3 FILOSOFIA E LITERATURA: A LINGUAGEM EXPERIMENTANDO A EXISTÊNCIA
4.4 LITERATURA: LINGUAGEM DE ALTERIDADE
4.4.1 A linguagem: uma atitude para com o Outro
Sartre, em O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica, publicado no Brasil pela primeira vez em 1997, afirma que a linguagem não é fenômeno ao ser-Para-outro, é originariamente o ser-Para-outro (SARTRE, 2015a, p.464), é a experimentação do eu como objeto para o Outro. Ao decidir ser linguagem, o eu entrega toda a sua subjetividade para a própria linguagem para assim se ver a si mesmo, ouvir-se a si mesmo. Mais do que um elo de comunicação com o Outro- leitor, portanto, a linguagem é fenômeno autônomo nessa relação de alteridade. Antes de, como foi visto anteriormente, metafisicamente, buscar a comunicação com o leitor (que e outro grau assume a função de Outro), o escritor busca na linguagem literária uma forma de se traduzir no que de si recebe da linguagem.
Ainda segundo o filósofo, é porque adquiro condições de experimentar minhas possibilidades e dar sentido aos meus atos em vida é que “eu sou linguagem” (SARTRE, 2015a, p.465). Aí – e apenas nesse sentido – o autor entra em concordância com o pensamento de Heidegger, que declara ser o eu o que diz.
Ou seja, minha subjetividade é totalmente experimentada na linguagem e minha transcendência é transcendida no ato da linguagem, e posteriormente tudo isso é confirmado pelo leitor (outra categoria de Outro nessa relação de alteridade), como se viu no tópico anterior.
A linguagem em CL já é um princípio autônomo de significação capaz de escapar de si e tornar-se maior do que o próprio eu que se diz. Isso a faz entrar em um novo desespero, porque não se encontra preparada para ser aquilo que se formou de si na linguagem. Ao se traduzir a si mesma, a autora toma posse de sua subjetividade; mas o eu não se encontra preparado para se deparar com sua própria essência. Por isso o conflito que vive G.H.: não sabe viver com o que descobriu que é. A linguagem aqui é conflito.
Se, como nos faz crer Foucault (2006), Clarice não está como autora em seus escritos, se a ela não pertence sua obra, o próprio Foucault, também, nos leva a afirmar que no conjunto de sua obra, ou seja, de sua discursividade, CL deposita inteiramente seu eu na produção de seu discurso existencialista formado pelo conjunto de sua obra. Nesse despojar-se de si mesmo, a autora entrega seu eu a si mesma em um elo constituído pela linguagem organizada de maneira literária. Na construção de um discurso existencialista, ela necessita atingir todas as camadas
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que compõem o seu eu. É por isso que em suas obras é possível perceber seu desejo de possuir sua animalidade; seu medo, suas angústias, suas dúvidas sobre a vida; seu medo sobre a morte, sua relação com Deus, com o divino, com o sagrado; sua necessidade constante de ser com o Outro; sua própria reflexão à cerca da composição da arte literária.
Claro que não se diz aqui que o leitor que entra em contato com essa literatura terá apenas informações sobre a vida de um ser chamado Clarice Lispector. Todos esses pontos reflexivos que são próprios da autora tornam-se, também, próprios do leitor ao iniciar o exercício da leitura. É claro que a obra, ao ser feita, pertence ao leitor, é ele quem buscará sentido às palavras que possui em mãos. Isso é o que diz a própria autora na dedicatória de A paixão segundo G.H., o leitor de alma já formada viverá seu próprio drama existencial no decorrer da leitura, o que faz da literatura de Clarice uma literatura universal.
Ela é a tradução do drama existencial de todo ser humano. No entanto, o que não se pode negar, é que essa transformação de alma do leitor é possibilitada por meio de um processo já vivido, experimentado em sua essência, por uma autora que fez da literatura um exercício de autocompreensão e uma experimentação essencial da existência. Nesse viés é que o autor alcança o leitor, é obvio, pela linguagem.
Não se está dizendo, como fica claro, que se o leitor não souber o drama experimentado pela autora, nesse caso, não vivenciará sua própria experiência existencial suscitada pelo relato de G.H. Essa é uma relação que deve ser entendida em um estudo aprofundado da escritura da obra, como se está fazendo aqui.
