A FONTE: DA CONSTRUÇÃO DE UM CENÁRIO À DEFINIÇÃO DA ESCRITA
1. A FONTE E O SOBRENATURAL NA SUITE DU MERLIN
A fonte, cenário tradicional de aparição das fadas,4 pode ser um interessante
objecto de estudo para quem pretende reflectir sobre o maravilhoso no romance arturiano e nomeadamente sobre o contraditório processo de recuperação / racionalização a que o maravilhoso é submetido durante os séculos XII e XIII. No limiar deste capítulo, portanto, parece-nos fundamental lembrar a distinção proposta por Jacques Le Goff entre «maravilhoso», «mágico» e «miraculoso»:
il me semble qu'aux Xllème et XlIIème siècles, le surnaturel occidental se répartit en trois domaines que recouvrent à peu près trois adjectifs: mirabilis, magicus, miraculosus.
Mirabilis. C'est notre merveilleux avec ses origines pré-chrétiennes.
(...)
Magicus. (...) c'est le surnaturel maléfique, le surnaturel satanique.
Le surnaturel proprement chrétien, ce que l'on pourrait justement appeler le merveilleux chrétien, c'est ce qui relève du miraculosus, mais le miracle, le miraculum, ne me paraît être qu'un élément (...) du vaste domaine du merveilleux. Le miraculosus, non seulement n'était qu'une partie du merveilleux, mais il avait tendance à le faire s'évanouir. Il fallait pour l'Eglise, qui repoussait peu à peu une grande partie du merveilleux dans le domaine de la superstition, dégager le miraculeux du merveilleux.5
Poderíamos acrescentar que, no romance arturiano (se excluirmos a matéria do Graal), o fenómeno mais generalizado não é propriamente a transformação do maravilhoso pagão em maravilhoso cristão (o miraculoso), mas a racionalização do maravilhoso. O ser que aparece junto da fonte deixa de ser explicitamente apresentado como uma fada, transformando-se numa bela donzela com algumas características que a ligam àquela figura sobrenatural: possui uma beleza extraordinária e um poder de sedução muito particular, aparece absolutamente só e não é relacionada com a sociedade dos homens, é detentora de um saber sobre-humano, guia o cavaleiro até aventuras extraordinárias... A
siècles», Mélanges de Langue et de Littérature Française du Moyen-Age et de la Renaissance
offerts à Monsieur Charles Foulon. Rennes, Université de Haute Bretagne, 1981, T. I, pp. 99-100.
4 Cf. P. Gallais, La Fée à la Fontaine et à l'arbre, pp. 6; 65-66.
5 J. Le Goff, «Le Merveilleux dans l'Occident Médiéval», in L'Imaginaire Médiéval. Essais, Paris,
Gallimard, 1985, p. 22.
6 Este maravilhoso semi-racionalizado. por vezes inquietante, que é sugerido e não totalmente explícito
transformação da fada em feiticeira - que transportaria esta figura para o domínio do
magicus, ainda que nem sempre o mágico seja maléfico no romance arturiano - é
também, ao que nos parece, uma cedência (ainda que incompleta) à razão, uma tentativa de explicar (através dos feitiços, que se aprendem nos livros e com sábios mestres, como as artes liberais ou a medicina) a origem de certos poderes ou de certos fenómenos.
