Os estudos sobre Complexidade Textual não seriam possíveis sem as ideias precursoras do já citado Rudolph Flesch. Rudolph Flesch (FLESCH, 1946) foi o primeiro a criar uma fórmula matemática capaz de estimar a provável inteligibilidade de um texto, ou seja, a facilidade ou dificuldade que um leitor ou um grupo de leitores teria de compreender um dado texto.
Outras fórmulas seguiram-se à ideia pioneira de Flesch; contudo, em nosso trabalho de pesquisa optamos por trabalhar apenas com a Flesch Reading Ease e a Flesch-Kincaid por serem duas das fórmulas mais difundidas e testadas no mundo. Essas fórmulas tendem a ser bastante úteis na análise da CT, pois podem ser consideradas um ponto de partida, um indicativo de que o texto pode ou precisa ser analisado em sua complexidade com vistas à posterior simplificação.
Antes de passarmos à história das fórmulas desenhadas por Flesch, vale ressaltar o conceito de inteligibilidade. Muito frequentemente, o termo ‘readability’, em inglês, é erroneamente traduzido por ‘legibilidade’ em português. Contudo, legibilidade diz respeito à tipografia de um texto, ou seja, à parte física do texto, suas letras, fontes, cores, números. Para que um texto seja legível, o leitor precisa converter, o mais rápido possível, os símbolos tipográficos em conceitos. No entanto, um texto pode estar legível, mas ser inteligível ao leitor. Isso porque a inteligibilidade de um texto (alguns autores preferem chamar de leiturabilidade), diz respeito à compreensão que o leitor faz daquele texto; ou seja, se ele é capaz de compreender a mensagem transmitida por determinado texto. Portanto, quando tratamos de ‘readability formulas’, estamos nos referindo a ‘fórmulas de inteligibilidade’ e não de legibilidade. Como afirma DuBay (2012, p. 7), “inteligibilidade é o que torna um texto mais fácil de ler do que outro e é frequentemente confundido com legibilidade, que diz respeito à tipografia e ao layout do texto”.
A Flesch Reading Ease foi criada por Rudolph Flesch há exatos 70 anos. Rudolph Flesch era precursor e defensor do Plain English, ou seja, uma linguagem mais clara, simples e acessível à população em geral, independente do seu grau de escolaridade. Ele estudou direito e era Ph.D. em inglês pela Universidade de Colúmbia. O índice Flesch foi criado em 1948 nos EUA do pós-guerra. Flesch trabalhava em uma fábrica americana e percebeu que, assim como ele, seus companheiros de fábrica também tinham dificuldade para compreender os manuais escritos em inglês utilizados no local de trabalho. Com o
intuito de medir a complexidade desse material e torná-lo mais acessível, Rudolph criou uma fórmula que media o grau de inteligibilidade de um texto. Posteriormente, essa fórmula passou a se chamar Índice Flesch ou Flesch Reading Ease, em inglês.
A fórmula:
IFLF = 206,835 - ((1,015 x comprimento médio da frase) + 0,846 x (número de sílabas por 100 palavras))
Note-se que o índice Flesch trabalha com as variantes “comprimento médio por frase” e “número de sílabas por palavra”. O índice tem 7 faixas de dificuldade de leitura, podendo variar de 0 a 100. Quanto maior for o índice, ou seja, mais próximo de 100, mais fácil de ler o texto; quanto mais próximo de 0, mais difícil.
Vale ressaltar que o índice Flesch não pode ser considerado um determinante absoluto do grau de dificuldade de um texto; ele pode, porém, ser considerado um indicativo de que o texto e suas métricas de complexidade precisam ser analisados mais a fundo, de modo a se determinar se um certo texto está ou não além das possibilidades de compreensão de um dado leitor. Em todos os testes que realizei para este projeto de pesquisa, o índice Flesch se mostrou uma excelente ferramenta de auxílio na análise da CT. O índice Flesch funcionou como uma espécie de alerta, sem ser, contudo, uma determinante, para que eu buscasse uma análise mais criteriosa da condição leitora do texto em questão.
O índice Flesch foi adaptado para a língua portuguesa por Martins, Teresa B. F., Claudete M. Ghiraldelo, Maria das Graças Volpe Nunes e Osvaldo Novais de Oliveira Junior, no ano de 1996, de forma que representasse a realidade das palavras e sílabas da escrita em português do Brasil (CUNHA, 2015, documento on-line).
A fórmula para o português é a seguinte:
ILF = 248.835 - [1.015 x (Número de palavras por sentença)] - [84.6 x (Número de sílabas do texto / Número de palavras do texto)]
Vale destacar que os números diferentes, estabelecidos pelos matemáticos brasileiros, procuram dar conta de todo um universo estatístico diferenciado. Esse universo é desenhado
pelo universo de distribuição de diferentes tipos de palavras, tamanhos de palavras e de frases do português escrito do Brasil.
Quadro 7 - Índice Flesch e grau de dificuldade de leitura (em português)
Valor do índice Leitura do texto
90-100 muito fácil 80-90 fácil 70-80 razoavelmente fácil 60-70 padrão 50-60 razoavelmente difícil 40-50 difícil 0-30 muito difícil Fonte: Finatto (2011).
A maioria dos índices que se sucederam ao índice Flesch tem como base a fórmula criada por Rudolph Flesch, como o índice Flesch-Kincaid, que recebe o nome de Rudolph Flesch e de seu criador, Peter Kincaid. O índice Flesch-Kincaid foi desenvolvido por Peter Kincaid a pedido da marinha americana. Foi primeiramente utilizado para testar a dificuldade de compreensão de manuais técnicos utilizados pelo exército. O índice Flesch- Kincaid é bastante útil por trazer um dado a mais: ele considera a dificuldade de compreensão da leitura por grau de escolaridade do leitor.
A fórmula:
ILFK = ((0,39 x média de palavras por frase)+(11,8 x média de sílabas por palavra)) - 15,59
Veja no quadro 8 abaixo:
Quadro 8 - Índice Flesch-Kincaid por grau de escolaridade
Índice Grau de escolaridade Observações
compreendido por um aluno com aproximadamente 11 anos de idade.
80.0–90.0 6 anos de escolaridade Fácil de ler.
70.0–80.0 7anos de escolaridade Razoavelmente fácil de ler.
60.0–70.0 de 8 a 9 anos de escolaridade Linguagem simples. Fácil de ser compreendido por alunos entre 13 a 15 anos de idade.
50.0–60.0 de 10 a 12 anos de escolaridade Razoavelmente fácil de ler.
30.0–50.0 Alunos universitários Difícil de ler.
0.0 – 30.0 Graduados em universidades Bastante difícil de ler.
Compreendido somente por
graduados em universidades. Fonte: Finatto (2011).
Em resumo, as fórmulas Flesch Reading Ease e o Flesch-Kincaid são recursos interessantes para se iniciar a análise da complexidade de um dado texto. A partir dos resultados obtidos, o tradutor ou profissional do texto, terá subsídios para avançar em sua análise, seja ela manual ou por meio de ferramentas automáticas, em busca de dados que corroborem ou refutem o grau de inteligibilidade/complexidade encontrado pelas fórmulas. E apesar de receberem críticas de muitos estudiosos por considerarem que estas são limitadas e prescritivas, devo concordar com DuBay quando ele afirma que, embora algumas críticas sejam válidas e as alternativas propostas, como testes de usabilidade, sejam até mesmo necessárias, “[...] elas falham em fazer o que as fórmulas fazem: fornecer uma previsão objetiva sobre a dificuldade de leitura de um texto”. (DUBAY, 2012, p. 7)