5 CONSTRUÇÃO DE INDICADORES PARA AVALIAR POLÍTICAS DE
5.1 Apresentação dos resultados obtidos nas pesquisas de campo no Brasil
5.1.8 Análise da situação atual e perspectivas no Brasil
Após a apresentação dos resultados da pesquisa de campo realizada em relação aos indicadores de Segurança Pública no Brasil, salta aos olhos um outro problema grave, além dos já mencionados: a falta de uma padronização. Tendo como ponto de análise aquele que é considerado o principal dos indicadores, o referente ao número de mortes dolosamente praticadas, encontramos, somente nos cinco estados apresentados, diversas formas de agregação, tais como CVLI, letalidade intencional ou simplesmente a desagregação nos tipos específicos. Ademais, alguns estados se preocupam com a taxa por 100.000 habitantes desse tipo de crime, enquanto outros trabalham diretamente com o número de ocorrências registradas. Em relação aos crimes acompanhados, não se percebe nenhum problema, já que as características do território são importantes no fenômeno criminal, devendo-se levar em conta, também, as prioridades locais. Contudo, diferentes formas de agregação e contagem dificultam, em muito, o trabalho de planejamento de políticas e análise de dados de Segurança Pública no Brasil.
Ademais, ao aprofundar-se na forma de gestão das polícias, não se vislumbra avanços na utilização desses indicadores como guias para planejamento e emprego de recursos. Explica- se: os indicadores principais em uso, meramente quantitativos e funcionais e de estatísticas criminais, não permitem uma avaliação dos processos envolvidos no cumprimento da missão policial, nem levam em consideração os riscos envolvidos.
Como se verificou acima, há predominância na simples contagem do número de crimes, em especial homicídios e roubos, sem que haja qualquer reflexão sobre as causas de variações, até porque esse tipo de indicador não permite tal pesquisa. Também se pode afirmar o mesmo sobre os indicadores baseados meramente em esforço, quantitativo obtido pelas unidades das forças policiais, como o número de prisões, apreensões de drogas e de armas.
Tais indicadores não são suficientes para avaliar os complexos processos e estruturas que envolvem o trabalho policial, embora sejam relevantes. Faltam os elementos categóricos de análise que permitam avaliar a eficiência do trabalho de investigação, a qualidade do trabalho ostensivo, a forma pela qual as ações são priorizadas, bem como as condições de trabalho das polícias, enfim, uma série de processos que formam a estrutura do trabalho policial e que não são avaliados com a utilização das estatísticas criminais e do quantitativo de esforço.
Ocorre que, assim, a gestão policial não pode avançar, já que a utilização de tais indicadores limita o gerenciamento de recursos, estreitando o foco do trabalho policial e
valorizando resultados meramente numéricos, conforme os problemas já apresentados a respeito desse tema neste capítulo.
Outra crítica que se faz aos indicadores apresentados é a utilização do agregador Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) para os registros de homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Ora, se o crime, como fenômeno que é, é causado pelos fixos e fluxos, integrando o espaço geográfico, esse híbrido indissociável constituído pelos sistemas de ações e objetos (SANTOS, 2006), como, então, agregar em um mesmo indicador ações humanas, eventos que são construídos a partir de processos e estruturas diversas e cuja única coincidência é o resultado que, embora relevante, é construído a partir de dinâmicas espaciais diferentes?
O conjunto de fixos e fluxos que leva a um homicídio não pode ser comparado ao de um latrocínio ou ao de uma lesão corporal, ainda que seguida de morte. São intencionalidades totalmente diversas, e desprezar tal realidade acaba por unir em um único registro fenômenos muito diversos, e que, portanto, exigem ações diversas para seu enfrentamento.
Como se demonstrou acima, a análise do problema criminal a partir da Teoria do Espaço de Milton Santos (2006) é extremamente necessária para se evitar problemas como o acima exposto.
Em uma tentativa de mudar o cenário descrito acima, o Brasil aprovou recentemente a Lei nº 13.675, de 11 de junho de 2018, criando o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) que, dentre outras coisas, cria, em seu art. 26, o Sistema Nacional de Acompanhamento e Avaliação das Políticas de Segurança Pública e Defesa Social (SINAPED), com o objetivo de avaliar os resultados e os órgãos de Segurança Pública. Contudo, tal legislação é uma amostra da qualidade da técnica legislativa corriqueiramente utilizada no Brasil.