Na Suite du Merlin, porém, o protagonismo de Merlim e das suas discípulas (Morgana e Nivienne) não impede a proliferação das fadas (geralmente semi- racionalizadas), ainda que estas não assumam, em geral, papéis de primeiro plano. O episódio em que Merlim consegue obter para Artur a melhor espada do mundo,
Escalibor, é representativo de um fenómeno raro na literatura medieval, mas
característico deste romance que, apesar de pródigo em fenómenos sobrenaturais, só muito raramente os atribui a Deus: a transformação do miraculoso em maravilhoso. No Merlin de Robert de Boron, na cena que o designa como o futuro rei de Logres, o jovem Artur retira de uma pedra a espada que aí apareceu por milagre;9 na Suite, o
mesmo Artur vê surgir Escalibor, a espada que representa a soberania, empunhada por uma mão misteriosa, num lago habitado por fadas, e obtém-na graças à ajuda de uma misteriosa donzela que caminha sobre uma ponte invisível.10 Assim, não é de espantar
que as fontes da Suite du Merlin estejam ligadas à aparição de personagens feéricas. E não surpreende que a Beste Diverse, o monstro sobrenatural, surja também neste cenário.
criação moderna. Cf. Aspects Fantastiques de la Littérature Narrative Médiévale (XHème-XIIIènie
siècles). L'Autre, l'Ailleurs, l'Autrefois. Genève, Slatkine, 1991, pp. 126-242. Cf. infra, II, 1.
A Dama do Lago em LP. por exemplo, é uma personagem francamente positiva.
8 Cf. Suite, §§ 93-96, pp. 66-70; §§ 491-494. pp. 452-456; § 533, p. 505, etc.
Na pedra, que aparecera milagrosamente em frente da igreja no dia de Natal, estava gravada uma mensagem anunciando que aquele que conseguisse tirar a espada nela cravada seria o rei designado por Cristo. Cf. Merlin. § 83. pp. 268-269.
1.1. As fadas
A fonte, elemento central do locus amoenus, é, como dissemos, o cenário por excelência da aparição da fada no folclore. Segundo Pierre Gallais, a relação entre a fada e o espaço fértil que a envolve não é apenas episódica, mas ontológica:
Que la fée se manifeste si fréquemment auprès de la fontaine et (ou) de l'arbre, c'est-à-dire dans un "lieu plaisant" (le locus amoenus des rhétoriciens). dans une "tranche de nature'" aimable et hautement symbolique, cela n'est pas l'effet du hasard. La fée n'est-elle pas comme l'émanation de ce cadre, la concrétisation des forces naturelles qui y sont représentées? '
Materialização da força vital da natureza e do poder genesíaco da água, a fada é, na sua origem, um ser fundamentalmente positivo, cuja característica essencial é a generosidade, que se traduz na dádiva de amor e de riquezas.12 Um dos esquemas narrativos mais
difundidos no folclore e nas narrativas medievais (e que tem frequentemente a fonte por cenário) é aquele em que a fada aparece a um homem que se apaixona por ela e a quem ela se entrega, de forma mais ou menos duradoura, dando-lhe também riquezas e descendência.13
Apesar da tendência racionalizante que o caracteriza, o Lancelot en Prose não ignora este fundo arquetípico, mas recria-o segundo a sua própria visão do mundo. As senhoras ou donzelas que aparecem ao cavaleiro junto das fontes ou banhando-se nelas nunca são explicitamente identificadas como fadas,14 mas conservam vestígios da mulher
feérica. É o caso das donzelas que, surpreendendo Agravain adormecido junto de uma fonte, o deixam imobilizado graças aos unguentos que lhe aplicam nos membros, ou da caçadora que fere um cavaleiro com uma flecha envenenada: as suas vítimas terão de esperar que os melhores cavaleiros do mundo os possam curar, libertando-os dos encantamentos que os tolhem.15 As «fadas» de LP são inócuas quando totalmente
racionalizadas (isto é, quando apresentam apenas traços formais da sua relação com o
11 Cf. P. Gallais, La Fée à la Fontaine et à l'arbre, p. 6. cf. pp. 65-66. 12 Cf. ibidem, pp. 30-32.
13 Cf. ibidem, pp. 5-6.
14 Há apenas uma excepção, aliás significativa, já que as fadas em questão não são personagens de
nenhum episódio relatado pelo narrador, mas os seres que, segundo dizem as gentes da região, costumam aparecer junto de certa fonte onde Genebra e o seu séquito se instalam no termo de uma partida de caça: assim, o redactor de LP veicula um dado da tradição oral, demarcando-se dele. Cf. T. II, LUI, 19, pp. 276-277.
