O “dano orgânico” atribuído à masturbação – o primeiro fator destacado por Freud – é, em geral, o menos reconhe- cido pelos psicanalistas. Para compreendê-lo, é necessário
retomarmos a teoria da neurose atual. Esta foi construída em meados da década de 1890 e, apesar de pouco consagrada, foi reafirmada enfaticamente por Freud quinze anos depois no simpósio sobre a masturbação e vinte anos depois, em 1917, nas Conferências introdutórias à psicanálise.
A oposição entre psiconeurose e neurose atual constituiu uma das primeiras grandes divisões psicopatológicas propostas por Freud. Se, por um lado, ambas guardam uma etiologia sexual, por outro, o “sexual” das primeiras é psíquico e infantil, enquanto que nas outras ele é somático e atual. As psiconeuroses são resultantes de uma tentativa de se defender da reativação das marcas mnêmicas da sexualidade infantil recalcada, as quais retornam devido a certas circunstâncias desencadeantes; elas são, neste sentido, “neuropsicoses de defesa” – sendo a noção de “defesa” o princípio conceitual que preparou o terreno para a teoria do recalcamento, pilar fundamental da teoria psicanalítica das neuroses. As neuroses atuais, em contraste, resultam de certas práticas sexuais que implicam uma satisfação inadequada; nelas, um excesso ou mau escoamento da libido produz uma formação neurótica comum e ordinária, em geral caracterizada por um estado de angústia simples e/ou por di- versos distúrbios funcionais somáticos.
“A constipação, a cefaleia e a fadiga dos chamados neuras- tênicos não podem ser referidas histórica ou simbolicamente a vivências efetivas” (FREUD, 1912a, p. 1705), como nas psiconeuroses. Tais sintomas “[...] carecem de ‘sentido’, isto é, de significação psíquica [...], constituindo processos
exclusivamente somáticos” (FREUD, 1917b, p. 2364). Freud nos lembra de que a função sexual não é nem puramente psíquica
e nem puramente somática, e que exerce sua influência tanto no
campo da vida psíquica quanto na “vida corporal”. Essa dupla face do sexual – que posteriormente será atribuída à pulsão, conceito-limite entre o somático e o psíquico – é muitas vezes negligenciada.
Para Freud, a gênese dos sintomas das neuroses atuais só pode ser qualificada de tóxica. Ou seja: há uma toxicidade da dimensão somática da libido que está ligada a um regime eco- nômico do atual, determinando variações em termos de saúde ou de um estado neurótico ordinário. Freud foi ainda mais longe em suas especulações, e supôs a existência de substâncias químicas no organismo de natureza libidinal. Daí a crença popular nos “filtros do amor” e a ideia de que a paixão é uma forma de embriaguez. Ora, a hipótese de um quimismo do sexual
possibilita uma aproximação entre sexualidade e adicções.
As neuroses atuais apresentam, em todos os detalhes de sua sintomatologia e em sua peculiar qualidade de influir sobre todos os sistemas orgânicos e sobre todas as funções, uma analogia incontestável com os estados patológicos ocasionados pela ação crônica de substâncias tóxicas ex- teriores ou pela supressão brusca das mesmas, isto é, com as intoxicações e com os estados de abstinência. (FREUD, 1917b, p. 2364)
A neurose atual é, pois, uma espécie de intoxicação libidinal. A “analogia incontestável” entre o mecanismo das neuroses atuais e a intoxicação não é meramente alegórica, como se vê no artigo “A sexualidade na etiologia das neuroses”, de 1898. É justamente nesse trabalho que encontramos a primeira menção de Freud às adicções em um artigo científico desde o trabalho sobre a hipnose, trazendo a público as ideias que só havia até então compartilhado com Fliess. Freud dirige-se aqui aos mé- dicos a fim de convencê-los da importância central do fator sexual na etiologia das neuroses, e a fim de alertá-los quanto à necessidade de alterar os seus métodos terapêuticos em função dessa descoberta. Ele enfatiza a necessidade de uma clareza diagnóstica das formas de neurose para orientar as indicações terapêuticas, e concentra-se no diagnóstico diferencial entre psiconeurose e neurose atual.
