Em julho de 1884, Freud publicou “Sobre a coca”, uma mo-
nografia2 de 25 páginas que tratava da história da droga (usada
pelos índios sul-americanos em contexto mítico-religioso), de seus efeitos e de suas possíveis propriedades terapêuticas, defen- didas com entusiasmo. O trabalho é subdividido nas seguintes sessões: “A planta da coca”; “História e usos da coca no seu país de origem”; “As folhas da coca na Europa: cocaína”; “O efeito da coca nos animais”; “O efeito da coca em pessoas saudáveis”; e “Usos terapêuticos da coca”. Jones (1953, p.92) notou como o texto fora escrito “[...] no melhor estilo de Freud, com sua característica vivacidade, simplicidade e clareza”, em uma notável combinação de objetividade e ardor pessoal, “como se ele estivesse apaixonado pelo seu conteúdo” (1989, p. 92). O artigo contém várias auto-observações, e relata que a ingestão de cocaína produz um estado de alegria e duradoura euforia, ini- bindo as sensações de fome, sono e fadiga, sem efeitos colaterais indesejáveis: “[...] poucos minutos depois da ingestão, sente-se um repentino vigor e uma sensação de leveza” (FREUD, 1884, p. 58). A droga proporciona um estado de euforia que, para Freud, em nada difere da euforia normal de uma pessoa sadia. A alteração de humor deve-se menos à estimulação direta
2 O significante monografia é pleno de ressonâncias no mundo psíquico de Freud,
como sabemos pelo célebre “sonho da monografia botânica”; a monografia “Sobre a coca” irá se sobrepor, em uma nova camada de sentidos subjetivos, ao próprio livro da A interpretação dos sonhos.
e mais à inibição dos fatores que causam depressão; assim, “[...] logo aparecem os sintomas que têm sido descritos como os maravilhosos efeitos estimulantes da coca. Longos e intensos trabalhos físicos podem ser realizados sem fadiga; é como se a necessidade de alimento e de descanso desaparecessem por completo” (FREUD, 1884, p. 60, itálicos meus).
O principal valor terapêutico da droga se encontrava, para Freud, em sua ação estimulante, podendo ela ser potencial- mente utilizada no tratamento da histeria, da melancolia e da neurastenia. Mas o artigo inclui ainda mais seis usos terapêu- ticos da cocaína, além do citado: nas perturbações digestivas, nos casos de caquexia, no tratamento da adicção ao álcool e à morfina, no combate à asma, como afrodisíaco e como anes- tésico local na pele ou nas mucosas. Em um adendo à segunda edição de “Sobre a coca”, Freud (1885a) ressaltou a diversidade das reações individuais, acrescentou uma menção aos trabalhos de Koller, Königstein e Jalinek quanto ao uso da cocaína como anestésico local e também as confirmações de Richter quanto à utilidade da coca nos casos de morfinomania; rebateu ainda os “temores injustificados” de certas autoridades em relação a aplicações internas com injeções subcutâneas. Ora, as duas aplicações terapêuticas que mais trouxeram desconcerto foram o uso da cocaína nos casos de morfinomania para facilitar a retirada da primeira droga, e o seu uso como anestesia local, mencionado apenas de passagem na monografia de 1884. Estes dois usos tiveram um lugar especial na história de relação de Freud com a cocaína, como veremos adiante.
A cocaína perdurou como objeto científico no horizonte de Freud por mais alguns anos. “Sobre a coca” teve diversas repercussões, sofreu críticas e elogios, e foi seguido de mais quatro artigos científicos sobre o tema, publicados entre 1885 e 1887. Esses escritos nunca foram incluídos em suas obras completas, e permaneceram relativamente desconhecidos por
um longo período3. Mas, se Freud afastou-se da pesquisa sobre
a cocaína a partir de 1887, seguiu receitando-a em sua clínica privada até 1899 em casos de sinusite aguda (CESAROTTO, 1989, p. 51), e “[...] continuou a usá-la em pequenas quanti- dades pelo menos até meados dos anos 1890” (GAY, 1989, p. 57); ou ainda, segundo Rodrigué, “Freud consumiu cocaína regularmente por pelo menos doze anos” (1995, p. 199). Uma prova inequívoca desse uso encontra-se na análise do “sonho da injeção de Irma”, ocorrido em 1895, na qual Freud relata ter
3 A primeira publicação da coletânea dos artigos sobre cocaína se deu em 1963,
quando foi publicada em Viena e traduzida para o inglês em versão examinada por Strachey, mas permaneceu ainda relativamente desconhecida devido à obscuridade da edição. Em 1974, os artigos foram reunidos por Robert Byck e publicados em um volume. Trata-se de uma cuidadosa edição comentada dos escritos de Freud sobre a cocaína, publicada pela Stonehill (New York), que conta com notas de Anna Freud, com uma introdução ao tema de Byck e com alguns artigos complementares importantes (como o ensaio de Bernfeld, de 1953, e o capítulo “O episódio da cocaína”, da biografia de Jones, também de 1953). Esse dossiê contém o principal material até agora coligido sobre o assunto, constituindo uma fonte de consulta básica. O livro foi publicado em português pela Espaço e Tempo (Rio de Janeiro, 1989), em edição esgotada e de difícil acesso. A edição argentina dos artigos de Freud apareceu em 1977 (Escritos inéditos, Kasimiersky / Investigaciones Freudianas), contando com a tradução do inglês de Oscar Cesa- rotto, com notas preliminares e com o ensaio “Un Affaire freudiano”, do próprio Cesarotto; esse ensaio foi posteriormente publicado no Brasil (CESAROTTO, 1989), em livro que inclui resenhas dos artigos de Freud e um texto final do autor.
usado cocaína “recentemente” para diminuir alguns inchaços nasais. Nessa época, conforme atesta sua correspondência com Fliess, a necessidade da cocaína estava associada à depressão e a sintomas cardíacos, além das supurações nasais. Em carta de 12 de junho de 1895, acrescenta-se a estes males a luta contra o tabaco: “[...] necessito muita cocaína. Também recomecei a fumar após duas ou três semanas...” (FREUD apud ANZIEU, 1989, p. 41).