mundo feérico), mas ameaçadoras no caso de conservarem os seus poderes. Ninienne, a Dama do Lago, é uma excepção no panorama geral do Lancelot, pois mantém o seu carácter positivo sem que o seu poder seja anulado. Morgana, pelo contrário, representa o caso mais comum: o processo de negativização desta figura é evidente no primeiro grande romance cíclico e desenvolver-se-á sempre no mesmo sentido ao longo dos textos posteriores.17
Na Suite du Merlin, a fonte é um dos cenários do mundo feérico semi- racionalizado herdado de LP, ainda que as fadas sejam preferencialmente associadas, no romance do Pseudo-Boron, a lagos, ilhas e penhas.18 Um dia, Artur, tendo partido para a
caça, afasta-se em perseguição de um cervo com o rei Urien - o marido de Morgana - e o amante desta, Accalon.19 Entusiasmados com a perseguição do animal, os três
companheiros cavalgam a toda a brida e durante tanto tempo que as suas montadas acabam por morrer de cansaço, mas descobrem o cervo na margem de um rio e matam- no. Nesse momento, aproxima-se uma barca completamente coberta de seda vermelha, onde eles são acolhidos por doze belíssimas donzelas. Depois de um copioso repasto, adormecem profundamente e despertam no dia seguinte em três locais distintos: Urien
15 Cf. LP, T. VIII, LXa, 20-29. pp. 231-37 e T. V. LXXXVIII, 8-9, pp. 66-67.
16 Para uma análise mais desenvolvida deste problema, cf. A. S. Laranjinha, «La Fontaine aux Fées dans
le Lancelot en Prose, roman anonyme du XlIIème siècle». Revista da Faculdade de Letras. Línguas e
Literaturas, 2004 (No Prelo). Sobre o carácter fundamentalmente ambíguo das fadas «corteses» (seres
sobrenaturais / seres humanos; seres maléficos / seres benéficos), cf. A. Guerreau-Jalabert, «Des fées et des diables. Observations sur le sens des récils "mélusiniens" au Moyen Age», in Mélusines
Continentales et Insulaires, org. J.-M. Boivin & P. MacCana, Paris, Champion, 1999, pp. 105-137.
17 Cf. L. Harf-Lancner. Les Fées au Moyen Age - Morgane et Mélusine. La naissance des fées, Paris,
Champion, 1984. pp. 267ss. Note-se que. na Suite, Nivienne não escapou ao processo de negativização: apesar de defender Artur da pérfida Morgana, é crudelíssima com Merlim, sepultando-o em vida.
Veja-se. por exemplo, o lach ou fees habitent, onde a espada Escalibor surge pela primeira vez, empunhada por uma mão misteriosa saída das profundezas do lago (cf. Suite, §§ 61-63, pp. 49-50). A passagem inspira-se, como é sabido, na cena do desaparecimento da espada na Mort Artu (cf. E. Vinaver, «King Arthur's sword and the making of a Medieval Romance». Bulletin of the John Rylands
Library, T. 40, 1957. pp. 513-526). mas a evocação explícita das fadas distingue este episódio do seu
modelo e é característica do universo imaginário da Suite. Mais tarde, Morgana deitará a bainha de
Escalibor num lago e. segundo uma prolepsc do narrador, a fada Marsique irá buscá-la para a dar a
Galvão, que a cingirá durante o duelo com Mabon. o encantador (cf. Suite, § 413, p. 360). Digamos ainda para concluir que o modelo destes lagos feéricos é o lago encantado de Nivienne, que a Suite herda de LP, ornando-o de traços maravilhosos mais explícitos. Quanto às ilhas, refiram-se a ilha de Avalon (cf. Suite § 93, p. 66). a Isle Faée (cf. Suite. § 533, p. 505) e a ilha de Merlim (cf. Suite, §§ 239-242, pp. 193-197) onde o mago semeia os seus feitiços. Finalmente, a Roche as Puceles - o rochedo escarpado onde habitam doze donzelas que possuem o dom de prever o futuro e de anular a memória das suas vítimas - é o exemplo mais evidente do carácter feérico do terceiro espaço referido (cf. Suite, §§ 496-501, pp. 458-465).
