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No que diz respeito à intensidade com que lidavam com questões relacionadas ao mundo do trabalho nas experiências profissionais anteriores:

Aqui, pode-se ter um indício de que grande parte dos indivíduos atendidos pela terapia ocupacional não participa de maneira considerável do mercado de trabalho, estando dele à

margem. Isso pode indicar também a tendência geral de uma não consideração, por parte dos terapeutas ocupacionais, do trabalho como elemento central nas intervenções com sua população alvo, ou, ao menos, do trabalho no mercado formal e informal, para além das oficinas de trabalho protegido, direcionadas geralmente a populações com problemáticas específicas.

Reforça esse indício o fato de que, ao serem questionadas sobre o conhecimento de outras iniciativas de preparação de indivíduos para o retorno ao mercado de trabalho, a maioria das terapeutas ocupacionais mencionou iniciativas e ações voltadas a populações caracterizadas por uma determinada problemática, principalmente pessoas com deficiência, tendo sido a Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (AVAPE), citada por 6 participantes. Somente 2 terapeutas ocupacionais mencionaram locais como os Postos e Centros de Atendimento e Apoio ao Trabalhador (PAT e CAT) e os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CRST).

No que concerne às concepções sobre ‘trabalho’, todas as entrevistadas levantaram questões referentes à sua grande relevância e centralidade na vida das pessoas, sendo que 2 delas consideram ser necessária uma atuação junto aos segurados para que percebam essa centralidade e possam assim transformar suas relações com o trabalho e sua visão acerca do mesmo, atribuindo-lhe outros sentidos que não somente a geração de renda para subsistência. Com relação a isso, Antunes (2008) nos traz que “uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho” (ANTUNES, 2008, p. 112).

Nas entrevistas, o trabalho apareceu como um componente muito importante na cadeia de significantes e significadores do fazer humano. Foram abordados aspectos que vão desde os significados atribuídos às diversas esferas da vida por meio e/ou a partir do trabalho; o seu papel integrador com os demais acontecimentos e espaços da vida cotidiana; o sentimento de pertencimento social e de contribuição com a sociedade ao trabalhar em algo considerado útil; os impactos do afastamento do trabalho; as relações estabelecidas no/com o trabalho; as transformações no mundo do trabalho, desde em sua organização até nos valores que lhe são atribuídos.

O trabalho tem papéis muito diferentes para as pessoas (...); permite (...) desde a questão da participação social, de que a pessoa passa a maior parte do tempo trabalhando, ela tem a possibilidade de ter outros encontros, produzir alguma coisa, de se valorizar por aquilo que está fazendo. (...) A profissão é uma das coisas que as pessoas utilizam mais para poder se apresentar (...), sentem-se orgulhosas quando são reconhecidas por aquilo que fazem. (...) Vai também, sim, passar pela questão de que “Eu preciso

pagar minhas contas e eu consigo com aquilo que eu faço, eu sei vender meu trabalho, meu trabalho tem valor” que é remunerado também, não é valor só em relação à construção da sociedade, de intervir nos espaços (E6, p. 7-8). A reabilitação vem muito nesse momento de transformação do significado que essas pessoas dão para o trabalho (E5, p. 24-25).

Vai tendo as suas evoluções ao longo da história, que passa de um trabalho que você tem todo o controle sobre ele (...) até toda a transformação (...) de que ele vai ficando fragmentado, alienado, (...) você nem consegue comprar o produto que você produz (...), para outras relações que são até mais perversas (...), da organização do trabalho, fazendo com que você, sendo colega do outro, exija do outro uma produção porque aquilo te afeta (...). Mas, o que eu fico pensando a respeito dessas coisas todas é o valor que as pessoas dão ao trabalho. (...) É possível que algumas doenças hoje até aflorem mais porque o trabalho não tem mais significado, trabalho não é mais valor. (...) você tem ainda pessoas que valorizam muito a questão da carreira, de se tornar alguém produtivo, de se fazer algo significativo, de contribuir para a sociedade, mas eu acho que esse pensamento está se acabando (E2, p. 19-20).

A gente tinha que falar do mundo do destrabalho, que não tem trabalho, só tem doença e falta de trabalho, o nosso público é isso (E2, p. 19).

Concordamos com a questão da posição central que o trabalho ocupa na sociedade e com o papel integrador que exerce ao instrumentalizar os indivíduos para as diversas esferas da vida, transformando a realidade com e a partir do mesmo. Enfatizamos também a importância de se considerar o mundo do não trabalho – ou do ‘destrabalho’, como coloca E2 – nas ações da Reabilitação Profissional, visto se estar diante de situações de afastamento do mesmo e que podem ocasionar o redimensionamento dos múltiplos aspectos da vida; no entanto, mesmo se referindo ao não trabalho, o que se coloca é, ainda, o trabalho e a concepção de sua centralidade. Além disso, trata-se de indivíduos que se encontram na fronteira entre o mundo do trabalho e o do não trabalho.

Sobre a atuação para a transformação da visão que os segurados possuem a respeito do trabalho e da ampliação dos sentidos que atribuem ao mesmo, acreditamos ser este um assunto bastante delicado, pois não se desconstrói – e nem se deve fazê-lo – uma concepção de trabalho, constituída ao longo de toda uma trajetória profissional, em um universo de possibilidades limitadas como o do Programa de Reabilitação Profissional do INSS, bem como frente a situações de redução da capacidade de trabalho e do receio e insegurança que costumam gerar; tudo isso somado à precarização das condições do mercado de trabalho atual e ao fato de muitos desses indivíduos não terem vivenciado a possibilidade de exercerem

sentidos diversos em seu trabalho, no que diz respeito à escolha do que fazer ou ao exercício de sua potência, por exemplo.

Deve haver, cremos, um esforço conjunto no sentido de auxiliar os indivíduos a construírem, dentro da situação que atravessam, a partir de seu repertório profissional e de suas crenças a respeito do trabalho – tudo isso circunscrito às possibilidades oferecidas pelo Programa –, uma trajetória que leve ao exercício de uma nova atividade profissional, com toda a complexidade a isso inerente.