• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 3. Um exame da história das teorias sobre a formação do sistema solar

3.2. A hipótese nebular

3.2.1. A cosmogonia de Kant

Brush não dedica muitas linhas à teoria de Kant, com a justificativa de que a obra rapidamente caiu na obscuridade, não foi lida por quase ninguém em seu tempo, provavelmente não influenciou a hipótese nebular de Laplace e só foi resgatada no século XIX quando sua importância não podia mais ser ligada ao desenvolvimento da área das cosmogonias, e sim à história específica do pensamento filosófico, dada a importância do trabalho ulterior de Kant (BRUSH, 1996a, p. 7). Segundo essa interpretação, a teoria de Kant não seria historicamente relevante para as cosmogonias porque sua contribuição ao problema não chegou a constituir um afluente para as ideias que alimentariam o rio caudaloso da hipótese nebular no século XIX.

Talvez essa seja uma concepção demasiado estreita do que seria relevância histórica. Ainda que a obra de filosofia natural de Kant não tenha repercutido em seu tempo como parece ter merecido, serve para ilustrar em que medida podiam ser formuladas na

atmosfera intelectual do século XVIII as ideias evolutivas segundo as quais deve ser possível explicar a geração de um sistema complexo como o sistema solar a partir um estado original caótico ou desestruturado, tomando por base a física newtoniana. Revela, sobretudo, o caminho de amadurecimento do framework newtoniano ao longo de mais de um século em direção à geração de teorias cosmogônicas puramente naturalistas.9

*

A partir da publicação dos Principia de Newton em 1687, por décadas o mundo intelectual europeu testemunhou um embate entre a física cartesiana e a newtoniana. Mas por volta da metade do século XVIII, Newton havia se tornado decididamente hegemônico entre os filósofos da natureza. Nesse momento, o jovem Immanuel Kant publicava suas primeiras obras. Fogo, vento, terremoto, a vida, os astros: na década de 1750, Kant debruçou-se sobre os mais variados fenômenos naturais, tendo Newton como maior referencial. Do fascínio de Kant com o céu estrelado e da física newtoniana nasceu uma obra de filosofia natural,

História Geral da Natureza e Teoria do Céu10. Publicado em 1755, o livro propõe uma teoria

de formação do sistema solar – que se estende à compreensão da formação da Via Láctea e de outras galáxias – baseada “em princípios newtonianos”11.

É importante lembrar que o debate sobre se a Via Láctea é todo o universo observável ou apenas um dentre muitos “universos-ilha” (as então chamadas “nebulosas espirais”) teve resolução somente na década de 1920 a favor da hipótese de que eram outras galáxias, principalmente através das descobertas de Edwin Hubble. O primeiro caso conhecido de interpretação da Via Láctea como um disco achatado e das nebulosas espirais como outras galáxias está na obra An original theory or new hypothesis of the Universe, publicada por Thomas Wright em 1750. Kant leu o livro, convenceu-se da ideia, e procurou

9 Refiro-me a amadurecimento no seguinte sentido: de Newton e sua concepção de que Deus teria criado o

sistema e interviria de vez em quando em sua criação para mantê-la em equilíbrio e preservar suas regularidades, à hipótese nebular, em que apenas a gravitação universal é necessária para a formação da ordem e da regularidade encontradas no sistema solar a partir de um caos primordial sem a necessidade do recurso a Deus.

10 Título original: Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels. Universal History and Theory of the

Heavens, edição estadunidense publicada em 2008 e traduzida por Ian Johnston, será a fonte primária utilizada nesse item.

11 O subtítulo: “Um ensaio sobre a constituição e a origem mecânica de toda a estrutura do universo baseadas em

teorizar sobre a estrutura e origem desses objetos. Essa concepção de Wright e Kant pode ser considerada ao mesmo tempo espantosa e não muito mais do que um palpite certeiro – uma intuição afortunada, provavelmente motivada por compromissos metafísicos – sem possibilidade de confirmação ou refutação com os dados empíricos disponíveis em seu tempo. Essa obra de filosofia natural de Kant não teve ampla circulação: a falência de sua editora é, provavelmente, um dos motivos. As ideias cosmológicas e cosmogônicas desenvolvidas por seu autor – que logo deixaria de desenvolvê-las para perseguir outros interesses filosóficos – caíram na obscuridade. A cosmologia e a cosmogonia kantianas só passaram a ser consideradas relevantes, retrospectivamente, mais de um século mais tarde, quando não mais tinham grande potencial de impacto sobre as teorizações acerca da origem do sistema solar. Porém, a maneira com que a imagem da origem dos sistemas planetários elaborada por Kant foi interpretada por cientistas da segunda metade do século XX – largamente considerada uma impressionante antecipação de aspectos centrais das mais atuais teorias sobre a formação de estrelas e planetas, bem como sobre a estrutura geral da Via Láctea e de outras galáxias – garante a necessidade de que seja aqui apresentada com algum pormenor.

