Dussel, a partir do pensamento de Heidegger, chega à conclusão de que a melhor escolha do homem é aquela voltada para a realização do projeto do
outro.
O pensamento filosófico ocidental está embasado, desde os gregos antigos, na concepção totalitária de logos, o que se constituiu num dos principais fatores que levaram ao fechamento dos sistemas organizacionais da
77 sociedade, desde a pólis grega até o Estado moderno. No decorrer dos séculos, conquanto alguns sistemas hajam sido mais herméticos e outros não, a tônica sempre foi a separação e classificação dos seres humanos consoante sua condição de pertença ou não a determinado grupo social. Assim foram os gregos que enalteciam apenas os homens gregos adultos, varões e livres, e posteriormente, até os dias de hoje, a norma sempre foi a solidificação das camadas sociais internas e a discriminação dos estrangeiros em geral.
Verifica-se ao longo dos séculos o constante individualismo, que se transferiu, com o passar do tempo, do homem para o Estado, em detrimento do
Outro. Diante desse comportamento totalitário, tornaram-se cada vez mais
acentuadas as diferenças entre os homens, levando, então, à exclusão dos menos favorecidos sócio, econômico e politicamente.
Contra essa mesmidade totalitária dos sistemas, Enrique Dussel põe-se na defesa do outro, principalmente o excluído, e busca um caminho alternativo a essa rota assassina da alteridade. Vale-se, dentre tantos outros filósofos, destacadamente de Martin Heidegger, a quem enaltece por haver centrado seu pensamento na necessidade de abertura para um âmbito possibilitador da ultrapassagem dos limites ontológicos mundanos. Mas, consciente de seu papel de filósofo, apresenta um caminho próprio, fundado na realidade latino- americana, como, aliás, ressalta no seguinte parágrafo:
Veremos como para Heidegger era necessário tentar ir além do horizonte ontológico do mundo, tal como tinha sido expresso em Ser e Tempo, para abrir-se a um novo âmbito, onde será necessário também um método mais radical e uma nova linguagem. Queremos deter-nos agora mais demoradamente na questão e descobrir nela a intenção concreta desse movimento do penar heideggeriano, para tentar uma resposta que o supere, abarcando-o, realizando sua vocação entrevista, mas jamais expressa. (ELL I 94).
Explica Dussel que, para Heidegger, o âmbito é o centro “onde a essência do ser e a essência do homem se com-implicam” (ELL I 95). E a superação do horizonte compreende o além dos aspectos cotidianos da vida humana, uma autêntica “abertura diante do mistério” (ELL I 95), o que já direciona para fora da circularidade hegeliana, vez que fica estabelecido um
78 além-de, que significa, necessariamente, rompimento dessa circularidade. Outro ponto fundamental é a distinção entre o mesmo e o igual, pois, explica, secundado por Heidegger, que o mesmo admite diferenças, enquanto o igual não as admite.
A partir dessa concepção, já se pode notar que deve ser estabelecido o diálogo e não apenas ficar restrito no monólogo, porquanto ainda que mesmo, os dis-tintos se mostram e exigem, desde ontologicamente, no momento de encontro no âmbito, que sejam ouvidos. A dialética está, portanto, presente, mas não monologicamente, e, sim, dialogicamente. Assim, instaurada a dis- tinção, restam duas opções: a separação ou a conversão. A primeira leva à exclusão, ao passo que a segunda, à solidariedade, conforme expõe Dussel:
“O mesmo” e “o Outro” dis-tintos podem, por sua parte, em seu curso paralelo (diverso), advertir-se como si mesmos, e retraindo-se sobre si, afastar-se ou fugir do Outro (a-versio), ou, pelo contrário, mudar-se, trans-duzir-se ou convergir para o Outro, na solidariedade ou circularidade aberta do movimento do diálogo (cum ou circum-versio). (ELL I 98).
O pensamento dialético heideggeriano é suficiente para levar ao horizonte do mundo, ao ponto de acesso ao ser, formando, entretanto, uma totalidade. Dentro dessa totalidade é que se dão os movimentos dialéticos, os quais são, todavia, sempre “o mesmo”; as diferenças evidenciadas numa totalidade são apenas di-ferenças e não dis-tinções:
A palavra portuguesa “di-ferença” nos remete à latina composta de dis-(partícula com a significação de divisão ou negação) e ao verbo
ferre (levar com violência, arrastar). O diferente é o arrastado desde a
identidade, in-diferença originária ou unidade até a dualidade. A di- ferença supõe a unidade: o Mesmo. Ao passo que o dis-tinto (de dis-, e do verbo tinguere: pintar, por tintura), indica melhor a diversidade e não supõe uma unidade prévia: é o separado, não necessariamente procedente da identidade que como Totalidade os compreende. (ELL I 97-98).
Por conseguinte, surgem duas situações bem claras: o outro considerado como di-ferente e o outro considerado como dis-tinto. Ao primeiro,
79 pensamos, cabe o papel de se conformar na totalidade em que está inserido; ao segundo, o papel de interferir nessa totalidade a que é exterior.
O mesmo, portanto, encerra a idéia de circularidade fechada, tal como pensava Hegel. A Ética, nesse sentido é como se não existisse, posto valer apenas a ordem natural ou divina ou histórica.
O entendimento de Dussel, coadunando-se a Heidegger, é de que em “o mesmo”, o ente traz em si a “vontade de poder” e o “eterno retorno do mesmo”; o primeiro aspecto diz respeito à sua própria constituição, enquanto o segundo refere-se ao seu modo de ser, conforme escreve:
A Vontade de Poder como a constituição do ser, e este mesmo no modo de eterno retorno do mesmo, é a moderna expressão da relação homem-ser que desde sempre está na base de toda metafísica. (ELL I 94).
Dussel entende, também, como Heidegger, que é preciso ir além desse horizonte de “o mesmo”. Contudo, Heidegger entende que a atitude diante do
âmbito é a serenidade, a contemplação, o deixar-ser:
Dessa forma, só tendo-nos libertado (Gelassennsein) do horizonte mundano como totalidade última, e que podemos simplesmente esperar. “De nossa experiência do esperar, do esperar que se abra por si mesmo (schoeffnen) o âmbito, e na relação a uma tal espera, designamos a espera com a palavra gelassenheit (serenidade)”. (ELL I 95).
Essa conclusão resulta da concepção de que o Ser e o ente se dão a partir de “o mesmo”, e, pois, são di-ferentes, mas conciliatórios no “âmbito trans-ontológico de espera” e na “abertura do ente ao mistério” (ELL I 97).
Nesse momento, a discussão ganha novo contorno, porquanto Dussel discorda da idéida de Heidegger quanto à atitude de “espera”, bem como de que esse “âmbito” seja o final desse movimento dialético. É que para ele, esse movimento dialético entre “o mesmo” e “o outro” tido para Heidegger como di-
ferente, deve ser considerado no outro sentido, de dialético dialógico, em que o outro seja tido como dis-tinto, pois somente assim poderá ser instaurado o
diálogo originário entre “o mesmo” e “o outro”, numa condição de alteridade autêntica e, por conseqüência, numa atitude de con-versão ou de a-versão ao
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versão propiciará uma conduta ética que tenha como fundo o respeito à vida
do outro.