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A relação entre TUs e violência nos anos 1940

CAPÍTULO 2. A CONSTRUÇÃO DO REGIME DE FUTEBOL DE ESTADO NO BRASIL

2.11. A relação entre TUs e violência nos anos 1940

O leitor contemporâneo talvez não consiga imaginar o cenário que será apresentado a seguir, o que torna sua descrição ainda mais necessária para a compreensão deste argumento: a relação entre violência e torcidas uniformizadas durante a Era Vargas se dava de forma oposta ao que se dá em nossos dias.

No século XXI e nas décadas finais do século XX, acostumou-se a associar violência no futebol à presença das associações de torcedores. Nos anos 1940s, porém, a relação era oposta: a violência estava onde as TUs não estavam.

Isso se deve muito ao fato de a composição das TUs varguistas ainda possuir um alicerce fortemente vinculado à moral do regime de Esporte em Sociedade Civil. Muito embora o futebol nos anos 1940 já fosse profissionalizado no país e atraísse para os estádios assistentes de todos os estratos sociais, as TUs da época eram majoritariamente compostas por associados dos respectivos clubes sociais, o que significa que havia um filtro social para a participação nesse tipo de associação, da mesma forma que havia um filtro social – o pertencimento à casta dos sportsmen – para disputar um jogo válido por um torneio de futebol no Brasil dos anos 1910, por exemplo.

Essas associações de torcedores não tinham a incumbência de produzir seu próprio sustento financeiro e tinham a função lyrista de ordenar a manifestação das multidões nos estádios de futebol:

[O chefe de torcida] se destacava nas arquibancadas por sua seriedade e compromisso, figura assídua e tradicional nos jogos, com uma capacidade de comunicação e com uma liderança tidas como inatas, reconhecidas pelos torcedores, pelos dirigentes e pelo policiamento na coordenação do incentivo aos jogadores.221

O reconhecimento dos líderes de torcida por parte de policiais, dirigentes e pelos outros torcedores é uma importante evidência do papel de organização exercido pelos líderes de torcida durante a Era Vargas. Os propósitos de ordenamento de disciplinarização das multidões por meio das TUs é matéria de interesse do regime de Futebol de Estado e d’A Gazeta

Esportiva, o jornal esportivo que assumiu a missão de promover os valores estadonovistas para o esporte.

Uma ilustração da apologia feita pelo jornal ao papel das TUs como fomentadoras do bom comportamento dos torcedores nas arquibancadas dos estádios pode ser encontrado numa matéria produzida sobre a TU do Corinthians, que foi realizada com seu líder, Tantã:

As torcidas uniformizadas dão um cunho de beleza e elegância ao nosso futebol. Enfeitam os campos, contribuem para a educação dos adeptos e constituem organizações úteis aos clubes. [...] Na garrida turma corintiana o respeito à disciplina deve ser cultivado rigorosamente. Um só gesto incompatível com sua finalidade acarreta ao seu integrante a suspensão ou exclusão.222

Tantã, líder da torcida do Corinthians, dizia em 1941 que elegância e disciplina eram elementos fundamentais para que um membro permanecesse nos quadros da associação. Segundo o jornal, mau comportamento ou indisciplina não eram tolerados.

Além de chefe da torcida, Tantã era um associado do clube. Era, portanto, uma pessoa que se destacava – socialmente, inclusive – em relação à massa. Sua missão era ser exemplo e motivação para os assistentes, isto é, todos aqueles que iam aos estádios mesmo sem possuir vínculo oficial com o clube, o que se tornou cada vez mais comum dos anos 1930 em diante. Os componentes das torcidas do estado de São Paulo – público para o qual Mazzoni se dirigia – eram “sobretudo jovens de classe média, na sua maioria sócios dos próprios clubes, cujas atividades torcedoras somavam-se aos interesses e aspirações dos diretores das referidas associações esportivas”223.

Para o caso paulista, as torcidas mais importantes são as do São Paulo FC (daqui em diante, também somente “São Paulo”), SC Corinthians Paulista (daqui em diante, também somente “Corinthians”) e SE Palmeiras (daqui em diante, também somente “SEP” ou “Palmeiras”). As manifestações das associações de torcedores dessas equipes são extremamente ilustrativas do que foi desenvolvido até aqui. É pertinente destacar alguns capítulos dessa história, pois será a partir desses que se terá o parâmetro de comparação com o que virá no futuro.

