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Conforme a autora Carmem S. M. Miranda, que em seu trabalho de pesquisa entrevistou familiares e pessoas próximas a Alberto Kolb, aos 49 anos, o padre estaria enfrentando problemas de saúde, aos quais não estava dando a devida atenção223. Na manhã do dia 24 de abril de 1948, ao sentir um mal estar, ele foi levado ao hospital, mas não resistiu ao queria teria sido uma parada cardíaca. Segundo o relato descrito na ata de falecimento, os diretores do Círculo encaminharam as providências para o velório, realizado na creche conforme desejo do padre registrado em seu testamento. Ainda de acordo com o registro

221 Ata do Círculo Operário de Joinville, 10 fev. 1944, p. 187.

222 Reverendíssimo padre Kolb. Jornal A Notícia, 10 ago. 1944. Em anexo, confira a Imagem 6. 223 MIRANDA, op. cit., 2006, p. 88.

feito em ata, uma multidão entristecida participou do velório, da missa de corpo presente e acompanhado o enterro224.

No cemitério, o primeiro secretário falou em nome do Círculo, expressando a gratidão dos operários joinvilenses. Dentre as personalidades políticas municipais, apenas Dr. Plácido Olímpio de Oliveira teria expressado “poucas, mas entusiastas palavras” enaltecendo a obra do padre. A ata de falecimento foi encerrada ressaltando que a morte do padre ficaria “eternamente gravada na memória dos circulistas, sendo um fato que “abalou toda a cidade”225.

De todas as afirmações em que Kolb eventualmente deixava transparecer que, apesar do orgulho sentido por seu trabalho com os operários, a verdadeira satisfação sentida estava no seu trabalho com a creche Conde Modesto Leal, nenhuma foi mais precisa que a deixada em seu testamento:

Meu corpo revestido com os paramentos de minha ordenação sacerdotal que se acham na creche deverá ser exposto ao pé do hall da creche, no divã que por quatro anos serviu de cama no Rio de Janeiro, quando duramente esmolei os recursos para fazer o círculo, onde jamais fui compreendido, e a creche para a educação das crianças, casa esta que foi meu único consolo. A razão de ser, de eu querer ficar no hall é para testemunhar a todos que nada quis para mim, mas tudo fiz para os outros, pelo Brasil e para Deus226. (Grifos meus)

Essa passagem do testamento escrito em 1945, cujo título é

Minha última vontade, retirado do livro de Carmen S. M. Miranda,

revela o contexto na qual foi escrita. A autora observou que o testamento serviu como uma mensagem de desabafo, sobretudo em relação aos integrantes do Círculo Operário, que supostamente “aumentaram a rede de intrigas com informações desencontradas”227. Mais do que um desabafo, a mensagem pode ser considerada o último ato político planejado por padre Kolb. Ao afirmar que no Círculo Operário nunca foi compreendido e, mais do que isso, ao declarar que a

224

Em anexo, confira a foto do velório, Imagem 7.

225 Ata do Círculo Operário de Joinville, 24 abr. 1948, p. 309-310. 226 KOLB apud MIRANDA, op. cit., 2006, p. 81.

creche foi “seu único consolo”, o padre demonstrou que a intenção parecia maior do que apenas registrar a mágoa de um momento228. Para os desabafos cotidianos, o padre usava de outros recursos menos simbólicos, como diários e notas em jornais.

Com efeito, conforme observou Carmen S. M. Miranda, o contexto em que foi escrito o testamento parece ter sido de crise pessoal e pública para o padre, afinal, em 1945, ocorreu a queda do Estado Novo e, com isso, o enfraquecimento do movimento circulista em todo país. Apesar do seu envolvimento com o PTB e do empenho na campanha da UDN, o momento era de incertezas sobre o futuro de suas atividades e do destino do próprio Círculo. Além disso, apesar do sucesso material de sua obra no COJ, a falta de participação efetiva dos associados foi uma queixa constante do padre ao longo de toda a sua trajetória. No mesmo período em que escreveu seu testamento, é possível verificar através das atas a diminuição de sua participação nas atividades do Círculo.

