3. A INSTALAÇÃO DA UNIVERSIDADE NO CHILE.
3.1. Antecedentes históricos da universidade no Chile.
Consideramos que é fundamental aprofundar o discurso de Instalação da Universidade do Chile de Andrés Bello, o qual possibilita dimensionar a influência que, desde 1842, essa instituição exerceu no desenvolvimento de um sistema educativo formal no país. A intenção é olhar o falado e o apagado nesse texto, especialmente as formas de mediação atravessariam esse discurso e as políticas linguísticas advindas com a instalação do Estado do Chile.
86 Para nós, o discurso de Instalação da Universidade do Chile não é um fato isolado, e menos ainda o é o exame seletivo criado nesse processo. Neste texto, apresentaremos como esse discurso se relaciona com o exame de admissão universitária do período. Para isso, olharemos como o enunciado
jovens poetas liga-se discursivamente ao contexto maior educativo, ou seja, como esse enunciado
produz sentido no discurso de Andrés Bello. Como sinalizamos na introdução, escolhemos esse discurso precisamente por ser um instaurador de discursividade do que seria a universidade no Chile, podendo assim produzir efeitos de sentido precisamente através das relações interdiscursivas que estabeleceria com o nosso foco de análise: os estudantes universitários organizados nos cursinhos populares, os jovens da Universidade do Chile hoje e o vestibular do período.
Com efeito, se observamos o nascimento das universidades como acontecimentos na história da humanidade, podemos pensar as instituições universitárias como relações sociais institucionais e, portanto, como práticas discursivas institucionalizadas na história. Temporalmente, remontaremos até o século XI com objetivo de levar em consideração as universidades espanholas que terão grande influência nas criação das primeiras universidades no território, antecedendo a Universidade do Chile.Para Benjamin (1965), no século XI na Espanha nasceram as Universidades de Valência (no ano 1208)15, de Salamanca (no ano 1243)16 e de Sevilha (no ano 1290)17. No futuro, será de especial interesse para nós a Universidade de Salamanca e sua influência nas universidades latino-americanas. Além do mais, entre as universidades europeias, os modelos da Universidade de Bolonha e de Paris se sobressaíram, já que a primeira influenciou importantemente as universidades criadas na Europa Meridional, e a segunda as instituições da Europa Setentrional. Assim, no conjunto da Europa, no ano de 1500 existiram 79 universidades (TÜNNERMAN, 2003). Mais tarde, ao tratar das universidades da América Latina, olharemos a importância de ambas as universidades na criação e desenvolvimento dessas instituições na região.
Como exprimimos antes, em uma visão das universidades como projetos de elaboração cultural cujo foco é o conhecimento, interessa-nos a relação entre o nascimento das universidades europeias e as primeiras do Oriente e da África. O caso da Espanha, de especial interesse para
15 Loureiro (1966) indica o ano de 1246.
16 Loureiro (1966) explica que não é tarefa fácil definir a data exata da fundação da Universidade de Salamanca “Perez
de Oliva e Gil Gonzales, situam-na em 1200; Besabe Fernadez del Valle, em 2012, apoiando-se na afirmação de Federico Carlos Sain Robles (...); Gerbart, opta pelo ano de 1223; Madoz, 1239; Miniers y Cavandillas, 1240 e Viriville, 1250” (pp141-142). Além deles, Benjamin (1965) propõe o ano de 1220.
87 compreender as universidades chilenas, é exemplar: de fato, em 1085 o contato entre a cultura árabe e cristã era completo, produto da presença do mundo islâmico na Espanha desse século. Tal contato permitiu o acesso dos europeus às novas traduções árabes dos clássicos da Grécia e de Roma, além dos comentários e conhecimentos desenvolvidos pelos mesmos árabes (JIMENEZ, 197118, TANNERMAN, 2003). Ainda mais: a influência intelectual da África sobre a Europa começou cedo, já que “esse vasto legado faraônico, disseminado pelas civilizações antigas do Oriente Próximo, foi por sua vez transmitido à Europa moderna por intermédio do mundo clássico” (MOKHTAR, 2010, p.158). Para Fausto Castilho (2008), as universidades que a Espanha instalou nas suas colônias eram ainda medievais. Primeiro, no México, em 1551, foi criada a Universidade de São Domingos19; e, no Peru, em 1533, a Universidade de São Marcos (Loureiro, 1966)20. Na Colômbia, em 1580, criou-se a Universidade Santa Fé de Bogotá21, e a Javeriana em 162222 .
