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2.6 Planejamento estratégico situacional

2.6.2 Formulação de políticas de segurança pública

Como se demonstrou acima, a questão da segurança pública é uma das que mais aflige nossa sociedade, e é uma das mais complexas para se solucionar, vez que exige coordenação entre diversos órgãos e entre esses e a sociedade como um todo, como enfatizado na própria Constituição Federal.

Como forma de demonstrar o que foi dito acima, cita-se que a prevenção do crime – apenas um dos muitos aspectos que envolvem a segurança pública, juntamente com o controle e a redução do mesmo, as ações de polícia e a segurança comunitária – divide-se em prevenção primária, secundária e terciária, sendo que a primeira procura melhorar o ambiente físico e social; a segunda foca em indivíduos com maior risco de virem a delinquir, de modo que ações, como o aumento do tempo escolar, diminuam esse risco; enquanto a terceira visa agir sobre os criminosos através do sistema prisional e das polícias (RATCLIFFE & CHAINEY, 2005).

Desse modo, pode-se perceber a variedade de atores envolvidos nas questões de segurança pública, desde as mais óbvias, como as forças policiais, até as áreas de assistência e educação das diversas esferas de governo (os setores de manutenção da estrutura urbana, como iluminação) e da sociedade como um todo.

Ora, em um quadro desta complexidade, é impossível que se execute qualquer ação com bons resultados sem planejamento. E o tipo de planejamento tradicional, baseado na ação de uma única organização, por meio de uma visão positivista e apoiado em certezas, descobertas por meio de cálculos matemáticos que indicariam o futuro, como bem observado por Matus e Huertas (1996), não é adequado para enfrentar tamanho desafio.

Somente uma metodologia de planejamento desenvolvida para lidar com as incertezas do mundo real, bem como com a necessidade de interação com diversos atores, é capaz de elaborar uma política de Segurança Pública adequada para fazer frente aos desafios do tema.

Enquadra-se nos requisitos acima apresentados o planejamento estratégico situacional e sua metodologia, o Método PES, adequado às incertezas e às interações entre os diversos atores, tendo como base a Teoria dos Jogos Sociais, que busca explicar as ações de cada organização (ator) envolvida a partir de seus interesses, apoios e motivações, além dos impactos resultantes das ações dos outros jogadores envolvidos.

A grande importância dada à análise dos outros jogadores no método ora apresentado (MATUS, 1996) é fundamental em uma área em que a necessidade de cooperação é a regra e não exceção.

Outra questão-chave para a área de Segurança Pública é a quase certeza do conflito, em especial quando a ação governamental for reprimir atos criminosos. Mais uma vez o Método PES apresenta-se adequado, vez que permite vislumbrar-se, de forma sistematizada, as consequências e possibilidades de um confronto (ibidem).

Outro ponto importante é seu foco na solução de problemas concretos. As melhores práticas de gestão policial, como o modelo de gestão de Policiamento Orientado por Problemas, também possui esse enfoque. A sociedade sofre problemas concretos, em especial em relação à segurança pública, como o alto índice de homicídios, a elevada quantidade de roubos a bancos em uma determinada região, o grande número de assaltos a pedestres etc.

Um planejamento que permita a busca por soluções para esses problemas concretos, bem como, através de sua metodologia, que permita o monitoramento e possíveis correções é, de fato, o adequado para a formulação de uma política de Segurança Pública que possa realmente atender às enormes demandas sociais.

Como forma de demonstrar a adequação do Método PES à formulação de políticas de Segurança Pública, a título de exemplo, demonstra-se, na Figura 10, como seria o fluxograma situacional do problema do alto índice de crimes de violência letal intencional (CVLI), que reúnem, basicamente, homicídios dolosos e latrocínios, nas grandes cidades brasileiras.

Figura 10 – Fluxograma situacional: Crimes Violentos Letais Intencionais

A simples visualização do fluxograma apresentado acima permite verificar a complexidade do problema de segurança pública, dada a quantidade de nós estratégicos a serem enfrentados por operações, isto é, ações, “jogadas” que devem alterar o “placar do jogo”, o vetor descritivo do problema.

A forma de análise do problema, qualitativa, se apresenta sobremaneira adequada à Segurança Pública, permitindo que se visualize, de forma simples, um problema complexo, e que se construam ações adequadas a seu enfrentamento, ressaltando-se a importância da cooperação entre diferentes órgãos tão presente no Método PES e na Teoria dos Jogos Sociais (MATUS, 1996).

Assim, a título de exemplo, podemos citar que o Nó Crítico 1, que representa a redução da eficiência dos órgãos policiais, pode ser enfrentado através de operações que atuem em diversos outros nós, como, por exemplo, através da adoção de modelos de gestão policial como

os apresentados neste trabalho, ou, ainda, de forma indireta, pela melhora da capacidade de inteligência policial, que atacará diretamente o problema da corrupção, terminando por impactar, de maneira relevante, também, na eficiência dos órgãos policiais.

Por óbvio, cada uma dessas ações, denominadas no Método PES de operações, será analisada quanto à sua viabilidade e seu impacto, priorizando-se aquelas que se apresentarem como factíveis e de maior influência no “placar do jogo”, ou seja, na solução do problema. Deve-se lembrar que essa análise leva em consideração não só o ator que planeja, mas também todos os outros que influenciam na solução do problema, através do estudo da atitude, dos recursos disponíveis e da força que cada ator colocará ou não em determinada operação.