Capítulo I Informação, Conhecimento e Sociedade
3. A Sociedade da Informação e do Conhecimento
Pode definir-se a sociedade como um conjunto de interacções, ou seja, um conjunto de
fluxos, cujos inputs são as imagens, os sons, as atitudes e a informação que fluem num
espaço. Aqueles não representam apenas um elemento da organização social, eles determinam e dominam os processos económicos, políticos e simbólicos da vida.
À medida que factores como a demografia, a tecnologia ou a globalização, vão sofrendo
alterações, novos upgrades vão sendo feitos aos conceitos; estes são como actualizações
com o objectivo de valorizar os aspectos positivos e contrariar os negativos. Assim, a rapidez na transição de conceitos é enorme, da ‘revolução da microelectrónica’ à ‘idade da informação’, da ‘sociedade do conhecimento’ à ‘sociedade da informação’, passando pela ‘sociedade da aprendizagem’. A palavras e expressões hoje comuns como ‘rede’, ‘crescimento económico’, ‘desenvolvimento’, ‘informação’, ‘conhecimento’, ou ‘inovação’, juntam-se outras, de conotação claramente mais empresarial como ‘flexibilidade’, ‘qualificação’, ‘competência’, ‘organização’ ou ‘desempenho’. Estes conceitos aparecem, por vezes, misturados de uma maneira algo descuidada. O conceito de sociedade da informação surge como agregador de ideias e teorias e são muitos os autores que se têm
dedicado à sua investigação, além dos já citados CASTELLS, BELL, TOURAINE OU LYON.
O conceito de “sociedade da informação” tem raízes na literatura do pós-industrialismo,
muito popular nas décadas de 60 e 70, que apregoava o fim do ‘capitalismo industrial’ e a chegada de uma ‘sociedade de serviços’ ou de ‘tempos livres’. No entanto, só a partir dos anos 80 é que aquele conceito se viria a generalizar.
A expressão ‘sociedade da informação’ apareceu referida pela primeira vez, num relatório
governamental canadiano de 1982 (BELL, 1976a)16, ligado ao papel cada vez mais
importante desempenhado pela ciência no processo produtivo, à ascensão de grupos profissionais, científicos e técnicos ou aquilo a que hoje se designa por ‘tecnologia da informação’. Afirmava este autor que a sociedade da informação estava a desenvolver-se no contexto do pós-industrialismo prevendo o advento de um novo quadro de referência social baseado nas telecomunicações, que “...poderão ser decisivas no que diz respeito ao modo como as mudanças económicas e sociais são conduzidas, à forma como o conhecimento é criado e obtido e ao carácter do trabalho e das ocupações a que os
homens se dedicam...” (BELL, D. 1976ª:14)17. Para o autor, a SI tinha na sua génese a
inegável influência das telecomunicações que determinavam o contexto social, económico, laboral e de lazer.
Ao mesmo tempo que BELL se debruçava sobre este assunto, TOURAINE abordava também o tema da sociedade da informação, dando ênfase à luta entre classes, afirmando que esta resultaria do facto de “... as classes dominantes deterem o conhecimento e controlarem a informação...” (TOURAINE, A. 1974:28). A ideia de que uma pequena elite de cidadãos bem informados tomaria conta da sociedade, definindo o seu rumo.
No entanto, as contribuições para o conceito de sociedade da informação são muitas. Entre os vários autores (sociólogos, economistas, planeadores e geógrafos) existem, naturalmente, aqueles que vêem o conceito de uma forma optimista e outros de uma forma
pessimista. James MARTIN (1978), o autor de Wired Society é um optimista que vê nas
tecnologias de informação, características não poluidoras e não destrutivas; também STONIER (1983) prevê o fim das guerras. Para o japonês MASSUDA (1981), a sociedade da informação apresentava-se também numa perspectiva optimista. Graças às suas
contribuições, o governo Japonês produziu um plano18 onde se destacavam os objectivos
do país para o séc. XXI. As pesquisas levadas a cabo pelo autor foram essenciais;
16
Citado em WEBSTER, F. (1995:30).
17 Citado em LYON, D. (1992:3) 18
segundo ele, a SI significava a rejeição do materialismo desenfreado a favor da criatividade intelectual, abrindo as portas ao conhecimento e à inovação como elementos chave do processo produtivo.
