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Estatuto psicopatológico das adicções

No documento Adicções (páginas 64-75)

Chegamos, por fim, em um dos aspectos mais difíceis para a proposição de um conceito psicanalítico de adição: o seu estatuto psicopatológico.

Na história dos trabalhos psicanalíticos sobre as adicções, marcados muito tempo pelo estudo da toxicomania, encon- tramos duas tendências. Em um período inicial das pesquisas, predominava uma tendência de aproximar a adicção a algum dos quadros psicopatológicos mais conhecidos, a partir de diversas características comuns. Logo de início, Abraham sugeriu, indiretamente, uma aproximação do alcoolismo com as perversões, já que nele se dá uma desarticulação da sexua- lidade genital em proveito da emergência de suas formas componentes parciais. Diversos autores associaram as adicções às neuroses narcísicas ou à ciclotimia (a começar por Radó e Simmel), enquanto alguns outros apontaram o parentesco com a paranoia (Ferenczi e Glover, por exemplo) ou mesmo, até certo ponto, com a psiconeurose (mais particularmente com a neurose obsessiva). Há, ainda, quem tenha comparado adicção e esquizofrenia, como Knight e Balint, enquanto que Fenichel

criou a categoria psicopatológica das neuroses impulsivas, que de certo modo dá continuidade à aproximação entre adicção e perversão e aos estudos da neurose de caráter.

Não se pode esquecer, também, que alguns autores, tais como Bollas (2000) e Green (2002), empenhados em uma reavaliação crítica do lugar da histeria na clínica contemporâ- nea, assinalaram uma intersecção significativa entre adicções e histeria. Dentre as diversas formas de apresentação da histeria e da relação com seu corpo, destaca-se a exibição de um corpo que sofre devido a “distúrbios” de apetites, aproximando-se nesse aspecto das adicções:

[...] o corpo do histérico, embora aparentemente seja um corpo menos superexcitado sexualmente, continua sendo um corpo doloroso, sempre submetido a turbulências que se nutrem da vida emocional e da sexualidade. Esse corpo é frequentemente maltratado por todos os distúrbios dos apetites: os relacionados ao alimento, ao álcool, aos medi- camentos ou à droga, mas fáceis de exibir do que aqueles da esfera sexual. Esse corpo doloroso tem de sofrer para existir e para ser sentido como corpo que sobreviveu ao trabalho de negativação que gostaria de suprimir suas demandas e reinvidicações de prazer. (GREEN, 2002, p. 475)

O paradoxo da dor-prazer, efeito do recalcamento, nos permite compreender que a exibição do distúrbio é uma alter- nativa de resistência às forças que buscam suprimir o sexual;

é preciso sofrer esta “turbulência nutritiva” para poder existir. Ora, aqui vemos que mesmo o mecanismo de defesa clássico do recalcamento pode estar associado às adicções.

A segunda tendência, que se tornou cada vez mais forte ao longo dos anos, ressaltou a impossibilidade de assimilar a adic- ção a um único quadro psicopatológico, e propôs, em seu lugar, a existência de diferentes tipos de adicções. Essa interessante solução foi adotada por Glover já em 1939 e, por Radó, mais tardiamente, em 1958; em direção semelhante, Knight ressal- tou, em relação ao alcoolismo, que talvez se trate mais de um sintoma do que de uma doença. Neste modelo de pensamento, Radó (1958) discriminou três tipos de toxicomania: o grupo psiconeurótico ou maníaco-depressivo, o grupo esquizofrênico e o grupo psicopático.

Bergeret, em meio ao pensamento estruturalista francês, é um representante de destaque desse tipo de visão. Ele sinte- tizou, de modo claro e dogmático, a posição adotada por esta segunda tendência:

[...] não existe uma estrutura psíquica profunda e estável específica aos comportamentos de dependência. Qualquer estrutura mental pode dar origem a comportamentos de dependência, quer tais comportamentos apareçam como manifestos, quer permaneçam latentes [..]. O comporta- mento de dependência jamais altera a natureza específica da estrutura psíquica profunda envolvida nesse caso clínico preciso; o comportamento de dependência contenta-se em

modificar de maneira mais ou menos acentuada o modo de funcionamento secundário da estrutura profunda subjacente. (BERGERET, 1982, p. 40)

