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A constituição do grupo de interlocutoras

Capítulo 2 – A pesquisa de campo e seus percursos

2.1 A constituição do grupo de interlocutoras

O interesse central da pesquisa foi investigar os processos femininos de individualização do ponto de vista de mulheres que experimentam atualmente a condição de ser - segundo suas próprias representações - idosas, ou velhas, ou ser da terceira idade, ou da melhor idade. Compreendendo que a idade cronológica é insuficiente para “enquadrar” as pessoas numa determinada fase da vida, pois variam histórica e culturalmente, utilizei o critério etário para seleção inicial das mulheres participantes da pesquisa. Outros critérios ainda foram considerados como a experiência da aposentadoria, de ter filhos adultos, e de ser avó. Foram selecionadas ao todo 16 mulheres com idade entre 60 e 70 anos. Essa seleção também levou em consideração dois outros condicionantes. O primeiro diz respeito ao próprio processo de pesquisa, pois este grupo etário se mostrou mais acessível em participar do processo. O segundo relaciona-se com as questões de autonomia das mulheres em relação à família, neste grupo as mulheres demonstraram maior autonomia física e psicológica em relação aos familiares. O último critério de seleção para a constituição do grupo de interlocutoras relacionou-se com as condições de pertencimento aos segmentos médios e populares. As redes de sociabilidade foram também consideradas uma vez que indivíduos que compartilham a mesma rede de sociabilidade tendem a ter origens sociais semelhantes ou compartilharem alguma característica em comum.

As noções de posição de classe foram inspiradas em Bourdieu (2001) em suas análises sobre o contexto da complexidade da vida urbana. As considerações de Velho (2008), conhecido estudioso dos segmentos médios no Brasil, também foram relevantes para caracterizar esses segmentos, assim como as perspectivas de Durhan(1984; 2004) contribuíram para destacar as características dos segmentos populares, e assim melhor classificar as mulheres envolvidas na pesquisa. Apesar de ter enquadrado as mulheres participantes em dois segmentos distintos, médios e populares, destaco também suas heterogeneidades internas em termos de outros marcadores sociais como: religião, profissão, constituição familiar, conjugalidade entre outros.

Pensando nessas redes de sociabilidades dei início a pesquisa de campo na Praça da Paz. Pois sabia do considerado contingente de mulheres, majoritariamente moradoras de Bancários, de todas as idades e especialmente idosas que fazem uso da praça de forma espontânea ou participando do Projeto Vida Saudável, realizado diariamente na praça, principalmente no início das manhãs

e finais de tarde17. Após autorização dos organizadores do projeto me inseri nestas

atividades, com a intenção de me aproximar daquelas possíveis participantes da pesquisa. Além de compartilhar de tais atividades, procurei frequentar a praça em outros horários diferenciados e estabelecer interações espontâneas. Após o primeiro mês em campo, percebi que meus vínculos com as senhoras estavam sendo estabelecidos menos pela intermediação dos professores do projeto, e mais pelos diálogos livres, pelas piadas, pelos encontros imprevistos nas máquinas da academia da praça. Logo, passei a privilegiar estes momentos sem intermediadores.

Através dessas sociabilidades, consegui me aproximar de inúmeras

mulheres, entre elas, dona Ana e dona Vera18, moradoras de Bancários. Ambas

participavam do Projeto Vida Saudável, mas também frequentavam a praça espontaneamente pelas manhãs e à tarde. As primeiras conversas que empreendi com estas duas mulheres giraram em torno de assuntos gerais como política, novela, filmes, alimentação saudável, atividades físicas e seus efeitos, sobre beleza e tratamentos estéticos. Tais conversas me proporcionaram aproximação, e sobretudo conhecer de forma geral seus modos de pensar e de viver. Com o tempo passei a abordar além dos assuntos gerais, outros de ordem mais íntima, como por exemplo: filhos, doenças e tratamentos que elas atravessaram, relacionamentos conjugais. Percebi que aos poucos estava conquistando a confiança daquelas duas mulheres.

A partir de então, resolvi falar-lhes um pouco sobre mim e sobre a pesquisa. Visitei cada uma em particular em suas residências, para explicar-lhes melhor sobre minhas intenções enquanto pesquisadora. Primeiro fui à casa de dona Ana. Ela, sua filha e sua neta, me receberam muito bem. Após conhecer a proposta

17

Ver Franch, M ; Queiroz, T. Da casa a praça. Um estudo da revitalização de praças em João Pessoa. Belo Horizonte: Argumentum,2010.

18

Os nomes das interlocutoras, aqui utilizados, são fictícios, a fim de preservar em sigilo seus nomes verdadeiros e cumprir o acordo firmado desde o princípio da pesquisa e assinado nos termos de consentimento livre e esclarecido.

de pesquisa dona Ana se prontificou em participar, e disse-me: “Adorei, vou te contar todos os meus segredinhos.”

