3 DESINDUSTRIALIZAÇÃO EM DEBATE NO BRASIL
3.4 O DEBATE BRASILEIRO RECENTE
3.4.3 Uma perspectiva intrassetorial
Uma terceira perspectiva tem procurado problematizar a questão da desindustrialização da economia brasileira a partir do padrão de evolução das características intrassetoriais da manufatura. Assim, partindo de uma base explicitamente kaldoriana, esses autores buscam analisar a performance recente da manufatura brasileira a partir da sua capacidade de fazer efetivar as suas propriedades como ‘motor do crescimento’. Destarte, utilizam-se de elementos teóricos estruturalistas, como o perfil de encadeamento diferenciado entre os diversos ramos da manufatura, bem como de elementos teóricos neoschumpeterianos, como o padrão diferenciado de mudança técnica, ao que justifica, argumenta Hiratuka e Sarti (2017), tratá-los também como uma perspectiva estruturalista/neoschumpeteriana. Marcadamente, ao contrário das duas abordagens precedentes, esse agrupamento de autores é menos homogêneo na sua interpretação do processo desindustrializante da economia brasileira, com diagnósticos diferentes a partir da leitura de indicadores intrassetoriais diversos. Ainda assim, na medida em que dão importância destacada à evolução do perfil setorial dentro da indústria, uma primeira aproximação do fenômeno da desindustrialização para alguns desses autores consiste na mudança regressiva na composição interna da manufatura (Vergnhanini, 2013).
Dentre os trabalhos mais recentes alinhados nessa caracterização, citamos IEDI (2007), Nassif (2008), Squef (2012), Morceiro (2013) e Arend (2015).
O estudo do IEDI (2007) abarca o período entre 1996 e 2004, analisando o valor adicionado da indústria de forma desagregada. Os autores avaliam a distribuição intrassetorial do valor de transformação industrial (VTI), bem como a sua estratificação por
intensidade tecnológica34; adicionalmente observam a relação do VTI com o valor bruto da produção industrial (VBPI), o que seria um indicativo da capacidade da manufatura nacional em efetivamente agregar valor. Destarte, uma distribuição crescente do VTI a favor de segmentos menos intensivos em tecnologia e/ou uma queda na razão entre o VTI/VBPI em segmentos mais intensivos indicaria um processo de desindustrialização.
Isso posto, os autores observam uma relativa estabilidade na evolução da composição do VTI por intensidade tecnológica, com o segmento de média-baixa intensidade galgando o maior avanço – de 21,8% em 1996 para 24,3% em 2004. A razão VTI/VBPI, por sua vez, é declinante para a maior parte dos segmentos no período inteiro, com particular intensidade nos segmentos eletroeletrônico e automobilístico35.O estudo conclui, portanto, por haver evidências de uma intensificação do processo de desindustrialização no país.
O trabalho de Nassif (2008), por sua vez, busca se contrapor à tese da desindustrialização causada por doença holandesa. Mais do que a redução no valor adicionado agregado, partindo de uma taxonomia por bloco tecnológico36, o autor argumenta que para o caso da doença holandesa seria esperado um processo generalizado de realocação dos recursos produtivos para os ramos da indústria baseados em recursos naturais e intensivos em trabalho. Com efeito, a partir de uma análise pormenorizada da composição do valor adicionado intrassetorial na indústria brasileira, Nassif (2008) assinala um perfil de mudança entre 1996 e 2004 caracterizado pela manutenção da participação dos setores industriais intensivos em escala e ciência – gravitando os 35% para o primeiro e ao redor dos 5% para o segundo –, ainda que os setores intensivos em recursos naturais tenham galgado participação às custas do setores intensivos em trabalho – na ordem de sete pontos percentuais. Ademais, em bloco, observa que a participação conjunta dos produtos primários, dos manufaturados intensivos em recursos naturais e dos manufaturados de baixa tecnologia na pauta exportadora experimentou um decréscimo de 72% para 67% entre 1989 e 2005, ao que conclui não haver evidências empíricas para apoiar a tese da desindustrialização por doença holandesa.
34 Nos termos da PINTEC. Com efeito, a série para essa análise em particular se estende até 2006, utilizando-se
no período 2004-2006 dos dados da PIM-PF (IEDI, 2007, p. 10).
