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Aquilo que tem sido classificado como acontecimento midiático (ou produtos midiáticos, na sugestão de Quéré), constitui parte fundamental do “cardápio”

139 informativo que as mídias noticiosas nos apresentam cotidianamente e são importantes para a compreensão da lógica da cobertura de temas relativos à homofobia, posto que muitos têm sido os eventos produzidos com a finalidade de chamar atenção para os preconceitos de origem homofóbica. O conceito de acontecimento midiático, tal como foi desenvolvido por Daniel Dayan e Elihu Katz (1999), está inserido em um estudo sobre a produção noticiosa em televisão, especialmente relativa aos eventos de grandes proporções transmitidos ao vivo, como a chegada do homem à lua, os funerais do presidente John Kennedy, nos Estados Unidos, ou os Jogos Olímpicos. Das muitas características destes acontecimentos, a que mais nos interessa é o fato de eles serem planejados fora das estruturas produtivas das emissoras de televisão, levando em consideração, apesar disso, exatamente as características técnicas e temáticas que podem promover adesão das emissoras, que terão somente o trabalho de posicionamento de câmeras e deslocamento de profissionais para a viabilização das entradas ao vivo. Segundo os autores,

A estes acontecimentos, colectivamente, chamamos “acontecimentos mediáticos”, uma denominação à qual queremos retirar qualquer conotação pejorativa. Em alternativa, podemos ter “cerimónias televisivas”, ou “televisão festiva”, ou até “espetáculos culturais” (Singer, 1984). Estas emissões televisivas partilham um grande número de atributos que tentaremos identificar. As audiências recebem-nas como um convite – ou mesmo uma ordem – para pararem a rotina diária e partilharem uma experiência festiva, e se esta festividade está para a normalidade como um feriado está para o comum dos dias, estes acontecimentos são os dias de férias da comunicação social. (DAYAN & KATZ, 1999, p. 17)

Se os acontecimentos midiáticos, tal como propõem Dayan e Katz, estão vinculados a este caráter ritualístico, pensados para a cobertura televisiva, isso não exclui as possibilidades de cobertura e repercussão também por outras mídias, como demonstra o fato de todos os eventos aos quais se referem os autores terem sido objeto de ampla cobertura noticiosa. Desse modo, evidencia-se a presença insistente da mídia como mediadora entre os acontecimentos e os públicos, processo que, como já indicamos, diz da impossibilidade de as pessoas, na atual configuração das sociedades, tomarem contato com os eventos do mundo sob a forma da experiência direta. Mas, e também temos reforçado essa característica, não se trata apenas de uma inviabilidade da presença nos locais do acontecimento para dele tomar conhecimento o que torna as mídias importantes na ampliação das ocorrências naturais e sociais. Trata-se também, para uma diversidade de atores sociais, individuais e coletivos, da necessidade das

140 coberturas noticiosas como parte de processos de visibilização de reivindicações, da colocação em cena de questões para debate. Esforço que está integrado, a propósito, nas estratégias dos planejadores de tais eventos quando de sua “oferta” às mídias, por meio de sofisticados mecanismos de assessorias de comunicação e de imprensa e de ações de relações públicas.

Se inicialmente a tendência foi a de identificar especialmente os agentes governamentais como os promotores de acontecimentos planejados para oferta à mídia, na atualidade muitos são os atores sociais que têm consciência da necessidade deles como forma de promoção de visibilidades das temáticas que lhes são afeitas. Nesse sentido, como uma das estratégias de vencer resistências – por parte dos veículos noticiosos, bem como da opinião pública – frente a questões controversas, tornou-se comum a promoção de eventos com a intenção de buscar a visibilidade propiciada pelas mídias, especialmente as noticiosas. A ressalva é necessária para marcar a diferença entre eventos como jogos olímpicos – pelos quais as emissoras pagam para a transmissão – ou grandes funerais de figuras públicas de alta popularidade, cujas características e apelos estão inscritos em ordens de interesse das mídias noticiosas muito distintos, por exemplo, de uma passeata em prol de temática pouco convidativa em face dos interesses jornalísticos. No que diz respeito à homofobia, destacaríamos pelo menos dois acontecimentos produzidos e programados para oferta às mídias que estão na ordem de promoção de visibilidade: o Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia (17 de maio) e a Parada do Orgulho LGBTT de São Paulo (com similares, hoje, em diversas capitais e cidades do interior em todo o Brasil). O que se busca é a reiteração da visibilidade, por meio de uma espécie de calendário de eventos.