Dona Vera demonstrou gostar da ideia da pesquisa, falou-me sobre a importância em se dar atenção aos idosos e comentou da importância do meu trabalho, no entanto, me fez uma série de perguntas, do tipo: “será que ninguém vai desconfiar que é sobre minha vida que você tá escrevendo?” Aquelas perguntas demonstravam insegurança em fazer parte do grupo. E me alertava sobre as negociações em campo já analisadas pelas experiências de Malinowiski, Magnani, entre outros. Devido a isto resolvi investir um pouco mais no nosso relacionamento antes de convidá-la efetivamente a torna-se uma de minhas interlocutoras. Convidei- a para visitar minha casa, para que ela conhecesse um pouco sobre mim, e para criar uma atmosfera de maior segurança em nossa relação. Naquela oportunidade, sabendo do convite que eu havia feito a dona Ana, e de sua participação, dona Vera se prontificou em participar da pesquisa, assim como sua “colega de praça”, e deixou claro seu interesse, dizendo: “tudo o que me deixa ativa e ocupa meu tempo de forma saudável me interessa”. Percebi que acionava com aquelas mulheres uma relação de troca, de alguma forma, eu, enquanto pesquisadora, atendia uma demanda delas, fosse de dar-lhes atenção, ouvindo suas narrativas de vida, fosse, em atribuir a elas uma atividade significativa, como a de participar de uma pesquisa acadêmica.

As idas à praça além de me fazer conhecer pessoas novas também me proporcionaram reencontrar algumas pessoas as quais não via a algum tempo e outras que apesar de serem vizinhas minhas não tinha oportunidade de interagir

com frequência. Bete, moradora do meu prédio19, funcionária pública recentemente

aposentada, frequentadora assídua da praça, foi uma delas. Durante alguns dias observei seus relacionamentos na praça, sempre muito extrovertida, e sociável, Bete se demonstrou conhecedora de um grupo relevante de pessoas que a princípio se enquadravam no perfil das mulheres que eu havia previamente elaborado no projeto de tese e aqui já discriminado. Bete me apresentou a algumas senhoras, entre elas dona Maria e dona Selma. O primeiro encontro com estas duas mulheres foi intermediado por Bete em suas residências, num mesmo condomínio em Bancários. Além de me apresentar as suas amigas Bete se adiantou e também falou da

19

Resido em Bancários há 15 anos e neste prédio há 3 anos.

pesquisa que eu estava desenvolvendo e da necessidade de formar um grupo de senhoras.

Já no primeiro encontro Dona Maria e dona Selma se pronunciaram positivamente a pesquisa. Dona Maria demonstrou uma necessidade particular em ter uma companhia e alguém “para conversar”. Já Dona Selma apesar do interesse, demonstrou preocupação com relação ao tempo que iria me dedicar, pois segundo ela seu dia a dia era muito corrido.

Nesse grupo dito “segmento médio” a quinta mulher que procurei incluir no grupo de interlocutoras foi Dona Rosa. A conheci espontaneamente e coincidentemente num avião quando viajava de volta à João Pessoa de um

congresso sobre envelhecimento no Rio de Janeiro em Setembro de 201020. Dona

Rosa estava fazendo turismo religioso com um grupo da terceira idade. O grupo todo veio no mesmo avião que eu, e ela sentou-se ao meu lado. Conversamos muito durante a viagem ela falou sobre a perda recente de sua mãe, sobre sua família, e sobre a viagem que fizera. Ao final disse que morava em Bancários. Fiquei surpresa com aquela notícia, pois naqueles dias tudo o que eu mais buscava era por mulheres, como ela, para compor meu grupo. Sem demonstrar minhas verdadeiras pretensões disse que também morava em Bancários, e fui tratando logo de perguntar onde ela morava. Ela explicou um pouco e disse o nome da rua. Fiquei mentalizando aquele endereço o restante da viagem. Assim que o avião aterrissou e dona Rosa levantou-se, tratei de anotá-lo.

Poucos dias depois na aula de pesquisa de campo da professora Flávia Pires, aconteceu uma palestra com a professora Sílvia Nogueira, e em uma de suas falas ela comentou que “um bom pesquisador tem que ser ousado, cara de pau”. Minhas dúvidas sobre se deveria ou não procurar Dona Rosa terminaram ali. Procurei o endereço no ‘google maps’ e fui até a sua casa.

Somente depois da segunda visita à sua casa consegui falar com dona Rosa. Numa conversa em seu terraço falei um pouco sobre meu trabalho, e fiz uma espécie de sondagem para conhecer um pouco mais sobre aquela senhora. Ela me pediu um prazo para pensar se poderia participar da pesquisa e dois dias depois me ligou confirmando sua participação. Marcamos uma nova visita e nesta oportunidade levei um álbum meu de família para que ela pudesse conhecer um

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Na verdade foi um Seminário intitulado Corpo, envelhecimento e felicidade realizado na UFRJ, sob a coordenação de Mirian Goldenberg.

pouco sobre minha vida, antes de começar a me contar sobre a sua. Achei que seria uma boa estratégia de aproximação com aquela senhora que sem nenhum tipo de intermediador ou de conhecimento prévio, se colocou a disposição da pesquisa. Visitei-a pelo menos mais três vezes antes de começarmos as entrevistas e os relatos de vida. Observei sua rotina de perto, suas idas e atuação na Igreja Católica, suas costuras, seus cuidados com suas plantas, e com a saúde, sua preocupação com seus familiares, especialmente irmãos e sobrinhos, além de suas atividades diárias de casa e sua relação com sua filha mais velha e seus netos.