Após uma descrição detalhada dos problemas clínicos liga- dos à neurastenia e de uma avaliação crítica dos tratamentos realizados em balneários na época, Freud aborda o tema da masturbação e dos “hábitos sexuais”. Para ele, a masturbação é a causa de muitos casos de neurastenia, e o fato de os médicos não quererem reconhecê-lo torna a vida dos pacientes muito mais difícil, pois eles travam uma luta contra a masturbação muito difícil de vencer por si só. Freud (1898) propõe, nesses casos, uma “cura de abstinência” – um processo de quebra do hábito do onanismo que deve contar com a colaboração e com “[...] contínua vigilância do terapeuta” (p. 324). Há aqui um grande desafio, pois, “[...] abandonado a si mesmo, o
masturbador recorre à cômoda satisfação habitual sempre que experimenta alguma contrariedade” (FREUD, 1898, p. 324). É por extensão à cura de abstinência da neurastenia que Freud retorna ao tema das adicções:
Esta observação pode ser aplicada também às demais curas de abstinência, cujos resultados positivos continuarão sendo aparentes e efêmeros enquanto o médico se limitar a tirar do doente o narcótico, sem preocupar-se com a fonte da qual surge a necessidade imperativa do mesmo. O “hábito” não é nada mais do que uma expressão descritiva, sem valor explicativo algum. Nem todos os indivíduos que tiveram ocasião de tomar durante algum tempo morfina, cocaína, etc. contraem a toxicomania correspondente. Uma minu- ciosa investigação nos revela, em geral, que estes narcóticos buscam compensar – direta ou indiretamente – a falta de prazeres sexuais, e naqueles casos em que não for possível restabelecer uma vida sexual normal, pode esperar-se com certeza uma recaída. (FREUD, 1898, p. 324)
Aqui temos, mais uma vez, uma breve e discreta menção de Freud à questão das adicções. Mas ela revela uma compreensão da dimensão clínica em jogo, e uma percepção aguda quanto à necessidade de construção de uma concepção sobre as adicções. Não basta uma visão que descreva o fenômeno do vício, ou uma visão equivocada que atribua a causa da toxicomania às propriedades do objeto-droga, pois grande parte dos usuários
de drogas não se tornam toxicômanos! Faz-se necessário com- preendermos a fonte de onde surge o impulso irrefreável ao objeto – e Freud encontra a resposta no fator sexual.
No mesmo artigo, Freud não articula direta e especificamente as adicções à masturbação; ele propõe que a força do impulso adictivo se origina em uma insatisfação sexual, cuja compensa- ção é buscada no objeto-droga. Mas a teoria da neurose atual está aqui subjacente: Freud supõe que o restabelecimento de uma “vida sexual normal” seria o tratamento mais indicado para as adicções, já que, ao contrário de medidas paliativas (por exemplo, internação em balneários), esse caminho atingiria a raiz do problema. À maneira das neuroses atuais, o tratamento das adicções seria uma “cura de abstinência”, e exigiria, por- tanto, uma “terapêutica atual”.
Ao aproximar adicções e neuroses atuais, Freud aponta uma direção para o pensamento teórico-clínico significativo: é um equívoco buscar entender o sintoma adictivo segundo o modelo da psiconeurose. Essa proposição, ainda que genérica, é bastante procedente; de fato, pouco se pode esperar de uma terapêutica que vise interpretar o ato adictivo como uma forma- ção do inconsciente, supondo aí um sentido ou um simbolismo geralmente inexistente. Esta desadaptação das adicções à teoria da psiconeurose é, provavelmente, um dos motivos de sua baixa popularidade entre os psicanalistas.