Acontecimentos produzidos e programados são ofertados à visibilidade pública com claras preocupações de tornarem-se atrativos para as coberturas noticiosas, incluindo o cuidado com a produção de imagens facilmente digeríveis por emissoras de televisão. Bruno Leal, Paulo Bernardo Vaz e Elton Antunes assim referem-se a eles:

O esforço de ocupação da esfera pública por parte dos diversos agentes sociais, só para citar um exemplo, é marcado frequentemente pela produção de acontecimentos que visam sua transformação em notícia. Tais eventos são planejados, desenvolvidos e apresentados de acordo com as necessidades temporais, técnicas, lingüísticas e até ideológicas dos diversos veículos, ou seja, são, desde o seu nascedouro, concebidos para serem palatáveis e digeríveis pelo

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sistema mediático. A produção de acontecimentos “mediatizáveis”, aliás, constitui o dia-a-dia e mesmo a justificativa de um sem-número de promoters, relações públicas e assessores de comunicação. Nesse contexto, a anterioridade do acontecimento em relação à notícia deixa de ser vista como algo dado, pré-estabelecido, e revela-se como resultado do processo de produção jornalístico. Em outras palavras, é o gesto de conhecimento do jornalismo que distancia o acontecimento, produzindo sua anterioridade. (LEAL, VAZ, ANTUNES, 2010, p. 2)

Estamos diante, assim, de acontecimentos que são produzidos e programados sempre na perspectiva de atender a lógica da economia produtiva noticiosa, incluindo horários de fechamento das edições de informativos impressos e eletrônicos. É necessário, no entanto, reforçar as diferenças entre acontecimentos produzidos e programados por pessoas ou instituições que pretendem divulgar temáticas de fácil apelo midiático e aqueles que têm suas motivações iniciais na necessidade de chamar atenção para questões controversas, de difícil assimilação social. Assim sendo, promover acontecimentos que chamem atenção para questões ambientais, para campanhas de prevenção de doenças ou de segurança pública é distinto de promover passeatas pela aceitação das causas e das pessoas LGBTT, pela aprovação do aborto ou pela legalização da maconha, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Não raros são os eventos do primeiro grupo promovidos por ou em parceria com as próprias mídias, como parte dos seus programas institucionais de reforço de imagem, largamente utilizados nas estratégias denominadas de marketing social.

Uma vez ofertados aos veículos noticiosos, os acontecimentos promovidos e programados com vistas à visibilidade midiática – e por extensão social – serão objeto dos procedimentos tradicionais de produção das notícias, não restando possível aos seus promotores, por exemplo, controle sobre as formas como eles serão matizados por cada cobertura em particular. A matização é resultado, especialmente, dos procedimentos de enquadramento dos acontecimentos, não somente aqueles ofertados às mídias por agentes interessados em discussões que lhe são particularmente relevantes, mas também todos aqueles que se inscrevem numa ordem de ocorrência contingencial e aleatória, em suma, não planejados. Os enquadramentos, como já destacamos, constituem exatamente a estratégia de tentar tornar compreensível, ou plausível, aquilo que no acontecimento é desafiador à lógica do mundo natural ou do mundo social. São, por essa razão, parte do esforço hermenêutico de compreensão dos acontecimentos e, em certa medida, constitutivos mesmo da natureza hermenêutica destes.