*

No pensamento de Kant, Deus12 se faz perceptível pela ordem identificável no mundo e está sempre presente, mas não como um criador que arbitrariamente decide as características da natureza, do sistema solar ou das galáxias. Para Kant, a beleza, a harmonia e a ordem observadas na natureza foram produzidas por leis universais implantadas no mundo pela inteligência divina.

Os dois principais alvos da argumentação de Kant – e de sua teoria – é tanto o atomismo (a tradição personificada por Epicuro e Lucrécio, de pendor ateísta), quanto a “imediata mão de Deus”, a ideia de interferência divina direta, que Newton não conseguiu abandonar. No rant kantiano contra o atomismo, os “produtos da natureza” não são “efeitos da contingência e resultados de acidentes”: “Forças e leis estabelecidas e que tem como a

12 Kant faz referência a Deus por meio de diversas expressões, como “Essência Original”, “Presença Divina”,

Mais Sábia Inteligência foram uma imutável origem daquela ordem que inevitavelmente flui da natureza, não por acaso, mas pela necessidade”, afirma Kant (KANT, 2008, pos. 1654). Apesar do papel de Deus como origem da harmonia e da ordem do mundo, a interferência divina direta como concebida por Newton não apenas é vista por Kant como desnecessária para explicar as regularidades do sistema solar (e. g. a rotação dos planetas na mesma direção de suas órbitas coplanares), como as próprias irregularidades são aceitas numa visão da natureza que inclui em sua fecundidade uma “multiplicidade de todas as possíveis mudanças” e até mesmo “a deficiência e o desvio” (idem, pos. 1866). Essa é a base metafísica da teoria de Kant, aquilo que dá sentido à sua explicação mecânica.

Inicialmente, Kant identifica uma aparente incongruência a ser resolvida: as características ordeiras do sistema solar (as órbitas dos planetas aproximadamente no mesmo plano, a mesma direção das translações e das rotações de todos os planetas e de todos os satélites conhecidos até então) sugerem uma mesma causa natural para todo o sistema:

[S]e considerarmos toda essa interconexão, então acreditaremos que uma causa, qualquer que seja, teve uma influência que permeou toda a extensão do sistema [solar], e que a conformidade da direção e da posição das órbitas planetárias é uma consequência do acordo coordenado que elas devem ter tido com a causa material por meio da qual foram colocadas em movimento. (KANT, 2008, pos. 557).

Entretanto, a ausência de matéria entre as órbitas dos planetas sugeria a implausibilidade da interpretação das diversas manifestações de ordem e de regularidades do sistema como efeito de uma única causa natural: “completamente vazio e privado de matéria”, falta ao espaço entre os planetas justamente aquilo que “poderia ter sujeitado esses corpos celestiais a um conjunto comum de influências e com isso produzido coordenação entre seus movimentos” (KANT, 2008, pos. 557). Isso teria levado Newton a concluir pela “mão imediata de Deus” como explicação para a conformação de ordem do sistema. Meio século depois, Kant procura por causas e forças naturais moldando a ordem do sistema solar a partir de uma condição inicial caótica.

Kant propõe uma dinâmica entre as forças de atração (a gravitação newtoniana) e de repulsão (atuante nas menores partículas, derivada por Kant da observação do comportamento da expansão dos gases), bem como a noção de que, em suas condições iniciais, o sistema solar nascente estava “cheio de matéria suficientemente capaz de conferir movimento a todos os corpos celestes ali localizados e de trazer harmonia a seus movimentos e entre si” (KANT, 2008, pos. 569). A força de atração, então, teria “unificado o mencionado

espaço e coletado toda a matéria espalhada em aglomerados de partículas” e, desde então, com a atuação conjunta de força de atração e de repulsão que explicariam os movimentos iniciais da matéria em estado desordenado, “os planetas livremente e imutavelmente continuaram o movimento orbital impresso sobre eles” (idem, pos. 569).

Kant supõe que a matéria da qual o sistema solar é composto, inicialmente dispersa em partículas elementares, teria começado a se aglutinar num ponto que primeiro exercesse uma força de atração maior do que qualquer outro. O aumento progressivo da massa do corpo gerado nesse ponto aumentaria a força de atração exercida sobre a matéria mais distante e causaria uma aceleração cada vez maior do processo de aglutinação de partículas. Haveria, então, o surgimento de um movimento lateral dessa matéria atraída pelo ponto central, pois as partículas interagiriam umas com as outras também pela força da repulsão. Desse movimento lateral gerado pela força de repulsão e a força de atração do ponto central resultariam círculos de matéria aglutinada em movimento ao redor do ponto central, embora a maior parte da matéria primordial tenha se aglutinado nele (KANT, 2008, pos. 611 - 629). Os planetas (assim como os cometas) seriam o resultado final desse processo governado pelas forças de atração e de repulsão (a aglutinação de matéria em movimento circular ao redor do ponto central).

