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Os séculos XVIII (finais) e XIX orientam-se para o predomínio dos pintores, cuja acção se prova nos programas artísticos daquelas épocas: rococó e neoclássico.

Recorrendo aos artistas desta vila/cidade e a outros provenientes do exterior, a Santa Casa da Misericórdia de Penafiel desenvolve uma acção mecenática comprovada na sua documentação, principalmente nas receitas e despesas referentes às igrejas da Misericórdia e de Santo António dos Capuchos (anexa ao hospital) e à capela do Senhor (actualmente, somente com fachada).

475 réis para abrir os alicerces do corpo da igreja e 14 000 com os pedreiros. O oficial que acabou o azulejo da capela-mor recebeu 270 réis e o pedreiro Gonçalo Francisco absorveu, pela obra do friso da igreja, para proteger os altares colaterais da chuva, a quantia de 5 250 réis.

Na ensamblagem, sublinhamos trabalhos que revelam polivalência, como Gregório de Sousa, a quem a Santa Casa dá 1 920 réis por quatro dúzias de jarras para os ramalhetes prateados, altar-mor e demais altares (1738) e mais 1 200 réis pelos pés da mesa da casa do despacho (1739).

Joaquim José Pinto, ensamblador, recebe 1 600 réis pelo conserto da grade do coro (1847) e 360 réis de uma perna de pau que fez para uma menina pobre da freguesia de Rande (1848)!

Manuel Ferreira de Figueiredo, imaginário e ensamblador de Penafiel, é ressarcido em 20 000 réis pela sua intervenção (1688) nos assentos da Irmandade e guarda- pós dos altares colaterais da Santa Casa da Misericórdia (1688); no ano seguinte, cabe-lhe 15 000 réis por conta da obra dos mesmos assentos, mais 30 000 réis pelas mesmas obras. No ano de 1696 colabora em obras requeridas para a igreja da Santa Casa: por 70 000 réis faz as cadeiras no coro para assento dos padres capelães e as estantes da frente; e por 3 000 réis conserta a Senhora do Amparo e faz a grade de madeira para as vidraças.

Outros artistas mantêm a igreja de acordo com as motivações da Santa Casa: João de Azevedo, mestre imaginário, é contratado por 130 000 réis para fazer o retábulo-mor e a tribuna da igreja da Santa Casa da Misericórdia (1722).

Aos caixilhos dos quadros da igreja da Misericórdia, pelos quais a Santa Casa dispensou 4 800 réis (1723) ao imaginário João de Azevedo de Oliveira, aditam-se 51 600 réis pela obra do retábulo da capela-mor, por conta dos 100 000 réis em depósito (1724) enquanto a Gregório de Sousa, por 8 castiçais para os altares, coube 1 600 réis (1739), mais 960 réis por duas dúzias de jarras e 3 200 réis por 16 castiçais (1741).

As pinturas do guarda-roupa e das tocheiras, realizadas pelo pintor Manuel Vieira, proporcionaram-lhe um adiantamento de 3 000 réis mais 1 020 réis pelo banco do retábulo do Hospital (1692-1693).

O douramento de um caixilho em madeira, destinado ao altar do hospital, obra feita por Domingos da Silva, maginário, e por um pintor não designado, custou 6 000 réis (1696); 3 500 réis é o valor dado ao pintor Manuel Vieira pelas pinturas que fez na Casa (1700).

João Álvares, pintor-mor em Basto, recebe 2 450 réis por pintar as imagens de Nossa Senhora do Amparo e da Senhora da Conceição, que estavam na Santa Casa, e mais 480 réis de ouro comprado a António Vieira, pintor de Penafiel (1705), que, por sua vez, lhos tinha vendido (1705) e, no ano seguinte, pintou as letras douradas no capitel do altar do Ecce Homo, auferindo 1 000 réis como contrapartida (1706).

No ano de 1722, a Santa Casa da Misericórdia despendeu 3 600 réis com o pintor José Pacheco pelo douramento da peanha do hospital.

para a Santa Casa da Misericórdia, que, entre outros, confere o pagamento de 20 000 réis que restavam das obras feitas no hospital: 3 500 réis do douramento e acrescento feito na tribuna da capela do Senhor do Hospital; 9 000 réis de pratear o lampadário, dourar 86 jarras e outras obras; e 5 200 réis de várias obras dos altares.