Retirar, pois, a função autor da escrita de CL é, mais do que tornar órfão todo um projeto existencial da literatura, é desconstruir a relação metafisica presente entre a literatura e Clarice Lispector, para quem não escrever era estar morta, era não viver, não possuir isso que se chama existência.
Toda a complexidade do que se expõe aqui deve ser entendida levando-se em consideração que CL foi a propulsora de uma nova maneira de produzir literatura no Brasil do final do século XX. Até então, não se viu no país um projeto bem articulado, complexo e completo de uma literatura existencial como o que foi composto por ela.
Daí a incompreensão dos que, contemporâneos a ela, analisaram sua obra. Faltaram a eles a articulação entre a experiência vivida pela autora e a experiência a
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ser vivida, também, pelo leitor. Ambos, juntos, em uma metafísica proposta pela linguagem (= pela obra) vivenciam na plenitude a experiência da existência. É o que Helana (2010, p.133) chama de química da linguagem que transforma a escrita num acontecimento. Ela afirma que
nas mãos de Lispector, a linguagem deixa de ser apenas um meio de comunicação, para alçar-se à condição de algo indispensável à existência. As palavras de que se utiliza ganham corpo e volume e designam, interpretam e questionam, de forma sagaz, os seres e o estar no mundo. É dessa linguagem em alta voltagem – provocadora de mal-estar, angústia e sobressaltos – que se tece o ambiente aparentemente simples, ao mesmo tempo sensível e, por vezes, intelectualizado, de suas personagens.
A escrita de si apresentada na escritura de Clarice não é a mesma presente nos hyponematas e nas epístolas estudadas por Foucault. Os hyponematas representam uma relação de fora para dentro, ou seja, ao fazer as anotações do que via, sentia, experimentava, vivia, o sujeito esperava em outro momento voltar a seus escritos e após refletir sobre eles tomar decisão que mudaria seu posicionamento em vida. As epístolas eram textos nos quais seus autores se manifestavam aos outros por meio da súplica, reflexão, exortação, uma maneira, pois, de atuar sobre o outro no exercício da escrita. Ambos os textos exerciam sobre o autor o exercício de autoexame necessário para uma conduta de vida social como recomendava Sêneca. A escrita de si proposta por CL, em um movimento contrário, percorre um caminho de dentro para fora. O eu que se apresenta nesse tipo de literatura revira seu mais profundo interior e, somente quando possui a essência de sua individualidade, o nada, deixa-se transparecer na linguagem em busca de um entendimento que só será alcançado no olhar do Outro que a lê. Somente quando toma posse de seu nada existencial é que a autora se insere no contexto social de sujeito que passa a se analisar e a se determinar a partir do comando do outro-leitor. É por isso que o relato é narrado no tempo passado: o drama existencial experimentado na linguagem toma forma um dia após a experiência vivida. Ou seja, transformada em “forma” (linguagem) a vida pode ser compreendida e vivenciada em sua essência, o que será alcançado na relação do sujeito que escreve com o sujeito que ler.
A literatura existencialista de Clarice torna, pois, esse caráter endógeno, o eu se transforma na própria linguagem para dela abstrair sua própria identidade. Nesse
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viés é que se tem a linguagem como o outro estabelecendo uma alteridade com o eu que se põe como objeto e toma posse de sua subjetividade na e pela sua escritura.
Com uma literatura bastante intimista, Lispector, ao fazer um passeio dentro de si mesmo, acaba convidando o leitor a adentrar seu próprio universo interior e a via de acesso para a concretização desse processo é a escrita, em sua expressão artístico-literária. O que acontece com a romancista é que ela se faz linguagem para adentrar o seu íntimo e, assim, alcançar o mais profundo da sua alma. Esse processo se configura por meio de uma relação de alteridade, autora e leitor constituem, juntos, a significação do texto literário. Clarice utilizou a escrita (ou foi utilizada por ela?) para reflexionar sobre as questões mais íntimas e profundas da existência humana. E é aí que, apesar de traduções de uma vida individual, sua escrita torna-se literatura global de primeiríssima qualidade. Ao tratar de seus dramas pessoais, Clarice leva seus leitores a refletirem sobre a existência de modo geral. É que por meio da individualidade, ela atinge questões universais: o que é a vida? Vale mesmo a pena viver? É melhor viver ou morrer? Deus existe? Não que seus vários romances e contos sejam uma resposta imediata a esses questionamentos, mas por meio de sua escrita podemos buscar, não respostas, mas reflexões mais aprofundadas sobre esses pontos.
