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CAP II – A EMPRESA

3. Segunda fase – 1944 a

3.9. Tempos de mudança

3.9.2. Abril de 1974 e depois

Quando se deu o 25 de Abril de 1974 a Casa Hipólito estava, como os ofídios, em fase de mudança de pele: por um lado mantinha em funcionamento a Fábrica A e os Pavilhões, no Centro Histórico de Torres Vedras, para o fabrico dos produtos em série / cabeças e equipamentos de gás; por outro, tinha já em funcionamento as naves de Arenes, para onde transferira a área vinícola – sediada na Fábrica B, e concluía a nave onde se viriam instalar, a breve trecho, as áreas do gás e do Petromax. Os escritórios desde sempre sediados na R. Serpa Pinto, não tardariam em mudar-se para Arenes, em 74 / 75.

As profundas alterações sociopolíticas decorrentes do acto revolucionário não deixaram de ter repercussões, naturalmente, no quotidiano dos portugueses em geral e da

C. Hipólito em particular. Ao tempo pesado e negro do regime de inspiração fascista que

dominara Portugal desde 1932, sucedeu um tempo novo de liberdade. Nas empresas, a emergência das comissões de trabalhadores e de delegados sindicais, agora em actividade livre de tutelas, foi talvez a maior novidade dessa época, a par do aparecimento de diversos partidos políticos.

Os testemunhos que ouvimos, bem como os documentos existentes tanto no FCH como na União dos Sindicatos de Torres Vedras, dar-nos-iam matéria para longuíssima abordagem às questões laborais desta época. Porém, não a faremos por duas razões: por um lado o processo judicial de falência ainda não está fechado, havendo intervenientes que se movimentam para o alterarem ou impugnarem; por outro, há demasiadas feridas ainda abertas pelas dissensões partidárias que se reflectiram nas opções e posições dos diversos actores da área laboral. Qualquer análise ou síntese da nossa parte enfrentaria, inevitavelmente, o desacordo e a polémica – o que está nos antípodas do objectivo deste nosso trabalho. Limitar-nos-emos aos apontamentos que nos parecem insusceptíveis de contestação e que vêm na sequência das memórias da empresa que pacientemente temos vindo a desfiar.

Assim, atemo-nos de novo ao já muito citado discurso de Manuel Pereira. Citamos:

Surge o 25 de Abril. E, enquanto outras Empresas passaram por autênticas metamorfoses, a Casa Hipólito, mercê do bom senso que ao logo dos anos soube cultivar, sob a inteligente Direcção do seu Presidente do Conselho de Administração [Vasco Parreira], encontrou sempre as soluções que evitaram situações delicadas. / Aqui relembraremos apenas o histórico Protocolo assinado entre a Administração e os Trabalhadores em 12 de Janeiro de 1977. Este acto, que à primeira vista poderá ter sido considerado de simples formalidade acordada entre as partes, constituiu um marco fundamental na vida e sobrevivência desta Empresa.

Em abono destas afirmações, Manuel Pereira lembrou o Comunicado de Vasco Parreira, datado de 2 de Fevereiro de 1977, dirigido aos trabalhadores a propósito do Protocolo, onde se enunciava um conjunto de princípios estratégicos para a empresa:

Criar um clima de unidade; estudar e vencer rapidamente as dificuldades; garantir a estabilidade da empresa; procurar incentivar, criar e melhorar métodos de produção, em ordem ao aumento da produtividade, sem esquecer as boas regras de condições de trabalho; criar um Serviço Social condigno; garantir a todos uma justa repartição dos rendimentos da Empresa; consolidar a manutenção do actual número de postos de trabalho; criar condições para, se possível, alargar o número desses mesmos postos; finalmente: vamos todos encarar o futuro

com maior optimismo! / Estes são os objectivos que esta Administração deseja ver concretizados.

Rematando o seu discurso, Manuel Pereira analisou cada um daqueles objectivos para concluir que eles estavam a ser cumpridos. Nomeadamente, em relação ao aspecto social lembrou que a empresa estava a pagar um complemento de subsídio de doença e de reforma; e que, quanto aos postos de trabalho, não só foram mantidos como até aumentados (“actualmente somos 1 235” – disse ele).

