Capítulo 2. Uma questão filosófica: a ciência progride?
2.5. Protestos de moderados down to earth
2.5.3. Susan Haack
No rescaldo sem resolução das science wars, uma disputa pródiga em produzir mal-entendidos e desorientação, a filósofa britânica Susan Haack fez alguns dos melhores esforços em dissipar o nevoeiro com um objetivo parecido com o de Chalmers: defender a ciência sem chancelá-la como atividade epistemologicamente privilegiada nem encará-la como algo apartado de interesses sociais, econômicos e políticos. As duas obras fundamentais nessa empreitada são Manifesto of a Passionate Moderate (1998) e Defending Science –
Within Reason (2003). Os detalhes do critical common-sensism proposto por Haack, além do
realismo e o pragmatismo embutidos nessa visão, merecem exposição mais detalhada, mas é suficiente para o propósito do presente trabalho um panorama de seus aspectos gerais.
Para Haack, as ciências naturais são extensões de nossa capacidade de inquirição e estão irmanadas a outras formas de investigação empírica, do jornalismo à investigação criminal. Todos os que desejam descobrir como as coisas são ou estão usam (na frase de Peirce, que Haack endossa) “o método da experiência e raciocínio”. As ciências só aprofundaram enormemente a capacidade experimental e a sofisticação de raciocínio. Porém, embora não sejam epistemologicamente privilegiadas, as ciências distinguem-se das investigações empíricas comuns na medida em que se desenvolvem em simbiose com um impressionante refinamento de tecnologias, de aparatos conceituais e intelectuais, de modelos matemáticos e estatísticos, entre outros. Ou seja, uma gama de avanços técnicos aumenta o alcance da inquirição humana da natureza e amplifica as tradicionais formas de investigação empírica cotidiana. Além disso, são características distintivas do conhecimento científico os esforços sistemáticos para isolar uma variável por vez, testar, projetar experimentos, desenvolver instrumentos sofisticados, e o engajamento (competitivo e cooperativo) de gerações no empreendimento científico.
Isso tudo faz das ciências naturais um ramo epistemologicamente distinto das investigações empíricas. Mas não privilegiado, e certamente não unificado por um método e por regras gerais de aceitação de uma teoria e de favorecimento de uma hipótese em relação a outra. Haack ataca a ideia de um método científico distintivo, que garantiria progresso, se bem aplicado. Concede que (mesmo) a (boa) investigação científica é muito mais caótica do que pensavam os positivistas, ressaltando que ela é também muito mais suscetível a constraints gerados pela natureza do que sonham os construtivistas sociais.
Semelhante ao diagnóstico de Pera utilizado por Kuhn contra o Programa Forte, um dos pilares argumentativos de Haack é o reconhecimento de que há, operando silenciosamente nas teses epistemologicamente relativistas dos construtivistas sociais, uma aceitação tácita dos pressupostos da filosofia da ciência pré-kuhniana sobre como conceber o conhecimento científico e distingui-lo de especulação metafísica sem sentido: de maneira estritamente lógica. “[A] raiz do problema”, diz Haack após examinar a visão de W. V. Quine, “está na concepção estritamente lógica da racionalidade comungada entre os Velhos Deferencialistas, tanto indutivistas quanto dedutivistas, e pelos Novos Cínicos.” (HAACK, 2003, p. 51, grifo dela). Haack chama de Velhos Deferencialistas os representantes do positivismo lógico e do cientificismo ingênuo da visão tradicional ou clássica da ciência; os Novos Cínicos são os sociólogos da ciência autoproclamados kuhnianos e as variadas vertentes de relativismo epistemológico, do construtivismo social ao idealismo linguístico esposados pelos críticos da ciência no final do século XX.
Haack astutamente percebe que tanto uns quanto outros aceitam as mesmas suposições sobre o que deveria ser a ciência: uma forma de produzir conhecimento impessoal e universal por meio da explicação de observações e fatos objetivos, logicamente justificada e sustentada por evidências. Nessa visão standard,
a genuína teoria científica se compõe de enunciados cujos valores-de-verdade podem ser determinados confrontando “o que se diz” com “o que se observa”. Sendo assim, a validação de uma teoria pode ser estabelecida de modo impessoal e a salvo de influências contextuais. O cognitivo é determinado apenas pela lógica e pela experiência. (OLIVA, 2007, p. 7).