A teoria da neurose atual não ganhou o mesmo desenvol- vimento que a teoria das psiconeuroses por diversos motivos, sendo o mais óbvio o fato de esse tipo de afecção não se prestar,
em princípio, ao tratamento psicanalítico. Freud foi claro, tanto no artigo de 1898 quanto nos trabalhos subsequentes: tal tratamento é indicado para as psiconeuroses, ao passo que as neuroses atuais necessitam de uma abordagem médico- -educativa. Trata-se de uma orientação que busca implementar um regime de hábitos sexuais saudáveis, em substituição aos “maus” hábitos adquiridos. No lugar da interpretação dos fenômenos inconscientes, a prescrição de um regime sexual; naturalmente, conta-se com o poder sugestivo da palavra do médico para que a prescrição possa ser adotada e mantida. Assim como a terapêutica, também a pesquisa psicanalítica seria alheia ao tema:
[...] os problemas relacionados às neuroses atuais, cujos sintomas são, provavelmente, consequência de lesões tó- xicas diretas, não se prestam ao estudo psicanalítico; este não pode proporcionar esclarecimento algum sobre eles, e deve, portanto, entregar este trabalho para a investigação médico-biológica. (FREUD, 1917b, p. 2365)
É bem verdade que esse estado de coisas é um pouco mais complexo, pois são muito frequentes os casos de “neuroses mistas”: uma mescla de psiconeurose e neurose atual. Os fatores etiológicos se combinam, e as duas dimensões interagem reciprocamente. Essa observação clínica sofreu, com o tempo, uma elaboração metapsicológica; assim, Freud veio a postular que “[...] o sintoma da neurose atual constitui com frequência o
nódulo e a fase preliminar do sintoma psiconeurótico” (1917b, p. 2366). Afinal, se toda psiconeurose tem uma história e um momento de emergência no qual fatores desencadeantes de- terminam a sua eclosão, dentre tais fatores pode-se certamente incluir um estado neurótico comum. Nesses casos, a neurose atual entre na série etiológica como um “fator debilitante”, e “[...] a etiologia auxiliar que ainda faltava para a emergên- cia da psiconeurose é proporcionada pela etiologia atual da neurose de angústia” (FREUD, 1898, p. 326). Freud já havia ressaltado como uma “facilitação orgânica” codetermina certas conversões histéricas, e reiterou anos depois que uma alteração somática patológica (por inflamação ou lesão) pode despertar a elaboração de sintomas, “[...] convertendo o sintoma propor- cionado pela realidade em representante de todas as fantasias inconscientes que estavam à espreita, aguardando a primeira oportunidade de manifestar-se” (1917b, p. 2366). Nesses ca- sos, diz Freud, podem-se seguir duas estratégias terapêuticas: abordar psicanaliticamente a neurose ou adotar um tratamento somático; o acerto da escolha só poderá ser avaliado por seus efeitos, já que “[...] é muito difícil estabelecer regras gerais para estes casos mistos” (1917b, p. 2366).
No simpósio sobre a masturbação, Freud também dera a entender que a exclusão das neuroses atuais da terapêutica psicanalítica talvez não devesse ser tão taxativa, revendo sua posição anterior sobre este ponto:
[...] hoje eu reconheço – no que antes não acreditava – que um tratamento analítico pode ter também uma influência terapêutica indireta sobre os sintomas atuais, uma vez que coloque o indivíduo doente em uma situação de abandonar a nocividade atual, modificando seu regime sexual. Encon- tramos aqui, evidentemente, uma perspectiva promissora para nosso afã terapêutico. (1912a, p. 1706)
Sim, pois – de fato – a superação das inibições neuróticas derivadas do recalcamento coloca o sujeito em melhores con- dições quanto ao seu “regime atual”; e também a recíproca é verdadeira: a psiconeurose não favorece em nada o estabele- cimento de um regime sexual saudável.