A dependência posicional dos resultados observacionais pode tanto iluminar (nesse caso, respondendo à pergunta: quão grande um objeto parece olhado daqui?) como, eventualmente, induzir a erro (respondendo a outras perguntas associadas de forma padronizada com o tamanho, como: quão grande esse objeto de fato é em termos de massa?). Os dois aspectos da variabilidade posicional respondem a questões muito diferentes, mas nenhum é totalmente subjetivo. Esse ponto pode demandar um pequeno detalhamento, sobretudo porque a caracterização da objetividade como um fenômeno dependente da posição não é o entendimento comum da ideia de objetividade.
Em seu abrangente livro The view from nowhere, Thomas Nagel caracteriza a objetividade da seguinte maneira: “Uma visão ou forma de pensamento é mais objetiva do que outra se é baseada menos nas especificidades da composição do indivíduo e de sua posição no mundo, ou nas qualidades do tipo específico de criatura que ele é”.2 Essa maneira de ver a
objetividade tem certo mérito claro: ela se concentra em um aspecto importante da concepção clássica de objetividade — independência da posição. Para chegar à conclusão de que o Sol e a Lua são igualmente grandes, digamos, com relação à massa, pela razão de
parecerem ser do mesmo tamanho vistos daqui da Terra seria uma grave violação da objetividade independente da posição. As observações posicionais podem, nesse sentido, induzir a erro, se não considerarmos adequadamente a variabilidade posicional das observações e tentarmos fazer as correções apropriadas.
Ao contrário, o que pode ser chamado de “objetividade posicional” diz respeito à objetividade do que pode ser observado a partir de uma posição específica. Estamos interessados em observações e na observabilidade que não variam com a pessoa, mas que são relativas à posição, exemplificadas por aquilo que somos capazes de ver a partir de dada posição. O tema de uma avaliação objetiva no sentido posicional é algo que pode ser verificado por qualquer pessoa normal ocupando determinada posição observacional. Como exemplificado pelas afirmações sobre o tamanho relativo do Sol e da Lua, o que é observado pode variar de posição a posição, mas diferentes pessoas podem realizar as respectivas observações da mesma posição e fazer observações idênticas.
O tema nesse caso é como um objeto parece de uma posição específica de observação, e pareceria para qualquer observador com as mesmas características posicionais.c As variações posicionais nas observações dificilmente podem ser atribuídas à “subjetividade”, como alguns poderiam ser tentados a fazer. Quanto a dois critérios padrão de subjetividade, não há aqui nenhuma razão em particular para ver a declaração “o Sol e a Lua parecem semelhantes em tamanho” como “tendo a mente como fonte” ou como “pertencente ou peculiar a um sujeito individual ou a suas operações mentais” (guiando-nos por definições de subjetividade no Oxford English dictionary).
Uma declaração observacional não é necessariamente uma declaração sobre o funcionamento especial da mente de uma pessoa. Ele identifica um fenômeno que tem qualidades físicas também, independente da mente de alguém; por exemplo, é precisamente porque o Sol e a Lua têm o mesmo tamanho visível desde a Terra que pode ocorrer um eclipse solar completo, com a massa reduzida da Terra obscurecendo a grande massa do Sol na perspectiva especial da Terra, e um eclipse solar dificilmente pode ser visto como tendo “a mente como fonte”. Se prever eclipses é o trabalho com o qual estamos envolvidos, então o que é particularmente relevante ao falarmos dos tamanhos relativos do Sol e da Lua é a congruência de suas projeções posicionais desde a Terra, e não — isto é, não diretamente — suas respectivas massas.
Aryabhata, o matemático e astrônomo indiano do início do século v, tinha esmiuçado o tamanho das projeções ao explicar os eclipses: essa foi uma de suas muitas contribuições
astronômicas.d Aryabhata foi atacado — como esperado — por se afastar tão radicalmente da
ortodoxia religiosa, e os críticos incluíam seu brilhante discípulo Brahmagupta, outro grande matemático, que fez declarações pró-ortodoxia, mas usou as inovações de Aryabhata, e na verdade as ampliou. Várias centenas de anos depois, no início do século xi, quando o eminente matemático e astrônomo iraniano Alberuni saiu em defesa de Aryabhata, ele
enfatizou o fato de que as previsões práticas de eclipses, incluindo aquelas de Brahmagupta, seguiam o método de projeções de Aryabhata, em vez de refletir o próprio comprometimento de Brahmagupta com a ortodoxia hindu. Em uma notável defesa intelectual mil anos atrás, Alberuni dirigiu a seguinte crítica a Brahmagupta:
não vamos discutir com ele [Brahmagupta], mas apenas sussurrar em seu ouvido: [...] Por que você, depois de ter dito tão [duras] palavras [contra Aryabhata e seus seguidores], logo começou a calcular o diâmetro da Lua a fim de explicar o eclipse do Sol, e o diâmetro da sombra da Terra, a fim de explicar o eclipse da Lua? Por que você quer calcular ambos os eclipses de acordo com a teoria daqueles hereges, e não conforme as opiniões daqueles com quem você acha que é apropriado concordar?3
A objetividade posicional pode realmente ser a compreensão adequada da objetividade, dependendo do exercício no qual estamos envolvidos.