Essa concepção é problemática porque nada do gênero pode ser encontrado na história da ciência – especialmente após a sofisticação da historiografia, que emergiu ainda na primeira metade do século XX rompendo com a interpretação whig e seu otimismo com o progresso, sua visão heroica dos cientistas como indivíduos excepcionais, e suas narrativas excessivamente deferentes em relação à ciência. Além disso, o questionamento da clássica distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação impulsionou análises que capturaram com algum sucesso a prática científica como ela se manifesta no mundo, com suas conexões sociais, culturais, históricas. Em resumo, a concepção tradicional não se sustentou quando confrontada com a realidade e com a história. Mas se ela não se sustenta, seria a ciência indistinguível de especulação metafísica sem sentido?
Chalmers e Haack notam, cada um à sua maneira, a proximidade e o sinal invertido das conclusões dos Novos Cínicos e Velhos Deferencialistas. Primeiro, imaginou-se que a ciência constituiria a única forma legítima de produzir conhecimento sobre o mundo e todas as outras representações e interpretações de fenômenos deixariam de fazer sentido. Depois, com a consciência de que a ciência não é capaz de produzir o que se concebia como única forma de conhecimento legítimo, veio a conclusão de que ela não se diferenciaria de outras atividades humanas dedicadas a elaborar representações da realidade e interpretações da natureza. Daí a proclamação de que os problemas espinhosos da filosofia da ciência são insuperáveis e a conclusão de que “os supostos ideais de investigação honesta, respeito pela evidência, preocupação com a verdade, é uma forma de ilusão, uma cortina de fumaça ocultando operações de poder, política e retórica” (HAACK, 2003, p. 20).
Da desilusão nasceria o cinismo, portanto. Mas um bom antídoto para o cinismo é perceber que a heartbreak ocorreu por conta da frustração de expectativas irrealizáveis. Haack faz justamente isso, propondo uma concepção mais modesta e mundana sobre a maneira como se produz o conhecimento científico e suas distinções epistemológicas. Essa concepção evitaria as armadilhas do positivismo lógico (e suas versões em negativo, como a de Quine e Popper) e uma consequência de sua falência, que é a via aberta para a conclusão construtivista social de que os conteúdos da ciência são estritamente produtos sociais, gerados por negociações políticas e relações de força, em que a natureza desempenha papel pouco ou nada relevante. No pragmatismo moderado de Haack, também volta à arena algo “que está faltando tanto na abordagem lógico-formal dos velhos deferentes e na abordagem histórico- sociológico-retórica dos novos cínicos” (HAACK, 2003, p. 52); algo de que Kuhn também sentiu falta ao ler criticamente o Programa Forte, e que Chalmers recoloca no centro do campo: o mundo.
Como Chalmers, Haack vê como aspecto fundamental da ciência a necessidade de que nossas hipóteses e teorias sejam testadas em relação ao mundo, e não subestima o sucesso das ciências naturais nesse jogo. De alguma forma que ainda não entendemos satisfatoriamente – é possível que os grandes teóricos do funcionamento da ciência sequer tenham arranhado o problema – as ciências conseguem apreender algo corretamente sobre o funcionamento da natureza. Haack define esse sucesso como a obtenção de “teorias profundas, amplas e explicativas, bem ancoradas em evidência experimental, encaixando-se surpreendentemente umas com as outras” (HAACK, 1998, p. 106). Mas a ancoragem empírica é muito mais complexa do que a visão standard imagina.