35 O que – os autores argumentam –, se por um lado pode torná-los mais competitivos posto que a substituição
de alguns elos pelo insumo importado pode contribuir para reduzir custos, por outro, tal processo pode ser danoso na medida em que desestrutura algumas conformações conducentes “à geração e difusão de conhecimentos, técnicas, e efeitos positivos da aglomeração e interação entre produtores e respectivos fornecedores especializados” (IEDI, 2007, p. 2).
36 Que por sua vez remete à taxonomia clássica de Pavitt (1982). Outrossim, a partir de Lall (2000, p. 34 apud
Nassif, 2008, p. 85) são cinco blocos: intensivo em recursos naturais; intensivo em trabalho; intensivo em escala; baseados em tecnologias diferenciadas e intensivo em ciência.
Adicionalmente, Nassif (2008) observa que a redução da participação da indústria no PIB, quando examinada a série histórica disponibilizada pelo IBGE para o período 1947 - 2004, está restrita a segunda metade dos anos 1980, o que não implicaria numa desindustrialização posto que vinculada a fatores outros que não os apontados pela literatura internacional – isso é, nos termos avançados por Rowthorn e Ramaswamy (1997) –, o que descartaria tanto a tese da desindustrialização natural e, conjuntamente a falta de evidências para o caso da doença holandesa, quanto a tese da desindustrialização precoce. Com efeito, a explicação para essa perda de participação relativa deve-se a forte retração da produtividade industrial num contexto de estagnação econômica e inflação elevada.
Na mesma linha, Squef (2012) aponta para sinais conflitantes acerca da hipótese de desindustrialização no Brasil. O autor reporta-se a uma série de indicadores relativos à participação relativa da produção e empregos industriais totais, bem como da sua composição intrassetorial por intensidade tecnológica, produtividade e saldo comercial, com séries de dados que se estendem até o ano de 2009. Assim, enquanto se verifica desde os anos 1980 uma queda da participação da indústria no valor adicionado total – percepção de resto compartilhada pela quase totalidade dos autores aqui resenhados –, a dinâmica da participação do emprego industrial, tanto pelos dados das Contas Nacionais, quanto pelo CAGED/MTE, se revela relativamente estável ao longo dos anos 200037. Outrossim, o padrão intrassetorial de emprego industrial por intensidade tecnológica também se mantém relativamente incólume no período 2000-2009, com mudanças na margem – com o segmento de baixa tecnologia apresentando queda de três pontos percentuais em detrimento dos demais.
Da mesma forma, Squef (2012) observa que o padrão de especialização intrassetorial, caracterizado pela participação relativa do valor adicionado por categoria de intensidade tecnológica, seguindo os conformes da OCDE, não indica uma especialização regressiva da manufatura no período. A participação conjunta dos grupos de média-alta e alta intensidade tecnológica permaneceu inalterada entre 2000 e 2009. Destarte, a partir do comportamento diacrônico entre esses grupos de indicadores, o autor afirma não ser possível concluir pela desindustrialização.
Um contraponto mais atualizado ao posicionamento inconclusivo – ou ainda, mais precisamente, em desfavor da hipótese da desindustrialização – de Nassif (2008) e Squef (2012) é oferecido por Morceiro (2013). Com efeito, dentre os textos consultados para essa
dissertação, o trabalho de Morceiro (2013) é destacadamente uma das análises mais completas do processo de desindustrialização brasileira. Partindo de uma extensa revisão da literatura e ocupando-se majoritariamente do período entre 2000 e 2010, o autor oferece uma matriz de indicadores exaustivamente detalhados, ao que dá conta do fenômeno da desindustrialização sobre três óticas: produção, emprego e comércio exterior. A Tabela 2 sumariza os indicadores analisados. Como disposto, o autor organiza as evidências em termos de serem indicativas de desindustrialização absoluta, relativa e intrassetorial. Destarte, na medida em que a maioria dos indicadores é compatível com uma sistemática de desindustrialização, o autor conclui pela existência desta, ao que periodiza o processo como que se iniciando nos anos 1980, com um interregno entre 1999 a 2004, e reiniciando-se em 2005.
