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Assim, a identificação transcendental não é necessária nem suficiente para chegar a juízos comparativos de justiça. Devemos, como sempre, examinar um terceiro tipo de conexão que possa, concebivelmente, conectar o comparativo ao transcendental. Pode ser o caso de as

ordenações comparativas das diferentes alternativas deverem inter alia também ser capazes de identificar o arranjo social transcendentalmente justo? Será que o transcendental resulta de forma invariável da plena utilização do comparativo? Se esse é o caso, podemos plausivelmente argumentar que, em certo sentido um tanto fraco, a tratabilidade da alternativa transcendental é necessária. Isso não implica, naturalmente, a necessidade de passarmos para avaliações comparativas pela abordagem transcendental, mas dá, pelo menos, à identificação transcendental a presença necessária na teoria da justiça, no sentido de que, se a questão transcendental não puder ser respondida, então deveremos concluir que tampouco poderemos responder plenamente à questão comparativa.

Uma sequência de comparações binárias invariavelmente nos levaria ao melhor de todos? Essa pressuposição tem algum fundamento, uma vez que o superlativo poderia de fato parecer ser o natural ponto final de uma comparação robusta. Mas essa conclusão seria, em geral, um non sequitur. Na verdade, apenas para uma ordenação “bem-ordenada” (por exemplo, uma ordenação completa e transitiva de um conjunto finito) é que podemos ter certeza de que o conjunto de comparações binárias também deve sempre identificar uma alternativa “melhor”.

Portanto, temos de perguntar: como a avaliação deve ser para que seja um método sistemático? Na abordagem “totalizante” que caracteriza o padrão das teorias da justiça, incluindo a de Rawls, a incompletude tende a aparecer como um fracasso, ou pelo menos como um sinal da natureza inacabada do exercício. Na verdade, a sobrevivência da incompletude às vezes é vista como um defeito de uma teoria da justiça, o que põe em dúvida as afirmações positivas que essa teoria faz. Com efeito, uma teoria da justiça que abre espaço sistemático para a incompletude pode nos permitir chegar a juízos bastante firmes e fortemente relevantes (por exemplo, sobre a injustiça da continuidade das fomes coletivas em um mundo de prosperidade, ou da persistente e grotesca subjugação das mulheres, e assim por diante), sem ter de encontrar avaliações altamente diferenciadas de cada arranjo político e social em comparação com todos os outros arranjos (por exemplo, abordando questões como: exatamente quanto imposto deve incidir sobre a venda de gasolina em determinado país, por razões ambientais?).

Discuti em outro lugar por que uma teoria sistemática e metódica da avaliação fundamentada, incluindo a avaliação da justiça social, não precisa assumir uma forma “totalizante”.g A incompletude pode ser do tipo que dura por várias razões, incluindo as

lacunas intransponíveis de informação e a insolubilidade de juízos envolvendo considerações diversas que não podem ser totalmente eliminadas, mesmo com a informação completa. Por exemplo, pode ser difícil resolver as reivindicações conflitantes que resultam de diferentes considerações de equidade, das quais um caso muito especial é o escolhido por Rawls na forma do maximin lexicográfico, que dá prioridade total ao mais minúsculo dos ganhos do grupo na pior situação, mesmo quando isso implica prejuízos enormes para os grupos menos

desfavorecidos, mas cuja situação é ruim, sobre os quais podem ser tomadas diversas posições razoáveis por observadores imparciais. Também pode haver vários compromissos razoáveis para pesar pequenos ganhos em liberdade, que é a prioridade no primeiro princípio de Rawls, em relação a reduções da desigualdade econômica — não importa quão grandes estas sejam. A importância de reconhecer a pluralidade de razões de justiça já foi discutida anteriormente neste livro, e essa questão será examinada mais detalhadamente em capítulos posteriores.

Ainda assim, apesar dessa ambiguidade durável, podemos ainda ser capazes de concordar prontamente de que há uma clara falha social envolvida nas fomes coletivas persistentes ou nas generalizadas exclusões do acesso ao atendimento médico, o que exige uma solução urgente (gerando, dessa forma, um avanço da justiça), inclusive depois de considerar os custos envolvidos. Da mesma forma podemos reconhecer a possibilidade de que, em certa medida, as liberdades de diferentes indivíduos conflitem entre si (de modo que seja difícil executar ajustes finos das exigências de “igual liberdade”), e ainda assim concordar que a tortura de prisioneiros organizada pelo governo, ou a prisão arbitrária de pessoas acusadas sem acesso a processos judiciais, é uma injusta violação da liberdade que exige uma retificação urgente.

Há uma consideração adicional que pode funcionar fortemente no sentido de dar espaço político para a incompletude dos juízos sobre a justiça social, mesmo que seja o caso de cada pessoa ter uma ordenação completa dos arranjos sociais possíveis. Já que uma teoria da justiça, na forma padrão, invoca um acordo entre diferentes partes (por exemplo, o acordo unânime buscado na “posição original” na estrutura rawlsiana), a incompletude também pode surgir a partir da possibilidade de que pessoas distintas continuem a ter diferenças nas avaliações (o que não é incompatível com seu acordo sobre um grande número de juízos comparativos). Mesmo depois de os interesses pelo próprio benefício e as prioridades pessoais serem de algum modo “desconsiderados”, através de dispositivos como o “véu de ignorância”, eventualmente podem restar visões conflitantes sobre as prioridades sociais, por exemplo, na ponderação das reivindicações de necessidades em relação aos direitos sobre os frutos do próprio trabalho (como no exemplo das três crianças discutindo sobre a utilização de uma flauta).

Mesmo quando todas as partes envolvidas têm suas próprias ordenações completas de justiça e estas não são congruentes, a “interseção” entre as ordenações — isto é, as crenças compartilhadas das diferentes partes — produzirá uma ordenação parcial, com diferentes graus de articulação (dependendo do grau de semelhança entre as ordenações).17 A aceitabilidade da incompletude avaliativa é sem dúvida um assunto central em toda teoria da escolha social, e é relevante para as teorias da justiça também, apesar de a “justiça como equidade” rawlsiana e outras teorias similares firmemente afirmarem (e é uma afirmação, em vez de algo de fato estabelecido pelos argumentos apresentados) que um acordo pleno com

certeza surgirá na “posição original” e em outros formatos afins.

Dessa forma, por razões tanto de avaliações individuais incompletas como de congruência incompleta entre as avaliações de indivíduos diferentes, a incompletude persistente pode ser uma característica resistente dos juízos de justiça social. Isso pode ser problemático para a identificação de uma sociedade perfeitamente justa, dificultando a derivação de conclusões

transcendentais.h E, no entanto, essa incompletude não nos impedirá de julgar

comparativamente a justiça em um grande número de casos — nos quais haja um acordo equânime quanto a ordenações binárias específicas — sobre como melhorar a justiça e reduzir a injustiça.

Assim, o hiato entre as abordagens relacional e transcendental da justiça parece ser bastante abrangente. Apesar de seu próprio interesse intelectual, a pergunta “o que é uma sociedade justa?” não é, como sustentei, um bom ponto de partida para uma teoria da justiça que seja útil. A isso temos de adicionar a conclusão de que ela pode não ser um ponto final plausível. Uma teoria sistemática da justiça comparativa não precisa de uma resposta (nem necessariamente a produz) para a pergunta “o que é uma sociedade justa?”.

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