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Ao longo deste capítulo, discorreu-se sobre o arcabouço teórico necessário à compreensão do fenômeno aqui estudado. Essa compreensão é fundamental para a proposição de políticas territoriais de segurança baseadas nas evidências empíricas aqui coletadas, de modo a que o resultado da ciência aplicada reflita sobre uma melhora concreta na qualidade de vida da população diretamente afetada pelos roubos a bancos no Nordeste Setentrional.

Assim, fundamentou-se no conceito de espaço geográfico de Milton Santos para demonstrar a interdependência entre os fixos e fluxos, e como os sistemas de objetos e ações se

combinam para formar esse híbrido denominado espaço geográfico, sinônimo de território usado.

Esses conceitos, ao serem trazidos para o âmbito da presente pesquisa, representam um novo enfoque na relação entre o evento criminoso e o território, na forma como o primeiro se concretiza, se espacializa. O entendimento do espaço como totalidade, e como esse conceito, em um modo contínuo de totalização se reflete em cada roubo estudado, é fundamental para a construção de uma visão holística do fenômeno estudado, fórmula única para a construção de políticas territoriais de segurança efetivas.

Estudou-se, ainda, a Criminologia do Ambiente, fundamento teórico dos principais modelos de gestão policial modernos, baseados em dados e evidências, e que tem na relação entre o espaço e o crime seu principal fundamento.

Por isso, realizou-se, de forma inovadora, uma aproximação entre ambas as teorias, pois há similaridades em seus conceitos centrais, embora a Teoria do Espaço tenda a buscar explicações amplas, enquanto a Criminologia do Ambiente tenha como foco justamente essa relação entre ambiente, espaço e crime.

Contudo, como se demonstrou, é possível a aplicação dos conceitos de Milton Santos sobre o fenômeno criminal, e que, de fato, similitudes entre o conceito de espaço geográfico de Milton Santos e de ambiente na Criminologia do Ambiente, bem como na forma pela qual os diversos atores, os fixos e fluxos interagem para levar a espacialização do evento criminoso.

Como busca-se, como resultado final da presente pesquisa, a proposição de política pública para combater os roubos a bancos no Nordeste Setentrional, optou-se por empregar o Método do Planejamento Estratégico Situacional proposto por Carlos Matus como metodologia para tal construção, por entender-se que ela é eficaz para a resolução de problemas concretos.

Uma vez apresentados os conceitos e fundamentos teóricos necessários para atingir os objetivos propostos, passou-se, em seguida, a apresentar os resultados empíricos da pesquisa realizada, tendo sua interpretação sempre orientada pelos conceitos aqui já discutidos.

3 O ROUBO A BANCOS E SEUS PRINCIPAIS ATORES

O presente capítulo tem como objetivo apresentar os aspectos empíricos que se relacionam ao fenômeno estudado, dedicando especial atenção aos atores de maior relevância e suas práticas espaciais, além de apontar a inter-relação existente entre o ordenamento territorial, a gestão do território e a segurança pública, fundamentais para a verificação da hipótese pesquisada.

Para tanto, no presente momento, as categorias de análise principais a serem utilizadas, segundo a metodologia apresentada por Milton Santos (1988), foram, inicialmente, a forma e a função do espaço em relação aos três atores principais a serem estudados durante este trabalho, quais sejam, as forças policiais, as organizações criminosas de roubos a bancos com suas ações e o sistema bancário.

É importante esclarecer que os conceitos elaborados por Milton Santos não foram pensados especificamente para a Segurança Pública. Contudo, a Teoria do Espaço formulada por esse professor tem uma abordagem que permite sua aplicação em diversos campos das ciências sociais.

Assim, ao longo deste capítulo, foram apresentadas as topologias, as formas de organização territorial de cada um desses atores ao longo do recorte geográfico estudado, ou seja, a sua configuração territorial, além das funções de cada uma dessas formas apresentadas, bem como a distribuição das redes disponíveis, em especial de estradas e de telefonia celular, que são utilizadas de forma relevante por todos os atores apresentados.

Assim, será através de cada uma das formas apresentadas ao longo do presente capítulo que as forças policiais, as organizações criminosas e o sistema bancário exercem as suas funções, realizam suas ações dentro de seus processos e, em especial, no processo que leva à ocorrência de roubos a bancos, tudo enquadrado pela estrutura do espaço, apontando para os processos que se realizam a partir das funções de cada uma dessas formas-conteúdo estudadas.

Em um segundo momento, no próximo capítulo, a partir das formas, funções e processos aqui descritos dos elementos do espaço geográfico estudado, incluídas aí as interações entre as formas-conteúdo que o compõe, utilizou-se a categoria de análise das estruturas espaciais ou sistemas (SANTOS, 1988), tendo como base os elementos que constituem o espaço geográfico, com especial atenção às interações entra cada um dos processos, das funções executadas pelas formas correspondentes às práticas espaciais desses atores relevantes.

Passa-se, então, à análise das formas, funções e processos identificados e relacionados aos principais atores relacionados ao objeto no recorte geográfico estudado ao longo do presente capítulo, deixando-se para discorrer no capítulo seguinte sobre como essas estruturas interagem, de modo que se possa conhecer em sua totalidade o fenômeno espacial estudado.