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2 O NEXO EVOLUCIONÁRIO INSTITUCIONALISTA

2.2 A ABORDAGEM EVOLUCIONÁRIA DA TRADIÇÃO INSTITUCIONALISTA

2.2.3 Alguns elementos a partir do ‘corpo teórico’ Neo-Institucionalista

Se a NEI retoma a ‘questão das instituições’ em termos metodologicamente convencionais29, no que lhe aproxima necessariamente da ortodoxia e do neoclassismo, ainda que os expandindo tanto no seu campo de questões ditas relevantes como em teoria geral, um corpo alternativo de ensaios institucionalistas, principalmente e também a partir

29 Por convencional indicamos tão somente que a ortodoxia em economia, fundamentalmente neoclássica,

dos anos 1960, passa a invocar e retomar nos termos do institucionalismo original de Veblen, Commons e Mitchell, e indo além, uma nova série de trabalhos no campo da economia institucional (SAMUELS, 1995).

Essa nova geração de ‘jovens’ institucionalistas (a seu tempo), tanto nos EUA quanto na Europa e no resto do mundo, dialoga a partir de uma linguagem em comum (CONCEIÇÃO, 2008), se revigorando também sob a influência dos novos avanços da agenda evolucionária neoschumpeteriana, conformando-se num ‘paradigma institucionalista’ (SAMUELS, 1995), ou ‘institucionalismo radical’ (DUGGER, 1988), ao que – tomando emprestado o termo usado em Conceição (2002 e 2008) – passamos a nos referir como o programa ou corpo teórico neo-institucionalista. Decerto, o uso do adjetivo ‘neo’ tão somente serve ao propósito de organizar as múltiplas contribuições no campo da economia institucional. Outrossim, o que passa a se chamar aqui de Neo-Institucionalismo é uma retomada da agenda fundada, com evidentes avanços, por Veblen e outros institucionalistas de ‘primeira geração’, servindo também para delinear o campo com a NEI, ainda que o sentido em que essas contribuições são complementares ou antagônicas não seja assunto bem resolvido na literatura (SAMUELS, 1995).

Nesses termos, o revigoramento do pensamento institucionalista original organiza-se nos EUA principalmente através da Association for Evolutionary Economics (AFEE), responsável pelo Journal of Economic Issues. Essa publicação centraliza a maioria das contribuições dos neo-institucionalistas, envolvendo trabalhos nos campos da teoria geral institucional, sistemas econômicos comparados, economia do trabalho, economia evolucionária, organização industrial, finanças públicas, ciência do comportamento, meio ambiente e economia, direito e economia, ciência do comportamento, filosofia, metodologia em economia, feminismo e assim por diante (SAMUELS, 1995). A multiplicidade de temas reverbera o approach neo-institucionalista – de natureza empirista, pragmática e multidisciplinar (SAMUELS, 1995) –, em que, como é praticado modernamente na biologia evolucionária, na ausência de uma teoria geral explicitamente determinada, parte-se de um apanhado de princípios metodológicos amplos (evolucionários) para a conformação de teorias específicas, com dados específicos, para questões de pesquisa tópicas (HODGSON, 1998b). Nesse sentido o programa institucionalista se afasta da definição de uma teoria ou modelo geral detalhado e se aproxima de uma proposta tópica, do tipo “problem solver”, propositadamente multidisciplinar e empirista (HODGSON, 1998b; DUGGER, 1988; SAMUELS 1995).

Nessa multiplicidade, por decerto, os conceitos nucleares são os de hábitos, instituições, e a natureza evolucionária da mudança econômica (HODGSON, 1998b). Esses conceitos permitem vincular múltiplos níveis de análise ontologicamente independentes, como a relação entre o sistema macro e um ambiente micro caracterizado por heterogeneidade30, inclusive amparando fenômenos de emergência (HODGSON, 1997; 1998b).

Efetivamente, ao menos duas proposições básicas, ainda que ponderadas por diversos matizes, vigoram (SAMUELS, 1995; CONCEIÇÃO 2008). Um primeiro ponto refere-se à negativa da ideia de que é o mercado o instrumento definidor da alocação de recursos e portanto o mecanismo guia da economia. Com efeito, os institucionalistas têm reiteradamente argumentado que, em realidade, é a disposição institucional que efetivamente dá ordem e domina o processo de geração, acumulação e distribuição do excedente econômico. O mercado é antes uma metáfora para as instituições que o formam, estruturam e operam através dele. Quando muito, apenas efetiva as instituições prevalecentes. Nesses termos, a análise institucionalista tem sido crítica tanto do desempenho real de economias de mercado, quanto das análises que lidam apenas com mecanismos puros de mercado. Notadamente, essa proposição também é recepcionada por economistas próximos ao enfoque da NEI.