Kolb encerrou o texto da carta-testamento com o peculiar hábito de se proteger de supostas acusações contra sua conduta, afirmando que a ideia de ser velado no hall seria uma forma de expressar sua falta de pretensões individualistas. Com isso, procurou demonstrar que toda a sua obra era destinada “aos outros, ao Brasil e para Deus”, e jamais para si. Entretanto, ter seu corpo exposto no hall da creche pode sugerir outras interpretações que não apenas a abnegação pretendida, a saber, demonstra personalismo. Era também vontade do padre ser enterrado no terreno da creche. Não obstante, esse último pedido não foi atendido, apesar de constar nas atas do Círculo menções sobre esse compromisso. Recentemente foi construído na creche um mausoléu, para onde se pretende levar os restos mortais do padre.

Ao analisar os documentos do Círculo Operário de Joinville, no período referente à 1935 e 1948, percebe-se que a atuação do padre Alberto Kolb nas campanhas políticas, bem como sua presença nas principais discussões da cidade e sua relação de amizade com o patronato, acabaram se sobressaindo à interferência da entidade Círculo Operário na cidade daquele período. Mesmo que se apresentasse como representante do Círculo, era o padre Alberto Kolb que se destacava. Em outros termos, ele não era apenas o diretor, mas, simbolicamente, era como se ele fosse o próprio Círculo. Mais do que isso, muitas vezes, ele

se apresentava como legítimo “representante do operariado de Joinville”.

Conforme a característica altamente centralizadora na condução do círculo, o padre não deixou que a entidade se desenvolvesse de forma autônoma sob nenhum aspecto. Enquanto esteve a sua frente, não deu espaço aos associados e a partidarizou. Quando morreu, deixou uma entidade sem identidade própria e, embora rica materialmente, seus associados não souberam o que fazer com o legado.

Por outro lado, torna-se imprescindível lembrar que no projeto circulista não havia espaço para a “autonomia” de seus associados. Como dito anteriormente, a doutrina social católica baseou sua obra em dois documentos fundamentais: as encíclicas Rerum Novarum, de 1891, e a Quadragésimo anno, de 1931. As duas encíclicas sistematizaram um conjunto de temas que serviram como orientação para o desenvolvimento das atividades católicas, incluindo os Círculos Operários no Brasil: a defesa da propriedade privada, o papel do Estado, o combate ao comunismo, o princípio da colaboração entre as classes, o papel da Igreja na sociedade e a organização do operariado. A encíclica

Rerum Novarum é mais incisiva no que diz respeito à organização do

proletariado. O papa Leão XIII criticou o crescimento das organizações operárias socialistas e afirmou que os católicos deveriam reagir a esse fato. Entre as orientações do Papa estava a preocupação que as entidades católicas deveriam ter com a vida material do proletariado. O papa afirmou que se as necessidades deles fossem atendidas, os conflitos entre capital e trabalho seriam evitados. Era necessário que a igreja oferecesse “defesa e proteção” aos trabalhadores229.

Evidentemente a morte prematura do padre abalou o ambiente circulista. Porém, Kolb demonstrava insatisfação com os rumos que o Círculo Operário tomou. Ele estava frustrado com os problemas enfrentados na administração da creche Conde Modesto Leal e sofria com as críticas e acusações que não partiam apenas de desafetos políticos, mas de membros do próprio Círculo. O padre não escondia seu descontentamento com a situação que enfrentava. A crise pela qual passava a entidade apenas se generalizou após sua morte. Os registros das atas apontam para a falta de rumo da diretoria. Um mês após a morte de Kolb, o padre Sebastião Scarzello foi nomeado novo diretor do Círculo. Imediatamente após assumir o cargo, o novo diretor precisou viajar a capital federal e a Florianópolis para regularizar o recebimento

dos subsídios do Círculo. Ele também tentou retomar os métodos praticados por seu antecessor, ao buscar junto aos empresários e políticos da cidade o apoio para a reabertura da creche Conde Modesto Leal230. Enquanto o novo padre diretor encaminhava seus trabalhos, a diretoria regularizava o setor financeiro do Círculo. De acordo com os registros em ata, a mesa diretora procurava unificar as contas bancárias da entidade. Apesar da crise administrativa que enfrentava e do seu afastamento das assembleias, padre Kolb permaneceu controlando o caixa da entidade até o último momento, guardando inclusive em sua casa os livros-caixa e quantias em dinheiro.

