O encontro de Freud com a cocaína é frequentemente negligenciado. A sua aproximação com a droga se deu em 1884, quando era um jovem médico completando seus 28 anos, em início de carreira e em busca de caminhos em sua
vida profissional e pessoal. As diversas biografias12, baseadas
por sua vez em amplo material – especialmente inúmeras cartas – nos permitem reconstruir este período e conceber um quadro vívido dos acontecimentos. Freud mesmo dedicou um único parágrafo ao assunto em sua autobiografia, parágrafo
12 As informações básicas sobre o tema encontram-se na biografia de Jones, sendo
que nos trabalhos de outros autores encontramos visões e análises que as com- plementam e, em alguns casos, as criticam. Jones se apoia consideravelmente, por sua vez, na pesquisa de Bernfeld (1953); segundo Byck (1974, p. 5, 323), ele herdou também alguns dos equívocos de Bernfeld quanto à tradução e à interpretação dos originais de Freud.
que, apesar de registrar o acontecimento, parece não refletir o seu alcance emocional.
Recapitulemos brevemente o contexto em que se deu a descoberta da cocaína.
Freud tinha enorme atração pela pesquisa científica. Ele trabalhou inicialmente no laboratório de Carl Claus, onde pesquisou as gônadas das enguias e escreveu seus primeiros textos, que considerou posteriormente de pouco valor. Em seguida, trabalhou no laboratório de fisiologia de Brüke por seis anos, até 1882. Este foi um mentor a quem muito admirou e respeitou, e de quem aprendeu muito de filosofia da ciência, de Darwin e de profissionalismo. Sob sua orientação, estudou as estruturas nervosas de lagostins, e publicou seus primeiros artigos entre 1877 e 1883. Peter Gay (1989, p. 50) assinalou que estes trabalhos antecipavam as ideias do Projeto de uma
psicologia científica, de 1895, e Jones (1953, p. 62) ressaltou
como nessa época Freud perdeu por pouco uma oportunidade de obter fama mundial com sua pesquisa. Pois Freud propôs – já aliando sua capacidade imaginativa à pesquisa científica – uma concepção unitária da célula e dos processos nervosos que veio a se tornar a base da neurologia moderna, mas não deu o devido desenvolvimento às suas ideias. Em 1891, Waldeyer publicou uma monografia memorável sobre a teoria do neurônio que seguia a mesma direção de pesquisa de Freud, e seu nome nem foi mais mencionado em relação ao tema.
Freud deixou o “ambiente protetor” do laboratório de Brücke, aconselhado pelo próprio mentor. O motivo principal
era sua condição econômica, que não lhe possibilitava sustentar uma carreira de pesquisador; a alternativa era trabalhar como médico clínico, o que não era seu desejo inicial. Mas, nesse ínterim, um novo fator emergiu e serviu como impulso para a mudança de rumos: a sua paixão por Martha e o desejo ur- gente de casar-se, que não parecia exequível a curto ou médio prazo. Freud assumiu, então, um posto no Hospital Geral de Viena, onde trabalhou com afinco por três anos. No hospital, experimentou diversas especialidades médicas, até ingressar na clínica psiquiátrica de Meynert; seguindo o conselho de Breuer, permaneceu em um caminho intermediário entre tornar- se um especialista em neurologia e prosseguir na formação médica geral. Freud iniciou em cargo de assistente, subindo gradativamente na carreira, até atingir o cobiçado cargo de
Privatdozen; mesmo assim, ainda que tivesse ganhado prestígio,
a remuneração deixava a desejar.
No entanto, Freud não abandonou a pesquisa. Trabalhou nos laboratórios de Stricker e Meynert enquanto estava no hospital, e foi nesse último (em 1883) que chegou perto do sucesso com a proposição de um método de coloração do te- cido nervoso com cloreto de ouro. Ele acreditava que poderia ascender à docência caso tivesse êxito em alguma descoberta significativa. A nova ideia de um método de exame do tecido nervoso e o êxito das primeiras tentativas levaram-no a escrever a Martha uma carta exultante, “[...] como se todas as dificul- dades de sua carreira tivessem sido agora superadas” (JONES, 1953, p. 212); Freud reuniu alguns amigos para compartilhar o
“grande segredo” e lhes deu permissão para usarem “o maravi- lhoso método” em seus setores próprios. A descoberta causou, de fato, alguma sensação na época, depois atenuada devido a resultados incertos em testes subsequentes.