As associações de torcedores, enquanto modelo de torcida para toda a massa assistente, eram incumbidas de dar o exemplo do “bom torcer” a todo momento. Portanto, era praxe que

222 Cf. GE, 01º de novembro de 1941, p. 10. Entrevista com o Presidente da torcida uniformizada do Corinthians, Tantã.

223TOLEDO, Luiz Henrique de. Lógicas do Futebol: dimensões simbólicas de um esporte nacional. Tese de Doutorado, disponível online em http://www.ludopedio.com.br/rc/upload/files/115801_Tese_completa.pdf. Página 251.

os chefes de torcida se cumprimentassem e eventualmente, inclusive, trocassem as bandeiras de seus respectivos clubes antes ou durante as partidas para demonstrar seu espírito esportivo. Um exemplo do “bom torcer” esperado pela GE e pelos ideólogos do regime de Futebol de Estado varguista acontece no dia 23 de maio de 1943. O jornal do dia seguinte mostra fotos das torcidas de SEP e Corinthians num dia de jogo entre as duas equipes no estádio do Pacaembu. Verifica-se que a torcida uniformizada do Corinthians elaborou um mosaico com a letra “P” – de Palmeiras – em homenagem a seu rival. Já a torcida uniformizada da SEP ostentava dezenas de bandeiras individuais com o símbolo do clube rival224. Isso parece surpreendente? A confraternização entre torcidas rivais era bastante comum nesse período, e as ações que envolviam trocas de símbolos clubísticos entre torcidas eram muito frequentes durante a vigência do concurso de torcidas da GE. Os atos que geravam mais repercussão na GE, entretanto, eram aqueles que se inclinavam à exaltação do nacionalismo, ou do presidente da Nação.

Em 14 de abril de 1943, a GE reporta que a torcida do São Paulo levou retratos do presidente Getúlio Vargas225 para o Pacaembu para homenageá-lo por ocasião de seu aniversário. Em 03 de maio de 1943, reporta-se que a torcida do Corinthians também levou retratos do presidente da República para o estádio, além de retratos de Cásper Líbero,226 fundador e dono de A Gazeta Esportiva.

A violência entre torcedores por razões interclubistas não era uma questão nem para a mídia esportiva nem para o Estado nos anos 1940. Mesmo em jogos decisivos entre grandes equipes rivais da cidade – os chamados clássicos – não era comum haver conflitos entre distintos grupos de torcedores por essas razões.

Por serem constituídas majoritariamente por sócios dos clubes – que por definição pertenciam a um estrato social superior – e por carregarem a missão de serem os portadores dos ideais esportivos do regime de Esporte de Estado varguista nas arquibancadas, as associações de torcedores possuíam um convívio pacífico entre si. Brigas entre associações de torcedores de clubes rivais era algo que estava absolutamente fora do radar do policiamento ou dos organizadores dos eventos esportivos, e não era raro que uma TU comparecesse a um jogo que não fosse disputado por sua equipe para fazer uma apresentação válida pelo Duelo de Torcidas da GE.

224 Cf. A Gazeta Esportiva, 24/05/1943, p. 3. 225 Cf. GE, 19/04/43. P. 14.

Em 19 de Junho de 1943, num jogo disputado no Pacaembu entre São Paulo e SEP, que teve público de 60 mil pessoas, fizeram-se presentes as torcidas uniformizadas de São Paulo, SEP e Corinthians. Esta última, a despeito da ausência de sua equipe no gramado, produziu nas arquibancadas um mosaico cuja unidade formava a bandeira do Brasil. Essa construção foi um ato inédito e encantou os avaliadores da GE, que deram à torcida do Corinthians a vitória no concurso daquele dia227.

As torcidas uniformizadas do estado de São Paulo contribuíam para a manutenção da ordem em eventos públicos que frequentemente recebiam milhares de pessoas. Além disso, promoviam o culto ao futebol – elemento já vinculado à identidade brasileira popular consagrada nos anos 1930 por Mário Filho, entre outros – e, mais importante que isso, o culto à Pátria e à figura de seu presidente.