A partir desses princípios, ele descreveu os toxicômanos de estrutura neurótica, os de estrutura psicótica e os de- pressivos. Andreas Rascovsky (1988) descreveu, também, três grupos de pacientes, de modo semelhante, ainda que com algumas diferenças: no primeiro grupo, encontram-se os indivíduos com uma organização neurótica que sofrem de um “excesso de realidade” e de um achatamento da vida imaginativa e criativa devido à ação de um superego tirânico e implacável; no segundo, encontram-se os indivíduos em que o desenvolvimento da adicção vem acompanhado da instalação de uma modalidade perversa; e no terceiro, encontram-se in- divíduos aprisionados em um narcisismo primário absoluto e perturbados na tarefa mais básica da constituição do aparelho psíquico e suas instâncias.

É interessante notar como, em centros de tratamento espe- cializados, essa visão está muitas vezes presente, mesmo que de maneira intuitiva. Em muitos deles, os pacientes são divididos em diversos grupos de pertencimento, nos quais desenvolvem suas atividades psicoterapêuticas e socioterápicas, como uma espécie de família ou grupo identitário. Em uma Comunidade Terapêutica que conheci, estes grupos eram nomeados por cores: no grupo azul eram incluídos os pacientes “iniciantes” na carreira, em geral mais jovens e de estrutura neurótica,

para o verde eram encaminhados aqueles que já tinham um caminho bem mais comprometido, especialmente em termos de deterioração do caráter, os vermelhos continham os pacientes de estrutura psicótica ou em estado confusional, os brancos eram os alcoolistas ou os mais idosos, etc. Era senso comum que se deveria ficar atento para as tentativas de manipulação dos verdes sobre os vermelhos, iscas fáceis para serem os exe- cutores das atuações psicopáticas planejadas pelos primeiros, e para a tendência de os azuis tomarem os verdes como os mestres a serem seguidos, colocados no lugar do ideal (sabe-se bem que os meninos das favelas muitas vezes sonham poder ser, “quando crescer”, iguais ao chefe do tráfico, vistos como deuses onipotentes). Isso nos mostra como a experiência da prática clínica em locais de tratamento, por vezes distante dos centros de pesquisa, pode conduzir a um conhecimento intuitivo e a modelos de intervenção pertinentes.

Creio que essa segunda tendência, hoje predominante, é muito mais adequada às observações clínicas que se acu- mularam ao longo dos anos. Ao confrontarmos estas duas tendências, talvez estejamos diante de uma falsa polêmica; basta lembrarmos aquela anedota segundo a qual um grupo de cegos descreveu um elefante de modo muito divergente, já que cada um deles havia apalpado uma parte diferente do animal e não podia ter uma “visão global” de seu objeto. Como bem sabemos, a presença maior ou menor de “pontos cegos” é própria da natureza humana.

A proposição de diferentes grupos de pacientes adictos ainda necessita de ser aprimorada. A partir de minha própria pesquisa, levantaria a possibilidade de se considerar ainda um

quarto grupo de pacientes adictos, caracterizado pelo funcio-

namento operatório de um psiquismo “em branco” e por um rebaixamento geral da capacidade simbolizante do psicossoma. Essas “neuroses brancas” são aparentadas ora à “neurose de comportamento” descrita por Marty – com o complicante evidente do efeito químico da substância da adicção no caso das toxicomanias –, nas quais predomina uma impulsividade vazia, ora à chamada normopatia; em todos os casos, estamos no âmbito de uma clínica do agir. Essa hipótese, aqui colo- cada sucintamente, exige, naturalmente, mais investigações e discussões. Outro ponto que permanece como questão a ser aprofundada é a relação entre adicção e depressão: seria o grupo dos “toxicômanos depressivos”, como quis Bergeret, uma categoria à parte – à maneira das “neuroses narcísicas” propostas por Freud –, ou tais tipos clínicos podem ser consi- derados variações das três grandes categorias psicopatológicas estabelecidas por Lacan – a neurose, a psicose e a perversão? Seja qual for a resposta a esta pergunta, a importância da questão narcísico-depressiva na dinâmica das adicções não deve ser negligenciada. E, ainda, deve-se considerar a relação entre as adicções e os casos fronteiriços, ou casos-limite, um campo de pesquisa fundamental a ser explorado.