encontra-se em Camalot nos braços da mulher, Artur numa câmara oscure e noire e Accalon num belo locus amoenus,
en un praiel plain d'erbes e d'envoiseures si près d'une fontainne qu'il n'i avoit pas un piet entre lui et le fontainne. Et venoit la fontainne par un tuiel d'argent auques grosset et cheoit en une grant pierre de marbre, si que celé iaue aloit par un conduit en une tour haute e miervilleuse qui dejouste le praiel estoit."
Um anão transmite-lhe uma mensagem de Morgana: no dia seguinte, Accalon terá de combater contra um cavaleiro junto da fonte. Depois, o anão entrega-lhe Escalibor com a respectiva bainha mágica, que a feiticeira roubara a Artur. É o próprio rei de Logres que se apresenta para combater contra Accalon graças à armadilha preparada por Morgana, que arranjara tudo para que o irmão e o amante se enfrentassem num duelo judicial: possuindo Accalon a espada mágica de Artur, a feiticeira estava convencida de que o combate seria fatal para o rei de Logres. Accalon luta portanto com Artur sem o reconhecer, mas, graças à intervenção de Nivienne, o rei acaba por salvar-se, enquanto Accalon sucumbe aos ferimentos.""
A perseguição desenfreada da presa, que leva o caçador a afastar-se dos companheiros isolando-se na floresta desconhecida (e por vezes à morte da sua montada) é um esquema narrativo bastante frequente na literatura medieval. Nas narrativas versificadas do século XII e na literatura céltica conduz em geral à entrada num mundo outro, um mundo em que os encontros inesperados com seres sobrenaturais poderão surgir.23 É o caso dos cavaleiros dos lais, que avistam pela primeira vez uma fada ou um
ser feérico no termo de urna partida de caça que os leva a isolar-se na floresta; é
20 Suite, § 363, p. 316. 21 Ibidem.
22 Cf. Suite, §§ 391-401. pp. 338-349.
23 Segundo J. Voisenet, a crença no carácter psicopompo do cervo fait partie d'un fonds commun
extrêmement ancien que l'on retrouve aussi bien durant la période païenne en Gaule et dans tout l'espace celtique qu'à l'époque chrétienne. Le cerf parallèlement à son caractère baptismal, y maintient, à tra\>ers cette survivance païenne, son aspect funéraire comme sur les scènes de chasse des sarcophages mérovingiens -1'âme est emmenée vers l'Autre-monde à l'instar du chasseur entraîné dans la poursuite de la bête (...). (Bestiaire chrétien. L'imagerie animale des auteurs du haut Moyen Age
(Ve-XIe s.), Toulouse, Presses Universitaires du Mirail, 1994, p. 159.)