142 Qualquer que seja a natureza do acontecimento, além do seu caráter hermenêutico é necessário destacar suas potencialidades narrativas. Nesse sentido, não apenas os acontecimentos apanhados pela trama jornalística, mas também aqueles que são objeto das pesquisas históricas e sociológicas estão sujeitos às formas narrativas, como lembram, dentre outros, pesquisadores como Hayden White (1994) e Paul Ricouer (1994; 1995; 1997). Nas palavras de Ricouer,

... na medida em que o historiador está implicado na compreensão e na explicação dos acontecimentos passados, um acontecimento absoluto não pode ser atestado pelo discurso histórico. A compreensão – mesmo a compreensão de um outro singular na vida cotidiana – não é nunca uma intuição direta, mas uma reconstrução. A compreensão é sempre mais que a simples simpatia. (RICOUER, 1994, p. 140)

Como não há sentido plausível para o acontecimento fora da narrativa, a potencialidade de ser narrado é a primeira qualidade de um acontecimento para que ele não se perca no tempo e no espaço. Mesmo os acontecimentos naturais são forçados a dizerem sobre si, não somente os atuais, apanhados pela trama jornalística e outras formas de compreendê-lo, como as sociológicas, antropológicas e históricas, mas, e talvez especialmente, acontecimentos remotos, tão remotos quanto a origem do universo, tal como se percebe nas tentativas da ciência de reconstruir estes acontecimentos com vistas a comprovar teses científicas, como a grande explosão originária de tudo que hoje existe. Não há possibilidade de reconstituições como essas exceto pela junção de fragmentos, fósseis e demais artefatos arqueológicos, por meio de sofisticadíssimos recursos tecnológicos, que de nada valeriam não fossem as histórias montadas – narrativamente – sobre como teria sido a origem da vida, o cotidiano dos dinossauros ou as causas da sua extinção. Tais narrativas são, inclusive, exaustivamente utilizadas como material para produção de notícias.

A complementação do nosso percurso teórico se dá exatamente pela discussão sobre a narrativa, em suas concepções iniciais pelas teorias literárias, passando para tentativas de compreendê-la nas articulações típicas propiciadas pelo jornalismo. Partindo do pressuposto de que os acontecimentos fazem sentido a partir dos enquadramentos, é nas narrativas, no entanto, que eles ganham materialidade, processo no qual os próprios enquadramentos são produzidos.

143 3.9. Narrativa

Conceito a princípio originário das teorias literárias, onde tem ocupado papel essencial, narrativa refere-se ao esforço de compreender os múltiplos processos de construção das histórias, principalmente em seus aspectos formais, elementos aos quais a corrente da crítica literária conhecida como estética da recepção acrescenta as relações estabelecidas com os consumidores das tramas contadas (ver, dentre outros, GUMBRECHT, 2002; ISER, 2002a e 2002b; e JAUSS, 2002). Segundo outra corrente de estudos literários, o estruturalismo, a investigação das narrativas deve levar em consideração duas ordens estruturais. Uma, de natureza mais formal, que diz respeito à estruturação da narrativa, considerando os seus aspectos semânticos, morfológicos, a ação, a intriga, as personagens, dentre outros. A outra, de natureza estruturante mais simbólica, mais “superestrutural”, centrada, sobretudo, nas análises dos mitos como importantes para o papel “formador” das narrativas, tal como encontramos, dentre outros autores, em Claude Lévi-Strauss (2002), A. J. Greimas (2008) e Tzvetan Todorov (2008).

Claude Bremond, autor de filiação estruturalista, assim apresenta-nos a narrativa:

Toda narrativa consiste num discurso integrando uma sucessão de acontecimentos de interesse humano na unidade de uma mesma ação. Onde não há sucessão não há narrativa, mas, por exemplo, descrição (se os objetos do discurso são associados, por uma contigüidade espacial), dedução (se eles estão implicados), efusão lírica (se eles evocam por metáfora ou por metonímia), etc. Onde não há integração na unidade de uma ação, não há narrativa, mas somente cronologia, enunciação de uma sucessão de fatos não coordenados. Onde enfim não há implicação de interesse humano (onde os acontecimentos relacionados não são produzidos nem por agentes, nem sofridos por pacientes antropomorfos) não pode haver narrativa, porque é somente por relação com um projeto humano que os acontecimentos tomam significação e se organizam em uma série estruturada. (BREMOND, 2008, p. 118, com destaque do autor)

Na narrativa, além disso, conta-se uma história porque ela tem uma audiência, mas contá-la somente é possível porque o narrador em algum momento a ouviu, ou seja, foi dela um fruidor, mantendo-a na memória. E, também essencial, a narrativa incide sobre um tempo, obedecendo a um ritmo, a um metro, no sentido de marcas de tempos regulares, modificando o seu comprimento ou a sua amplitude. Se essa lógica temporal diz respeito a uma “duração” do ato mesmo de narrar, que pode interferir sobre o interesse dos fruidores ou sobre a eficiência do relato, ela pode ainda ser reveladora da

144 potencialidade de determinadas narrativas atravessarem os tempos, relatando o passado e projetando o futuro, assim como a fugacidade de outras, incapazes de sobreviverem por longos períodos da história de uma sociedade.