O segundo ponto refere-se ao alcance dos elementos explicativos que efetivamente regem a economia. Os institucionalistas reconhecem e enfatizam a importância de vários aspectos, tais como: a distribuição de poder na sociedade; a forma efetiva de operação dos mercados, enquanto complexos institucionais atuando dentro e/ou em interação com outros complexos institucionais; a formação de conhecimento e a forma pelas quais as instituições fornecem uma estrutura cognitiva para lidar com um mundo radicalmente incerto; e a própria determinação da alocação de recursos, no nível agregado de renda, da sua distribuição, decorrer de uma dinâmica de causação cumulativa, cujos elementos interagem entre si, tal que cada um impacte o outro (SAMUELS, 1995).

Destarte, nos termos desses dois eixos básicos alguns autores, como Samuels (1995), Dugger (1988) e Hodgson (1998b; 2000), têm procurado delinear as características teóricas e metodológicas gerais do programa (neo) institucionalista. Ainda que correndo o risco de se fazer redundante e algo cansativo, avançamos nos próximos parágrafos nestas

30 Dito de outra forma, permite lidar e operacionalizar teoricamente modelos em que o nível macro interage e

caracterizações. Outrossim, Samuels (1995) vê na própria heterogeneidade das contribuições institucionalistas a sua própria riqueza teórica, sendo assim mesmo otimista com o programa.

Começamos com Samuels (1995). O autor identifica oito facetas do corpo de pesquisa neo-institucionalista:

a) Enfatiza a evolução social e econômica e como tal toma uma postura explicitamente ativista em relação às instituições. Instituições não podem ser tomadas como dadas posto que são socialmente construídas e cambiáveis. Ainda que majoritariamente lentas, as mudanças podem ser não intencionais (habitual e costumes) e intencionais (geralmente expressas numa forma jurídico-legal);

b) Afirma a importância do controle social e o exercício da ação coletiva. Rejeita a ideia de automatismo de mercado e reafirma que a economia de mercado é antes um sistema de controle social;

c) Enfatiza a mudança tecnológica como uma força dominante de transformação econômica. Conquanto não seja um movimento monolítico e unidirecional, a ‘lógica da industrialização’ afetou enormemente a organização econômica, social e política, bem como a natureza da cultura. Da mesma forma, essas dimensões afetam de que forma a adoção e disseminação de uma tecnologia se dará;

d) Enfatiza que o que determinada a alocação de recursos é antes a disposição institucional de uma sociedade, bem como sua distribuição de poder;

e) A(s) teoria(s) institucionalista(s) do valor não se refere(m) a preços relativos, mas antes à carga valorativa implícita nas instituições e complexos institucionais dos quais os mercados são feitos e que regem a vida econômica31;

f) Enfatiza o papel dual da cultura nos processos de causação cumulativa e (co)evolução econômica. Envolve, por um lado, o papel transcendente da cultura na formação do indivíduo e das estruturas sociais; por outro, a cultura

31 Segundo Hodgson (1998b) uma teoria geral de preços relativos institucionalista seria necessariamente muito

genérica. Efetivamente, os processos de formação de preços são governados por convenções sociais específicas que são reforçadas por hábitos e integrados em instituições específicas. Se são convenções cristalizadas em instituições, então dependem da carga valorativa. Outrossim, a análise de equilíbrio parcial marshallina poder ser um bom ponto de partido para a construção de teorias específicas. Nessa linha, os institucionalistas foram os primeiros a construir teorias de preço em condições oligopolistas.

como um artefato, um produto da contínua interdependência entre indivíduos e subgrupos32;

g) Uma orientação democrática e pluralista, contrapondo-se à maneira pela qual a teoria econômica, notadamente de orientação neoclássica, ao naturalizar e se reportar apenas aos mecanismos transcendentais de ajuste de mercado, reforça o status quo e as hierarquias e estruturas de poder existentes;

h) O institucionalismo é holista. Toma-se elementos mais amplos, não econômicos per se, como determinantes do desempenho econômica e como tal, recorre-se a outras ciências para dar conta do fenômeno.

À luz dessas disposições, portanto, Samuels (1995) vê a economia institucional definindo o sistema econômico como “an ongoing cultural process with elements which coevolve throught complex process of cumulative causation” (p. 575). A ênfase cumulativa lhe remonta necessariamente à Veblen, mesmo quando pensando nos termos da NEI.

