda, sobre o aparecimento do Estado social ou do Estado- nação em termos da evolução histórica do capitalismo. De um modo geral, este autor afirma que, à medida que a sociedade capitalista evolui como sistema social e a divisão de classes se desenvolve dentro dele, também evolui o conceito de
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Barbalet se refere à obra de Marx “A Questão Judaica”, originalmente escrita em 1843, já citada neste estudo.
cidadania, que passa de um sistema de normas de condutas para um sistema de direitos existentes a partir de relações antagônicas.
A concepção de cidadania marshalliana é convencional. Resulta da condição de status atribuída a um membro da comunidade. Para o autor, as sociedades diferentes atribuirão direitos e deveres diferentes ao status de cidadão, pois “a
cidadania é um status concedido àqueles que são membros de uma comunidade. Todos aqueles que possuem status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status” (MARSHALL, 1967: 76).
Marshall define o conceito de cidadania liberal em três elementos: o civil, o político e o social. O autor faz uma análise extensiva sobre o surgimento da cidadania até o fim do século XIX. Considera que o desenvolvimento da cidadania pouco influencia diretamente sobre a desigualdade social. Afirma que os direitos civis deram poderes legais cujo uso foi drasticamente prejudicado pelo preconceito e falta de oportunidade econômica. Os direitos políticos deram poder que demandava experiência, organização e mudanças no plano das funções estatais. Os direitos sociais compreendiam um mínimo e não faziam parte do conceito de cidadania. As ações eram tentativas voluntárias e legais, cujo interesse era reduzir as restrições sociais oriundas da pobreza, sem alterar a desigualdade econômica entre as classes sociais.
Assim sendo, classe social é definida em Marshall (1967:76-7) como:
“Uma instituição em seu próprio direito, e a estrutura total tem a qualidade de um plano no sentido de que se lhe atribuem um significado e uma finalidade e é aceito como uma ordem natural. A civilização em cada nível é uma expressão desse significado e dessa ordem natural, e as diferenças entre os níveis sociais não equivalem a diferenças de padrão de vida, porque não há nenhum padrão comum pelo qual aquelas podem ser medidas. Nem há direitos – ao menos de alguma significância – compartilhados por todos”.
De acordo com Barbalet (1989), a compreensão geral de cidadania de Marshall é inteiramente convencional. Diz Marshall, “em primeiro lugar, a cidadania é um status
possuir este goza de status de igualdade no que diz respeito aos direitos e deveres que lhe são associados” (p.18). Os elementos de cidadania definidos pelo autor são
conjuntos específicos de direitos e de instituições sociais, através dos quais tais direitos são exercidos. Considera, ainda, que o status de qualidade de membro de uma comunidade é, preponderantemente, uma questão econômica e política.
Na obra de Marshall, afirma Barbalet (1989:24), o destaque são os diferentes elementos de cidadania (civil, político e social), que podem ou não estar presentes em qualquer cidadania. Estes são analisados em perspectivas distintas, tanto de bases institucionais quanto de formação histórica. Este autor vê o desenvolvimento da cidadania e do sistema de classes em termos de interação entre eles. Através da sua relação antagônica, a cidadania e a desigualdade se modificam mutuamente, reconhece o impacto da cidadania sobre alguns aspectos da desigualdade, porém sem modificá-la. Afirma que alguns desses impactos atuam no ressentimento e fidelidade de classe, que, possivelmente, atuam na incidência do conflito.
Compreendemos que a universalidade dos direitos humanos se contrapõe à universalização das chamadas injustiças, que podem ser entendidas como aqueles atos que não devem ser praticados contra um outro ser humano; estes atos são cometidos por toda parte e identificados como degradantes e condenáveis em qualquer sociedade.
A universalidade dos direitos humanos consiste em repensar as relações econômicas, políticas e sociais postas na ordem societária vigente. Para tal, é preciso construir e consolidar um Estado social democrático de direito, que busque o diálogo multicultural no respeito às diferenças entre povos e gêneros e, sobretudo, reconheça a existência de conflitos sociais e exploração econômica de uma classe sobre a outra, por conseguinte, todas as outras relações que daí emanam.