É por isso que ao se analisar atentamente a literatura produzida por Clarice é necessário reviver toda a sua experiência de vida. Encontrar-se-á sempre nos escritos clariceanos a vida da autora. Mas isso não se dá pelo fato de ela ter produzido autobiografia, como fez sua irmã, Elisa. A vida de Clarice está profundissimamente marcada em suas produções literárias por essas serem manifestações de vida, manifestações da experiência do “existir”.
Não se defende com isso que Clarice produziu simples textos autobiográficos. Aqueles que apresentam datas de nascimento, de publicação do primeiro livro, do seu casamento, do nascimento de seus filhos etc. Clarice não noticiou sua vida em seus textos. Ela procurou tecer uma reflexão sobre a vida que possuía em suas mãos. A escrita clariceana não é um álbum de fotografias da autora, mas sim uma escrita sobre a vida, sobre seu próprio modo de viver a vida, a existência. Esse exercício para ela é um modo de existir; de refletir e encontrar razão para “o estar no mundo”, para o “ser algo carregado de vida”.
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Em Clarice, o ato de escrever é, pois, inerente ao falar de si: era impossível não se tornar a própria linguagem ao tratar a linguagem. Autor e linguagem se mesclam em um processo metamórfico de tradução da existência. A autora se esconde por meio da linguagem, sendo esse o único sentido que ela encontrou para escrever. O falar de si mesma parece ser o motivo de existir a Clarice Lispector escritora, isso porque ao fazê-lo ela expõe sentimentos, sensações. Escreve sentindo, sente escrevendo: “Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima” (LISPECTOR, 1984, p. 153).
Esse “falar de si” como marca registrada de sua escritura encontra-se plenamente na dificuldade que ela apresenta de se separar de seus narradores. Uma grande característica dessa escritura é a diluição entre autor e personagens. Esses dois elementos literários, em CL, são uma só figura literária. E isso está longe de ser um defeito. Ao contrário, trata-se de uma nova forma de fazer literatura.
No entanto, esse exercício de escrever sobre si mesma constitui-se de uma cilada para a autora. Ao falar de si, ela tenta fugir de si mesma, ou fugir daquilo que existe dentro dela pulsando como forma de vida. Fuga que constitui o que Sartre chamou de má-fé, ou seja, a mentira a si mesmo que gera a negação do si. Mas por que isso acontece? Deixemos o filósofo existencialista nos responder:
Por certo, para quem pratica a má-fé, trata-se de mascarar uma verdade desagradável ou apresentar como verdade um erro agradável. A má-fé tem na aparência, portanto, a estrutura da mentira. Só que – e isso muda tudo – na má-fé eu mesmo escondo a verdade de mim mesmo (SARTRE, 2015, p. 94).
Mas quem esconde a verdade é porque a possui. A verdade do ser é que incomoda o ser. Saber de si é ser desnudado e se ver sem nada que possa esconder sua individualidade, principalmente porque essa verdade é descoberta frente ao Outro. A nudez de si frente ao Outro é que causa estranheza e farto desajuste.
Fugindo de si mesma, ela consegue refletir sobre seus dramas, seus medos, suas emoções. E para se esconder de si mesma diante do Outro ela inventa outros nomes, outras profissões, outros mundos diferentes escondendo-se na escrita, cuja funcionalidade é a de servir de instrumento para se sair de si e, assim, analisar a si mesma. Mas nessa fuga, ela acaba se entregando; acaba deixando claro que ela é a própria história narrada.
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O que se vê em Clarice é, pois, uma profunda mentira. Não a mentira como malandragem, como criação de inverdades. CL finge. Mas o que faz o poeta senão fingir? Nessa condição de poeta, de artista da palavra, finge não falar de si, finge a existência de uma vida em paralelo, personificada por meio dos mais variados personagens. Finge não ser dona da mão que desliza a pena no papel para criar vida literária. Tudo mentira. Utiliza da má-fé para esconder-se a si mesma.
