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A neurose, o negativo da perversão

No documento Adicções (páginas 184-190)

Nem todos os bebês chupam o dedo. Supomos que isto só ocorre com aqueles para os quais a importância erógena da zona labial se encontra constitucionalmente reforçada. Se tal importância persiste, tais bebês podem se inclinar, na idade adulta, a beijos perversos, à bebida e ao excesso

no fumar; mas, se sobrevém o recalcamento, sofrerão de repugnância à comida e de vômitos histéricos. Devido à duplicação de funções da zona labial, o recalcamento se estende para a pulsão de autoconservação. Muitas das minhas pacientes com perturbações anoréxicas, globo his- térico, opressão na garganta e vômitos foram, na infância, grandes ‘chupadoras’ (FREUD, 1905b, p. 1200).

Essa pequena passagem de Três ensaios sobre a sexualidade contém vários ensinamentos sobre a concepção de adicção que então se delineava.

Antes de tudo, vemos como a natureza sexual das adicções é reafirmada. Elas são entendidas, nesse momento, como uma derivação direta, na vida adulta, de um erotismo parcial constitucionalmente exacerbado. O fator “constituição” não é aqui esclarecido, mas, conforme Freud (1917a) veio a formular melhor em trabalhos posteriores, ele deve compreender, além da disposição hereditária, a disposição adquirida na primeira infância. Mas, agora, em vez da masturbação genital, encon- tramos em um lugar “primário” um outro vício: o chupar, ou o autoerotismo oral. Essa mudança é importante. Ela aponta a etiologia das adicções para um ponto de origem bem mais remoto – a vida emocional do bebê – e abre caminho para uma linha de investigação que se tornará clássica na abordagem das adicções. A masturbação, considerada aos olhos de Freud tão importante, passou a ser inserida no círculo mais amplo do autoerotismo; este, por sua vez, passou a ser considerado uma

dos três características essenciais das manifestações sexuais infantis, juntamente com a gênese, por apoio, nas funções

fisiológicas vitais e a sua vinculação com uma zona erógena1.

Ainda assim, o papel da masturbação na gênese das adicções não foi abandonado. Muitos anos depois, em seu estudo sobre

Dostoiévsky, Freud (1927b)2 a considerou o fator determinante

de todos os casos de compulsão ao jogo, e reafirmou não ter analisado nenhum caso de neurose grave no qual os conflitos em relação à masturbação infantil não tenham tido um papel central. Podemos supor que o jogo compulsivo não comporta o elemento oral tão óbvio quanto o alcoolismo e o vício em cigarros, e que a questão do desafio ao pai e do complexo de castração se coloca em primeiro plano. Não creio, porém, que, quando falamos em fixação oral nas adicções, devemos nos ater apenas ao sentido fenomenológico mais estrito “daquilo que entra pela boca”.

Ora, a referência ao autoerotismo em geral, que engloba o chupar e a masturbação genital, também nos remete a uma questão que transcende o nível estritamente fenomenológico. Pois o autoerotismo é, antes de tudo, um prescindir do objeto. Freud já toca na essência do problema quando propõe que, se

1 O “apoio” só foi acrescentado por Freud como o terceiro elemento da sexualidade

infantil na revisão dos Três ensaios, de 1915, após o tema ser mais bem elaborado por ele (ver artigo sobre a gênese da cegueira histérica – FREUD, 1910b).

2 Freud examina, aqui, o romance O jogador, do próprio Dostoiévski (2000), sobre

a satisfação sexual oral é de início atrelada à amamentação, ela logo se separa da necessidade de satisfazer a fome:

[...] a criança não se serve, para a sucção, de um objeto exterior a ela, e sim, preferencialmente, de uma parte de seu próprio corpo, tanto por que assim é mais cômodo como por se fazer, assim, independente do mundo exterior que não é capaz ainda de dominar. (1905, p. 1200)

Se não é possível dominá-lo, fuja dele; este é o lema do princípio do prazer. Conforme vimos no capítulo anterior, Freud considerava que um dos malefícios da masturbação advém daí: ela se oferece como um protótipo segundo o qual se obtém satisfação sem necessidade de uma modificação no mundo exterior. Se essa via se cronifica, se instaura uma au- tossatisfação patológica e, quando a masturbação se prolonga da adolescência para vida adulta, observa-se um “infantilismo psíquico”. A nocividade da masturbação se deve, também, à facilitação que proporciona para a perpetuação de uma vida de fantasia em detrimento do investimento objetal, criando o caldo de cultura para a psiconeurose.