Um caso de longevidade assenta em Jerónimo Ribeiro do Vale (1759-1800): pela pintura de uns papéis para a comédia que se fez em acção de graças às melhoras de Sua Majestade, recebeu 360 réis; 2 000 réis por um cento de jarras que pintou para a igreja; o pintor penafidelense encarna a imagem do Santo Cristo do altar do Senhor Ecce Homo por 300 réis; 1 600 réis do douramento do sino; 28 800 réis pelo douramento de seis tocheiras da Santa Casa da Misericórdia; 20 000 réis pela reforma dos serafins da tribuna e outras obras que fez na Santa Casa; 640 réis atrasados da pintura de umas jarras; 700 réis do prateamento de dois ramos de sola e da pintura de umas velas de pau; 9 600 réis pelo douramento de oito jarras para o andor do Senhor do Hospital e Ecce Homo.

Custódio José Ferreira pinta a capela do Senhor do Hospital por 2 400 réis (1769), despendendo a Santa Casa 9 480 réis pelo douramento dos castiçais que se transferiram para o Senhor Ecce Homo (1782).

O pintor Custódio recebeu 9 600 réis por fazer a bandeira da Irmandade (1772); 2 400 réis pelo prateamento da cruz (1781); e 7 740 réis, em parceria com Manuel José Pacheco e seu oficial, por tarefas não especificadas (1782). Retocar um quadro da sacristia do hospital rendeu-lhe 2 600 réis (1782), e por obras não identificadas 9 600 réis (1785). Reparar as insígnias e pratear uns ramos deu para reverter 2 800 réis a seu favor (1788) e 480 réis por encarnar a imagem do altar Santo Cristo (1789).

José Lopes dos Anjos, em 1777, ajustou com a Santa Casa da Misericórdia a encarnação da imagem do Senhor do Hospital por 16 000 réis e 10 500 réis pela limpeza dos quadros da sacristia (1783); por obras feitas no tempo do provedor Teixeira, o artista obtém 17 600 réis (1786) e 5 000 réis pela pintura do nicho da Senhora da Lapa e banqueta (1793-1794).

A parceria de Custódio José Correia e António Ribeiro, concretizada na obra dos assentos e púlpito da Santa Casa, rende-lhes 15 600 réis, no decurso do ano de 1781.

Outra associação – Jerónimo e Tavares – proporciona-lhes uma receita de 13 630 réis pela obra da sacristia da igreja da Santa Casa da Misericórdia (1780-1782), depois de um primeiro pagamento de 3 930 réis pela mesma obra (1781). Individualmente, o pintor Jerónimo arrecada 1 600 réis pelo douramento do sino (da igreja da Santa Casa?), em 1783, e 5 500 réis pelo frontal destinado ao Hospital (1784), mais 480 réis pela pintura de umas tocheiras destinadas à mesma instituição, no mesmo ano. O douramento de uma cruz e dos castiçais do altar-mor permite-lhe o vencimento de 7 120 réis (1790), mais um segundo pagamento de 8 680 réis pelos mesmos objectos e dois corações de Jesus (1790). Lavar as tocheiras douradas e purificá-las, já em 1808, rende-lhe 360 réis. Identificado com uma actividade longa na cidade de Penafiel (1797-1813), onde residia, José Tavares corresponde com algumas obras

Casa da Misericórdia; 50 000 réis da pintura dos altares colaterais; 3 700 réis pelas grades e quadros dos dois altares; 10 000 réis do acrescento na pintura e douramento dos altares da Santa Casa; 37 500 réis, por conta de 80 000, do resto do ajuste do douramento dos altares da Santa Casa; e 42 500 réis pela fracção que se lhe devia do boleto de maior quantia pela cautela que apresentou do tesoureiro relativa ao juro da pintura e douramento dos altares.

Em 1806, José Tavares Pimentel, mestre pintor de Penafiel, recebeu 150 000 réis no primeiro pagamento da adjudicação da pintura dos altares da igreja da Santa Casa [Fig. 6]; enquanto 4 800 réis se referem ao acrescentamento da pintura dos mesmos altares.