Ainda quanto ao aspecto social será oportuno referir alguns dados que, naquela festa de homenagem a Vasco Parreira,252 foram realçados pelo operário António Luís Cláudio no seu discurso. Lembrou ele que, nos 34 anos de trabalho que já levava na Casa Hipólito, “não foi despedido um único trabalhador a não ser por motivos de flagrante justa causa”. E logo de seguida enunciou:

As semanas Inglesa e Americana foram iniciadas em Torres Vedras através da Casa Hipólito; foi a Casa Hipólito das primeiras empresas do país a instituir o regime de 48 para 45 horas de trabalho semanal – muito antes da saída da lei respectiva; foi concedido um intervalo de 10 minutos de manhã e outro à tarde, para que os trabalhadores pudessem tomar uma pequena refeição; julgo ser uma das poucas Empresas que completa o vencimento dos seus trabalhadores em caso de doença ou acidente; julgo também ser das poucas ou a única que acordou na atribuição de um complemento de reforma, sem a isso ser obrigado por lei.

Situemo-nos, agora, em Janeiro de 1975. No dia 24 desse mês, a Comissão de Delegados Sindicais dirigiu uma carta à Administração da C. Hipólito do seguinte teor:

Atendendo ao espírito de colaboração que todos nós pretendemos, vimos por este meio oficializar a vossa oferta verbal transmitida pelo Sr. Vasco Parreira, no sentido de que esta Comissão de Delegados Sindicais tenha acesso a todos os elementos, documentos e pessoas desta empresa, seguindo as vias hierárquicas, quando assim achar necessário. [assinatura] Luís de Almeida253.

Em resposta, a Administração emitiu a Ordem de Serviço nº 3 / 75, de 28 de Janeiro de 1975, assinada pelo Presidente do Conselho de Administração, Vasco Parreira, na qual confirma o acordo estabelecido entre a Comissão de Delegados Sindicais e a Administração e informa que os Directores dos Serviços abaixo indicados são autorizados “a facultarem os elementos esclarecedores que venham a ser solicitados pela referida Comissão. No caso de impedimento dos directores, poderão esses elementos ser fornecidos pelos colaboradores adiante relacionados, de harmonia com a sua especialização”254.

252 Festa de homenagem no Hotel Golf-Mar em 23 de Março de 1979. 253 FCH, Cx.9, Pasta 01.

Este documento merece destaque por dois motivos: informa-nos acerca do procedimento adoptado pela empresa, explicável pelo contexto revolucionário da época – o chamado controlo operário; e elucida-nos sobre a estrutura organizativa da empresa e quem exercia cargos de chefia naquela data. Vejamos:

Direcção fabril: Engº Vasco Hipólito Parreira ou Engº Orlando Duarte Godinho. Gabinete técnico: Engº Semedo.

Serviço de compras: António Custódio Rocha. Metalomecânica: Engº Freire.

Planeamento: Engº Pestana.

Fabricação de série: Engº Bettencourt. Montagem de série: Engº Rei.

Controle de qualidade: Engº Técº Jordão.

Direcção de Contabilidade e Finanças: Dr. Odílio Correia de Mello. Contabilidade geral: Manuel Aparício Serrano.

Contabilidade analítica: Fernando Passos Gonçalves. Fornecedores e Bancos: José da Costa Sá.

Centro de processamento de dados: Erundino Laranjeira

Direcção Comercial: Eurico Cavaleiro de Andrade. Secretaria de vendas: Venerando de Matos [pai]. Técnico comercial: Carlos Mota.

Vendas no continente: Henrique Miranda. Vendas no estrangeiro: Maria Olga Custodinho. Sector de gás: Acácio Santos.

Vendas locais: José Júlio Desidério.

Direcção Administrativa: Fernando de Sampaio Ribeiro Serviço de pessoal: Manuel Luís Pereira

Serviço de expediente e arquivo: José Hipólito Junior e Fernando Patrício Campos.