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O Estado se aproxima ainda mais do comando do esporte

CAPÍTULO 2. A CONSTRUÇÃO DO REGIME DE FUTEBOL DE ESTADO NO BRASIL

2.5. O Estado se aproxima ainda mais do comando do esporte

Sob a batuta de Luiz Aranha, o futebol brasileiro passou por um rápido processo de reestruturação. Conforme foi visto anteriormente, uma de suas primeiras medidas foi absorver a FBF de Arnaldo Guinle na estrutura institucional da CBD, entidade da qual (ele, Aranha) era presidente por influência de Getúlio Vargas. O preço pago por Aranha para convencer Guinle a subordinar sua entidade à CBD foi o reconhecimento da legalidade da prática de futebol profissional no Brasil.

O reconhecimento da legalidade do futebol profissional por parte da CBD alterou rapidamente as relações de poder no futebol brasileiro. Se, em 1934, o Botafogo – por meio de seu presidente, Rivadávia Meyer –, único grande clube remanescente no regime amador, teve por esta razão praticamente exclusividade na convocação de jogadores para a Seleção brasileira, quatro anos depois todos os clubes brasileiros eram elegíveis para ter jogadores representando a Nação. Tal possibilidade ampliava de forma sensível as possibilidades de escolha da comissão técnica, e criava condições para a montagem de um time mais competitivo.

Além disso, o estabelecimento do Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro, d’A Gazeta Esportiva, na cidade de São Paulo, associado à difusão do rádio como meio de comunicação em massa, permitiam que as emoções do futebol fossem propagadas país adentro de forma muito mais direta e eficiente. Não é equivocado afirmar que, em 1938, o futebol já era, sem margem para questionamentos, o esporte do povo no Brasil. Isso se dava não somente pelo interesse popular no jogo, mas também pelo protagonismo de elementos provindos das classes populares dentro de campo, como Leônidas da Silva, o ícone da época.

Tendo Getúlio Vargas agido no sentido de conferir uma hierarquização de poder clara e minimamente eficiente ao esporte brasileiro, ainda no ano de 1936, quando conduziu Luiz Aranha à presidência da CBD, pode-se dizer que o futebol brasileiro teve aproximadamente dois anos para a preparação para a Copa do Mundo de 1938 e, assim, para apagar a péssima impressão deixada na Itália de Mussolini quatro anos antes.

A Copa de 1938 foi o primeiro evento esportivo de alcance mundial no qual a influência varguista sobre os esportes se evidenciou. O fim do dissídio esportivo e a possibilidade de formação de uma equipe realmente forte para representar o país na França animavam não somente os torcedores brasileiros, mas também a mídia esportiva, que enxergava no evento a primeira Copa do Mundo na qual o time brasileiro chegaria com chances efetivas de ganhar o título.

A expectativa gerada ao redor da competição fez com que jornais esportivos organizassem campanhas para pagar viagens de torcedores para a Europa. A própria CBD organizou a “campanha do selo”, cujo intuito era financiar a viagem da delegação para a França em troca de concorrer a uma passagem para ir assistir os jogos165.

[...] os jornais utilizaram inúmeras páginas para noticiar o acontecimento. Edições extras foram publicadas. Concursos foram organizados para escolher os torcedores que iriam a Paris. Novos periódicos surgiram, como a revista Sport Ilustrado. Já a rádio Club do Brasil se organizou para irradiar diretamente da França as partidas da seleção para todo o país. [...] A irradiação foi custeada pelo Cassino da Urca e pelo jornal O Globo, com gastos divididos ainda com as rádios retransmissoras de cada estado.166

O torneio de 1938 foi a primeira Copa do Mundo na qual os jogos da Seleção Brasileira foram transmitidos ao vivo pelo rádio. Isso permitiu que, pela primeira vez, os brasileiros pudessem acompanhar o desempenho de seus compatriotas em terras ultramarinas praticamente em tempo real.

Foi a primeira vez que o potencial político do futebol se realizou no Brasil. O país, literalmente, parou. As pessoas entravam praticamente em estado de transe:

Moças, rapazes, saindo em bandos rumorosos dos escritórios centrais, vinham para a Avenida e abandonavam-se às mais contagiosas demonstrações de alegria. E faziam roda como crianças: e isso ao coro de “Brasil!, Brasil!, Brasil!”. Imaginem a alegria dessa gente moça e entusiasmada cirandando pela Avenida Central.167

A conexão entre torcedores e “Brasil” foi tão grande que se chegou a relatar inclusive ataques cardíacos, paradas respiratórias e outros tipos de mal súbito ocorridos em decorrência das partidas da Seleção Nacional na França: “O popular Agenor Palmeira, preso de grande emoção pela vitória dos brasileiros, foi acometido de uma síncope. Conduzido para a Assistência, ao se reanimar, as suas primeiras palavras foram: “Viva o Brasil!”.”168

Infelizmente, para toda a torcida brasileira, a equipe foi eliminada do torneio na fase semifinal, após polêmico jogo contra a Itália, que se sagraria campeã sobre a França, na disputa final. Contudo, o maior vitorioso da Copa de 1938 em terras brasileiras foi o governo Vargas, que conseguiu ver nas ruas a corporificação do discurso nacionalista que vinha proclamando desde sua entrada no poder, em 1930.