O reconhecimento desses diversos tipos de adictos pelos psicanalistas possibilita um novo ângulo para tratar de uma

questão que vem sendo bastante bem colocada pelos psiquiatras da área: a chamada comorbidade. A prática clínica tem levado os profissionais a perceber a grande diferença existente entre os diversos casos de paciente adictos, assim como a semelhança de cada um deles a quadros conhecidos, tais como a esquizofrenia, os casos-limite, os distúrbios de caráter, as depressões, etc. A partir desta constatação, surge a proposição de um diagnóstico duplo, já que se trataria de duas “doenças” sobrepostas em um mesmo indivíduo. Esse “dois em um” da psiquiatria é uma contribuição importante por considerar a complexidade dos casos de adicção e reconhecer suas diversas vizinhanças com outros tipos de quadro clínico, mas deixa em aberto a questão das estruturas e a da psicodinâmica subjacente a este “encontro das águas” psicopatológico. Por exemplo: qual é a função da droga para um indivíduo neurótico ou psicótico? Em que ponto específico de sua dinâmica inconsciente um histérico “busca” um vício, e como a cronificação adictiva transforma tal perso- nalidade psíquica, agregando outros elementos complicadores? Essas considerações quanto ao estatuto psicopatológico das adicções tem consequências muito importantes para a clínica, especialmente quanto à escolha de estratégias terapêuticas. É notória a grande dificuldade no tratamento psicanalítico dos adictos, devido tanto ao funcionamento psíquico dos pacientes quanto a uma desadaptação destes ao setting da análise padrão. Alguns autores são mais pessimistas quanto ao prognóstico; outros propõem modificação técnicas no tratamento, tais como: flexibilização da neutralidade, da “passividade” e do

silêncio do analista; trabalho face a face, pelo menos por um certo período; atendimento conjugado com hospitalização; tolerância maior da impulsividade e da passagem ao ato. E, ao lado de todas essas “modificações” na técnica, sempre está presente como pano de fundo uma questão: qual é a posição do analista em relação à imposição de abstinência da conduta adictiva durante o tratamento? Ora, a partir da discriminação de diferentes grupos clínicos de adictos, podemos considerar que cada um desses tipos de pacientes requer estratégias dife- rentes na abordagem terapêutica. Assim, no caso de pacientes de estrutura neurótica, trata-se de um trabalho centrado sobre o superego feroz; no caso daqueles em que predomina a modalidade perversa, há que se considerar uma “terapêutica transicional” – segundo proposição de Olievenstein (1985) –, e, nos de estrutura psicótica, trata-se da instrumentalizar o próprio quadro do tratamento como uma instituição-prótese, fomentadora de instâncias psíquicas – ou de uma “estrutura

enquadrante”, segundo expressão de Green (1980)7.

Hoje vemos os psicanalistas cada vez mais atentos às ca- racterísticas psicopatológicas dos pacientes a fim de sintonizar a sua escuta e sua intervenção àquilo que se lhe apresenta. Winnicott formulou, de modo simples, que devemos sempre levar em conta quais são as necessidades do paciente, e pro- pôs, em vários momentos de sua obra, que sejamos capazes de

7 Apresentei com mais extensão esta correlação entre os tipos clínicos de adictos

e as respectivas estratégias de tratamento no último capítulo de meu livro sobre toxicomania (GURFINKEL, 1996).

mudar nosso modo de escutar e de intervir – na báscula entre o manejo e a interpretação – de acordo com o tipo de transfe- rência em questão (WINNICOTT, 1955). Sua posição quanto ao assunto é um bom guia para nos aprofundarmos no estudo desta correlação entre a psicopatologia e o manejo clínico.

Creio que o melhor caminho para responder ao problema do estatuto psicopatológico das adicções é pensar em termos do paradoxo da unidade na diversidade. É de grande importância poder reconhecer os diferentes grupos de pacientes adictos que encontramos na clínica – sejam eles três ou quatro, e ainda permanecendo em aberto quais seriam exatamente tais grupos –; as características desses pacientes diferem nitidamente, e as consequências disso para o manejo e o prognóstico são claras. Mas, por outro lado, há algo que unifica todos estes grupos, e que poderíamos denominar simplesmente uma adicção.

