• Nenhum resultado encontrado

Os textos técnico-científicos, como forma escrita de comunicação especializada, têm suas peculiaridades, que, em maior ou menor grau, podem causar estranhamento e dificuldade de compreensão em leitores leigos e de escolaridade limitada.

Os textos técnico-científicos são mais complexos que outros tipos de textos como, por exemplo, os textos literários? Para tentar responder a esta pergunta, analisei 3 diferentes textos conforme os índices Flesch e Flesch-Kincaid, como mostro a seguir.

O que podemos afirmar, de antemão, é que, sendo os textos técnico-científicos formados tanto pelo léxico geral quanto pelo léxico especializado, por meio de termos, tendo essas palavras ganhado status de termo por meio de um uso em um contexto específico – como afirma Cabré, quando refere-se às unidades terminológicas “como unidades de significado especial’ e acrescenta que “[...] toda unidade lexical tem potencial para ser uma unidade terminológica” (CABRÉ, 2003, p.190), como quando a palavra “água” ganha status de termo em um contexto especializado da área de meio ambiente – ou tendo sido esses

termos cunhados especificamente para uso especializado, como é muito comum na medicina (neuropatia, biópsia, etc.), os textos de comunicação especializada frequentemente fazem uso de uma linguagem de baixa frequência, ou seja, pouco utilizada na comunicação do dia a dia, por meio de uma terminologia e conceitos muito específicos, muitas vezes compreensíveis somente por quem conhece o assunto.

Por outro lado, se pensarmos em diferentes textos literários, não raro percebemos que estes também podem ser extremamente complexos e conter vocabulários que, a despeito de não serem considerados técnicos, podem ser eruditos, de baixa frequência, causando dificuldade de compreensão por parte do leitor. Sem falar da licença poética dos autores, que muitas vezes permite que o texto seja construído de forma pouco usual para um leitor não muito acostumado à leitura. Por esta razão, qualquer leitor que já tenha se encorajado a ler alguns dos maiores clássicos da literatura brasileira e universal já experimentou dificuldade de compreensão em diferentes graus.

A seguir trago dois exemplos de textos clássicos, uma passagem do prólogo de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e um trecho de Vidas Secas, de Guimarães Rosa, além de um texto sobre a temática da Doença de Parkinson escrito para um público de especialistas e/ou semiespecialistas, com o intuito de fazer uma breve análise comparativa de seus graus de complexidade.

A intenção não é fazer uma análise detalhada das características textuais de cada texto e de seus fatores de complexidade, mas sim exemplificar que um texto literário pode ser tanto quanto ou quase tão complexo quanto um texto técnico-científico se este possuir um vocabulário erudito e de baixa frequência, além de outras característica léxico-sintáticas complexas. Vale mencionar que o nível de erudição e baixa frequência de um dado vocabulário pode ser verificado com ferramentas de corpora, como o corpus BYU.31 Na parte em que relato nosso projeto patrocinado pela SEAD/UFRGS com alunos do curso de Tradução, trarei alguns exemplos.

Os textos, todos eles voltados para o público adulto, tiveram seus índices Flesch e Flesch-Kincaid, tratado anteriormente neste capítulo, mensurados.

Quadro 9 - Comparativo dos índices de inteligibilidade (complexidade) de três tipos distintos de texto

TEXTO DOENÇA DE PARKINSON. ÍNDICE

FLESCH: 20.122 Muito difícil de ler

TRECHO PRÓLOGO O NOME DA ROSA. ÍNDICE FLESCH:

33.513 Difícil de ler TRECHO VIDAS SECAS. ÍNDICE FLESCH: 56.551 Razoavelmente fácil de ler. Disponível em: https://www.einstein.br Disponível em: http://biblioteca.folha.com.br Vidas Secas, Graciliano Ramos, 2003, p. 7, 89ª ed. A Doença de Parkinson é uma

doença degenerativa do sistema nervoso central, crônica e progressiva. É causada por uma diminuição intensa da produção de

dopamina, que é um

neurotransmissor (substância química que ajuda na transmissão de mensagens entre as células nervosas). A dopamina ajuda na realização dos movimentos voluntários do corpo de forma automática, ou seja, não precisamos pensar em cada movimento que nossos músculos realizam, graças à presença dessa substância em nossos cérebros. Na falta dela, particularmente numa pequena região encefálica chamada substância negra, o controle motor do indivíduo é perdido, ocasionando sinais e sintomas característicos, que veremos adiante.

No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto a Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto a Deus e dever do monge fiel seria repetir cada dia com salmodiante humildade o único evento imodificável do qual

se pode confirmar a

incontrovertível verdade. Mas videmus nunc per speculum et in aenigmate e a verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros (ai, quão ilegíveis) no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais, mesmo lá onde nos parecem obscuros e quase entremeados por uma vontade totalmente voltada para o mal.

Ele vem

caminhando. Aí está ele! Vem vindo! Talvez você o conhecesse. Ele vem vindo. O Sol escaldante queima o olhar. O mormaço ocupa o espaço do ar para se respirar. Ele vem vindo. Não está só. Ao seu lado, acompanham quatro vultos. Sombras sobre sombras caminham. Um gemido!

Uma de suas crias sem forças para

andar caiu

colando seu rosto nos cavacos de terra esturricados. Está a gemer. O homem brutal sem nada a dizer tenta reanimar o frágil desfalecido. Passa a lhe bater com a bainha de sua lâmina. ¬– único método de seu conhecimento. Arrependeu-se. Baleia, a Cadela, que não é magricela apesar de […] também não é sarnenta,

bernenta e nem rabugenta. Parece a mais animada do grupo. Talvez por ser um animal? Corre a frente! Com forças para latir.

Corre para aonde? –– o que poderá saber um animal para aonde vai? Acompanha os donos.

Fonte: Elaborado pela autora (2018).

Note-se que este pequeno trecho de “O Nome da Rosa” é considerado, pela ação de ferramentas que apontam as medidas de Flesch, difícil de ler. Em uma análise rápida, podemos perceber um vocabulário de extrema baixa frequência, com palavras como ‘salmodiante’, ‘incontrovertível’, além de expressões em latim sem tradução ou explicação. Por outro lado, “Vidas Secas”, de acordo com o índice Flesch mensurado, é considerado um texto razoavelmente fácil de ler. Ao compararmos os dois romances por meio da leitura desses trechos, pode-se verificar que o índice Flesch consegue representar, em boa medida, esses diferentes graus de dificuldade de leitura. Em Vidas Secas, temos uma construção textual mais simples, com frases mais curtas, mas, principalmente, nota-se que seu vocabulário é mais acessível, com palavras de uso mais frequente. Ainda, quando comparamos o texto especializado com os outros dois textos literários, percebemos que a dificuldade de leitura, tomando como ponto de referência o “não especialista”, é ainda maior. Além dos elementos sintáticos, o vocabulário de baixa frequência, com termos destinados à comunicação profissional, como dopamina, sistema nervoso central, neurotransmissor, para citar alguns exemplos, dificulta a leitura por quem não está habituado à terminologia médica. Neste contexto, vale mencionar que o texto especializado costuma ser uma fonte de dificuldade para o leitor, mas não é a única. Como pudemos perceber pelos exemplos, os textos literários também podem apresentar um alto grau de inteligibilidade e, portanto, serem passíveis de simplificações com vistas à acessibilidade para determinados grupos leitores, como já acontece com os clássicos que são adaptador para o público infantil ou de menor escolaridade.