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5.1 PLAIN LANGUAGE (PL) OU LINGUAGEM ACESSÍVEL (LA)

5.1.1 Movimentos em prol da Acessibilidade do Texto

Como podemos ver pela história resumida dos movimentos sociais e da inserção do tema no panorama de pesquisa acadêmica do Brasil, existe não só um componente social, mas também cultural associado à ideia de uma Linguagem Acessível (LA). Nos países que investem, institucionalmente, no oferecimento de uma linguagem mais acessível à população em geral – remunerando o trabalho de redação, capacitando profissionais e investindo em pesquisa –, o acesso à informação é visto como um direito do cidadão. Nessa direção, não só os governos, como as políticas de Estado são, em certa medida, grandes incentivadores da LA. É uma cultura, infelizmente, ainda muito diferente da cultura brasileira, uma vez que no Brasil o direito à informação acessível não é algo ainda explícito e concretamente incentivado pelos legisladores do país.

Mas o que seria de fato Plain Language ou Linguagem Acessível? Essa pergunta também fez o já citado Silva (2018). Seria um processo, uma linguagem ou um movimento, ou ainda uma combinação desses três fatores? Nosso grupo de pesquisa tem tentado tratar

20 PLAIN ENGLISH. c2018. Disponível em: < http://www.plainenglish.co.uk/about-us.html>. Acesso em: 25

out.2018.

disso e somo a ele o meu esforço. Nosso objetivo comum é criar uma boa base de pesquisa acadêmica, de base linguística, que possa impulsionar novos produtos concretos, tais como já foi feito com Simplifica, no NILC, e com o CorPop, na UFRGS. Juntos, esperamos subsidiar ações práticas e objetivas de movimentos civis brasileiros e de instituições que se interessem pelo assunto. A seguir, detalho um pouco mais alguns elementos relacionados à iniciativa do Plain Language associada à língua inglesa, considerando que possam auxiliar a refletir sobre algo equivalente para o português do Brasil.

a) Sobre uma escrita acessível

O Plain Writing Act de 2010, lei assinada em 13 de outubro de 2010 nos Estados Unidos e que exige que todos os órgãos e agências federais passem a utilizar “[...] uma comunicação governamental clara que o público possa compreender e utilizar” (PLAW10), define Plain Language como sendo: “Uma escrita clara, concisa, bem organizada e que siga outras boas práticas apropriadas ao assunto ou campo e ao público pretendido”. (UNITED STATES OF AMERICA, 2010, documento on-line, tradução nossa)

Segundo Robert Eagleson, professor da Universidade de Sydney e especialista em Plain Language, a linguagem acessível é:

Uma expressão clara e direta que utiliza somente o número necessário de palavras. É uma linguagem que evita obscuridade, vocabulário rebuscado e uma construção sintática complexa. Não é um linguajar infantil, tampouco é uma versão simplificada das línguas. Quem escreve em linguagem acessível permite que seu público se concentre na mensagem ao invés de se distrair com uma linguagem complicada. Quem escreve em linguagem acessível deseja que o público compreenda facilmente a mensagem original. (EAGLESON, c2018, documento on-line, tradução nossa)22

Erwin R. Steiberg, professor da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, e um dos grandes nomes, teóricos e defensores de uma linguagem acessível, afirma ainda que Plain Language ou Linguagem Acessível seria aquela que “[...] reflete os interesses e necessidades do leitor e do consumidor e não os interesses legais, burocráticos ou tecnológicos de quem escreve o texto ou da organização a qual o escritor representa” (STEINBERG, 1991, p. 7). Martin Cutts, pesquisador e diretor do Plain Language

22 Citação original: Plain English is clear, straightforward expression, using only as many words as are

necessary. It is language that avoids obscurity, inflated vocabulary and convoluted sentence construction. It is not baby talk, nor is it a simplified version of the English language. Writers of plain English let their audience concentrate on the message instead of being distracted by complicated language. (EAGLESON, C2018, DOCUMENTO ON-LINE)

Committee do Reino Unido resume que a Linguagem Acessível deve permitir que um leitor motivado e cooperativo compreenda a mensagem na primeira leitura (CUTTS, 1998, p. 3).

A partir dessa breve revisão histórica desses movimentos “PLAIN” em outros países e no Brasil, e de definições propostas por expoentes desses movimentos, parto para a minha definição de Plain Language ou Linguagem Acessível. Antes, gostaria de destacar que, talvez pelo fato de esses movimentos em defesa de uma linguagem compreensível por um público de baixa escolaridade ainda serem relativamente novos no Brasil, atualmente, não existe um consenso sobre as terminologias relacionadas ao assunto. Em países de língua inglesa, Plain Language é o termo adotado por todos os órgãos, associações e indivíduos que tratam dessa temática. Já no Brasil, encontramos diferentes termos para designar o mesmo conceito, como Linguagem Simples, Linguagem Simplificada, Linguagem Objetiva (JUS BRASIL, 2016, documento on-line) e Linguagem Acessível.

Optei por utilizar o termo “Linguagem Acessível” por acreditar que seja a terminologia que melhor define o nosso objeto de estudo, uma vez que o nosso foco principal está no leitor e em uma linguagem compreensível por um determinado público. Quando falamos apenas em “linguagem simples”, esse termo parece subjetivo, uma vez que uma linguagem pode ser simples para um determinado leitor e complexa para outro. O termo “linguagem objetiva” também é um termo, conforme percebo, demasiadamente amplo e apenas um dos componentes da Linguagem Acessível (LA). Além disso, a “linguagem objetiva” parte mais da perspectiva de quem escreve do que de quem lê, pois o leitor raramente terá condições de determinar se o texto que está lendo possui uma linguagem objetiva ou não. Por outro lado, se quisermos saber se um determinado público, com uma escolaridade X, compreende um texto, temos condições de estimar o provável nível de compreensão por meio de testes empíricos. Esses testes, conforme já referido, devem-se, em suas diferentes configurações, em muito, às ideias pioneiras de R. Flesch.

A partir desses conceitos, parto então para a minha definição de Linguagem Acessível: A nossa concepção de Linguagem Acessível é, assim, a de um ideal a ser alcançado, é algo que parte das concepções de um movimento social e que visa a democratizar o acesso ao conhecimento, especialmente via textos escritos. A acessibilidade deveria ser possível a todas as pessoas, independente do grau de escolaridade ou origem étnica, conforme R. Flesch já propôs. A Linguagem Acessível se apoia em um processo de simplificação da linguagem baseado em análise e reformulação lexical e sintática, mediante o uso de métricas, fórmulas, estimativas e testes com leitores, para atingir um objetivo: uma formulação de linguagem compreensível, acessível a um determinado público leitor que deverá, por sua vez,

compreender a mensagem de um texto já na primeira leitura, utilizando as informações encontradas no próprio texto que lê, de acordo com as suas necessidades.