Outrossim, Dugger (1988), por sua vez, desenha o programa neo-institucionalista como um “radical institutionalism”, de ascendência predominantemente vebleniana e que remonta necessariamente à dimensão radical do antigo institucionalismo, o que inclusive implica numa dimensão política e valorativa explícita. O autor define sete proposições ou ideias centrais, a maioria das quais é congruente com apreciação de Samuels (1995), ainda que enfatize noções de conflito, controle e poder. São elas:

a) O institucionalismo como um paradigma processual, em que a natureza do fenômeno econômico é pressuposta como que um processo e que, na causação cumulativa vebleniana, implica necessariamente num movimento não teleológico. O propósito do processo é tão somente imputado pelo modo como os homens se vêm na marcha da história. Essa percepção é ela mesma mutável e como tal implica numa teoria do absurdo;

b) Mesmo a racionalidade individual, bem como o interesse de classe, podem ser distorcidos pelos “enabling myths”33, particularmente em sociedades

estratificadas. Duas linhas teóricas usuais referem-se às distinções de

32Argyrous (1996) exemplifica esse ponto ao dizer que as instituições culturais e econômicas são

indissociáveis.

33 “a myth which enables the upper strata to maintain its position and to continue its predation on the

comportamento cerimonial/tecnológico em Ayres (196134 apud DUGGER, 1988, p.7) e pecuniário/industrial em Veblen (1899);

c) Poder e status como conceitos centrais. Em conjunto ambos criam autoridade legítima, o que naturaliza relações sociais de dominação. O mercado é, nesses termos, um constructo de relações sociais institucionalizadas e a economia a ciência do provisionamento social;

d) A igualdade é instrumental numa sociedade em que não há harmonia de interesse e o mercado auto regulado é um mito;

e) O institucionalismo é filosoficamente existencialista e instrumentalista (ou pragmático). O conceito do absurdo é central em Veblen;

f) Rejeitam a distinção normativo/positivo, sendo radicalmente democráticos nesse sentido. As políticas são socialmente construídas;

g) O programa político ou de política econômica que resultado da análise institucionalista é necessariamente radical no sentido de ser não incremental. Uma vez que não há a benevolência de mercado, deve-se substituí-lo por algum tipo de planejamento econômico democrático.

Cada qual a seu termo, cada um desses aspectos tem sido mais ou menos explicitado nas análises institucionalistas. Notadamente, a disposição normativa que é tão marcante na caracterização de Dugger (1988), contrasta com as primeiras caracterizações da economia institucional, notadamente com os termos do manifesto de 1918, The Institutional Approach to EconomicTheory, de Walton Hamilton, em que a economia institucional se pretendia ser não normativa, ponto de resto bastante controverso (HODGSON, 2000).

Efetivamente, Hodgson (2000) remonta ao manifesto de Hamilton35 para caracterizar, em termos mais refinados, o núcleo duro da economia institucional. O autor identifica cinco proposições básicas, quais sejam:

a) O Institucionalismo não é definido nos termos de qualquer proposta política (e portanto é não normativo);

34 AYRES, C. Toward a Resonable Society: The Values of Industrial Civilization. Austin: University of

Texas Press, 1961.

35“The proper subject-matter of economic theory ins institutions … Economic theory is concerned with matters

of process … Economic theory must be based upon an acceptable theory of human behavior …” (HAMILTON, 1919, p. 314-318 apud HODGSON, 2000, p. 317), ao que é complementado: “neo-classical economics ... neglected the influence exercised over conduct by the scheme of institutions … Where it fails, institutionalism must strive for success … it must discern in the variety of institutional situations impinging upon individuals the chief source of differences in the content of their behavior (1919, p. 318

b) O Institucionalismo se utiliza extensivamente das ideias e dados de outras disciplinas (como psicologia, sociologia e antropologia) a fim de desenvolver uma análise mais rica das instituições e do comportamento humano;

c) As instituições são o elemento central de qualquer economia e portanto uma tarefa primordial para os economistas é estuda-las, bem como os processos de conservação, inovação e mudança institucional;

d) A economia é um sistema aberto e evolucionário. Situa-se num ambiente natural; é afetado pela mudança tecnológica e é envolvido (embedded) num conjunto mais amplo de relações sociais, culturais, políticas e de poder; e) O institucionalismo não toma o indivíduo como dado. Antes, os indivíduos

são afetados fundamentalmente pelo ambiente cultural e institucional na medida em que mecanismos de ‘causação reconstitutiva descendente36

operam. Assim, indivíduos não criam simplesmente instituições, intencionalmente ou não.

Nessa conformação o primeiro item seria desnecessário (não apenas o institucionalismo, mas mesmo outras vertentes de análise econômica são mal definidas quando postas em termos estritamente normativos), ao passo que as proposições dois, três e quatro seriam necessárias ainda não o suficiente para definir a abordagem institucionalista. Hodgson (2000) elenca o item cinco como o elemento mais importante, e único, da economia institucional, constituindo-se no principal demarcador entre a NEI e o antigo e o ‘neo’ institucionalismo.