24 Guigemar, caçador apaixonado, afasta-se ao perseguir um grande cervo e acaba por atingir um animal
maravilhoso: uma corça branca com hastes de veado, que prediz o seu encontro com o amor (cf. «Guigemar», vv. 76-122, in Marie de France. Lais de Marie de France, ed./trad. Karl Warnke & Laurence Harf-Lancner. Paris, Librairie Générale Française, 1990, pp. 30-32); Graelent, solitário, persegue uma corça branca que o leva até uma fonte onde se banha uma fada (cf. «C'est le lay de Graalent», w . 200ss. in Les Lais Anonymes des Xlle et XlIIe siècles, ed. P. M. O'Hara Tobin,
também o caso de Pwill, o Príncipe de Dyvet que, no mabinogi epónimo, vai à caça, perde os companheiros, e encontra o rei de Annwvyn, o país dos mortos, perseguindo o cervo que ele queria caçar.25
Na Suite, a sugestão da passagem para o Outro Mundo é reforçada pela chegada ao rio (a fronteira aquática tão comum nas narrativas de origem céltica,26 como aliás em
muitas outras) e pela viagem a bordo da barca das donzelas, que não pode deixar de lembrar a outra embarcação pleinne de dames em que Morgana leva Artur moribundo. A sede de vingança de Morgana e o plano que ela elabora cuidadosamente para levar Accalon e Artur a defenderem em duelo dois cavaleiros inimigos são a prova evidente de que não é o acaso que conduz os três homens à barca maravilhosa. Como em muitas outras narrativas, dos lais de Marie de France ao Tristan en Prose, o que se sugere é que a fada tem um poder especial sobre os seres da floresta e conduz os passos do cervo, acelerando o galope dos cavalos, para os afastar dos seus companheiros e os guiar até ao seu domínio.
Finalmente, o local onde terá lugar o combate entre Artur e Accalon contém vários elementos que encontramos frequentemente associados em LP (o prado, a fonte,
Genève, Droz, 1976, pp. 102ss); é durante a caça a um perigosíssimo javali branco, que empreende só, que Guingamor penetra no Outro Mundo, onde vive três dias de amor com uma fada - três dias que correspondem a trezentos anos no mundo dos homens (cf. «Lai de Guingamor», in Les Lais Anonymes, pp. 127-153).
Cf. «Pwill, prince de Dyvet». in Les Mabinogion du Livre Rouge de Hergest avec les variantes du
Livre Blanc de Rhydderch, éd. J. Loth, Genève, Slatkine Reprints, 1975, vol. I, pp. 83-85. O animal
psicopompo na matéria de Bretanha é muitas vezes branco, mas esse traço nem sempre está presente, facto que é por vezes ignorado pelos críticos. L. Harf-Lancner, por exemplo, apesar de intitular um dos capítulos do seu estudo sobre as fadas «Le blanc cerf, envoyé de l'Autre Monde», apresenta vários exemplos em que o cervo que conduz ao Outro Mundo ou ao encontro com o ser feérico não é branco (cf. Les Fées au Moyen Age. pp. 223. 226. 233).
Os immrama são em geral viagens marítimas ao Outro Mundo; Avalon é apenas a mais célebre de muitas ilhas habitadas por mulheres eternamente belas ou caracterizadas por outros fenómenos maravilhosos.
11 Cf. La Mort le Roi Artu. Roman du XlIIème siècle, éd. Jean Frappier, Genève / Paris, Droz /
Minard, 1964, p. 250. Acrescente-se que as feéricas donzelas da Roches as Puceles, que submetem Galvão e o Morholt a um encantamento e conhecem o futuro, também são doze (cf. Suite, § 496, p. 458).
No romance Floriant et Floriete (posterior a meados do séc. XIII), um cervo enviado por Morgana guia Floriant até ao castelo encantado que ela habita. Ao contrário do que acontece na Suite, o poder de Morgana não é sugerido, mas explicitamente referido pela própria fada: Li cers que vos chacié avez (...)
Fu par moi la de fors tramis. (w. 8231-8233. apud S. Cigada, «La leggenda médiévale del Cervo
Bianco e le origini delia Matière de Bretagne», Atti delia Academia Nazionale dei Lincei, 1965, Série VIII, vol. XII. fasc. I, p. 38).
o padrão e a torre), constituindo invariavelmente o cenário de combates cíclicos que aprisionam o cavaleiro guardião da fonte / torre numa sucessão infinita de combates estéreis, situação sem saída onde ele se encontra por amor a uma dama cruel ou por orgulho.29 Também a agradável fonte da Suite é uma prisão (para onde Accalon foi
inconscientemente atraído), um espaço isomorfo da câmara noire e oscure onde se encontra Artur e do seio de Morgana acolhendo Urien. Como no primeiro romance cíclico, em que a irmã de Artur mantinha Lancelot prisioneiro nas salas do seu castelo e os cavaleiros namorados fechados no aprazível Val Sans Retour,™ Morgana tem todos os traços da fada aprisionadora.