Após anos de debates e tramitação, o referido projeto de lei foi aprovado desconsiderando grande parte do produzido anteriormente, sem debate amplo, tendo como base um substitutivo apresentado pelo Relator, à exceção louvável do Capítulo II, fruto de uma proposta elaborada por grupo de técnicos da SENASP (Secretária Nacional de Segurança Pública), que foi aceita, na quase totalidade, pelo Relator.
Contudo, a nova legislação apresenta alguns problemas técnicos graves, embora possua como avanço principal elevar o patamar da discussão a respeito da necessidade premente de estatísticas, integração e indicadores para a Segurança Pública.
Há, pois, problemas, como a criação de um sistema dentro do sistema (SINAPED dentro SUSP, como exemplo), com a consequente dificuldade operacional que isso irá gerar, ou, ainda, a previsão específica de indicadores no corpo de uma lei (art. 12), o que contraria a
boa técnica de construções de indicadores, vez que esses devem ser flexíveis para atenderem à evolução das demandas sociais, especialmente em se tratando de organizações públicas.
Ademais, os indicadores determinados pela legislação reforçam indicadores funcionais e rasos, como, por exemplo, números de mandados de prisão cumpridos e estatísticas criminais, reforçando tão somente o caráter repressivo da ação policial, com as consequências nefastas aqui já discutidas. Traz, também, para o texto legal, o conceito já criticado aqui de CVLI, que desconsidera a gênese do fato criminoso, equiparando processos diversos e agregando-os sob um único registro.
Contudo, no tocante ao aqui exposto, talvez a mais complexa das obrigações estabelecidas pela novel legislação seja a criação do SINAPED, um sistema de avaliação baseado em comissões mistas compostas por diversos órgãos com pouca ou nenhuma relação com Segurança Pública, repleto de objetivos vagos e genéricos quando avaliações de políticas públicas devam ser feitas por técnicos, a partir de critérios bem definidos, e não de forma pouco específica, dando a essas comissões mandados amplos. Vislumbra-se, no futuro, caso tais comissões sejam, de fato, implantadas, pontos de atritos sérios entre as instituições avaliadas e essas comissões, pelos motivos acima expostos.
No entanto, ao tempo em que cria o SINAPED, a novel legislação estabelece, em seu art. 35, como sendo o instrumento responsável pelas atividades de estatística, gestão e integração da informação e de dados, e, por conseguinte, pelo estabelecimento de indicadores Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas (Sinesp), o qual, embora existente desde 2012, foi reforçado em atribuições.
Tal reforço permitiu, em 10 de dezembro de 2018, a publicação da Portaria nº 229/2018 - MSP, na qual, pela primeira vez, como resultado de um trabalho conjunto da SENASP com as secretarias estaduais de Segurança Pública, estabelece-se uma padronização nacional de estatísticas em relação ao eventos com resultado morte, isto é, homicídios, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, mortes por intervenção de agente do Estado, homicídios culposos, homicídios culposos de trânsito, mortes a esclarecer sem indícios de crime, mortes acidentais e suicídios.
A partir desse esforço de padronização, a SENASP, através da Diretoria de Gestão e Integração da Informação, dedicou-se a um projeto para reunir e estabelecer estatísticas nacionais oficiais a partir dos dados oficiais dos estados, após um trabalho de análise da qualidade e validação, para, ao fim, publicá-los e disponibilizá-los no sítio do Ministério da Justiça. Assim, em 15 de março de 2019 a SENASP lançou o Portal Público de Estatísticas
Criminais, tendo como indicadores iniciais homicídios dolosos (totais de ocorrências e vítimas), roubos de veículos (total de ocorrências), furtos de veículos (total de ocorrências), roubos de cargas (total de ocorrências), roubos a instituições financeiras (total de ocorrências), estupros (total de ocorrências), lesões corporais seguidas de morte (total de ocorrências), latrocínios (total de ocorrências) e tentativas de homicídio (total de ocorrências).
Como observado acima, trata-se tão somente de um esforço inicial, já que, ao longo do tempo, com a evolução dos trabalhos, novos indicadores serão adicionados.
Na figura 51, pode-se visualizar o painel disponibilizado e, na figura 52, o dicionário de dados.
Figura 51 – Painel de incidência criminal
Figura 52 – Dicionário de dados
Fonte: <www.mj.gov.br>
Trata-se tão somente de uma entrega inicial, planejada para atender rapidamente a requisitos mínimos de transparência. Porém, com certeza haverá evoluções no curto prazo.