Bremond, no entanto, exceto se considerarmos sua indicação de “agentes produtores” e “pacientes sofredores”, como alusão, não destaca as personagens na narrativa, aspecto crucial para as teorias da literatura, e, acreditamos, ainda mais quando da apropriação para análises de textos jornalísticos. Das muitas possibilidades que as teorias da narrativa apontam como caminhos para análise das personagens, como seus aspectos socioculturais, econômicos e psicológicos, interessa-nos mais de perto verificar, a partir das contribuições de Bakhtin, autor de referência e mesmo citado como base para muitas dos posteriores desenvolvimentos estruturalistas, a noção de polifonia. Desenvolvida a partir de estudos da literatura de Dostoievski, a polifonia se integra a um conjunto de contribuições que o escritor russo deixou para as análises sobre a estruturação da narrativa, como a noção de diálogo e o papel do autor.

Depois do meu livro (mas independente dele), as idéias da polifonia, do diálogo, do inacabamento, etc. tiveram um desenvolvimento mais amplo. (...) O nosso ponto de vista não afirma, em hipótese alguma, uma certa passividade do autor, que apenas monta os pontos de vista alheios, as verdades alheias, renunciando inteiramente ao seu ponto de vista, à sua verdade. A questão não está aí, de maneira nenhuma, mas na relação de reciprocidade inteiramente nova e especial entre a minha verdade e a verdade do outro. O autor é profundamente ativo, mas seu ativismo tem um caráter dialógico especial. Uma coisa é o ativismo (aktívnost) em relação a um objeto morto, a um material mudo, que se pode modelar e formar ao bel prazer; outra coisa é o ativismo em

relação à consciência viva e isônoma do outro. Esse ativismo que

interroga, provoca, responde, concorda, discorda, etc., ou seja, esse ativismo dialógico não é menos ativo que o ativismo que conclui, coisifica, explica por via causal, torna inanimada e abafa a voz do outro com argumentos desprovidos de sentido. (BAKHTIN, 2006, p. 339, com destaques do autor)

Para o enriquecimento das contribuições das teorias das narrativas às análises dos textos jornalísticos como narrativas, a noção de polifonia tem papel triplamente importante. Primeiro, porque reveladora das potencialidades de que em uma narrativa estejam presentes diversas vozes, e não somente a do autor e/ou narrador. Segundo, porque na economia narrativa própria do jornalismo, entram em cena, como narradores, desde jornalistas submetidos a determinados constrangimentos de ordem ética e formal que lhes diminui a importância como narradores, até colunistas, chargistas, articulistas,

145 editorialistas e comentadores de uma maneira geral (incluindo leitores com suas cartas, nos jornais impressos), mais autônomos em suas possibilidades narrativas – como posicionamentos pessoais mais claros e formas distintas de fazerem entrar em cena personagens por eles convocados para as narrativas. O terceiro ponto diz respeito mais diretamente à relação entre polifonia e personagem, para cujo esclarecimento nos valemos da leitura de Paulo Bezerra do conceito bakhtiniano.

A polifonia é aquela “multiplicidade de vozes e consciências

independentes e imiscíveis...” cujas vozes não são meros objetos do

discurso do autor, mas “os próprios sujeitos desse discurso”, do qual participam mantendo cada uma sua individualidade caracterológica, sua imiscibilidade. (...) Estão aí características muito semelhantes àquelas que Bakhtin aponta no romance polifônico: as personagens participam da história, interagem com o autor, que é um regente, não interfere nas vozes nem as controla, deixa que se cruzem e se interajam, que participem do diálogo em pé de igualdade contanto que permaneçam imiscíveis; cada personagem é um sujeito que mantém sua individualidade marcada pelo papel que desempenha; (...), isto é, mantêm cada uma sua voz e sua consciência em isonomia com as demais e sem prejuízo para o processo polifônico. (BEZERRA, 2008, p. 198, com destaques do autor)