Esse modelo foi tão bem-sucedido que foi levado à capital federal. Muito embora as torcidas do RJ se reivindiquem cronologicamente anteriores às de SP, há registros na mídia carioca que apontam que foram, na verdade, as paulistas que lhes serviram de modelo. E não se trata de qualquer jornalista carioca, mas do próprio Mário Filho:

[...] destaque para as duas torcidas [Corinthians e São Paulo, no caso]. O Pacaembu engalanou-se todo [...] aquela multidão que encheu literalmente as suas dependências, ganhando um colorido ainda mais pronunciado com a atuação destacada, cheia de bom humor e originais números, das duas torcidas uniformizadas.228

Nesse mesmo mês Mário Filho afirmou que “um exemplo que o público carioca deve imitar é o apoio de São Paulo ao futebol bandeirante”229. As duas últimas citações de Filho sugerem que o projeto de João Lyra Filho levado a cabo por Mazzoni por meio da GE, em São Paulo, se tornou hegemônico em todo o Brasil, inclusive na capital federal, cujo principal editor esportivo tentara de forma fugaz, ainda em 1936, via concurso de torcidas de seu próprio jornal, fomentar um tipo de torcida bastante diverso do paulista dos anos 1940.

É notável que a difusão do modelo de torcida uniformizada do Estado Novo, proposto por Lyra e executado por Mazzoni em SP, tenha se deslocado para a capital federal não por imposição, mas espontaneamente.

Pode-se dizer que as torcidas uniformizadas da Era Vargas eram, por um lado, uma extensão da própria direção do clube – que, não custa lembrar, era a principal financiadora das

227 Cf. GE, 19/06/43. P. 16.

228 Cf. JS, 04 de maio de 1943. P. 2. Apud BRAGA, Jorge Luiz Medeiros. As Torcidas Uniformizadas (Organizadas) de Futebol no Rio de Janeiro nos anos 1940. In Esporte e Sociedade, ano 5, n° 14, mar.2010/jun.2010. p. 14.

atividades das torcidas – e, por outro, a corporificação de um projeto estatal-midiático que visava produzir determinados efeitos sociais.

Algumas páginas acima foi afirmado que a violência entre as associações de torcedores de clubes rivais não era uma questão para o Estado nem para os organizadores das partidas nos anos 1940. Isso não significa, porém, que não houvesse violência, ou atos de indisciplina em jogos de futebol. Significa apenas que eles somente não aconteciam entre torcidas uniformizadas.

O papel das TUs dos anos 1940 não era conter a violência interclubista, mas sim a violência e indisciplina da massa assistente, frequentemente composta por classes populares. O "bom comportamento" entre as torcidas uniformizadas nesse período nada diz sobre o comportamento dos torcedores não-uniformizados nesse mesmo período.

Conforme foi anteriormente, as TUs eram um elemento de auxílio à manutenção da ordem nos estádios, o que leva a concluir que, se houvesse algum caso de desordem, esse tenderia a acontecer não dentro, mas fora da TU. Essa situação é evidenciada durante o primeiro torneio de torcidas promovido pela GE. Em algumas passagens do jornal sobre o tema fica claro que a postura das TUs não era compartilhada pela totalidade do público que frequentava os estádios de futebol.

Em junho de 1943, Mazzoni escreve um editorial criticando os torcedores passionais, que não entendiam o verdadeiro espírito esportista e se deixavam dominar pelos impulsos: “vingativos, passionais, prejudicam o espetáculo”230. Não é difícil notar a similaridade desse discurso com o de Lyra Filho, em A Função Social dos Desportos. A sequência do argumento de Mazzoni também o aproxima de Lyra:

Contudo, o que tem melhorado um pouco esse fanatismo pessoal são as torcidas uniformizadas, que reúnem os sócios em um grande grupo sob o controle de pessoas equilibradas e de mais responsabilidade, e sob a ação direta da diretoria. [...] Aí, nesse conjunto, não há lugar para afeiçoados de má conduta.231

Um caso muito ilustrativo sobre a forma como a relação entre violência e torcidas uniformizadas se dava nos estádios durante a Era Vargas aconteceu com a torcida da SEP. Em julho de 1943, a GE reporta que, num jogo entre Palmeiras e Corinthians, houve um caso de indisciplina em meio à torcida da SEP. O chefe da torcida foi acionado, e tentou repreender o infrator, mas foi desacatado e quase agredido232. Foi um escândalo.

