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A luta dos somalis pela liberdade, 1897 ‑

No documento HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA (páginas 123-127)

Sayyid Muhammad nasceu em 1864. Aos sete anos conhecia a fundo o Alcorão. Aos 19, deixou a casa paterna para ir estudar nos principais centros de cultura islâmica da África oriental, Harar e Mogadíscio. Também se acredita que ele se aventurou até as praças -fortes mahdistas de Kordofan, no Sudão46.

Em 1895, Sayyid partiu em peregrinação a Meca e passou um ano na Arábia, visitando igualmente o Hedjaz e a Palestina. Em Meca estudou com o xeque Muhammad Salih e entrou para a sua seita, a Ordem de Salihiyya. É provável que essas diferentes estadas no mundo muçulmano o tenham posto em con- tato com as ideias preconizadas pelo renascimento islâmico47. No seu regresso,

instalou -se por algum tempo em Berbera, onde lecionou e pregou, estimulando seus compatriotas a seguir o caminho da estrita fé muçulmana.

Sayyid Muhammad estava cônscio de que as incursões cristãs (europeia e etíope) tinham ameaçado os fundamentos sociais e econômicos da sociedade somali. Já em julho de 1899 ele escrevia a um clã somali para lhe lançar esta advertência: “Não vêem que os infiéis destruíram a nossa religião e tratam nos- sos filhos como se lhes pertencessem?”. Estava fazendo referência ao estabe- lecimento de escolas cristãs na Somália, que lhe pareciam ameaçar as escolas

44 TOUVAL, 1963, p. 74. 45 LEWIS, I. M., 1965, p. 43. 46 SHEIKH -ABDI, 1978, p. 61 -2. 47 ABD AL -HALIM, 1975, p. 339.

corânicas. Sayyid achava que a eficácia do proselitismo cristão podia ser medida pelo fato de a população estar adotando nomes cristãos, como “João Abdallah”. Tudo isto lhe fazia crer que a colonização cristã procurava destruir a religião islâmica.

O movimento mahdista sudanês teve fortes repercussões no país somali. Sayyid, bem como outros chefes religiosos, inspirava -se na brilhante carreira do Mahdi. Os somalis sabiam do que se passava no Sudão e simpatizavam com seus correligionários, o que facilitou a empresa de Sayyid Muhammad48.

Em um de seus discursos, Sayyid acusou as autoridades militares britânicas de exportar animais para a guerra contra o Mahdi – o santo homem do Sudão –, a quem Deus tinha dado a vitória49. Resta ver, porém, em que medida ele situava

sua djihad no quadro geral do renascimento islâmico e até que ponto ele era inspirado e influenciado pela revolução mahdista do Sudão. Já se disse que ele se encontrou com o emir mahdista do Sudão oriental, Digna, quando visitou aquele país. O fato não está contudo provado, embora certas tradições orais dos somalis digam que a tática de guerrilha deles no curso da djihad era copiada da tática dos mahdistas do Sudão oriental50.

Um dos fatores mais sérios a impedir a unificação dos somalis nômades era o sistema de linhagem tradicional com suas vassalagens “tribais”. Graças ao seu carisma pessoal e às suas qualidades de chefe, Sayyid chegou a assumir o comando de uma tropa heterogênea, recrutada em vários clãs somalis, e a criar um exército regular de cerca de 12 mil homens51. Para mobilizar os diferentes

grupos contra a administração colonial, apelou para os sentimentos religiosos deles, fosse qual fosse o clã. Compôs, além disso, grande número de poemas, dos quais muitos ainda conhecidos na Somália, e assim “uniu uma multidão de clãs inimigos sob a dupla bandeira do Islã e da pátria”52.

Sayyid lançou a djihad em Berbera, onde tentou, de 1895 a 1897, sublevar a população contra os imperialistas. Mas seu primeiro ato revolucionário foi a ocupação de Burao, no centro da Somália britânica, em agosto de 1899. Os bri- tânicos, inquietos com isso, enviaram quatro expedições entre 1900 e 1904 para repelir os ataques de Sayyid. Muito embora os ingleses fossem apoiados pelos italianos, a excepcional capacidade militar do líder e o êxito com que empregou

48 LEWIS, I. M., 1965, p. 69. 49 SILBERMAN, s.d., p. 47.

50 ABD AL -HALIM, 1975, p. 369 -70. 51 JARDINE, 1923, p. 69.

a cavalaria e a tática de guerrilhas valeram a seus guerreiros um certo número de vitórias. Uma delas foi conquistada na colina de Gumburu, em abril de 1903, onde nove oficiais britânicos foram mortos.

