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O uso de Adam Smith do observador imparcial se relaciona com a argumentação contratualista de uma forma semelhante àquela na qual os modelos de arbitragem justa (pontos de vista sobre o que pode ser solicitado por qualquer um) se relacionam com os modelos de negociação justa (na qual a participação está limitada aos membros do grupo envolvido no contrato original para determinado “povo” de um país soberano específico). Na análise smithiana, os juízos relevantes podem vir de fora das perspectivas dos protagonistas das negociações; na verdade, podem vir, como diz Smith, de qualquer “espectador justo e imparcial”. Ao invocar o espectador imparcial, obviamente não é a intenção de Smith deixar a tomada de decisão à arbitragem final de uma pessoa desinteressada e apática, e nesse sentido a analogia com a arbitragem legal não funciona aqui. Mas a analogia funciona ao abrir espaço não só para ouvir vozes, porque elas vêm do grupo de decisores ou mesmo das partes interessadas, mas por causa da importância de ouvir o ponto de vista dos outros, o que pode nos ajudar a atingir uma compreensão maior — e mais justa.

É claro que esse seria um passo inútil se quiséssemos chegar a uma avaliação completa da justiça que resolvesse todos os problemas decisórios.f A admissibilidade da incompletude discutida anteriormente (na Introdução e no capítulo 1), em uma forma tentativa ou assertiva, é parte da metodologia de uma disciplina que pode permitir e facilitar a utilização de pontos de vista de espectadores imparciais de longe e de perto. Eles ingressam não como árbitros, mas como pessoas cuja leitura e avaliação nos ajudam a alcançar uma compreensão menos parcial da ética e da justiça de um problema, em comparação com a limitação da atenção apenas às vozes daqueles que estão diretamente envolvidos (e dizendo a todos os outros que cuidem de sua própria vida). A voz de uma pessoa pode ser relevante porque ele ou ela é um membro do grupo que está envolvido no contrato negociado para uma comunidade política específica, mas também pode ser relevante por causa do esclarecimento e do alargamento de perspectivas que uma voz vinda de fora das partes contratantes pode fornecer. O contraste entre o que respectivamente chamamos de “direito de um membro” e “relevância para o esclarecimento” no capítulo 4 é de fato uma distinção significativa. A pertinência do primeiro não elimina a importância da última.

Há também semelhanças significativas entre partes da própria argumentação de Rawls e o exercício de imparcialidade aberta com a ajuda de espectadores imparciais. Como foi mencionado anteriormente, apesar da forma “contratualista” da teoria rawlsiana da justiça como equidade, o contrato social não é o único dispositivo que Rawls invoca em sua abordagem geral da filosofia política, e até mesmo em sua compreensão específica da justiça.g Existe um “pano de fundo” para os eventos imaginados na posição original, e é importante examiná-lo aqui. Na verdade, grande parte do exercício reflexivo acontece antes mesmo de os representantes do povo serem imaginados reunidos na posição original. O “véu de ignorância” pode ser visto como uma exigência processual de imparcialidade, que se destina a restringir as reflexões morais e políticas de qualquer pessoa, quer um contrato seja

finalmente invocado, quer não. Além disso, embora a forma do exercício de imparcialidade permaneça “fechada” no sentido já discutido, é evidente que as intenções de Rawls incluem inter alia a eliminação do controle das influências arbitrárias relacionadas à história passada (bem como às vantagens individuais).

Ao ver a posição original como “um dispositivo de representação”, Rawls tenta resolver vários tipos de arbitrariedade que podem influenciar nosso pensamento real, que tem de ser submetido à disciplina ética para alcançar um ponto de vista imparcial. Mesmo na primeira declaração sobre a motivação por trás da posição original, Rawls esclarece este aspecto do exercício:

A posição original, com as características formais do que chamei de “véu de ignorância”, é este ponto de vista... Essas vantagens contingentes e influências acidentais do passado não devem afetar um acordo sobre os princípios que hão de regular as instituições da própria estrutura básica desde o presente até o futuro.8

Com efeito, dado o uso do método do “véu de ignorância”, as partes (isto é, os indivíduos sob o véu) já concordariam entre si quando se tratasse de negociar um contrato. De fato, observando isso, Rawls se pergunta se um contrato é afinal necessário, dado o acordo pré- contrato. Ele explica que, apesar do acordo que antecederia o contrato, o contrato original tem um papel significativo porque o ato de contratar, mesmo em sua forma hipotética, é em si importante, e porque a consideração do ato de contratar — com um voto vinculante — pode influenciar as deliberações pré-contratuais que ocorrem:

