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No início do século XXI, o atual contexto nacional e internacional se caracteriza por importantes mudanças. Há transformações fundamentais na concepção de vida, visão de mundo, sistemas, significados e valores que guiam a conduta de cada indivíduo. Essas mudanças estão afetando as esferas do público e do privado, o institucional, o simbólico, o cotidiano, ou seja, estão mudando as bases sobre as quais se tem desenvolvido até agora o modelo cultural da sociedade industrial.

O conhecimento deixa de ser uma alternativa racional de acesso à compreensão do mundo e gerador de certezas, passando a instaurar o princípio da dúvida. Dessa forma, é possível perceber que esse é um processo que gera incerteza existencial no indivíduo e dúvidas sobre o futuro.

Certamente, as mudanças em curso causam impactos, especialmente nos jovens, uma vez que atingem toda a sociedade em que eles vivem. As radicais mudanças na forma de ser, de sentir, de agir e de planejar, particularmente dos jovens, têm sua interpretação nas transformações da sociedade, que vão além da revolução tecnológica. Esta as possibilitam e os jovens atuam sobre ela imprimindo-lhes a sua marca, seja por meio de comportamentos tidos como desejáveis pela sociedade, seja por “desajustes sociais”.

Existe uma alteração na subjetividade que está relacionada com a aquisição, cada vez maior, de uma idéia em nível mundial, uma sensação que o mundo está encolhendo, unida à impressão da simultaneidade e da ampliação do presente, em virtude de mudanças

que ocorrem na percepção do tempo e do espaço, fruto da possibilidade de comunicação instantânea e da capacidade de conhecer diferentes culturas, o que muda o posicionamento do indivíduo diante do mundo. Assim, o presente passa a ser o único momento importante da existência. Melucci (1997, p. 7) argumenta que o tempo é uma questão chave nos conflitos e mudanças sociais e que a juventude, ao se situar biológica e culturalmente, em íntima relação com o tempo, passa a representar um ator crucial, interpretando e traduzindo para o resto da sociedade um dos seus dilemas conflituais básicos.

Atualmente, os jovens vivem nesse contexto cultural, que constitui o seu espaço vital e experimental sendo difícil para eles imaginar a maneira de viver das gerações anteriores ou, até mesmo, compreender as mudanças ocorridas de forma vertiginosa nos últimos anos.

Quando se compara a maneira de ser jovem das gerações atuais com a maneira de ser jovem das gerações anteriores, é comum utilizar adjetivos que, juntamente com outros fatores, servem para estigmatizar os jovens atuais como “problemas”. Sob as lentes da sociedade são vistos, erroneamente, como hedônicos, apáticos, descrentes, sem ideologia, indiferentes. Por outro lado, é comum os adultos atribuírem aos jovens problemas, desejos e expectativas que nem sempre são seus, mas criados pelo imaginário dos que já transitaram por essa fase, em outro momento histórico, diferente do atual.

O resultado dos processos globais é uma grande heterogeneidade cultural, os roteiros culturais que circulam em escala global causam impactos, retêm, inserem-se, mas também se infiltram nas tradições culturais e nas formas de viver. Conseqüentemente, os jovens, ao mesmo tempo que se reconhecem como integrantes de uma geração global, com características de cultura, comportamento e consumo semelhantes, correm o risco de perder a sua identidade local, de substituírem suas tradições e culturas.

Comumente, ouve-se a afirmação de que os jovens perderam os valores porque os ideais de individualismo, hedonismo e o consumismo passam a prevalecer sobre as tradições e os princípios familiares, escolares e religiosos.

A juventude é parte de uma sociedade global essencialmente nova, com novos princípios e objetivos, portanto, não se trata de uma crise de valores condicionada pelos jovens, sendo a oposição entre as novas e as velhas formas de comportamentos que se colocam como um problema, cuja responsabilidade se atribui aos jovens.

Também é certo que a crise de valores não é causada pelo acesso à informação global, mas pela incapacidade da sociedade local em gerar novos valores, normas e deveres que sejam considerados legítimos e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de defender os

valores já existentes, assim, pode-se afirmar que a chamada crise de valores é conseqüência das práticas e dos comportamentos de todos os membros da sociedade.

No cotidiano, os jovens, com seus objetos, roupas, adereços e relacionamentos, constroem-nos com sentidos próprios. O sentido não está no entorno, na família ou em instituições, os jovens reconstroem sentidos por si mesmos. Porém, eles se apóiam em fragmentos de sentido provenientes de outras instâncias, como a mídia que pode ser apontada como grande geradora de sentidos.

Os jovens imprimem, em determinada época, os mais marcantes símbolos, por suas condutas, inconformidades com os padrões vigentes e manifestações culturais. Diferentemente dos demais grupos, ao mesmo tempo em que possuem condições de mudar a ordem vigente, apresentam potencial para expor os anseios do universo social a que pertencem. Frank (2002) afirma que a mídia e a indústria cultural utilizam essa maneira revolucionária dos jovens olharem o mundo, para vender os seus produtos, qualquer produto – do carro de passeio ao tênis, passando pela soda limonada aromatizada – deve ser apresentado como parte do equipamento indispensável de uma juventude rebelde. Mesmo que em diversos casos a juventude não esteja simbolizando a realidade social, a maneira como se porta indica caminhos a serem percorridos, falhas ou crises.