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Na forma como o ensino médio pode melhorar a vida dos jovens

Apesar do ensino médio ainda não ser obrigatório no Brasil, a tabela 1 apresentada na parte 3, resultado do censo escolar de 1998, aponta um progressivo crescimento nas taxas de matrículas no ensino médio, porém, longe está da universalização desse nível de ensino. No entanto, para uma grande parte dos jovens, sua trajetória rumo ao mundo adulto tem passagem pelo ensino médio. Também já foi mostrado que os jovens que participaram dessa pesquisa pertencem às camadas pobres da população brasileira e, por isso, o único acesso à educação é via ensino médio público. O que o ensino médio pode oferecer para melhorar a vida desses jovens? Os professores fazem as seguintes observações:

Para melhorar? Bom, primeiro a gente vai tentar levá-lo para um vestibular, né? E o certificado é importante, precisa do certificado do ensino médio, eu acho que tudo que você puder passar para eles de informação, o máximo que você puder dar de informação, vai servir para a vida deles, pro dia a dia, para ele conseguir um emprego, uma oportunidade de trabalho, um concurso, então seria tudo o que você puder dar para informá-lo mesmo né? Trabalhar com eles, regatar os valores, trabalhar a cidadania, tudo que puder né? Torná-lo participativo, crítico, realmente as vias de fato, eu acho que tudo. Não é só conteúdo, mas ajudar a formar o caráter dele, principalmente. (Marta, 50 anos, professora de Inglês da escola Província).

Informação e preparação para o futuro, para a vida. É a escola que dá a base para ele né? Porque pai e mãe, eles dão carinho. Carinho, amor, as necessidades básicas, supre as necessidades e dão os exemplos, mas ele

encontra mesmo, ele vai formar, a formação dele, da personalidade, vai ser formada dentro de uma escola, ao lado dos professores e dos colegas de classe. (Rosa, 46 anos, professora de Química, da escola Metrópole). Olha! Eu acho que o professor do ensino médio, ele, nós ainda estamos perdidos naquela questão assim, você não sabe se você trabalha é pensando em vestibular e pensando em concurso, muitas vezes eles falam assim, não tem que preocupar com conteúdo, mas se o menino for prestar vestibular, ele precisa de conteúdo, então nós estamos ainda nessa, nós ainda estamos preocupados com a questão do conteúdo, então a gente trabalha pensando que esse aluno pode precisar disso para prestar um concurso ou para prestar vestibular, para entrar numa boa faculdade, a gente tenta e também a gente tenta adequar o que a gente ensina ao dia a dia dele né? (Ana Helena, 38 anos, professora de Física, da escola Província).

Novamente, notam-se as contradições existentes na escola pública de ensino médio, que são muitas vezes fruto das constantes mudanças pelas quais passou a escola pública, nos últimos anos. A reforma do ensino médio ocorrida após a aprovação de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/96 objetiva a criação de uma escola destinada à formação de jovens para o mercado do trabalho, e não se propõe a oferecer uma educação no seu verdadeiro sentido, incluindo educação científico- tecnológica, que permita ao jovem a possibilidade de mudar sua trajetória social, conquistada pelo seu desempenho em uma escola cujo projeto pedagógico, efetivamente democrático, ofereça-lhe condições para adquirir e estabelecer relações com o conhecimento sistematizado, integrado e não parcelado e excludente.

A dúvida dos professores repousa entre duas alternativas, a primeira preparar o aluno para prestar vestibular de ingresso em universidade pública e/ou prestar concursos públicos, a segunda alternativa trabalhar conteúdos que estejam presentes no seu cotidiano. O slogan da reforma do ensino médio, “o ensino médio agora é para a vida”, acaba por gerar mais confusão entre os professores, que entendem que preparar para o vestibular não é preparar para a vida, e preparar para a vida não inclui preparar para o vestibular. Na verdade, os próprios professores, por desconhecerem a finalidade do ensino médio, por desconhecerem as expectativas dos alunos, acabam por desenvolver um trabalho sem propósito, sendo necessário, e urgente, recuperar o sentido da falta de propósito do trabalho cotidiano docente.

Dos escritos de Gramsci destinados à compreensão da sociedade e da cultura, uma das contribuições mais reveladoras provavelmente seja a demonstração de que não é possível transformar estruturalmente a sociedade, sem que esse processo se articule através

da “reforma intelectual e moral” (GRAMSCI, 1976, p. 8-9). Nesse sentido, a clareza do propósito do trabalho docente pode produzir a consciência crítica e transformadora do jovem, que só pode ocorrer a partir da apropriação de uma visão de mundo elaborada, que vai além do vestibular e do cotidiano, mas a partir da apropriação de uma ideologia que esteja comprometida com a construção de uma nova ordem social, Gramsci, a esclarece como “uma concepção do mundo que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas” (1991, p. 16).

A transformação é principalmente realizada a partir da valorização da experiência vivida como um processo intersubjetivo, cuja essência material e simbólica revela-se nos contextos sociais e institucionais que estão presentes no cotidiano do jovem e que representam as condições de possibilidades de sua própria transformação, quando emanadas nesses mesmos contextos sociais e institucionais.

Nesse sentido, a escola como contexto institucional é presença nuclear na vida do jovem, e, se nela há vários descompassos e contradições, certamente, esse fato é gerador de enormes prejuízos para a eficácia do processo de ensino/aprendizagem, em sua desejável contribuição para a transformação social.

Sem a intenção de discutir ou criticar a formação dos professores, o que se nota, apoiado nas entrevistas, que revelam que a graduação e alguns cursos de especialização oferecidos pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, tal como a “Teia do saber”, são os níveis mais altos de qualificação dos professores, que não conseguem estabelecer posturas críticas sobre o conjunto de práticas relativas às atividades propriamente pedagógicas, é que os professores carecem de leitura de trabalhos teóricos, em que possam embasar sua prática pedagógica e entender com nitidez os fatos, as relações políticas e sociais que se estabelecem na convivência social dos agentes presentes no interior da escola e, dessa forma, perceber que a finalidade do ensino médio não é só, mas também, o vestibular, o concurso, a informação, o conteúdo, o cotidiano, o conhecimento sistematizado e, principalmente, uma formação completa e transformadora e que esta é a expectativa do aluno, e é nesse sentido que o ensino médio pode, e deve contribuir para melhorar a vida de milhões de jovens que freqüentam a escola pública de nível médio.

É de fundamental importância a aquisição de conhecimento para uma formação transformadora, que de forma mais ampla é explicada pelo educador português:

o conhecimento é um meio de denúncia das contradições, da organização da consciência de classe, a activação da luta revolucionária e da superação das contradições com vistas à reconciliação da espécie. (MATOS, 1999, p. 41).