230 Mazzoni, Thomaz “Torcedores!”. In GE, 26/06/1943. P. 2. 231 Mazzoni, idem. In GE, 26/06/1943. P. 2.

A ameaça de um assistente a um chefe de torcida reconhecido pela GE, pelo próprio clube e – indiretamente – pelo Estado, colocava toda a estrutura pensada por João Lyra, Thomaz Mazzoni e colaboradores varguistas em xeque. A atitude do torcedor indisciplinado representava um insulto ao planejamento que vinha sendo meticulosamente desenvolvido pelo Estado e pela mídia esportiva até então.

Diante disso, Thomaz Mazzoni se dirigiu diretamente às "autoridades oficiais de nosso futebol" e exigiu que estas garantissem a integridade e a soberania do chefe da torcida da SEP durante os jogos de sua equipe. A GE cobrou o poder público e o poder esportivo para que esta figura – do líder de torcida – fosse respeitada233.

As torcidas uniformizadas de futebol na cidade de São Paulo – que foram as precursoras do modelo institucional no Brasil – reuniam o que imprensa, dirigentes, polícia e Estado reconheciam como os bons torcedores ou, se tomados coletivamente, a boa torcida. Os componentes das TUs de SP eram incumbidos de dar ordem à parte do espetáculo esportivo que transcendia o campo de jogo. A eles cabia dar a todos os torcedores, incluindo os "passionais" e os "vingativos", o exemplo de como o barulho deveria ser produzido, quais gritos poderiam ou deveriam ser entoados, como os gestos coreográficos deveriam ser executados, enfim. Estavam lá para ensinar à massa assistente um jeito de torcer que era o certo.

Dos anos 1940 em diante, conforme a figura do jogador profissional de futebol foi ganhando força, o ethos amador que envolvia jogar pela camisa sem cobrar nada por isso praticamente sumiu dos círculos de jogadores de alto nível do país234. Se dentro dos campos a ética amadorista sumiu, a mídia julgava tê-la encontrado fora deles:

[...] o discurso referente ao torcedor perseverava-o e reinventava-o sincronicamente como um dos últimos elos da cadeia imaginária com o amadorismo no futebol [...], haja vista o fato de seu pertencimento clubístico não se pautar em interesses financeiros, utilitários ou pecuniários diretos, mas em uma filiação de ordem afetiva e passional.235

As principais consequências do regime de Futebol de Estado varguista foram, portanto, a) a conclusão do processo de profissionalização dos jogadores de futebol; b) a nacionalização das administrações de todos os clubes; c) a implementação de uma entidade estatal (o CND) para controle do esporte; d) o fim da disputa entre diferentes entidades para o controle nacional e local do esporte; e) a popularização da prática e da assistência do jogo; f) a criação de um clube nacional e popular (o Flamengo) à imagem e semelhança que o próprio Estado Novo

233 Cf. GE, 12 de julho de 1943, p. 7.

234 Apud HOLLANDA. O clube como vontade e representação, p 112. 235 Hollanda, op. cit., p. 112.

tinha de si e, por fim, g) o surgimento de grupos de torcedores cujo escopo era apoiar seus respectivos clubes dentro dos limites cívicos e morais delineados pelos próprios representantes do Estado que se debruçaram sobre esta questão.

Por fim, é necessário levantar um comentário sobre a peculiaridade do regime de Futebol de Estado adotado no Brasil durante a Era Vargas em relação aos regimes de Futebol de Estado experienciados no nazifascismo europeu: como mencionou-se no capítulo 1, as medidas adotadas para a contensão da violência nos estádios, especialmente na Alemanha e na Espanha, passaram pela brutal repressão policial e punição individual para torcedores violentos e/ou malcomportados.

Na Alemanha, temos registro236 de que o governo nazista designava à SA237, a milícia Partido Nazista, a missão de fazer o controle de segurança em grandes partidas de futebol. Na Espanha, o jornal Marca238 registra a ameaça do Estado de que torcedores com comportamento violento nos estádios poderiam ser conduzidos para campos de concentração como punição a seus atos.

Não há nenhum registro de medidas ou ameaças similares adotadas pelo Estado brasileiro no sentido do controle da violência nos estádios de futebol. Se os regimes de Futebol de Estado acima mencionados optaram pelo caminho repressor para promover o bom comportamento dos torcedores nos estádios, o regime de Futebol de Estado brasileiro – por meio de seu ideólogo, João Lyra Filho – optou por um caminho educador para resolver a mesma questão.

