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2.1 Representações sociais e as oposições sociológicas

2.1.1 A reflexão sobre as representações modernas

Da Antigüidade à Escolástica, a tendência que predominou nas grandes metafísicas é a da refutação do ceticismo, afirmando a possibilidade de a razão atingir a verdade, através de

uma inteligência que não é falível em si mesma, desde que neutralizado o caráter enganador da percepção e superadas as interferências deformadoras que inviabilizam as conexões adequadas (ROUANET, 1993, p. 39).

17 Portanto, a aproximação das coisas entre si, o esforço de encontrar os vínculos mais remotos revelando

familiaridade entre elas ou uma natureza comum anteriormente desconhecida, não será mais o sentido básico da atividade do espírito, cujo trabalho, em direção oposta, vai concentrar-se, inicialmente, no reconhecimento das particularidades, das especifidades, para, em seguida, ocupar-se da distinção de todos os graus estabelecidos a partir das identidades (Cf. FOUCAULT, 1999, p. 76).

As ilusões dos sentidos e a possibilidade de correção constituem duas circunstâncias que justificam tanto a modéstia como a arrogância da razão. Assim é que, no período moderno, já não é suficiente conferir à razão a tarefa de dissipar os fantasmas criados e alimentados pela ignorância, removendo os obstáculos ao conhecimento.

A própria razão é colocada em dúvida e, assim, surge a epistemologia moderna, com a preocupação normativa e metodológica de estabelecer os limites do conhecimento possível. Portanto, a concomitância do elemento cético e do racional faz-se “presente em todos os pensadores que fundam a autonomia da razão, não no pressuposto de sua onipotência, mas no reconhecimento dos seus limites” (ROUANET, 1993, p. 45).

Com a suposição de que existem idéias não produzidas pela experiência, que a percepção pode ultrapassar as qualidades sensíveis e que a razão pode dispor de categorias e noções universais dotadas de realidade, desenha-se a essência da teoria da ilusão, cuja apropriação política significa a demolição da filosofia clássica.

A síntese desse processo encontra-se no postulado de que todas as opiniões fundamentadas em abstrações unicamente verbais, que não admitem redução a uma base fenomenal, não podem deixar de ser consideradas erradas, implica a necessidade de que todas elas passem a ser obrigatoriamente submetidas ao tribunal da experiência. Dessa exigência, não vão ser excluídas sequer aquelas opiniões que garantem e preservam as legitimações políticas tradicionais, de cuja aceitação inquestionada depende a estabilidade da estrutura de poder. O esclarecimento dessa sutil articulação de idéias que sustentam a adesão inquestionada à ordem estabelecida evidenciaria a sua motivação intencional, deliberada, e, assim, perderia o caráter aleatório, revelando seu substrato político.

Essa compreensão política da teoria da ilusão não chegou a ser tirada por Hume em sua epistemologia derivada de Locke, embora tenha se aproximado de uma teoria do preconceito ao verificar que, através das opiniões absorvidas pela educação, a razão perde a imparcialidade adequada e se torna cativa da superstição, envolvida nesse manto protetor do absurdo e do erro.

A formulação política da teoria da ilusão, com o reconhecimento de que o que aprisiona a razão é, em última instância, o dogmatismo político, torna-se explícita com a condenação do preconceito procedida pelos enciclopedistas, que o consideraram “uma ignorância do homem quanto à sua natureza de ser sensível, e quanto à natureza do mundo social, derivada da ação ou da omissão dos governantes, e redundando na estabilização da autoridade ilegítima” (ROUANET, 1993, p. 52).

Com Holbach, essa reflexão transcende o contexto epistemológico e metodológico original, passando de crítica da ilusão teórica para a crítica da ilusão política, com a identificação do caráter deliberado e não arbitrário do erro ao evidenciar a explícita preocupação de domínio dos governantes sobre os governados.

Todavia, é Kant quem unifica as diversas linhas da problemática da consciência, formulando um estatuto rigoroso tanto para a crítica da ilusão teórica quanto para a do preconceito político. E funda a teoria da ilusão transcendental, originada em proposições errôneas (paralogismos transcendentais) decorrentes de uma tendência inevitável da própria natureza humana de raciocinar sobre temas que não podem ser conhecidos, pois ultrapassam as forças da razão humana. Esse conceito prepara as bases para uma concepção de ilusão social, que não pode ser superada por corretivos individuais, mas só pela ação coletiva.

A paixão pelo incognoscível desempenharia uma função cognitiva ao mobilizar o indivíduo para a superação de sua minoridade, para a emancipação das tutelas, ao ousar servir-se

da razão. A essa ilusão auto-imposta, Rouanet vê corresponder “uma ilusão imposta pela autoridade, que recusa a liberdade de pensar, julgando com isso evitar uma ameaça ao seu poder” (ROUANET, 1993, p. 57)18.

Através de uma construção sistemática em que a consciência crítica e a consciência criticada são definidas como momentos simétricos e necessários de um mesmo processo em que se interpenetram a verdade e a falsidade, Hegel faz do iluminismo objeto de análise e crítica. Nessa perspectiva, a crítica do erro, ao alhear-se do caráter historicamente necessário da verdade e da falsidade, torna-se também falsa consciência; sendo teoria a-histórica da ilusão, insere-se como capítulo na história da ilusão.

Na Fenomenologia do Espírito, a compreensão pela consciência individual da história de todas as etapas e vicissitudes da autoformação da humanidade permite a exteriorização do espírito e a coincidência do sujeito com o objeto no saber absoluto. Embora se mantendo ainda no âmbito do idealismo, Hegel representa uma superação do subjetivismo idealista e é a partir dele que se vai buscar a explicação para a falsa consciência na materialidade da vida social.

Esse empreendimento é realizado por Marx, que faz surgir o conceito de falsa consciência em seu sentido próprio, ao observar que o elemento que constitui o outro lado da consciência não é a história do espírito, como essência humana abstrata, mas a prática social de homens concretos, que produzem suas condições materiais de sobrevivência e formulam representações em que eles se refletem ou se ocultam (ROUANET, 1993, p. 73).

18 Rouanet, sobre esta questão, acrescenta que "a reflexão imanente mantém-se predominantemente no âmbito

individualista, de forma a-histórica. O acesso à consciência se dá fora da história, como um ato que introduz a opinião verdadeira e desmascara a nulidade das opiniões tradicionais. Com a contribuição dada pela análise imanente até Kant, pode-se vislumbrar a possibilidade do novo campo da falsa consciência, que vai estudar a distorção cognitiva num espaço situado, não na consciência, mas fora dela: o espaço da história, da vida material da sociedade” (Ibid., p. 58-62).