Não é difícil reconhecer, aqui, o prenúncio do conceito de narcisismo, ou de uma estratégia de investimento libidinal que busca driblar e evitar o desafio e as agruras da relação com o outro, voltando-se reflexivamente para o Eu como objeto. A busca crônica de um circuito de satisfação alternativo, de ca- ráter autoerótico, é uma marca distintiva de todas as adicções,

evidenciando o seu caráter eminentemente narcisista. Na ótica das relações de objeto, devemos falar em uma “independência patológica”, em vez de uma “autossatisfação patológica”; a saída adictiva é essencialmente uma via alternativa que substitui a relação com o objeto ali onde ela fracassou, reagindo defensi- vamente ao estado de dependência inerente à relação.

A passagem dos Três ensaios acima citada toca, também, na questão crucial do apoio, tão importante na clínica das adic- ções. O apoio do sexual no autoconservativo devido à “dupla função” das zonas erógenas permite uma série de movimentos, tanto no sentido do desenvolvimento quanto no sentido de suas distorções. Por um lado, o descolamento do desejo em relação às necessidades da ordem vital põe em marcha o de- senvolvimento psicossexual do sujeito e sua errância no mundo dos objetos. Por outro, o recalcamento da sexualidade pode atingir as funções vitais, deslocando para o corpo o teatro dos conflitos psicossexuais; este é mecanismo próprio da histeria de conversão (assim, no que se refere ao erotismo oral, por exemplo, se produzem sintomas conversivos orais: vômito, tosse, dores, tiques, etc.). Nas adicções, o mecanismo é ainda mais complexo e difere daquele da histeria: elas forjam para si uma “neonecessidade”, buscando a satisfação sexual à maneira das pulsões de autoconservação; denominei esse fenômeno “reversão da lógica do apoio”, através da qual se dá uma espécie

de perversão do circuito pulsional3.

Ora, se o recalcamento não fizer seu trabalho e os erotismos infantis persistirem, teremos os adictos e os perversos. Pois a

neurose é o negativo da perversão.

Freud parte, nos Três ensaios..., de um minucioso exame das

diversas formas de perversão4. Conclui, então, que a pulsão

sexual é formada de diversos elementos componentes que, se em geral estão fundidos, aparecem separados nas diversas formas de perversão. Deste modo, cada uma das perversões nos mostra “isoladamente” uma pulsão parcial em ação. Em seguida, Freud reafirma que as psiconeuroses repousam sobre forças pulsionais de caráter sexual, e que os sintomas são a expressão de sua vida sexual. Eles são a substituição ou a re- transcrição de tendências e desejos psíquico-afetivos impedidos de emergir na vida consciente, devido à ação cerceadora do recalcamento. Os histéricos, acometidos pela concomitância de uma necessidade sexual particularmente intensa e de uma repressão sexual igualmente grande, evitam o conflito que daí emerge através da transformação da ideias libidinais em sintomas. Ora, a sexualidade que emerge da análise desses sintomas é composta predominantemente das pulsões parciais que se exteriorizam direta e conscientemente nas perversões, na forma de intenções fantasiadas ou de atos. Portanto, é jus- tamente a sexualidade perversa que se manifesta indiretamente nos sintomas neuróticos, como seu negativo.

4 Sobre a evolução da teoria da perversão em Freud e algumas de suas expansões

no campo pós-freudiano, consultar o livro Perversão, de Flávio Carvalho Ferraz, desta mesma coleção.

Assim, os “chupadores”, ao sofrer o recalcamento, desenvol- vem vômitos, opressão na garganta, etc. Mas, se o recalcamento não faz seu trabalho, tornam-se propensos a “perversões orais”: a beijos perversos, à bebida ou ao excesso no fumar; prosse- guindo nesse inventário, podemos acrescentar a tendência à compulsão alimentar, à toxicomania e a outras adicções. A hipótese que aqui surge, e que influenciará os principais tra- balhos da época sobre o tema, é aquela que aproxima adicções e perversão, no sentido de ambas serem consideradas uma derivação direta – em positivo – das pulsões sexuais parciais, ali onde falha a ação negativante do recalcamento.

Alcoolismo e sexualidade: o artigo pioneiro

No documento Adicções (páginas 184-190)