Por que, então, a necessidade de um acordo quando não há diferenças a negociar? A resposta é que chegar a um acordo unânime sem um voto vinculante não é a mesma coisa que todas chegarem à mesma escolha ou constituírem a mesma intenção. O fato de ser um compromisso que essas pessoas estão assumindo pode afetar similarmente as deliberações de todas de forma que o acordo resultante seja diferente da escolha que todas de resto teriam feito.9

Portanto, o contrato original continua a ser importante para Rawls; contudo, uma parte substancial da argumentação rawlsiana diz respeito a reflexões pré-contratuais, em alguns aspectos executadas em linhas paralelas ao processo smithiano envolvendo a arbitragem justa. Porém, o que distingue o método rawlsiano, mesmo nesta parte, da abordagem smithiana é a natureza “fechada” do exercício participativo que Rawls invoca através da

limitação do “véu de ignorância” aos membros de determinado grupo focal.h

Isso está de acordo com a inclinação de Rawls a reconhecer, nesse contexto, apenas o “direito de um membro”, sem reconhecer suficientemente, nesse exercício específico, a “relevância para o esclarecimento”. Como venho argumentando, essa é uma limitação grave; contudo, antes de eu passar para a abordagem alternativa smithiana (na qual a relevância para o esclarecimento é de extrema importância), devo reafirmar que, apesar da limitação da estrutura rawlsiana, aprendemos com ela algo muito fundamental sobre o lugar da imparcialidade na ideia de justiça. Rawls mostra com uma vigorosa argumentação por que os juízos de justiça não podem ser um assunto totalmente privado, incompreensível para os

outros, e a invocação rawlsiana de “uma estrutura pública de pensamento”, que por si só não demanda um “contrato”, é um passo criticamente importante: “Olhamos para nossa sociedade e nosso lugar nela objetivamente: partilhamos um ponto de vista comum com os outros e não fazemos nossos juízos de uma perspectiva pessoal”.10 Esse passo foi posteriormente consolidado pelo argumento de Rawls, particularmente em Political liberalism, de que o padrão relevante de objetividade dos princípios éticos é basicamente

coerente com sua defensibilidade dentro de uma estrutura pública de pensamento.i

Como essa teoria rawlsiana difere da abordagem a uma teoria da justiça que pode ser derivada da extensão da ideia de Adam Smith do espectador imparcial? Há muitos pontos de diferença, mas os três mais imediatos são: em primeiro lugar, a insistência de Smith no que está sendo chamado aqui de imparcialidade aberta, aceitando a legitimidade e a importância da “relevância para o esclarecimento” (e não apenas do “direito de um membro”) das perspectivas dos outros; em segundo lugar, o foco comparativo (e não apenas transcendental) da investigação de Smith, indo além da busca de uma sociedade perfeitamente justa; e, em terceiro lugar, o envolvimento de Smith com as realizações sociais (indo além da busca das instituições justas apenas). Essas diferenças estão, de certa forma, relacionadas entre si, uma vez que a ampliação das vozes admissíveis para além dos limites do território local ou comunidade política local pode permitir que mais princípios não congruentes sejam levados em consideração para responder a uma ampla variedade de questões relacionadas com a justiça. Haverá, naturalmente, uma considerável divergência entre as diferentes visões imparciais, distantes e próximas, mas, por razões já descritas na Introdução, isso resultaria em uma ordenação social incompleta, com base em pares coerentemente ordenados, e essa classificação incompleta poderia ser vista como compartilhada por todos. A consideração dessa ordenação parcial compartilhada, bem como a reflexão sobre as diferenças envolvidas (relacionadas com as partes incompletas da ordenação), poderia enriquecer substancialmente a argumentação pública sobre a justiça e a injustiça.j

O “espectador imparcial” de Adam Smith é naturalmente um dispositivo para o escrutínio crítico e a discussão pública. Ele não precisa, portanto, buscar a unanimidade ou o acordo total da mesma maneira que a camisa de força institucional da teoria rawlsiana da justiça exige.k Qualquer acordo que surja não precisa ir além de uma ordenação parcial com articulação limitada, o que, no entanto, pode gerar declarações firmes e úteis. Em correspondência, os acordos alcançados não necessitam exigir que alguma proposta seja exclusivamente justa, mas talvez apenas plausivelmente justa, ou pelo menos não manifestadamente injusta. Com efeito, as exigências da prática baseada em razões podem, de uma forma ou de outra, viver com uma boa dose de incompletude ou de conflitos não resolvidos. O acordo que surge a partir de “uma estrutura pública de pensamento” pode ser do tipo parcial, mas útil.

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