Poucos meses após a morte de Kolb, quando as atividades burocráticas pareciam se normalizar, toda a diretoria circulista, incluindo o padre Sebastião Scarzello, decidiu se afastar de seus cargos. Não foi encontrada na documentação a justificativa para esse episódio, apenas houve a comunicação e convocação de assembleia para escolha de uma diretoria interina. É possível supor que a motivação para essa atitude tenha sido as antigas disputas internas entre grupos, pois os circulistas que assumiram a diretoria não eram nomes novos, mas membros de gestões anteriores. Destaca-se entre os novos diretores o nome de Conrado de Mira, que dessa vez assumiu o cargo de primeiro tesoureiro231. Nos meses que restaram daquele ano, a nova diretoria realizou poucas atividades, dando prioridade para as questões financeiras, como aluguel das dependências do Círculo.

Embora as reuniões presididas por esse novo grupo contassem com a participação de um número maior de pessoas do que na gestão anterior, o conteúdo permanecia pouco diversificado. Não se pode deixar de mencionar que o sindicalista Conrado de Mira ganhou destaque naquele período. Embora suas falas fossem direcionadas no sentido de motivação do grupo, sem propostas efetivas, seu nome teve um papel de relativa proeminência, tendo em vista que ocupava o cargo de tesoureiro, sem ter, portanto, a função de se manifestar em reuniões ordinárias. Quando ocupou o cargo na comissão de contas em anos anteriores, não era característica do sindicalista se manifestar ou ter suas falas registradas, até mesmo sua presença nas reuniões não era comum. Cabe lembrar que, em pouco tempo, o sindicalista se candidataria a vereador na cidade, não sendo surpreendente, desse modo, a tentativa de se tornar popular dentro do ambiente circulista.

230 Ata do Círculo Operário de Joinville, mai./set. 1948. 231 Ata do Círculo Operário de Joinville, set. 1948, p. 321.

De acordo com Carmen S. M. Miranda, apesar da reativação da creche em 1949, as atividades da instituição foram normalizadas apenas em 1959, quando a Ordem Beneditina assumiu a direção e também devido a um acordo estabelecido entre Círculo Operário e creche. Ocorria que todas as instalações da creche pertencem ao Círculo Operário e, sobretudo após a morte do padre, incidiram problemas de ordem administrativa e burocrática em relação à gerência das duas instituições. Um acordo firmado definiu um regime de comodato, em que o Círculo Operário cedeu todas as instalações, bem como a administração da creche, para a Mitra Diocesana de Joinville232.

No período de 1948 a 1959, conforme apontou a autora, os jornais da cidade foram responsáveis por uma permanente campanha de amparo à creche233. Carmen S. M. Miranda acrescentou ainda que uma crise semelhante ocorreu em 1987. Nas duas ocasiões, poderes públicos e entidades sociais se mobilizaram para evitar o fechamento da instituição educacional234. Em 1960, a Congregação do Divino Salvador, ordem religiosa que ainda permanece em atividade na instituição, assumiu a direção da creche.

Após a morte do padre, a documentação se tornou escassa e as atas não foram atualizadas com periodicidade. Contudo, uma tentativa de “nova reminiscência” foi encontrada junto à documentação do Círculo. Trata-se de duas folhas avulsas datilografadas em papel timbrado do COJ, nas quais está registrada uma breve memória da entidade. O texto descreve que após a morte de padre Kolb, as atividades e trabalhos até então desenvolvidos foram se tornando inativos. Embora não esteja datado, o documento destacou que a partir de nova diretoria voluntária formada em 1989, as atividades foram

retomadas, como, por exemplo, a realização de cursos

profissionalizantes que atendiam a 400 alunos.

Entre os cursos oferecidos estavam: corte e costura, datilografia, pintura em tecido, cerâmica e porcelana, manicure, violão, cabeleireiro, formação comunitária, entre outros. Além dos cursos, o documento dizia oferecer benefícios aos cerca de 500 sócios, entre os quais se destacam: creche, atendimento odontológico, atendimento jurídico, salão social e corte de cabelo gratuito. Mais de 50 anos após sua fundação, o Círculo

232 MIRANDA, op. cit., 2006, p. 74. 233 Ibid., p. 73.

Operário de Joinville oferecia menos serviços que nos anos iniciais de suas atividades.

3 SINDICATOS E PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO EM JOINVILLE