Como em Squef (2012), Morceiro (2013) observa um comportamento discrepante entre a dinâmica do valor adicionado da manufatura e o emprego industrial. Enquanto nesta estaria presente uma maior estabilidade estrutural, naquela há uma clara tendência, tanto em valores correntes quanto constantes, a uma redução da participação. Ademais, conquanto uma primeira estratificação da composição intrassetorial por intensidade tecnológica da indústria no Brasil entre 2000 e 2008 não indique regressão produtiva, resultado outrossim em linha com o apresentado por Squef (2012) e Nassif (2008), o autor aponta uma dinâmica diferente quando observado uma versão modificada do coeficiente de penetração das importações (CPI)38.
38 “Em síntese [...] no denominador da fórmula do CPI, há a variável ‘valor da produção’ que inclui impostos,
salários e lucros (no valor adicionado) e consumo intermediário não comercializável, os quais não podem ser importados. Assim, o CPI dificilmente alcançará o limite superior de 100% - especialmente em países grandes e com balança comercial equilibrada – devido às frações obrigatoriamente nacionais incorporadas no produto. Apesar do seu uso indiscriminado na literatura, o CPI pode camuflar a realidade.” (MORCEIRO, 2013, p. 210).
Fonte: Morceiro (2012, p. 153)
Notadamente, Morceiro (2013) diferencia um coeficiente importado de insumos comercializáveis (CIIC), ao que observa um aumento de aproximadamente 10 pontos percentuais entre 2003 e 2008 para os setores de média-alta e alta intensidade tecnológica,
mesmo que eles tenham mantido participação na distribuição intrassetorial por valor adicionado. Em 2008, marcadamente, todos os oito subsetores associados aos blocos de
média-alta e alta intensidade tecnológica apresentaram CIIC superior a 40%. Ademais, o autor avança uma metodologia para averiguar em que medida esse avanço do CIIC foi complementar ou em substituição ao consumo de bens intermediário de fontes domésticas, ao que conclui que aproximadamente 40% do crescimento da produção manufatureira entre 2003 e 2008 foi absorvida por indústrias no estrangeiro. Destarte, Morceiro (2013, p. 213) concluir haver um “esgarçamento” do tecido industrial, ou seja, uma indesejável insuficiência na complexidade dos vínculos e das atividades econômicas que poderiam vigorar no país em outras circunstâncias”.
Arend (2015), analisando para o período até 2010, oferece uma análise detalhada da modificação estrutural da economia brasileira sob uma ótica do comércio exterior e da inserção da economia brasileira na divisão internacional do trabalho, ao que adiciona uma tipologia alternativa, identificando os blocos tecnológicos da estrutura econômica industrial brasileira a partir da sua filiação aos diferentes paradigmas tecno-econômicos conforme adiantado por parte da literatura neoschumpeteriana, notadamente Perez (2002) – tópico que, outrossim, tivemos a oportunidade de discutir no primeiro capítulo. O autor argumenta que a trajetória de especialização regressiva presenciada no país nos últimos 30 anos reverte- se a incapacidade de fazer suplantar o núcleo fordista de produção39 em direção a um perfil mais alinhado ao cluster de tecnologias e setores – notadamente microeletrônica – associado ao novo paradigma tecno-econômico das TIC. Com efeito, esse é um argumento nuclear que teremos a oportunidade de detalhar no próximo capítulo.
Ademais, adiantando um índice de desindustrialização relativa frente a grupos de países com perfil semelhante ao brasileiro, Arend (2015) conclui pela desindustrialização destoante da economia brasileira, o que oferece um contraponto ao argumento avançado pela perspectiva ortodoxa, de alinhamento das condições industriais nacionais com o resto do mundo ao longo dos anos 2000.
39 Por paradigma fordista Arend (2015) refere-se ao agregado da indústria química com o complexo metal-
Destarte, os trabalhos que aqui identificamos como associados a uma vertente intrassetorial identificam uma incongruência entre a dinâmica do emprego industrial e do valor adicionado pela manufatura, mesmo que estratificado pela intensidade tecnológica, o que dificulta um diagnóstico claro em relação ao processo de desindustrialização. Com efeito, o diagnóstico final de cada autor depende basicamente da extensão de sua analise e da definição de desindustrialização implícita que os faz considerar ou desconsiderar determinados indicadores na interpretação da questão da indústria no Brasil.