4 800 réis foi o preço pago a Francisco Tavares, por conta da encarnação do Senhor do Hospital (1807), mais 4 945 réis das tintas e pinturas das armas da Santa Casa da Misericórdia [Fig. 7] pela sua restauração (1808); por retocar o altar da Senhora (da Lapa), em 1821-1823, obteve 7 200 réis e 8 000 réis pela encarnação de duas imagens da Visitação de Santa Isabel (1826).

Entre 1822 e 1833, Macário José desenvolve um conjunto de tarefas para a Santa Casa da Misericórdia, de que destacamos o averbamento de 2 230 réis com as tintas e o trabalho na capela do Senhor dos Passos; e 1 630 réis por pintar os bicheiros dos altares, escadaria e castiçais.

Em 1826, a pintura do tecto da capela-mor e do arco cruzeiro da igreja da Misericórdia foi suportada por 26 100 réis, verba recebida pelo seu autor, Francisco Tavares da Silva, que aparelhou a tribuna e o altar-mor [Fig. 5], oito sanefas e castiçais, em contrapartida de 30 000 réis, encarnando as duas imagens da Visitação de Santa Isabel.

A pintura e o douramento dos dois caixilhos dos altares do Senhor Ecce Homo e do Senhor Preso à Coluna [Fig. 6] obriga a Santa Casa a despender 7 630 réis com José Joaquim (1833).

Joaquim Macário da Cunha e António da Rocha, caleador, recebem 6 910 réis pelos consertos feitos na Santa Casa da Misericórdia (1848). O pintor obtém 11 965 réis pelas pinturas que fez no hospital (1852), mais 2 130 réis de vários consertos ali levados a efeito, bem como a compostura do painel do camarim da igreja da mesma instituição (1852) e ainda 2 455 réis por encarnar uma imagem do Senhor para os altares [Fig. 6]. Os arciprestes do andor do Senhor do Hospital e o douramento e pintura de uma cruz resultaram num estipêndio de 8 000 réis (1855).

Conclusão

Penafiel assume-se como um pólo regional de artistas e artífices, predominando os pintores nos períodos do rococó e do neoclássico.

As marcas mais relevantes, dentro e fora de Penafiel, devem-se a Manuel Ferreira de Figueiredo (ensamblador e imaginário – 1692 e 1700); António Vieira Leal (pintor – 1715); Manuel Ferreira Rangel e José Pacheco (pintores – 1717); João de Azevedo

– 1744); José Tavares Pimentel (pintor – 1806); Francisco Tavares (pintor – 1807, 1808, 1826); Joaquim Macário da Cunha (pintor – 1852).

O mecenato da Santa Casa da Misericórdia de Penafiel promove a arte da talha, pintura e douramento de uma forma muito vincada, ainda hoje presente nas igrejas da Cidade, porquanto a intervenção da DGEMN, durante o Estado Novo, não se fez aí sentir.

Fig. 1 – Felgueiras. Igreja do mosteiro de Caramos. 1692. Manuel Ferreira de Figueiredo

[ensamblador]. Retábulo-mor.

Fig. 2 – Marco de Canaveses. Igreja do mosteiro de Vila Boa do Bispo. 1700. Manuel Ferreira de

Figueiredo [imaginário]. Retábulo-mor e colaterais.

Fig. 3 e 4 – Marco de Canaveses. Igreja de Sobretâmega e de S. Nicolau. Douramento das tribunas.

Contratos sem efeito. 1715. António Vieira Leal [pintor]. 1717. Manuel Ferreira Rangel e José Pacheco [pintores].

Fig. 6 – Penafiel. Igreja da Santa Casa da Miseri-

córdia. 1806-1813. José Tavares

Pimentel [pintor]. Douramento e pintura dos altares colaterais [e dois laterais], púlpito e guarda-vento.

Acrescento na pintura e douramento dos altares. 1852. Joaquim Macário da Cunha [pintor]. Encarnou uma imagem do Senhor para os altares

[colaterais e laterais].

Fig. 7 – Penafiel. Igreja da Santa Casa da Misericórdia. 1808. Francisco Tavares [pintor]. Pintura das armas da sanefa do arco cruzeiro. Fig. 5 – Penafiel. Igreja da Santa Casa da

Misericórdia. 1722. João de Azevedo, [imaginário].

Retábulomor e tribuna [desaparecido]. 1826. Francisco Tavares [pintor]. Aparelhou a tribuna e o retábulo-mor, oito sanefas e castiçais da Santa Casa.