Nesses termos a endogeneidade da ação humana, argumenta o autor, implica igualmente numa ênfase da natureza processual dos fenômenos econômicos, o que lhes imbuem necessariamente uma caracterização de dinâmica e portanto contrapõe-se às noções de equilíbrio do mundo neoclássico37. Por outro lado, resulta também num afastamento do

individualismo metodológico, no que a economia institucional e sua ênfase no conceito de instituição, pode fornecer uma alternativa metodológica à questão da agência humana (HODGSON, 1998b; 2000; 2004; 2006). É essa dupla dimensão que permite aos institucionalistas tratar – e de incluir – nas suas análises versões mais sofisticadas das ideias

36 No original, reconstitutive downward causation. Em Hodgson (2011) passa a designá-lo reconstitutive downward effect.

37Outrossim, conquanto o binômico dinâmico/estático seja um dos elementos centrais das várias críticas

heterodoxas ao neoclassismo, ela não é necessariamente um ponto dado da colocação institucionalista. De fato, como argumentam Argyrous e Seth (1996), a crítica vebleniana original assenta-se mais fundamentalmente na distinção teológico/evolucionário.

de poder e hierarquia, principalmente na ênfase dada aos “enabling myths”, no que Dugger (1988) posiciona como característico do pensamento institucionalista. Com efeito, a agenda da causação vebleniana de Hodgson – como tivemos a oportunidade de discutir nas seções pregressas – recupera e centraliza essas disposições teóricas, colocando a ascendência darwinista de Veblen, e o conceito de causação cumulativa, bem como de dinâmicas populacionais de variação, seleção e herança, como conformadores da interface duplamente constitutiva entre indivíduos e instituições (CONCEIÇÃO, 2012).

Mais detalhadamente, na medida em que são os hábitos mentais, crenças e outras disposições virtuais (no sentido de ser um comportamento em potência) que vinculam a ação individual ao surgir e conformar das instituições – o que portanto implica em níveis ontológicos independentes, ponto de outra forma que já avançamos com Veblen –, Hodgson (2011) advoga que operam mecanismos reconstitutivos descendentes, o que designa de reconstitutive downward effects, na conformação que as instituições paralelamente impõem sobre os indivíduos.

Não se trata, argumento o autor, de um tipo fraco de holismo metodológico. As instituições, como fenômenos emergentes (agregados), não implicam em causalidade determinista sobre o nível micro, que é na escala institucionalista fundada em Veblen ontologicamente independente. Elas tão somente afetam os indivíduos na medida em que influem sobre as suas disposições comportamentais (isso é, hábitos mentais, rotinas, crenças, etc.), restando a dimensão volitiva individual autônoma no sentido de ser resultado da sequência causal que marca aquela história evolutiva, como de resto é o fundamento metodológico evolucionário. É nesses termos, igualmente, que a incorporação darwinista nas ciências sociais a partir do marco vebleniano efetivamente conserva e coloca em outros termos a questão da ação e escolha humana (CONCEIÇÃO, 2012). A Figura 3 ilustra o sentido circular dos reconstitutive downward effects, propostos por Hodgson (2011) indicando a múltipla direção dos feedbacks.

Figura 3 – Reconstitutive downward effect

Fonte: Castelli (2017, p. 66) a partir de Hodgson (2006).

As setas apontadas para cima indicam a resultante ascendente da conjunção de hábitos e crenças coletivamente abarcadas, o que dá forma às instituições. As grandes setas laterais, voltadas para baixo, representam o feedback de cada nível superior para o inferior. Isto posto, o marco fundador do neo-institucionalismo, como propõe Hodgson (2006) é tratar como essa dinâmica ocorre. Como sintetiza Castelli (2017, p. 67):

De que maneira os indivíduos adquirem hábitos, como os hábitos se tornam crenças e como essas são convencionadas como instituições. [...] como as instituições moldam os hábitos e crenças dos indivíduos e como isso se reflete no desenvolvimento socioeconômico das nações.

Nesses termos, portanto, que o reposicionamento de Hodgson acerca do núcleo duro formatador do programa neo-institucionalista envolve recuperar as proposições veblenianas, que “são ontológicas e referentes à natureza do ser social” (CONCEIÇÃO, 2012, p. 124), bem como “[...] de forma retrospectiva, é (são) estritamente moderna (s) no contexto dos desenvolvimentos recentes na filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e economia. E sua posição é muito mais viável hoje [...]” (CONCEIÇÂO, 2012, p. 124).