No final de 1904, no entanto, as forças de Sayyid se encontravam muito debilitadas. Retirou -se então para o protetorado italiano de Midjurtayn, onde a 5 de março de 1905 assinou o tratado de Illing, no qual impôs suas condições aos italianos. Em 1908, Sayyid mobilizou suas tropas para um novo ataque, que obrigou os ingleses a desocupar o interior do país em novembro de 1909, concentrando -se no litoral. Mas Sayyid ameaçava igualmente atacar as cidades litorâneas. Em agosto de 1913 obteve importante vitória, ao aniquilar a força policial montada em camelos que havia sido recentemente criada. O desastre obrigou os ingleses a se aliarem com o governador etíope de Harar e a montar com ele expedições contra Sayyid até a morte dele em Imi, na Etiópia, em novembro de 1920.

Sob o comando de Sayyid Muhammad, o povo somali havia conseguido fus- tigar os imperialistas europeus e os etíopes durante vinte anos, obtendo vitórias militares, políticas e mesmo diplomáticas. Evidentemente, a djihad somali não logrou expulsar os estrangeiros, mas estimulou um forte sentimento nacionalista. Os somalis sentiram -se unidos na luta contra a invasão europeia. Por outro lado, o combate de Sayyid Muhammad deixou na consciência nacional somali um ideal de patriotismo que jamais se apagou e que viria a inspirar as gerações seguintes53.

Conclusão

Talvez nenhuma região da África tenha resistido tão valentemente à con- quista e ocupação europeias nos anos de 1880 a 1914 como os países do nordeste do continente. A prova disso está nos milhares de egípcios, sudaneses e somalis que perderam a vida em batalhas e escaramuças com as tropas coloniais. A força dessa resistência se devia ao fato de o sentimento patriótico que a inspirava se fortalecer com um sentimento religioso ainda mais profundo. As populações do Egito, do Sudão e da Somália não lutavam apenas por seus territórios, mas tam- bém por sua fé. Os muçulmanos desses países, tal como os do resto do mundo islâmico, estavam conscientes dos problemas sociais e religiosos acarretados pela invasão estrangeira. Por outro lado, era inadmissível à doutrina islâmica que

uma população muçulmana aceitasse a submissão política a uma potência cristã. Os movimentos revolucionários de Urabi, do Mahdi e de Sayyid Muhammad devem, pois, ser interpretados no contexto dos numerosos movimentos refor- mistas que se disseminaram pelo mundo muçulmano nos séculos XVIII e XIX e que tão profundamente o marcaram.

C A P Í T U L O 5

O tema deste capítulo é altamente complexo, não tanto por causa dos fatos, que no conjunto são bem conhecidos, mas pelo que se refere à sua interpretação. Cabe -nos estudar as iniciativas tomadas pelos habitantes do Maghreb e do Saara para se contraporem à investida colonial, bem como as reações deles à conquista em andamento. Para dar uma primeira ideia da complexidade da situação que nos ocupa, vejamos o panorama em 1907 (ver figura 5.1).

A oeste, o Marrocos estava passando por uma revolução que destronou o sultão Abd al -Aziz (1894 -1908), em vista de ele ter ratificado a conquista da província de Tuat pelos franceses e aceito as reformas impostas pelas potências europeias após a Conferência de Algeciras, de abril de 1906. Os protagonistas dessa revolução são membros do Makhzen1, ligados aos zawaya (singular zãwiyai,

centros locais das confrarias religiosas Sufi (tariqa), e às chefias locais.

A leste, a Tunísia via nascer um movimento nacionalista no verdadeiro sentido da palavra. As associações de primeiros diplomados do ensino moderno estavam sendo criadas, ao mesmo tempo que surge uma imprensa reivindicativa, escrita na língua do colonizador. Uma nova elite se distingue pelas iniciativas inéditas.

Ao sul, as zonas ocidentais do Saara servem de teatro a uma operação fran- cesa de envergadura, cujo objetivo era cercar – antes de estrangular – o Marrocos

1 Governo do Marrocos e, em sentido lato, elite político -religiosa do país.

Iniciativas e resistência africanas no

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