Diferentes tipos de exemplos de parâmetros posicionais que não são peculiaridades de atitudes mentais ou psicológicas, e que podem ser compartilhados por diferentes indivíduos, incluem: saber ou não saber um idioma específico, ser ou não ser capaz de contar, ou ser daltônico em vez de ter uma visão normal (entre um grande número de variações paramétricas semelhantes). Não viola a objetividade posicional fazer uma declaração de como o mundo pareceria para uma pessoa com certos atributos “posicionais” específicos.
A alegação aqui — é importante notar — não é que tudo o que pode ser “explicado” com relação à causalidade seja posicionalmente objetivo. Muito dependerá da natureza da variabilidade envolvida. Para dar um exemplo clássico muito discutido na antiga epistemologia indiana, confundir uma corda com uma serpente por causa de um nervosismo incomum, ou de um medo mórbido de cobras, não transforma esse diagnóstico claramente subjetivo em posicionalmente objetivo. A ideia de objetividade posicional pode, contudo, ser legitimamente invocada em um caso em que uma corda é tomada como uma serpente, porque essa é exatamente a forma com que o pedaço de corda parece para todos; por exemplo, a forma como as destacadas características de serpente de uma corda podem parecer para aqueles que a observam sob uma luz ofuscante.
Há uma distinção semelhante no âmbito da avaliação ética e política, comparável ao contraste entre os respectivos papéis de esclarecimento e ilusão da posicionalidade. Na busca de teorias das responsabilidades pessoais baseadas no parentesco e que demandam um papel específico, por exemplo, dos pais em cuidar de seus próprios filhos, dar uma importância especial aos interesses dos próprios filhos pode ser plausivelmente visto como eticamente adequado. Ter um interesse assimétrico na vida dos próprios filhos pode não ser, nesse contexto, uma loucura subjetiva — ao contrário, pode ser o reflexo de uma perspectiva ética buscada objetivamente (que está ligada, nesse caso, à relevância posicional da paternidade
ou maternidade).e
relação ao “ponto de vista desde lugar nenhum”, em vez de “desde algum lugar delineado”. Pode haver uma relevância especial nas características posicionais que uma ética ampla precisa reconhecer de forma adequada e levar devidamente em conta. Na verdade, o dever de alguém com seus filhos — para considerar o mesmo exemplo — não tem como fonte apenas “a mente”, e um significado real pode ser anexado a ele em abordagens específicas da ética.
Quando questões sobre as avaliações e responsabilidades relativas ao agente — de forma mais geral, relativas à posição — são examinadas, assim como serão no capítulo 10, os aspectos esclarecedores da objetividade posicional serão relevantes. Todavia, em outros contextos, dar uma importância especial aos interesses dos próprios filhos deve ser visto, a partir da perspectiva de uma ética não relacional, como um erro claro. Por exemplo, se um funcionário público no exercício de seus deveres civis der maior importância aos interesses de seus próprios filhos, isso poderá ser visto como uma falha política ou ética, não obstante o fato de que os interesses de seus filhos sejam mais importantes para ele devido à proximidade posicional deles.
O que pode ser necessário nesse exercício é uma abordagem “posicionalmente não tendenciosa”. A demanda nesse caso seria de um reconhecimento adequado do fato de que outras crianças podem ter interesses em jogo tão grandes e importantes quanto os dos próprios filhos, e a visão desde “algum lugar delineado” (ligada, por exemplo, às relações parentais) seria, nesse contexto, um erro.
A busca de algum tipo de compreensão do mundo que seja independente da posição é fundamental para o esclarecimento ético que pode ser procurado em uma abordagem não relacional. Quando Mary Wollstonecraft ridicularizou Edmund Burke por seu apoio à Revolução Americana, sem ter nenhum interesse na condição dos escravos, como se a liberdade que ele apoiou para os americanos brancos não precisasse ser aplicada a seus escravos negros (como foi discutido no capítulo 5), Wollstonecraft estava defendendo uma perspectiva universalista que superaria os preconceitos posicionais e o favoritismo divisório. O essencial aí não é a compreensão posicional, mas algum tipo de compreensão transposicional. Assumir um “ponto de vista desde lugar nenhum” seria, obviamente, a ideia adequada nesse contexto.