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2 O IDEAL DO PROGRESSO, A AFIRMAÇÃO DO DIREITO AO

2.6 A CONSTRUÇÃO E O RECONHECIMENTO DO DIREITO AO

A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento foi proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas por intermédio da Resolução nº 41/128, de 04 de dezembro de 198611. Essa Declaração reconhece que dados eventos presentes

na história dos povos e das nações – colonialismo, racismo e discriminação racial, dominação e ocupação estrangeira, conflitos bélicos, agressões e ameaças à soberania, à unidade nacional e à integridade territorial – implicam violações de direitos humanos dos povos e indivíduos e, igualmente, constituem-se obstáculos que retardam ou impedem o desenvolvimento.

Na seara planetária, incumbe à comunidade internacional dos Estados a implementação, promoção e proteção do direito humano ao desenvolvimento, por meio da cooperação e da garantia das condições essenciais da paz e da segurança

11 Sobre o tema, sumaria com precisão Monteiro (2003, p. 775): O direito ao desenvolvimento

estava implícito na Declaração universal dos direitos do homem, como é amplamente reconhecido, mas a expressão só aparece, pela primeira vez, no quadro das Nações Unidas, na Resolução 4 (XXXIII) de 21 de fevereiro de 1977 da Comissão dos Direitos do Homem. A 4 de dezembro de 1986, a Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou uma Declaração sobre o direito ao desenvolvimento. O seu Artigo 2.1 proclama: “O ser humano é o sujeito central do desenvolvimento e deve ser, pois, participante activo e beneficiário do direito ao desenvolvimento”. A Conferência mundial sobre os direitos do homem (Viena, 1993), no seu documento final reafirmou o direito ao desenvolvimento como “direito universal e inalienável” (ponto 10), reconhecendo: “A democracia, o desenvolvimento e o respeito dos direitos do homem e das liberdades fundamentais são interdependentes e reforçam-se mutuamente” (ponto 8).

internacionais, ao passo que no plano interno é responsabilidade primária do respectivo ente estatal cumprir papel protagonista do processo desenvolvimentista pluridimensional – político, econômico, social e cultural – no qual a pessoa humana ocupa posição central: titular dos direitos de participação e gozo dos resultados auferidos no processo.

Avançando ainda mais na compreensão acerca do direito dos povos e de cada um dos membros da família humana ao desenvolvimento, cumpre deixar consignado que, na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento,

1) o processo de desenvolvimento, multidimensional e includente, sob os prismas coletivo e individual, deve viabilizar a plena realização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais (art. 1º, § 1º);

2) o direito humano ao desenvolvimento compreende o direito dos povos à autodeterminação, tendo por corolário a soberania plena sobre as suas riquezas e recursos naturais (art. 1º, § 2º);

3) os Estados têm o direito-dever de formular políticas adequadas ao desenvolvimento, direcionadas à efetivação do nível de bem-estar da população e de todos os indivíduos sem discriminação, equalizando oportunidades de participação no processo e no rateio dos seus resultados (art. 2º, § 3º);

4) no plano internacional, a responsabilidade primária na criação das condições favoráveis ao desenvolvimento exige a cooperação mútua visando a superação dos obstáculos ao desenvolvimento, a observância dos princípios, compromissos e obrigações internacionais de modo a promover uma nova ordem econômica internacional, fundada na igualdade, interdependência, interesse mútuo e cooperação entre todos os países (art. 3º, §§ 1º a 3º);

5) os Estados têm o dever de participar na formulação e implementação de políticas internacionais de desenvolvimento que deverão considerar as condições peculiares dos países em desenvolvimento (art. 4º);

6) os Estados devem atuar de modo a fazer cessar as grandes violações de direitos humanos, cooperando com vistas a promover, encorajar e fortalecer o respeito universal pela observância de todos os direitos

humanos e liberdades fundamentais – civis, políticos, econômicos, sociais e culturais – indivisíveis e interdependentes (arts. 5º e 6º);

7) os Estados devem promover o fortalecimento e a consolidação da paz e da segurança internacionais, essenciais ao desenvolvimento (art. 7º); 8) no plano interno, os Estados devem adotar medidas destinadas a

assegurar, particularmente, igualdade de oportunidades para todos quanto ao acesso aos recursos básicos, educação, serviços de saúde, alimentação, habitação, emprego e distribuição equitativa da renda, implementar medidas que possibilitem às mulheres o protagonismo no processo de desenvolvimento, promovam a erradicação das injustiças sociais e a participação popular na dinâmica do desenvolvimento (art. 8º); 9) os Estados devem tomar medidas endereçadas ao pleno exercício e

fortalecimento progressivo do direito ao desenvolvimento, especialmente a formulação, adoção e implementação de políticas, medidas legislativas e outras no âmbito interno e internacional (art. 10).

O direito ao desenvolvimento deve ser compreendido como um metadireito. Assim, o reconhecimento e a inserção do direito ao desenvolvimento no catálogo do Direito Internacional dos Direitos Humanos implica afirmar o direito a um processo (de desenvolvimento) que possibilite a fruição de todos os demais direitos humanos até então proclamados (MONTEIRO, 2003).

A afirmação do desenvolvimento como direito do ser humano e da humanidade (de todos os povos) contribuiu decisivamente para fortalecer uma tendência que compreendia o processo de desenvolvimento como fenômeno multidimensional, contrapondo-se a uma clássica e consolidada acepção estritamente economicista e, consequentemente, redutora do processo12. Com

efeito, ao ser integrado ao elenco dos direitos humanos, reforça-se o desenvolvimento com os caracteres da universalidade, indivisibilidade, interdependência e indisponibilidade, fixando-se, desde então, inquebrantável correlação entre o noviço direito e os que lhe antecederam na conquista do status.

12 Nesse sentido, afirma Monteiro (2003, p. 775): “Até ao meio dos anos de 1960, desenvolvimento

era sinónimo de crescimento económico, tendo como indicador principal o PIB/PNB. Era uma concepção do desenvolvimento social redutora, instrumentalizadora da pessoa humana, socialmente injusta e ecologicamente insustentável”.

Saliente-se aqui que, ao menos quanto ao que se pensa, em 1986 teve-se tão-somente o reconhecimento formal da imprescindibilidade e do protagonismo de há muito desempenhado pelo desenvolvimento na concretização dos direitos fundamentais do homem. De qualquer modo, a proclamação da Organização das Nações Unidas (ONU) reveste-se de grande importância, ao apontar o caminho do desenvolvimento como um percurso a ser cumprido na efetivação dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.

Assim, cada vez mais se abandona a acepção redutora do desenvolvimento em favor de concepções abrangentes e integradoras que destacam as múltiplas nuances do processo de desenvolvimento de caráter político, econômico, social/inclusivo, sustentável, cultural, humano, científico, tecnológico, dentre outros13.