A actual revolução digital - que o guru da gestão Peter DRUKER considera como a 4ª
revolução19 - só foi possível pelos avanços da microelectrónica, da multimédia e da
biotecnologia, que aceleraram a convergência entre os computadores, as
telecomunicações e os media. Estas transformações tecnológicas, alimentadas por
constantes fluxos de inovação e confrontadas com outra transformação - a globalização - criaram o cenário ideal para a incubação daquilo que se designa por ‘Sociedade da Informação’.
Segundo LINDLEY (2000), a expressão “sociedade da informação” refere-se à proliferação da informação, estimulada pelo aproveitamento da microelectrónica e pelas manifestações do seu potencial impacte social e económico. Este autor distingue ainda o conceito de ‘sociedade da aprendizagem’, que diz incluir o potencial de alargamento e aprofundamento da participação das pessoas na aprendizagem para a vida e para o trabalho durante os primeiros anos e ao longo da vida; e o conceito de ‘sociedade do conhecimento’ que se distingue do ‘da aprendizagem’, pela maneira como encara a mudança estrutural da economia a longo prazo e a utilização do conhecimento (que poderão desempenhar um papel importante na criação e aproveitamento da riqueza). Será também a interpretação que o Homem faz das mudanças ocorridas nos locais de trabalho ou no emprego e, também, dos aspectos políticos, culturais e globais da difusão das tecnologias da informação.
Algumas das mudanças mais significativas ocorridas na sociedade do séc. XX são inerentes (ou estão relacionadas) com as tecnologias da informação e, por isso, são parte integrante da sociedade da informação. No conceito de ‘terceira vaga’ lançado por Alvin TOFFLER (1980), a primeira vaga seria agrícola, a segunda industrial e a terceira a ‘da sociedade da informação’. Embora não persistam dúvidas de que esta difere em inúmeros aspectos da sociedade dita tradicional, subsistem questões quanto à verdadeira origem do poder. Na sociedade baseada na revolução agrícola, o poder derivava da posse de terra; na revolução industrial esse poder vinha da posse do capital financeiro; na revolução informacional, sabe-se que o poder vem da informação, mas desconhece-se ainda se provém da sua posse, do acesso aos conteúdos ou do controlo dos meios de comunicação.
19 Depois da primeira, que foi a invenção da escrita; da segunda, que foi a invenção do livro na China; e da
De um modo geral, as definições de sociedade da informação evidenciam as vertentes económica e cultural, expressas em algumas das inúmeras definições encontradas. “... na sociedade da informação, a informação é o bem mais precioso...” (E.C., 1996:7) – mostra a faceta económica, através do valor inerente a qualquer transacção informacional; “... uma sociedade que traz um rasgo de criatividade humana, intelectual, em vez do consumo materialista...” (MASSUDA, W., 1980:3) – parece ir de encontro a uma faceta social, quer pela importância dada à criatividade humana (por vezes ignorada e tantas vezes associada ao pensamento ‘Fordista’ da linha de montagem), quer pela negação do consumismo desenfreado. CASTELLS (2000:21) relaciona estas duas facetas, argumentando que a sociedade da informação “...é baseada numa tensão histórica entre o poder materialista do processamento de informação abstracta e a procura de uma identidade cultural da sociedade...”. O autor diferencia ainda, a ‘sociedade da informação’ da ‘sociedade informacional’; a primeira relacionada com o papel da informação na sociedade, e a segunda relacionada com a forma específica de organização social em que a criação, processamento e transmissão, se tornam as fontes principais de produtividade.
Autores como HALAL (1993) e MARTIN (1995) consideram a SI como um fenómeno ainda sem maturidade, afirmando que as sociedades ocidentais se encontram ainda numa fase de informatização, por isso, ainda sem indicadores concretos que lhes permitam avaliar quantitativa e qualitativamente a existência de uma sociedade da informação. SCHEMENT (1989) e WEBSTER (1994) consideram-na um fenómeno da sociedade moderna, iniciado na década de 80. KELLERMAN (2002) argumenta que a SI não é um processo novo. Segundo este autor, baseia-se em 3 fases e a sua evolução deveu-se à existência de um determinado contexto, onde as variáveis históricas, sociais, económicas e culturais foram determinantes. Essas 3 fases são: (i) a sociedade rica em informação; (ii) a sociedade baseada em informação; e (iii) a sociedade dominada pela informação.
Figura 3. – Fases da evolução da sociedade da informação.
