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A literatura como construto da Identidade.

Capítulo IV – Da Literatura Macaense

4. A literatura como construto da Identidade.

“Macaense/ que te (in) defines / pelo não ser bem/ que também não és, bem... / um mais ou menos/ entre dois polos / que se atraem/ e se repelem/ pela diferença/ no desconhecimento/ divergente./ Fronteira difusa/ num mar de gente,/ tão transparente/ e frágil que se esquece./ Por ti passam/ calcando,/ e tropeçam/ no gemido/ silencioso / e sentido. / Miragem/ de olhos postos no Ocidente/ e coração suspenso./ A queda livre,/ no abandono/ de um voo/ sobre o mar / difuso/ difuso/ a apagar-se...” (Cecilia Jorge)

Numa abordagem genérica, a literatura macaense pode ser entendida como uma discursividade que se consubstancia na interação de duas culturas diferentes, na qual subjaz a estratégia de integração de uma nova cultura parcialmente desenraizada da cultura de origem. Assim ao textualizar a relação com o Outro, ao representá-lo, a literatura, não só, constitui um dos seus elementos fundamentais, como permite representar a realidade cultural alógena através da qual se constrói a perceção da imagem de si mesmo85.

Olhar a identidade como uma construção discursiva cuja tessitura é urdida pelos liames que permitem a (auto) distinção e o (auto) (re) conhecimento, sendo a literatura um dos veículos de construção e manutenção da identidade86. A

85 “Identity is always a temporary and unstable effect of relations which defines identities by marking

differences.” (Grossberg in Hall; 1996: 90)

86 “Identity is a structured representation which only achieves its positive through the narrow eyes of

the negative. It has to go through the eye of the needle of the other before it can construct itself” (Hall; 1991:21)

identidade constrói-se pela partilha das significações que contextualizam o indivíduo socialmente. Essas significações congregam o sentimento de pertença e subjazem à definição dos traços distintivos (como a etnia que segundo Hall constitui-se nas características culturais que permitem a identificação de uma comunidade como única: a religião, o costume, tradições e o sentimento de lugar que permitem ao indivíduo reconhecer-se como parte integrante de uma comunidade). A identidade é um lugar que se assume, uma amálgama de posição e contexto; de todo se pode considerar uma essência ou substancia a ser analisada:

Identities are therefore constituted within, not outside representation. They relate to the invention of tradition as much as to tradition itself, which they oblige us to read not as an endless reiteration but as ‘the changing same’ (Gilrroy: 1994): not the so- called return to roots but a coming-to-terms-with our ‘routes’. They arise from the narrativization of the self, but the necessarily fictional nature of this process in no way undermines its discursive, material or political effectivity, even if the belongingness, the ‘suturing into the story’ through which identities arise is, partly, in the imaginary (as well as the symbolic) and therefore, always, partly constructed in fantasy, or at least within a fantasmatic field. (Hall; 1996:4)

As representações têm um papel importantíssimo no desenho das significações construtoras de identidade. “Precisely because identities are constructed within, not outside, discourse, we need to understand them as produced in specific historical and institutional sites within specific discursive formations and practices by specific enunciative strategies.” (Hall; 1996:4) A cultura expressa a produção de bens simbólicos descritores de identidades; a literatura é por isso forma de representação identitária.

Nos textos de Senna Fernandes, são muitos os segmentos textuais que, por vezes, nos vão dando o apontamento identitário da diferença, a representação imagética de uma identidade territorial construída pelos liames que vão ligando culturas e os transformam em tessitura nova. A denotação de uma vivência, outra, mantendo o que da herança cultural se considera importante, carreando o urdir da

ideia de identidade coletiva que, no caso macaense, se mostra inquieta87 na

incessante busca que permita a identificação.

É pela descrição de um espaço apropriado na pertença, em rituais experienciados numa vivência comum que Senna Fernandes nos revela uma realidade partilhada, interpretada e construtora da imagem da sua comunidade: a comunidade macaense. Ao longo das suas narrativas, são inúmeros os episódios de representação do ambiente social de Macau, sendo manifesta uma especial focalização na representação de um determinado grupo social – a burguesia macaense, que nos surge na caraterização das suas personagens: o que pensavam, como experienciavam a sua religiosidade, de que modo era feito a apropriação do espaço/ território; como se vestiam; que momentos festejavam; como falavam; o que comiam, quem eram os seus heróis, por que valores se regiam em termos de hierarquização de género; que relações se estabeleciam entre os vários grupos sociais constituintes da comunidade, como viam e se relacionavam com o outro; os seus habitus, as suas trajetórias, os seus capitais, em suma, como vivenciavam o seu ser e estar macaense.

A identidade étnica consubstancia-se em atributos históricos e simbólico – culturais; uma comunidade étnica é congregada através de ‘mitos de descendência’ e de memórias históricas (o mito de descendência dos Frontaria88

em Amor e Dedinhos de Pé; a referência pelo autor ao título nobiliárquico da sua família em Mong-Há, a alusão recursiva, que perpassa as obras de Senna Fernandes, à Igreja de Santo António numa isotopia que metaforiza o lugar de nascença do autor em berço de fundação); e é reconhecida pela sua diferenciação em relação ao outro. Os textos do autor, sejam narrativas ficcionadas ou excursos de memórias, contêm as representações prismáticas da identidade de uma comunidade fruto de encontros e desencontros entre comunidades étnicas diferenciadas.

87 A ideia de identidades inquietas é de Carlos Diogo Moreira, e reporta-se a identidades “ à procura

delas próprias, exigindo um esforço constante de decifração” (Moreira: 2007:147)

5. A obra de Henrique de Senna Fernandes como