Nesse fingimento, acaba desabrochando-se como uma flor, que ao nascer nos convida a penetrar o seu interior, como abelhas a extrair seu néctar, enfim, penetrar na beleza que há dentro de si. Acaba se mostrando para seus leitores. Por meio das palavras, da criação literária, Clarice propõe conhecê-la, propõe que mergulhemos no “nascedouro do espírito que [lhe] habita” (LISPECTOR, 1999, p. 17). Ao dar fala aos seus personagens, acaba se avessando, escancarando o seu “ser” - da forma mais brutal que se possa imaginar - a sua outra face, o seu interior, acaba se mostrando não só para o leitor, mas, principalmente, para si mesma. E esse avesso deixa-se transparecer em sua linguagem. Não que ela escreva difícil. Ela não é hermética, como o leitor leigo quer fazer crer. Ela toda é avessa de si mesma quando escreve e para isso utiliza também uma linguagem avessada, ou seja, “um amontoado de fatos em que só a sensação é que explicaria.”. (LISPECTOR, 1999, p20). Para lê-la necessário é, pois, utilizar os sentidos e descobrir o sabor de suas emoções.
A linguagem constitui-se, então, nessa proposta, de condição básica para a existência de um ser que a utiliza transformada em arte literária para se dizer ao Outro e desse receber a chave que desvenda o segreda da vida.
Há, nessa literatura proposta por CL, o eu que se diz a si mesmo em sua relação constituída com o Outro que pratica o exercício da leitura. Nessa escrita não são os personagens que se desdobram em “eus” previstos no mundo material para se constituírem como simples elementos literários; há um eu que se desdobra em personagens e em situações de si mesmo na construção de uma literatura transmitida ao Outro que a lê e nesse exercício constitui a confirmação do eu dito.
Outra questão séria que deve ser levada em consideração aqui é por que narrar? Por que decidiu Clarice Lispector transformar sua vida em linguagem? Benedito Nunes, em A clave do poético (2009), chama atenção para o fato de que essa necessidade surge como vocação – no sentido etimológico do vocábulo
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vocare, chamamento – que “nasce de impulso irrefreável, objeto de desejo penetrando a linguagem e reproduzindo-se através do tempo” (NUNES, 2009b, p.2007). É a condição básica da apreensão da total liberdade que possui o ser da escritora. Nunes afirma ainda:
sempre inseparável de uma intenção expressiva, o que impulsiona o dizer em Clarice Lispector se desprende da necessidade de contar histórias, da disposição para construir um mundo de acontecimentos, inerentes aos mitos, às sagas e ás epopeias. [...] Para além da mimese dos acontecimentos, a intenção de exprimir-se, excedendo a fábula, recondiciona a atitude da escritora a uma preliminar exigência lírica no uso da linguagem (NUNES, 2009b, p. 207-208).
Esse pensamento de Benedito Nunes corrobora com o que se diz nesta dissertação. Clarice não escreve simplesmente para fabular, narrar acontecimentos míticos, nem tampouco se preocupou em transformar a realidade humana em literatura, sua escrita surge pela busca incessante de ser alguma coisa; pela necessidade que tem de se dizer a si mesma e enxergar no dito sua verdadeira identidade, ainda que isso custe passar pela provação de uma experiência dolorosa e sofredora; ainda que para se chegar a sua essência seja necessário alcançar sua anulação humana e se encontrar com sua animalidade própria; ainda que se tenha que passar pela vergonha do despojamento e entregar ao Outro sua total liberdade, em um desprendimento de sua individualidade.
Essa linguagem de CL a que se alude aqui é a linguagem como espelho da existência dita por Sartre: “a palavra, que arranca o prosador de si mesmo e o lança no meio do mundo, devolve ao poeta, como um espelho, sua própria imagem” (SARTRE, 2015b, p.21).
Depois de se ter visto a relação existencial entre CL e a linguagem, é chegada a hora de se observar outra questão: o estilo. Afinal, como nos diz Sartre, “ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o estilo, decerto, é o que determina o valor da prosa” (SARTRE, 2015b, p. 30). Analisar a forma que Clarice dá à linguagem não é menos importante do que se estudar a relação existencial que ela estabelecia com a literatura; muito pelo contrário, se ela decidiu fazer de sua existência linguagem pura, faz-se necessária uma análise de que tipo de linguagem ela lançou mão nesse processo. É o que se fará a partir de agora.
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