No caso do Chile, nasceram as Universidades de São Felipe e São Tomas de Aquino. A primeira, dos Jesuítas, foi decretada em 1621, e a segunda, dos Domínicos, em 1619 (MELLAFE, REBOLLEDO & CARDENAS,1992).
Diferentes universidades na América colonizada pela Espanha foram criadas com o modelo da Universidade de Salamanca (BENJAMIN, 1965; KIRBERG, 1981; VERA, 2015), organizada segundo o princípio de universidades dos estudantes de Bolonha (MINOGUE, 1981).
No modelo de Bolonha de universidade, os estudantes escolhiam suas autoridades entre os próprios alunos. Além disso, definiam os professores através de concursos abertos (LOUREIRO, 1966). Desse modo, os estudantes asseguravam o funcionamento da universidade, recrutavam professores, controlavam o valor e a regularidade do ensino – e até mesmo da vida privada dos acadêmicos (VERGER, 1990). Esse modelo de universidade determinou a criação de instituições
18 Desde a epistemologia proposta por Carlos Moore para compreender o racismo na sociedade (2007), é possível observar
outro exemplo da influência árabe na cultura da Espanha, mas também da sua relação com o destino da América, já que a primeira teria levado para Europa também o modelo de escravidão que desenvolveu na África com as pessoas melanodérmicas. Por sua vez, esse modelo foi levado pelos portugueses ao Brasil, e pelos espanhóis as suas colônias. No caso do Chile, de acordo com Alvaro Jara (1990), no século XVI a escravidão dos índios foi praticada amplamente pelos espanhóis, mas também na Grécia e em Roma a escravidão foi o modelo dominante de produção.
19 Para Loureiro (1966), a Universidade da República Dominicana foi criada pela bula papal no ano de 1538. 20 Para Loureiro (1966), a Universidade de São Antonio Abad em 1662.
21 Loureiro (1966) exprime que a universidade da Colômbia chama-se São Tomás de Aquino. Para Benjamin (1965), a
Universidade Nacional de Colômbia foi fundada em 1563.
88 onde a participação estudantil é historicamente legítima, por isso, nas universidades fundadas pela Espanha existiu desde o começo a participação dos estudantes, por exemplo, nos Conselhos ou na eleição das disciplinas (TÜNNERMAN, 2003; CIFUENTES, 1997).
Na Universidade de Salamanca, o corpo docente acadêmico era a máxima autoridade. Ao nascer, essa universidade teve quatro faculdades: teologia, direito, medicina e artes, na qual se ensinavam as sete artes liberais do trívio e do quadrívio, isto é, gramática, retórica, lógica, aritmética, geometria, música e astronomia (SOTO, 2008).
Ao ter interesses em diferentes áreas do conhecimento, a Universidade de Salamanca orientou-se aos Estudos Gerais, e teve maior abertura que o modelo da Universidade de Alcalá de Henarez, por exemplo, que se especializou nos estudos escriturares (SOTO, 2008). Porém, vale a pena mencionar que as universidades espanholas desenvolveram especialidades, uma característica com a qual marcaram as novas universidades da América.
Para Steger (1970), diferentemente das demais instituições europeias, as universidades da Espanha, ao ser fundadas segundo um decreto real, se desligaram da interdependência ecumênica Europeia. Com isso, surgiu uma segunda particularidade, a qual as universidades das colônias espanholas herdaram: a divisão entre católicas e estaduais.
Uma das referências desse caráter especial das universidades espanholas foi desenvolvido por Alfonso, o Sábio, no último capítulo da segunda partida “De los estudios, en que se aprenden los
saberes, e de los maestros, e de los escolares” (TÜNNERMAN, 2003). Nesse texto, definiu-se a
possibilidade de que o Rei pudesse criar um Estudo Geral, ou seja, fundar universidades (JIMENEZ, 1971). Assim, no período entre a fundação da primeira universidade e a última (1538-1812), a Espanha criou 32 instituições na América (TÜNNERMAN, 2003).