A posição adotada por Joyce McDougall é bastante próxima a esta. Ela considera que a solução adictiva é uma tentativa de cura diante de estados psíquicos ameaçadores, na qual os objetos eleitos buscam suprir uma função materna que o sujeito é incapaz de proporcionar a si mesmo. Mas os “estados psíquicos ameaçadores” em causa são de diferente natureza, o que implica variações grandes em termos da função buscada na atividade adictiva, e graus diversos de gravidade do vício. McDougall descreve então três categorias de soluções adictivas:

1. Uma tentativa de conjurar angústias neuróticas (conflitos acerca dos direitos do adulto às relações amorosas e sexuais

e ao prazer narcísico no trabalho e nas relações sociais); 2. Uma tentativa de combater estados de angústia grave (frequentemente de natureza paranoide) ou de depressão (acompanhada de sentimento de morte interior); 3. Uma fuga de angústias psicóticas (tais como o medo da fragmen- tação corporal e psíquica; um terror global de encarar um vazio, no qual o próprio sentimento de identidade subjetiva é sentido como estando em perigo). (McDOUGALL, 1995, p. 202)

A clareza dessa proposição e sua proximidade com a expe- riência clínica faz dela um ótimo exemplo de conceito de adicção, e que – como se vê – comporta o paradoxo da unidade na diversidade.

Bem, e como definimos, afinal, a unidade que reúne as diversas formas de adicção?

A adicção é, como vimos, uma ação de caráter impulsivo e irrefreável, que pode incidir sobre uma grande diversidade de objetos e situações. Ela produz um estado de escravização diante do objeto – uma inversão da lógica sujeito/objeto –, uma relação fetichizada com o mesmo e uma coisificação (degrada- ção da qualidade da relação objetal). A adicção é também uma neonecessidade, já que o processo adictivo transforma o objeto do desejo em objeto de necessidade, e uma forma de neurose impulsiva, na qual predomina um agir de pura e simples descar- ga, muito distante do caráter expressivo da ação gestual; nesse sentido, ela encontra-se no campo clínico-psicopatológico do

“colapso do sonhar” e guarda, ainda, um parentesco com as ditas neuroses atuais. A adicção é a manifestação clínica mais evidente da chamada compulsão à repetição, o que levanta uma série de indagações sobre as suas relações com diversas outras formas de automatismos da conduta humana: os hábitos, os traços de caráter, as “manias”, os rituais e os modos parti- culares de ser de cada um. Ela realiza, em geral, uma função defensiva para o Eu, tanto por seu efeito euforizante como pela propriedade de criar uma realidade paralela dissociada, e representa um claro extravio no processo de amadurecimento em termos da passagem dos estados de dependência infantis para a dependência madura da vida adulta.

Busquei aqui reunir uma série de traços e características do fenômeno adictivo, a fim de compor um esboço de defi- nição psicanalítica de adicção. Trata-se, sem dúvida, de uma definição complexa, e em aberto para alterações ou refutações futuras; ora, o caráter multifacetado e inacabado da definição se deve justamente à complexidade do fenômeno que tenta- mos descrever e abarcar. Considero fundamental mantermos a unicidade do conceito, apesar da diversidade de formas clínicas, justamente pelo fato que a adicção comporta em si o enigma do páthos humano da compulsão à repetição: o hábito que se fixa e se cristaliza, a exacerbação de que somos uma ou outra vez tomados na vida, o excesso de que não se quer

abrir mão8, mesmo que o preço a pagar seja muito alto (dor,

8 Como assumiu Cazuza em uma conhecida canção: “Exagerado, eu sou mesmo

depressão subsequente, destruição ou desmantelamento de dimensões significativas da própria vida). Esta fome que não sacia, até certo ponto inerente ao humano, é o que nos atira muitas vezes em um destino paradoxal de busca de prazer e de abismos de destruição.

Ora, para completar este quadro preliminar para uma defi- nição de adicção, falta considerar a sua dimensão passional. Pois é justamente devido a este páthos que a paixão nos serve tão bem como modelo para o estudo das adicções, conforme discutirei ao longo deste livro. Nele, procurarei perseguir o

páthos humano da compulsão à repetição adictiva, tanto em

termos de seus processos desagregadores e alarmantes, quanto em termos de uma força impulsora persistente e incansável. Pois a paixão é sempre paradoxal, já que comporta tanto a força quanto a fraqueza de uma “teimosia dos exageros” que é própria do humano.

No documento Adicções (páginas 64-75)