A atividade de pesquisa condensava tanto os seus anseios mais profundos e obscuros – enraizados, como sabemos, nos desejos infantis – quanto suas preocupações práticas do mo-
mento, mescladas com devaneios de ambição1. As cartas a
Martha atestam abundantemente que Freud sonhava fazer uma “grande descoberta” que lhe trouxesse fama e dinheiro. Ele esperava que o sucesso lhe proporcionasse boas perspectivas como clínico particular, e insinuou diversas vezes uma nova descoberta que poderia levar ao objetivo desejado, como no caso do método de exame do tecido nervoso. Ora, como era de seu feitio, esforçava-se em colocar esse sonho em prática. Acompanhava as descobertas e novidades científicas com
1 Sabemos, pela autoanálise de Freud e pelo que dela temos notícia na A interpre-
tação dos sonhos, a força dos desejos de ambição em sua vida psíquica e a relação
deles com o material inconsciente e infantil. Nos sonhos de Roma depreende-se, de modo particular, a sua identificação com figuras heroicas, assim como a fantasia de conquista da Terra-mãe. Como bem assinalou Anzieu (1989), a associação entre a conquista do território geográfico proibido de Roma, imaginariamente vetado aos judeus, e a posse do continente materno – seja em termos fálico-genitais, seja em termos de uma comunhão narcísico-onipotente – remeteu Freud – em sua própria experiência subjetiva e na construção da teoria psicanalítica – às vicissitudes da odisseia edipiana, com suas lutas, obstáculos e transposições. Ora, os desejos de ambição se realizaram, efetivamente, com a “grande descoberta” da psicanálise, representada pelo ato de escritura e publicação da Interpretação
dos sonhos. Creio que podemos acompanhar, no período do episódio da cocaína,
uma camada de experiências relativas a este mesmo “complexo” que prefigura o que se explicitará dali a uma década: a articulação inerente entre o fazer uma grande descoberta e a conquista da mulher amada.
sofreguidão, tanto por ambição intelectual e engajamento profissional como para farejar alguma “mina” desconhecida.
Assim, no início de 1884, Freud leu o informe de um médico militar alemão que empregara uma nova substância (a cocaína) com seus soldados, aumentando sua energia e resistência física. Deu início então a uma vasta pesquisa sobre o assunto e, como nos casos anteriores, anunciou a Martha a nova descoberta: “[...] não necessitamos de mais do que um golpe de sorte para sermos capazes de pensar em montar casa [...] você sabe que, quando uma pessoa persevera, cedo ou tarde é bem-sucedida” (Carta de Freud à noiva, de 21 de abril de 1884, apud JONES, 1953, p. 91). Freud, apesar de entusiasmado, mantinha os pés no chão: “[...] talvez nada advenha disso”. Na mesma carta em que comunica o achado para Martha, diz que procurará obter a droga para experimentá-la em casos de doenças do coração, esgotamento nervoso e no tratamento da morfinomania.
Ao chegar a droga, Freud imediatamente a experimentou, e constatou que ela transformara o mau humor em que se encontrava em boa disposição, de modo “[...] que não há absolutamente nada com que seja necessário preocupar-se” (JONES, 1989, p. 91), além de funcionar como anestésico gástrico. Freud mostra-se cada vez mais entusiasmado, e apelida a cocaína de “droga mágica”. Passa a tomar, com regularidade, doses pequenas contra a depressão e a indigestão, envia um pouco da droga para Martha, e oferece-a para amigos, colegas e até para as irmãs. A sua esperança é ter descoberto uma droga de grande valor terapêutico, e entrega-se imediatamente a coligir informações para escrever um ensaio sobre o assunto.