As duas universidades do Reino do Chile procuraram a formação do caráter profissional de seus estudantes. Dessa maneira, os estudantes faziam um Bacharelado durante os primeiros três anos na Faculdade de Artes e podiam continuar com Teologia após três ou quatro anos de formação. Como só havia duas Faculdades, foi chamada de Universidade Menor, a diferença das Universidades Maiores, que tinham todas as Faculdades (MELLAFE, REBOLLEDO & CARDENAS,1992). Segundo Mellafe, Rebolledo e Cardenas (1992), perante a necessidade de uma instituição maior no Reino – seguindo o modelo da Universidade de Salamanca e de Lima, e pela iniciativa do “Cabido
89 de Santiago” –, em 1738 foi fundada a herdeira dessas primeiras experiências no Reino do Chile: a Real Universidade de São Felipe23.
A Universidade de São Felipe, além da Faculdade de Teologia que seguia o plano tomista24, teve mais quatro Faculdades: uma Faculdade de Artes que seguia o plano aristotélico, embora incluísse a Física; uma Faculdade de Direito, cujo conteúdo de ensino era o direito comum; uma Faculdade de Medicina, que seguia a Hipócrates e Galeno; e, por fim, uma Faculdade de Matemática (MELLAFE, REBOLLEDO & CARDENAS,1992). No caso do Reino do Chile, Ávila Martel (1979) descreve que na admissão à universidade existiu legalmente até 1879 uma combinação entre os colégios e a universidade similar à experiência da Europa, dos Estados Unidos ou da Inglaterra.
De acordo com Vera (2015), para entrar na Universidade de São Felipe os candidatos deviam demonstrar ser filhos legítimos, apresentando um atestado de batismo. Também deviam justificar “limpeza de sangue”, o que para a estudiosa significava “justificar ante el rector la notoria cualidade del postulante” (VERA, 2015: 32). Além do mais, os candidatos deviam possuir instrução primária e fazer o exame universitário. Cussen (2016) exprime que a ênfase espanhola na “limpeza de sangue” das sociedades coloniais criou um sistema de castas que valorizava algumas características fenotípicas ou de cor de pele, embora o mais importante fosse o apreço social, a “autoridade” e a “reputação”, características reconhecidas publicamente e exprimidas na fala, na roupa, na posição econômica e nas relações sociais. Por isso, afirma a autora, era possível o deslize entre diferentes “castas” nos séculos XVI e XVII.
Além disso, ainda de acordo com Célia Cussen (2016), a influência da classificação das “raças humanas” e os efeitos negativos da sua mistura afetaram de modo importante a mudança do quadro supracitado e a construção de uma visão negativa sobre o “afro”. Tais ideias chegaram à América através do livro de Immanuel Kant, Das diferentes raças humanas, e fizeram com que no reino espanhol – território onde hoje é o Chile – tenha sido revalorizado a não existência de origens africanas na linhagem ao final do século XVIII. Era nesse sentido que se falava em “limpeza de sangue”.
23 Já que existia a necessidade na zona (Chile, Uruguai, Argentina) (MELLAFE, REBOLLEDO & CARDENAS, 1992). 24Incluiu o estudo da língua Mapuche fundamentado na necessidade de evangelizar (MELLAFE, REBOLLEDO &
CARDENAS,1992). Minogue (1981) também explica, acerca da universidade medieval, que “muitas cátedras de línguas exóticas têm sido estabelecidas por meio de doações com o desígnio de treinar missionários para a conversão dos infiéis” (p.49)
90 De outra perspectiva, as universidades do Reino do Chile e da América colonial da Espanha teriam sido fundadas não pela iniciativa dos diferentes habitantes dos territórios, mas pelos Jesuítas, que as criaram como “baluarte contra a influência das doutrinas luterana e calvinista” (BENJAMIN, 1965: 29) e para a evangelização das elites da colonização (RAMA, 2006).
Para Steger (1970), se comparado com outros impérios, o espanhol foi a grande exceção em relação à fundação de universidades fora da Europa, o que é explicável pela política de expansão imperialista dos Habsburgos, que para conseguir conquistar a América criaram confederações (vice- reinados) unidas pela Coroa – da mesma forma como fizeram através da Cruzada visando a recuperação da península da Espanha. Por isso, para Kirberg (1981) as universidades coloniais do Chile estiveram a serviço da monarquia da Espanha e de seu domínio na América através da formação de funcionários para a Coroa da Espanha e da negação da América Pré-colombiana.