Alguns fólios depois deste episódio, o Morholt, que acompanha Galvão e Ivain até à grande floresta Aroie, mostra-lhes uma fonte que, como ele afirma, on ne trouva
onques sans aventure a nos tans.'1 A fonte encontra-se num vale muito profundo
qui estoit toute plainne de roches naïves, e en mi lieu de celé valee avoit une grant fontainne toute aornee d'arbres, si couroit l'iaue de bien haut.32
Junto da nascente, descobrem três donzelas de quinze, trinta e setenta anos. O narrador explica que a última apiele li contes damoisele non mie pour l'aage, mais pour chou que
elle chevauchait tous jours desliiee. Chamavam-lhe la Damoisele Chenue. E ela que
toma a palavra e desafia os três companheiros, dizendo que eles não hão-de conseguir pôr termo a todas as aventuras da região. Face aos protestos de Galvão, a sua estranha interlocutora propõe que cada um deles escolha uma das donzelas como guia. Ivain, que é o mais jovem e quer pôr o seu valor à prova, é o primeiro a aceitar o repto: terá portanto de acompanhar a mais velha. Galvão guardará a mais jovem, e o Morholt, a do
29 Cf. LP, T. IV, LXX, 1-11, pp. 1-8; LXX1, 66-68. pp. 59-60; LXXII, 33-40, pp. 86-92; LXXVII, 1-6,
pp. 169-172; T. V. LXXXV, 36-48. pp. 26-34; XCI. 2-19, pp. 93-107. O modelo destas cenas está possivelmente em Chrétien de Troves (veja-se Mabonagrain em Erec et Enide ou Esclados le Roux no
Ivain, que combatem pelas suas damas, vencendo sucessivamente todos os adversários que se
aproximam do locus amoenus de que são os guardiães, até serem derrotados pelos heróis epónimos), mas LP associa sistematicamente a este tipo de situação um cenário muito específico.
30 Cf. L. Harf-Lancner, «Le Val sans Retour ou la prise du pouvoir par les femmes», in Amour,
Mariage et Transgression au Moyen-Age. Gõppingen. Kummerle Verlag. 1984, pp. 185-193.
31 Suite, § 435. p. 382.
32 Suite. § 436. p. 382. 33 Suite, § 437, p. 383.
meio. Os três cavaleiros decidem separar-se, não sem antes marcarem um encontro na mesma fonte, ao meio-dia, dentro de um ano/
Estas três donzelas que surgem sós no cenário da aparição da fada apresentam sem dúvida alguns traços feéricos. A idosa de cabelos soltos que desrespeita as conveniências como se vivesse à margem da sociedade dos homens e a quem chamam
Damoisele Chenue, um oximoro que parece traduzir a ambígua relação do mundo
feérico com o tempo,35 parece uma fada semi-racionalizada, tanto mais que aparece
integrada num grupo de três mulheres cujas idades têm certamente um valor simbólico. As fadas apresentam-se por vezes em tríades - provável reminiscência das Parcas, a que também se chamava Tria Faia36 -, tríades que representam frequentemente a mulher nas
três fases da vida/7 É possível que a cena das três donzelas asses diverses en aage da
Suite se tenha inspirado num quadro muito semelhante do Lancelot, onde três senhoras de vinte, quarenta et sessenta anos sentadas junto de uma fonte recebem amigavelmente Guerrehet,38 mas se o processo de reescrita poderá ter tido como base LP, não se limitou