É neste ponto que as TOBR se tornam um objeto de relevância internacional, pois elas foram a primeira resposta não-repressiva dada de forma planejada e sistemática por um regime de Futebol de Estado ao problema da violência e do mau comportamento de torcedores nos estádios de futebol dentre todos os regimes de Futebol de Estado analisados até este ponto da tese.

236 Oswald, op. cit., p. 291. 237 Sigla para Sturmabteilung

238 Cf. Jornal Marca, 02 de dezembro de 1943. In Ackermann Zwischen politischer Instrumentalisierung und Eskapismus, op. Cit., p. 116.

2.12. Conclusão do capítulo

A criação do Conselho Nacional de Desportos, o CND, em 1941, é o ato marcador do início do regime de Esporte de Estado no Brasil; sua missão – apresentada mais de uma vez no decreto de sua criação, o nº3199 – era dar caráter nacional para os esportes brasileiros.

A autoridade do CND colocou os esportes brasileiros a serviço do Estado, da mesma forma como já havia sido feito na Itália desde os anos 1920 e na Alemanha desde 1933. A inspiração nazifascista da política esportiva brasileira que se corporificou no CND é evidenciada pelo fato de o governo Vargas ter enviado um emissário para a Alemanha em plenos Jogos Olímpicos de Berlim, realizados em 1936, para a realização de um estudo sobre a forma como os esportes estavam sendo organizados e politicamente instrumentalizados pelo regime nazista.

No nível dos clubes, a criação do CND significou o fim da liberdade dos atores da sociedade civil na disputa pela hegemonia na gestão do esporte nacional, já que este ato submeteu tanto os defensores do profissionalismo quanto os defensores do amadorismo à autoridade esportiva estatal. Um efeito dramático da nacionalização dos esportes foi a perseguição de muitas associações civis fundadas por imigrantes (mesmo daqueles não ligados ao “Eixo”) mediante a acusação da “ameaça estrangeira” no contexto da Segunda Guerra Mundial.

A mídia esportiva, que já vivia sob censura desde dezembro de 1939 por ocasião da criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, foi também protagonista no processo de implementação do regime de Esporte de Estado do governo Vargas. Um importante ator deste processo foi o editor-chefe d’A Gazeta Esportiva, Thomaz Mazzoni, um ítalo- brasileiro que tomava o modelo fascista de gestão esportiva como inspiração para o devir do esporte brasileiro. Foi Thomaz Mazzoni o responsável pela operacionalização do plano estadonovista (arquitetado pelo acadêmico paraibano João Lyra Filho) para os eventos esportivos que atraíam grandes massas de espectadores para os estádios: por meio da criação de um Duelo de Torcidas sob a tutela da própria Gazeta Esportiva, a mídia esportiva simpática ao Estado Novo possuía um eficiente canal para orientar o sentido das manifestações de torcedores dentro dos estádios de futebol e, ao premiar as associações de torcedores que se comportassem da forma prescrita pelos organizadores do torneio, fazer com que o esporte promovesse uma mensagem amplamente conveniente aos propósitos estadonovistas.

Foi, portanto, sob a tutela do Duelo de Torcidas d’A Gazeta Esportiva que ganharam institucionalidade as primeiras associações de torcedores de São Paulo, cujo perfil era o seguinte: formadas basicamente por gente socialmente distinta (associados do clube social), monopolistas na organização das atividades das arquibancadas (só havia uma torcida por clube), financiadas por dirigentes ou pelo caixa dos próprios clubes, agrupadas aos redor de um líder [de torcida] que possuía bom relacionamento tanto com os dirigentes (os responsáveis pelo financiamento direto ou indireto das atividades da torcida), quanto com policiais (a quem auxiliavam nas questões de segurança), quanto com jogadores, técnicos, e torcedores não- uniformizados. Mário Filho, do Jornal dos Sports, registra que as torcidas do Rio de Janeiro, ao ganharem institucionalidade também nos anos 1940, seguiram o modelo paulista- mazzonista de associações de torcedores.

As TOBR dos anos 1940 tinham a missão de levar a paz aos estádios e a de ser o exemplo do “bom-torcer”, isto é, servir de modelo para todos aqueles que iam assistir às partidas, mas não eram sócios do clube, os chamados assistentes. Nesse arranjo, a violência