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Uma abordagem transcendental produz, como subproduto, conclusões relacionais prontas para serem elaboradas, de modo que a transcendência acabe nos dando muito mais do que sua forma ostensiva articula? Em particular, a especificação de uma sociedade totalmente justa é suficiente para nos dar ordenações de afastamentos da equidade com relação às distâncias comparativas desde a perfeição, de modo que uma identificação transcendental também implique, entre outras coisas, graduações comparativas?

A abordagem das distâncias comparativas, mesmo tendo uma plausibilidade aparente, na verdade não funciona. A dificuldade reside no fato de que existem diferentes características envolvidas na identificação das distâncias, relacionadas, entre outras distinções, com diferentes campos de afastamento, dimensões variadas de transgressões e diversas formas de pesagem das infrações distintas. A identificação da transcendência não produz nenhum meio de resolver esses problemas para chegar a uma ordenação relacional dos afastamentos da transcendência. Por exemplo, em uma análise rawlsiana da sociedade justa, os afastamentos podem ocorrer em diversas áreas, incluindo a violação da liberdade, que, além disso, pode envolver diversas violações de liberdades distintas (muitas das quais figuram no amplo tratamento dado por Rawls à liberdade e sua prioridade). Também pode haver violações — de novo, provavelmente sob formas distintas — das exigências da equidade na distribuição dos bens primários (pode haver muitos afastamentos diferentes das exigências do “princípio da diferença”).

Há muitas maneiras diferentes de avaliar a extensão de cada uma dessas discrepâncias e de avaliar o afastamento comparativo das distribuições reais em relação ao que os princípios da justiça plena exigiriam. Temos de considerar, ainda, afastamentos da igualdade processual (como a violação da igualdade equitativa de oportunidades ou recursos públicos), que figura no domínio das exigências rawlsianas de justiça (na primeira parte do segundo princípio). Pesar esses afastamentos processuais vis-à-vis inconveniências de padrões emergentes de distribuições interpessoais (por exemplo, as distribuições de bens primários), que também figuram no sistema rawlsiano, exigiria especificações distintas — possivelmente em termos axiomáticos — da importância ou significado relativo (ou “trade-offs”, como são às vezes chamadas no vocabulário um tanto rude da avaliação multidimensional). Mas essas avaliações, por mais úteis que sejam, estão além do exercício específico de identificação da transcendência e de fato são os ingredientes básicos de uma abordagem “comparativa”, e não “transcendental”, da justiça. A caracterização da justiça impecável, mesmo que emergisse de forma clara, não implicaria delineamento algum de como os diversos afastamentos da justiça impecável seriam comparados e ordenados.

A ausência dessas implicações comparativas não é, obviamente, um constrangimento para uma teoria transcendental em si, visto como uma conquista independente. O silêncio relacional não é, em sentido algum, uma dificuldade “interna”; na verdade, alguns transcendentalistas puros podem se opor inteiramente até mesmo a flertar com graduações e avaliações comparativas, e muito provavelmente evitam completamente conclusões relacionais. Eles podem apontar, em particular, para seu entendimento de que um arranjo social “correto” não deve, de modo algum, ser entendido como o arranjo social “melhor”, o que poderia abrir as portas ao que às vezes é visto como o mundo intelectualmente escorregadio das avaliações graduadas na forma de “melhor” ou “pior” (ligado com o superlativo relacional “o melhor”). O caráter absoluto do “correto” transcendental — em comparação com a relatividade de “melhor” e “o melhor” — pode ou não ter em si um forte apelo fundamentado (abstenho-me de entrar nesse assunto aqui).f Mas isso, é claro, em nada ajuda — este é o ponto central nesse momento — em avaliações comparativas da justiça e, portanto, na escolha entre políticas alternativas.

Com efeito, os membros de qualquer comunidade política podem imaginar quão gigantesca e abrangente uma reorganização poderia ser, movendo-os de uma só vez até o ideal de uma sociedade plenamente justa. Uma teoria transcendental prática pode servir, nesse sentido, como um grande “manual completo” do revolucionário. Mas esse manual maravilhosamente radical não seria muito invocado nos reais debates sobre a justiça nos quais estamos sempre envolvidos. Perguntas sobre como reduzir as injustiças múltiplas que caracterizam o mundo tendem a definir o domínio de aplicação da análise da justiça; o salto para a perfeição transcendental não pertence a ele. Também é interessante notar aqui a questão analítica geral, já observada na Introdução: o diagnóstico da injustiça não exige uma identificação única da “sociedade justa”, pois um diagnóstico unívoco das deficiências de uma sociedade — que apresenta, digamos, fomes coletivas em larga escala, analfabetismo generalizado ou desenfreada negligência médica — pode condizer com diferentes identificações de arranjos sociais perfeitamente justos em outros aspectos.

Mesmo que concebamos a transcendência não nos termos sem graduações dos arranjos sociais “corretos”, mas nos termos graduais dos “melhores” arranjos sociais, a identificação do melhor por si mesma não nos diz muito sobre a classificação graduada completa, como comparar duas alternativas que não estão entre as melhores, nem especifica uma ordenação única cujo melhor arranjo está no topo; de fato, o mesmo melhor arranjo pode condizer com um grande número de diferentes ordenações situando-o no mesmo topo.

Para considerar uma analogia usada acima, o fato de uma pessoa julgar a Mona Lisa como a melhor pintura do mundo não revela como ela classificaria um Picasso vis-à-vis um Van Gogh. A busca pela justiça transcendental pode ser um exercício intelectual atrativo em si, mas — independentemente de concebermos a transcendência quanto ao “correto” sem graduações ou no âmbito dos “melhores” de uma classificação graduada — ele não nos diz

muito sobre os méritos comparativos de diferentes arranjos sociais.

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