165 Cf. Souza, op. cit., p. 62. 166 Souza, op. cit., p. 62.

167 JS, 15 de junho de 1938. Apud Souza, op. cit., p. 66.

A comoção popular em torno da seleção de futebol mostrou que os corações dos brasileiros foram conquistados pelo orgulho nacional169, e que o esporte havia sido um veículo essencial para o desenvolvimento e a expressão desse sentimento.

A Copa de 1938 foi jogada num momento em que havia uma disputa entre os interesses de Estado e os orientados para Mercado no futebol brasileiro. O primeiro elemento dessa disputa foi a legalização do profissionalismo, que visava tornar os clubes nacionais mais competitivos especialmente em relação aos vizinhos platinos, que já tinham um regime profissional de futebol há tempos e eram destino comum de profissionais brasileiros que queriam fazer dinheiro. O segundo elemento dessa disputa foi o efeito político percebido pelo Estado brasileiro a partir da Copa do Mundo de 1938, o que gerou no governo Vargas o desejo de administrar não somente a Seleção Nacional de futebol – o que já estava sob a alçada de Aranha, um homem leal a Vargas – mas também tudo o que envolvesse o futebol de alto nível no país.

Cabe nesse contexto a lembrança de que a legalização do futebol profissional em 1937 foi uma concessão feita por Aranha em nome de um bem maior, o fim do dissídio esportivo no Brasil. O profissionalismo era defendido por algumas vertentes, mas não a primazia do Mercado (de forma que pudesse deixar os próprios interesses do Estado em segundo plano, queremos dizer). A primazia do Mercado no esporte, aliás, já era apontada pelo próprio informante JA como uma ameaça para os interesses do Estado no esporte, como se pode averiguar no excerto abaixo:

O esporte no Brasil, em sua forma moderna, surge como criação das classes liberais estrangeiras e do comércio, localizadas definitiva ou provisoriamente em nossas cidades. (...) Observando o surto do esporte no Brasil, facilmente verificamos que não apresenta a menor característica nacional. É criação colonial pura.170

A primazia do profissionalismo no futebol brasileiro tendia a tornar os clubes de futebol entidades interessadas na captação de recursos para a criação de equipes competitivas, e formação de ligas e campeonatos lucrativos, como havia sido a tentativa do torneio Rio-SP, disputado nos anos de 1933 e 1934 pelos clubes profissionais do Estado de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A despeito das potenciais vantagens competitivas que poderiam ser geradas no futebol brasileiro a partir da instituição de um regime de Futebol para Mercado, o Estado brasileiro não

169 Cf. Souza, op. cit., p. 67.

enxergava grandes benefícios para si dentro de uma estrutura de Futebol para Mercado no país, mesmo na situação hipotética de esta estrutura funcionar de forma perfeitamente eficiente.

A avaliação de JA, por exemplo, era que o comando do esporte no Brasil não deveria atender aos interesses privados dos clubes, mas sim aos interesses da Nação. Isso significa que, de acordo com aquele parecerista, o fim do dissídio esportivo e a pacificação da CBD não eram suficientes para dar um rumo nacional aos esportes brasileiros; faltava ainda evitar que o processo de mercantilização do esporte atingisse níveis que pudessem ser inconvenientes para o propósitos políticos do Estado:

[A mercantilização do esporte] Em toda sua posição se afasta da concepção nacionalista ou mesmo da finalidade eugênica. Passa a ser não já o “mens sana in corpore sano”, mas tão somente centro de diversões, mais ou menos mercantilizado.

171

O trecho acima aponta para dois eixos principais: o primeiro é a defesa do regime de Esporte em Sociedade civil como prática a ser difundida de forma maciça entre as classes populares, de modo a promover o desenvolvimento da raça. Isso se conecta de forma muito íntima ao que era defendido em Alemanha e Itália, especialmente os períodos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Cabe lembrar que é justamente na experiência destes dois países que JA mira para fazer recomendações ao governo brasileiro.

O segundo eixo é uma franca crítica à mercantilização do esporte, ou o que podemos chamar de implantação do regime de Esporte para Mercado. A legalização do esporte profissional contribuiu para a conversão do esporte – notadamente o futebol – num espetáculo para entretenimento, o que o distanciava em muito da noção de instrumento paratreinamento e preparação física dos cidadãos, que por meio dele poderiam preparar fisicamente seus corpos para torná-los mais saudáveis, dispostos, disciplinados e aptos ao trabalho, além de contribuir para o desenvolvimento da raça e até para o serviço militar, se necessário.

O Esporte para Mercado, profissionalizado, direcionado para o deleite das massas populares representava, dessa forma, a completa subversão dos ideais pensados pelos ideólogos do governo em relação ao esporte: por um lado, centralizava a atividade esportiva em cidadãos notáveis, atraindo a atenção do público, que – no entender de analistas do governo – acabava optando por assistir disputas esportivas ao invés de praticar esportes. Além disso, mesmo os esportes de massa não inspiravam seus praticantes a aderi-los pelo espírito olímpico, mas por dinheiro. É o pior dos dois mundos da ótica de JA: por um lado, a grande massa prefere ser

espectadora a praticante de esportes; por outro, os poucos que praticam são atletas notáveis que o fazem por dinheiro e não por amor à atividade.