Adaptado de Kellerman, A. 2002:11
Cultura
como Informação Guerra Fria
Produção de Informação Tecnologias de Informaçã
Emprego em Informação
Globalização
Sociedade Dominada pela Informação
Informação como produto
Guerra Fria Sociedade
Industrial Capitalismo Sociedade Rica em Informação Produção de Informação Tecnologias de Informação Emprego em Informação Sociedade Baseada em Informação Conectividade Especialização Globalização Sociedade Dominada pela Informação
Informação como produto
Fusão dos Media
Informação como Cultura
Fase 1 (1960-1970)
Fase 2 (1980-1990)
Fase 3 (1990-2000)
Segundo este autor, a sociedade da informação teve a sua primeira fase, na década de 60, nos Estados Unidos, num contexto que se mostrou determinante. A Guerra Fria, pelo impulso da indústria de guerra, nomeadamente a construção de mísseis que implicavam o
desenvolvimento de software e hardware para o seu sistema de navegação; mais tarde,
pelo desenvolvimento da ARPANET e do seu sistema de segurança, um dos antecessores
da Internet. O capitalismo, que funcionou como agente catalisador para as transferências
de informação (económica e financeira) entre o sector público e privado, que teve como
consequência a criação de grandes redes financeiras mundiais20. Um terceiro elemento
preponderante foi a natureza da actividade cultural na sociedade, originando um fluxo constante de informação oral e escrita que se disseminou sobre o espaço. Como quarta dimensão deste contexto, a ‘sociedade pós-industrial’ que, de certa maneira, induziu um
processo de mudança que deu origem à SI21. A informação existia em grande quantidade.
No entanto, o clima de tensão criado pela Guerra Fria e o segredo que rodeava a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias para alimentar a indústria militar ditavam a inexistência de fluxos de informação. Os seus fluxos limitavam-se a informação de baixo valor acrescentado.
20
Para aprofundamento destas matérias, vid., por exemplo, SCHILLER, H. (1981) e SCHEMENT, J.R. (1989).
21 Vid., também, a propósito do assunto, GOTTMANN, J., (1961), BELL, D., (1976), MASUDA, Y., (1980),
Na segunda fase, entre a década de 80 e princípio da década de 90, as TIC foram fundamentais para uma aumento substancial dos níveis de informação, quer na mobilidade dessa informação, quer no aumento da capacidade dos suportes para o seu armazenamento. Deu-se também uma fase de aumento dos níveis de emprego no sector da informação. Nestas duas décadas, a informação criada e guardada atingiu quantitativos, nunca antes atingidos.
Na terceira fase, entre meados da década de 90 e o início do novo milénio, dá-se a fase da maturidade, em que a informação passa a ser fundamental para a cultura, sendo mesmo considerada, como a única forma de garantir o desenvolvimento das populações. A
explosão da Internet como tecnologia generalista e a fusão dos media foram cruciais no
domínio da sociedade da informação. Os conteúdos assumiram-se como produtos, sendo considerados bens de primeira necessidade.
Como se constata, existe um vasto conjunto de argumentos que ajudam a definir Sociedade da Informação. BENINGER (1985:4-5) contou mesmo 75 termos propostos entre 1950 e 1984; na maior parte dos casos, nenhum foi adoptado de forma continuada.
Uma das mais importantes e curiosas mudanças ocorridas nas últimas décadas, foi a
percepção de que, a informação per si é algo que pode ser adquirido, armazenado, gerido
e explorado, tornando-se num poderoso recurso. Já não é vista como um bem que pode ser livremente usado por todos, sem qualquer encargo. Esta mudança de atitude deveu-se a vários factores, como os avanços na capacidade e velocidade dos processadores e consequente aumento da sua performance, a par do avanço nas telecomunicações.
A sociedade da informação parece representar uma oportunidade única para os países mais carenciados assumirem um papel de liderança. A possibilidade de beneficiar de incentivos para o uso de tecnologias de informação traz vantagens aos cidadãos, fortalecendo a sua economia.
Esta sociedade em constante desenvolvimento, traz um conjunto de excitantes possibilidades, incertezas, ideias e práticas conflituosas. É obrigatório explorá-la, examinando as variáveis que a rodeiam; ter em conta as complexas leis e regulamentações necessárias à manutenção de um equilíbrio (e regulamentar, sem asfixiar o seu uso). É também prioritário entender as suas tendências mais evidentes e examinar os factores que se julgam ser determinantes na evolução dos futuros cenários. Isto só é possível se se conhecer a verdadeira natureza da informação, analisando as suas relações com o conhecimento.