É preciso, no entanto, cuidado especial, pois nem todas as potencialidades da polifonia de fato podem se concretizar nas narrativas jornalísticas, inclusive não confundindo multiplicidade de personagens com multiplicidade de vozes. Em narrativas jornalísticas está aberta a possibilidade de diversas personagens aparecerem reiterando um mesmo ponto de vista. Mas o relato jornalístico conta ainda com outro elemento fundamental para a verificação da concretização ou não da polifonia, que são as fontes ouvidas para a produção das narrativas. Nesse aspecto, algumas considerações merecem destaque. As fontes podem aparecer, assim como as personagens, em número variado, mas monofônicas em seus depoimentos – foram escolhidas exatamente para reafirmação de um ponto de vista defendido na narrativa. Embora haja o princípio ético de ouvir mais de uma fonte, especialmente em narrativas sobre temas polêmicos, ou nas quais são feitas denúncias, não há garantias, a priori, de que tal postulado prevaleça em todas as narrativas desses tipos. Outro aspecto importante é que embora fontes e personagens possam eventualmente se fundir nas narrativas jornalísticas, elas não são necessariamente sinônimas, nem ocupam o mesmo papel em uma narrativa – a fonte pode, por exemplo, aparecer para dar detalhes sobre a personagem central ou periférica de uma narrativa noticiosa, mas na maioria das vezes é convocada como suporte para uma determinada explicação ou como pessoa autorizada para falar com propriedade,

146 com conhecimento de causa, sobre o tema em foco, ou ainda como testemunha de um acontecimento, implicada ou não diretamente no seu desenrolar e nas suas repercussões. Na narrativa jornalística o narrador – na maioria das vezes o próprio jornalista que fez a apuração e redige o texto – tem um papel mais explícito de mediador das falas, especialmente no caso de prevalência de fontes, e não de personagens. Nesse sentido, principalmente pelas estratégias de escolhas de personagens e fontes pelo critério de reafirmação de pontos de vista defendidos na narrativa, elas podem perder muito da sua autonomia no interior das narrativas. Importante ainda, no que diz respeito à polifonia, é que as muitas vozes que podem aparecer em um texto não expressam seus pontos de vista independente das determinações do contexto social e das perspectivas de que mantêm interesses quanto a possíveis modificações dele. Ou seja, a polifonia resulta das relações intersubjetivas estabelecidas pelas personagens – e também pelas fontes nas narrativas jornalísticas – com outras personagens, no caso das primeiras, e com outros atores sociais, no caso das segundas, revelando as contradições do social, as disputas de sentido, os jogos de poder, tal como temos buscado ressaltar em todas as reflexões até aqui desenvolvidas nas abordagens da homofobia, do enquadramento e do acontecimento.

Estamos entendendo aqui a personagem como quem aparece no texto cumprindo uma função de referencialidade social, cultural, ou de outra ordem. É, por exemplo, a dona de casa que em uma matéria sobre a inflação é focada no supermercado como representando o conjunto de suas pares que precisam, na adequação do orçamento doméstico ao aumento de preços, rever os itens e suas quantidades que comporão as compras essenciais. Como personagem ela supostamente traz à tona problema enfrentado de forma idêntica por todas as donas de casa que se enquadram naquele perfil apresentado pela narrativa. Nessa mesma narrativa pode ser ouvido um economista que apresentará, agora de um ponto de vista especializado, legitimado pelo lugar ocupado no espectro profissional e social, explicações sobre os motivos de a inflação ter aumentado. Embora também a fonte esteja referenciada em modelos sociais, culturais e outros, sua presença diz de uma competência que a legitima do ponto de vista técnico. Ou, em outras situações, como quem testemunhou um determinado acontecimento e ajuda na reconstituição de detalhes do mesmo. Fontes e personagens, no entanto, podem não aparecer em um mesmo texto como categorias excludentes.

147 Tome-se o caso das entrevistas ao estilo pergunta-resposta iniciadas com um perfil do entrevistado. Aquele início pode conter elementos que tratam uma mesma pessoa na