A ancoragem empírica para alegações e teorias científicas compõe-se de “evidência experimental e razões trabalhando juntas”, ao contrário de fatos e dados objetivos prontos para serem colhidos na realidade. A complexidade da ancoragem empírica – a subdeterminação (underdetermination) da teoria pela evidência e o caráter teórico-dependente das observações são questões bastante ilustrativas do problema – e a consciência de que o processo de teorização e teste não é puro, mas rotineiramente influenciado por razões externas, são alguns dos flancos pelos quais a autoridade epistêmica das ciências naturais pode ser atacada com a afirmação de que a ciência e seus conteúdos são fenômenos essencialmente sociais, ou epifenômenos das disputas políticas, econômicas, e assim por diante. Haack, obviamente, contesta essas concepções, concebendo a “ciência como social”, mas de forma semelhante aos sociólogos da ciência mertonianos. Nesse ponto, Haack introduz a distinção entre acceptance (aceitação) e warrant (justificação).
Warrant é uma noção normativa: a condição de justificação de uma proposição é
uma questão de quão bem ou mal a evidência apoia a proposição, de qual é o nível em que determinada hipótese e teoria está ancorada em evidências, de qual é o peso da evidência na sustentação de uma determinada crença. Warrant é, em princípio, tratável de maneira objetiva. Acceptance é uma noção descritiva: como a proposição é encarada, aceita ou rejeitada pela comunidade. “O ideal é que as condições de aceitação (acceptance-status) de uma alegação variem concomitantemente com as condições de justificação (warrant-status)” (HAACK, 1998, p. 108). É indesejável que uma teoria tenha um nível de justificação baixo e aceitação alta, e vice-versa. Haack reconhece que isso pode ocorrer com muita frequência no nível individual. Mas o social é visto pela filósofa como um dos fatores que ajudam a manter a acceptance apropriadamente correlacionada com a warrant. Os relativistas epistemológicos, ao contrário, focam na “acceptance às expensas de warrant” como consequência de fatores sociais: alguns minimizam warrant e acentuam acceptance, outros ignoram completamente
warrant e reconhecem apenas acceptance (HAACK, 1998, p. 110).
Nessas visões, os valores sociais guiariam não apenas quais questões devem ser encaradas, mas também quais soluções podem ser vislumbradas – daí a travessia fácil da ponte entre Velhos Deferencialistas e Novos Cínicos, chegando à conclusão de que os conteúdos da ciência também são socialmente condicionados ou determinados. (HAACK, 1998, p. 111). A resposta de Haack a essa conclusão: embora no nível individual inevitavelmente haverá uma multiplicidade de crenças exageradas (overbelief) ou descrenças exageradas (underbelief) em relação a determinadas proposições, hipóteses ou teorias, a
variação concomitante entre o warrant-status e o acceptance-status tenderá a ser mais apropriadamente correlacionada num nível coletivo, em que podem ter papel positivo relevante determinadas características sociais como a combinação de competição com colaboração, a intersecção de competências entre os atores e o escrutínio crítico institucionalizado (idem, p. 108). Isso implica uma concepção do progresso da ciência como algo que não encontra interdição necessária na concepção da “ciência como social”, mas também não é implicada por toda e qualquer configuração social. Em resumo, se a configuração social varia, a capacidade de progredir pode ser afetada.
Nos capítulos 4, 5 e na conclusão, mobilizarei argumentos de ordem filosófica para justificar a intuição de que a ciência fez progressos substanciais rumo à compreensão de aspectos importantes da formação do sistema solar. Combinarei o falibilismo de Haack e a ênfase de Chalmers na possibilidade de que as observações podem ser consideradas objetivas com uma abordagem de inspiração laudaniana baseada no aumento da capacidade de uma área em solucionar e definir problemas. Minha abordagem se distancia de concepções que identificam o progresso científico a progresso teórico (como a de Kuhn), permitindo que avanços na capacidade de observação e da produção de dados empíricos (como os que produziram o conhecimento atual sobre discos protoplanetários e planetas extrassolares) sejam compreendidos como filtros fundamentais para o trabalho de investigação e teorização. Na interpretação que proponho, o progresso científico na área das planetogonias é perceptível com uma avaliação de sua crescente ancoragem empírica em observações astronômicas de objetos análogos a sistemas planetários em formação e o adensamento das interconexões das teorias planetogônicas com o corpo de conhecimento científico de áreas mais amplas, como a astrofísica.