A sexta mulher a compor o grupo de interlocutoras residente em Bancários, foi Rita. Conhecida minha a pelo menos 10 anos, reencontrei-a também na Praça da Paz. Sabendo do trabalho que vinha desenvolvendo no bairro há algum tempo, e tendo participado da pesquisa intitulada Da casa à Praça, em 2008, Rita também se dispôs em participar desta nova pesquisa.

Relacionando algumas mulheres conhecidas residentes em Bancários e que se encaixavam no perfil estabelecido, lembrei-me de Penha. Ela e seu filho mais velho haviam participado de minha pesquisa de mestrado em 2008, e contribuíram bastante naquela oportunidade, procurei-a e conversei sobre esta nova abordagem de pesquisa e convidei-a a participar, ela aceitou sem restrições e me deixou a par de seu dia a dia para que eu pudesse marcar nossos encontros nos horários mais apropriados.

A constituição do grupo de minhas interlocutoras no Timbó teve seu ponto de partida, assim como em Bancários pelo critério das sociabilidades. Conhecendo a comunidade há pelo menos três anos, procurei minhas antigas informantes e outras pessoas conhecidas. Voltei a circular com mais frequência pelas ruas da comunidade para ser vista e reconhecida por todos. Procurei visitar algumas pessoas chave como Mãe Maria, senhora de 81 anos, muito querida e respeitada. Pedi sua ajuda no sentido de me apresentar a mulheres conhecidas suas que se aproximassem das características do perfil a ela apresentado. Voltei a visitar Mãe

Maria pelo menos mais duas vezes, quando um incidente aconteceu comigo21.

Resolvi então mudar de estratégia na composição de minhas interlocutoras no

21

Como sempre fazia, deixei meu carro estacionado no início da rua e caminhava até a casa de Mãe Maria, ao voltar o encontrei bastante amassado por pontapés. Apesar de ser conhecida por parte dos moradores da comunidade, e mesmo me sentido à vontade em circular em suas ruas, acredito que minha presença ali incomodou algumas pessoas envolvidas com o crime. Talvez eu tenha deixado dúvidas do que realmente eu estava fazendo ali. O fato me gerou medo e diante disso resolvi mudar minhas estratégias.

Timbó, naquela altura apenas duas senhoras, dona Ciça, comadre de Mãe Maria, cuja filha havia trabalhado como doméstica para um familiar meu em Bancários há algum tempo e dona Noêmia, vizinha de Mãe Maria há 20 anos, haviam se prontificado em participar do estudo.

A terceira interlocutora residente no Timbó a se integrar ao grupo foi dona Val, uma senhora de 65 anos avó de uma de minhas informantes da pesquisa de mestrado.

A mudança de estratégia na forma de abordar as pessoas para a composição do grupo de mulheres da pesquisa se deu pelo fato de ter introduzido a colaboração das agentes de saúde do posto Timbó I. Um dado interessante e inesperado era que todas as agentes daquele posto eram moradoras do Timbó, e tinham sobre a comunidade muito mais do que o olhar profissional de suas funções, elas eram mulheres que cresceram na comunidade e tinham fortes relações com algumas senhoras. Através dessas agentes de saúde conheci dona Cida, dona Geralda, e dona Elza, as três residentes no Timbó há mais de 20 anos e moradoras da mesma rua. As duas primeiras visitas em suas casas foram feitas na companhia de agente de saúde, nestas oportunidades procurei conversar livremente com aquelas mulheres, atentamente ouvi suas reivindicações relativas às melhores condições de atendimento à saúde. Percebi que a intermediação da agente de saúde do posto, contribuiu para que aquelas três mulheres me associassem a algum tipo de profissional (talvez assistente social), que pudesse assisti-las em suas reivindicações.

Cuidadosamente procurei deixar claro que minha função não era aquela, e que não poderia atender as suas demandas, apesar do desejo que tinha em ajudá- las. Isso foi ficando claro para elas a cada visita, aos poucos fui explicando o processo de trabalho de pesquisa e fui encontrando nas três um novo posicionamento, frente a mim. “Eu estava ali, não para ajudá-las em suas necessidades, mas para que elas pudessem ajudar em meu trabalho”. Essa foi a conclusão de dona Geralda quando a convidei para fazer parte do grupo. Ela e suas duas vizinhas, dona Elza e dona Cida se, “solidarizaram” comigo em campo e se prontificaram em “contribuir com o que eu precisasse.” Inclusive me apontando outras possíveis pessoas a participarem da pesquisa.

Fazia parte da rede social de dona Elza, uma senhora muito dinâmica, dona Nevinha. Tendo acompanhado algumas de minhas visitas a dona Elza, e

“tomando parte” do que eu tratava, dona Nevinha se integrou ao grupo voluntariamente, sem que fosse feito um convite oficial.