As discussões sobre ética e política não são novas. Aristóteles escreveu sobre esses temas no século iv a.C. com grande alcance e clareza, especialmente na Ética a Nicômaco e na Política. Kautilya, seu contemporâneo na Índia, escreveu sobre elas com uma abordagem institucional um pouco mais rígida em seu famoso tratado sobre economia política, Arthasastra (como foi discutido no último capítulo). Mas a exploração dos procedimentos formais de decisões públicas e de suas suposições normativas subjacentes — frequentemente ocultas — começou muito mais tarde. Uma das maneiras de adentrar essas questões pode ser encontrada na teoria da escolha social, que, como disciplina sistemática, fez sua primeira aparição na época da Revolução Francesa.
Os pioneiros dessa matéria foram matemáticos franceses que trabalhavam principalmente em Paris no final do século xviii, como Jean-Charles de Borda e o Marquês de Condorcet,
abordando o problema de chegar a avaliações agregadas com base em prioridades individuais e em termos até certo ponto matemáticos. Eles iniciaram a disciplina formal da teoria da escolha social investigando o método de agregação de juízos individuais de um grupo de diferentes pessoas.3 O clima intelectual do período foi muito influenciado pelo Iluminismo europeu, em particular pelo Iluminismo francês (bem como a Revolução Francesa), com seu interesse na construção da ordem social fundamentada racionalmente. De fato, alguns dos primeiros teóricos da escolha social, notadamente Condorcet, também estavam entre os líderes intelectuais da Revolução Francesa.
A motivação dos primeiros teóricos da escolha social incluía evitar a arbitrariedade e a instabilidade nos processos de escolha social. Seu trabalho focava o desenvolvimento de uma estrutura para decisões racionais e democráticas de um grupo, atentando para as preferências e os interesses de todos os seus membros. No entanto, suas investigações teóricas em geral produziram resultados bastante pessimistas. Condorcet mostrou, por exemplo, que a regra da maioria pode ser completamente inconsistente, com A derrotando B por maioria, B derrotando C também por maioria, e C, por sua vez, derrotando A por maioria também (uma demonstração às vezes chamada de “Paradoxo de Condorcet”). Sobre a natureza dessas dificuldades, uma boa parte do trabalho exploratório (frequentemente, de novo, com mais resultados pessimistas) continuou na Europa durante o século xix. De fato, algumas pessoas muito criativas trabalharam nessa área e lutaram com as dificuldades da escolha social; por exemplo, Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas, que escreveu
sobre a escolha social usando seu nome real, C. L. Dodgson.4
Quando a disciplina da teoria da escolha social foi reavivada em sua forma moderna por Kenneth Arrow por volta de 1950 (Arrow também lhe deu esse nome), ele também estava muito preocupado com as dificuldades das decisões coletivas e as inconsistências que elas podem produzir. Arrow colocou a escolha social sob uma forma estruturada e analítica, com axiomas afirmados explicitamente e analisados, exigindo que as decisões sociais preencham determinadas condições mínimas de razoabilidade, das quais emergiriam ordenações e escolhas sociais apropriadas de estados sociais alternativos.5 Isso levou ao nascimento da moderna disciplina da teoria da escolha social, substituindo a abordagem um pouco aleatória de Condorcet, Borda e outros por um reconhecimento da necessidade de declarar explicitamente quais condições devem ser satisfeitas por qualquer procedimento de decisão social para que seja aceitável, permitindo que outros contribuintes alterem os próprios axiomas e exigências de Arrow, após uma crítica fundamentada.
Esse foi o caminho positivo e construtivo que o trabalho pioneiro de Arrow abriu. No entanto, no que diz respeito a seus próprios axiomas, Arrow aprofundou drasticamente a melancolia preexistente ao estabelecer um resultado surpreendente — e extremamente pessimista — com alcance aparentemente ubíquo, que é agora conhecido como “teorema da impossibilidade de Arrow” (Arrow lhe deu um nome mais alegre: “teorema da possibilidade
geral”).6 Trata-se de um resultado matemático de notável elegância e poder, o que mostra que mesmo algumas condições muito suaves de razoável sensibilidade das decisões sociais pretendidas pelos membros de uma sociedade não podem ser simultaneamente satisfeitas por qualquer processo de escolha social que seja descrito como racional e democrático (como Arrow caracteriza essas exigências, com alguma plausibilidade). Dois séculos depois do florescimento das ambições da racionalidade social no pensamento iluminista e nos escritos dos teóricos da Revolução Francesa, a disciplina das decisões democráticas racionais parecia estar inevitavelmente condenada, no momento mesmo em que surgia um mundo pacífico, pleno de um novo compromisso democrático, a partir do sangue coagulado da Segunda
Guerra Mundial.7
O teorema pessimista de Arrow e um conjunto de novos resultados matemáticos que se seguiram a sua liderança pioneira, junto com as amplas discussões gerais produzidas por essa literatura em grande parte técnica, enfim tiveram um grande impacto construtivo sobre a disciplina da escolha social.d Isso obrigou os teóricos das decisões coletivas a investigar profundamente o que levou as exigências aparentemente razoáveis da prática sensivelmente democrática a produzir esses resultados de impossibilidade. Verificou-se também que, apesar das impossibilidades e dos impasses desse tipo poderem surgir com frequência considerável e incrível alcance, eles podem ser, na maioria dos casos, em grande parte resolvidos, tornando os processos de decisão social informacionalmente mais sensíveis.8 As informações sobre comparações interpessoais de bem-estar e vantagens relativas revelam-se particularmente importantes nessa solução.9
A maioria dos procedimentos mecânicos de escolha política (como o voto e as eleições) ou de avaliação econômica (como a avaliação da renda nacional) pode acomodar pouquíssima informação, exceto nas discussões que acompanhem esses exercícios. O resultado em si de uma votação revela tão somente que um candidato teve mais votos do que outro. Da mesma forma, o processo de agregação da renda nacional baseia-se apenas na informação sobre o que foi comprado e vendido por quais preços, e nada mais. E assim por diante. Se todas as informações que podemos inserir no sistema de avaliação ou tomada de decisão assumirem uma forma tão emaciada, então teremos de nos resignar aos resultados pessimistas. Mas para chegarmos a uma adequada compreensão das exigências da justiça, das necessidades de organização e instituições sociais, bem como da realização satisfatória das políticas públicas, teremos de buscar muito mais informações e provas analisadas e justificadas.
Kenneth Arrow se juntou a outros na busca por meios e formas de ampliar a base informacional da escolha social.10 Na verdade, nos anos 1780 Condorcet também já havia
apontado nessa direção em termos bem gerais.11 Existe aqui uma estreita ligação
motivacional com a apaixonada defesa de Condorcet da educação pública, especialmente da educação das mulheres; Condorcet foi um dos primeiros a enfatizar a importância da escolarização das garotas. Há também uma relação estreita com o profundo interesse de
Condorcet em enriquecer as estatísticas sociais, e com seu compromisso com a necessidade de contínuas discussões públicas, uma vez que todas elas ajudam a promover o uso de mais informações nos processos de escolha pública e na exploração da justiça social.12
Voltarei a essas questões depois de considerar a natureza e as implicações da enorme diferença entre as formulações da teoria da escolha social, com seu foco em chegar a uma ordenação de realizações sociais alternativas, e a forma de integrar as teorias dominantes da justiça, que se concentram não no método de avaliar melhorias ou declínios da justiça, mas na identificação de arranjos sociais perfeitamente justos na forma de “instituições justas”.