Essa exposição bastante resumida da mecânica da cosmogonia kantiana é o suficiente para tornar evidente seu caráter monista: o Sol, os planetas e suas luas, além dos cometas, têm origem num mesmo processo natural, sem recorrer a qualquer interferência externa, acontecimento catastrófico ou processo independente para explicar a origem dos diversos corpos que compõem o sistema solar. Kant endossa textualmente essa conclusão: “a estrutura planetária” orbitando o Sol “é inteiramente desenvolvida ... a partir dos originalmente distribuídos componentes básicos de todo o material planetário” (KANT, 2008, pos. 1254). A partir disso, Kant chega à conclusão de que “todas as estrelas fixas que o olho descobre nos profundos recônditos dos céus ... são sóis e pontos centrais de sistemas similares” (idem, pos. 1256). Essa é a extrapolação a que já me referi na parte introdutória deste capítulo: se as estrelas são sóis e se a formação do sistema solar vê os planetas como subproduto da formação do Sol, então cada estrela pode (ou deve) ser o centro de um sistema planetário.

Há exageros quanto à importância histórica de Kant no desenvolvimento do campo científico das cosmogonias/planetogonias: numa interpretação excessivamente simplificada, uma nota no verbete da Enciclopédia de Filosofia de Stanford sobre o desenvolvimento do pensamento de Kant afirma que a hipótese nebular de Laplace e até mesmo teorias do século XX derivadas dela (e que a teriam “confirmado”) seriam apenas “ligeiramente diferentes” da cosmogonia kantiana13. Há diferenças consideráveis entre a

cosmogonia kantiana e a hipótese nebular de Laplace (MACPHERSON, 1913, p. 425), e discrepâncias ainda maiores com relação às adaptações da teoria laplaciana do século XX.

Por outro lado, a limitada concepção de Brush sobre a relevância da História

Geral da Natureza e Teoria do Céu para a história das teorias de formação do sistema solar

também desconsidera sua importância na fermentação da cultura e da cosmovisão que compuseram a paisagem do meio científico durante os dois séculos subsequentes. A cosmogonia kantiana gozou de considerável interesse a partir de fins do século XIX não apenas por parte de filósofos, mas também de cientistas. O tardio reconhecimento de seus méritos perdurou sem questionamentos sérios até o começo da década de 1980 (PALMQUIST, 1986, p. 256). Sua influência cultural sobre o meio científico teria sido reforçada, em 1900, pela tradução da obra para a língua inglesa, realizada por William Hastie (KANT e HASTIE, 1900). Segundo Palmquist, Hastie teria conseguido, por meio de uma reescrita clara do estilo obscuro do original, “reforçar a avaliação positiva da realização de Kant por parte de muitos cientistas e assegurar a ela um lugar permanente no ‘hall da fama’ das teorias filosóficas da natureza e a origem do universo” (PALMQUIST, 1986, p. 255). Uma nova tradução comentada, de Stanley Jaki, publicada em 1981, procurou desfazer a percepção da obra como uma grande realização científica (KANT e JAKI, 1981). Para Jaki, Kant não oferece muito mais do que especulações confusas e “um ou dois palpites afortunados” (PALMQUIST, 1986, p. 259).

Palmquist argumenta que não se deve insistir na defesa da anacrônica imagem de um “Kant cientista”, esclarecendo que Kant escreveu sua obra como “filósofo natural a

13 Trecho da nota 18: “A hipótese nebular de Kant de formação de estrelas e galáxias foi proposta mais uma vez,

numa versão um pouco diferente, por P. S. de Laplace (1796) e foi confirmada por C.F. von Weizsäcker e J.G. Kuiper (1944)”.

Disponível online em: https://plato.stanford.edu/entries/kant-development/notes.html Acessado em 03/02/2020

priori” que propôs para a consideração dos cientistas um sistema possível. O grau de sucesso

desse sistema pode ser medido pelo “significativo número de suas conjecturas [que] acabaram mostrando-se corretas” (PALMQUIST, 1986, p. 268). O mais famoso desses “acertos” (ou palpites afortunados) é, sem dúvida, a concepção das nebulosas espirais como galáxias e da Via Láctea como uma dentre muitas outras. Mas é notável que Palmquist não tenha se limitado somente a esse “acerto”, preferindo se referir ao “significativo número” desses. Como a obra basicamente se dedica à explicação da origem do sistema solar (e aplica o raciocínio à forma das galáxias), outro desses considerados “acertos” é, seguramente, a concepção da origem do sistema solar por meio de um mesmo e único processo natural, sem a necessidade de interferência externa, ocorrência catastrófica ou algum outro processo natural independente da formação do Sol para a formação dos planetas, dos cometas e dos asteroides.