2.1. Gêneros do discurso 1 Uma introdução
2.1.6. O verbo-visual na perspectiva bakhtiniana
55 Como discutimos antes, para Bakhtin e o Círculo (BAKHTIN, 1930/2017) não apenas formas e conteúdos são indivisíveis, mas também o discurso é considerado um fenômeno social. Devido a isso, Bakhtin propõe uma estilística sociológica para analisar o discurso literário.
O diálogo, de acordo com Volóchinov (1929/2017), não apenas é um tipo de interação discursiva, mas qualquer interação discursiva. Dessa forma, o discurso faria parte de um diálogo vivo, orientado para uma percepção ativa: análise e réplica interior, e uma reação organizada de acordo com a multiplicidade de esferas de produção ideológica. Além do mais, o discurso verbal faria parte de um diálogo em grande escala com memória do próprio autor e dos outros que também fazem parte da mesma esfera.
Interessaram-nos as considerações metodológicas que Bakhtin (1929/2008) realiza em “O discurso em Dostoiévski”. Em tal trabalho, o autor propõe a noção de metalinguística que vai além e, ao mesmo tempo, abrange a Linguística. Consequentemente, atinge o extralinguístico, um campo não apenas linguístico que leva em consideração as relações dialógicas entre diversos materiais sígnicos conscientizados como fenômenos. Como descreve Bakhtin (1929/2008) a respeito da perspectiva dialógica, esta possui relações que, conjuntamente, fazem parte da esfera discursiva; logo, são inseparáveis desse campo, sendo assim, o seu estudo não poderia se esgotar só no campo linguístico. Bakhtin pontua ainda que as relações dialógicas ultrapassam os limites da metalinguística e seu objeto é o discurso bivocal; além do mais, “as relações dialógicas são possíveis entre imagens de outras artes” (1929/2008: 211).
Assim, no Discurso em Dostoievski, uma questão chave na compreensão da polifonia é o ângulo dialógico sob o qual funciona o confronto na obra. Esse ângulo dialógico não pertence ao campo apenas linguístico de estudo, por isso a perspectiva privilegiada da metalinguística, na medida em que leva em consideração as relações dialógicas como extralinguísticas, mas, simultaneamente, parte do campo do discurso e, portanto, da língua. Ainda que as imagens ultrapassem a metalinguística, sob a condição de uma expressão em matéria sígnica, seriam possíveis relações dialógicas entre elas (BAKHTIN, 1929/2008).
Assim sendo, as relações dialógicas são extralinguísticas e fazem, ao mesmo tempo, parte do discurso ou da língua viva concreta; por só existirem na comunicação dialógica dos falantes, são definidas como a vida da linguagem. Em Bakhtin, as relações dialógicas impregnam a língua em uso sem importar o campo, porém essas relações estariam situadas no campo discursivo cuja natureza é dialógica.
56 Dessa forma, em Bakhtin as relações dialógicas “devem personificar-se na linguagem, tornar- se enunciados, converter-se em posições de diferentes sujeitos expressas na linguagem para que entre eles possam surgir relações dialógicas” (1929/2008: 209). Assim sendo, todo enunciado tem um autor que pode ter diversas formas no real, embora todas essas formas constituam uma posição que possa ser replicada dialogicamente. Como Bakhtin explicita, “a reação dialógica personifica toda enunciação à qual ela reage” (1929/2008: 210).
O choque dialógico entre duas vozes pode acontecer em qualquer parte significante do enunciado e também entre estilos de linguagem quando estes são posições semânticas. Pode até mesmo acontecer no que tange ao indivíduo com a própria enunciação como um todo, ou com partes desse todo, como por exemplo, com uma palavra isolada.
Encontramos outro dos nossos fundamentos da análise verbo-visual na definição do texto que o autor propõe:
Se concebe o texto no sentido amplo como qualquer conjunto coerente signos, a ciência das artes (a musicologia, a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). São pensamentos sobre pensamentos; vivências das vivências, palavras sobre palavras, textos sobre textos (1959-61/2016a: 71-72).
Ainda que, como supracitado, nesse trabalho (1959-61/2016a) Bakhtin tenha focado na questão dos textos verbais, o autor abrange a possibilidade de entender os textos como material sígnico que pertence a outros campos disciplinares. Além do mais, o texto também faz a especificidade das disciplinas humanas, cujo objeto se voltaria para os outros, ao considerar os pensamentos e significados personificados em uma diversidade de textos ou composições verbais e visuais.
Sobre a relação das formas artística e espacial da personagem e seu mundo, Bakhtin articula as seguintes questões sobre a forma estética: primeiro, a forma estética pode ser forma empírica, forma de objeto ou forma do mundo, mas essa forma material não coincide com a forma estética. Segundo, a forma material determinaria substancialmente o campo de uma obra e a estrutura do próprio objeto estético, já que poderia determinar a ênfase ou unilateralidade dessa estrutura (por exemplo as diferenças entre pintura, poesia, música, etc.).
Ao distinguir a obra verbalizada de outro tipo de obras, Bakhtin nos permite definir as obras verbais e as visuais:
A criação verbalizada não constrói forma espacial externa , porquanto não opera com material espacial como a pintura, a escultura, o desenho; seu material é a palavra (…), material não espacial pela própria substância (…); no entanto, o próprio objeto
57 estético , representado pela palavra, evidentemente não se constitui só de palavras, embora haja nele muito de puramente verbal, e esse objeto de visão estética possui uma forma espacial interna artisticamente significativa, representada pelas palavras da mesma obra (enquanto na pintura essa forma é representada pelas cores, no desenho pelas linhas…) (1920-24/2017b: 85).
Outra chave para Bakhtin nesse texto é o modo da realização da forma espacial interna. Para o autor (BAKHTIN, 1920-24/2017), a forma espacial interna de uma obra verbal nunca se realiza totalmente do ponto de vista visual, essa é uma propriedade das formas do material externo da obra que é transferido para a forma interna. Assim, a realização da forma visual interna é uma vivência, conforme Bakhtin exprime: “é vivenciada de modo volitivo-emocional, como se fosse perfeita e acabada, mas essa perfeição e esse acabamento nunca podem ser uma concepção efetivamente realizada” (1920-24/2017b: 86). O que variaria de uma obra a outra e entre modalidades diversas de criação seria o grau da realização da forma interna espacial ou visual.
Na obra estética, o artista lida com o mundo e com a concretude espacial da pessoa, isto é, necessita transferir a imagem externa do homem no mundo para o plano estético e para os limites do material estético que, no caso das artes plásticas, se caracterizaria pela precisão visual. Além do mais, o objeto estético não rodearia o corpo do sujeito, mas contrapor-se-ia como objeto do propósito de vida ético cognitivo do sujeito em um acontecimento que apenas sugere os sentidos, o valor e a unidade dos objetos.
Bakhtin especifica um aspecto de muito interesse para nós, considerando que trabalharemos com um material verbo-visual:
“O corpo exterior e a alma igualmente exteriordohomem são o centro da disposição espacial e da assimilação axiológica dos objetos externos representados na obra. Todos os objetos estão relacionados com a imagem externa da personagem, com suas fronteiras tanto internas quanto externas (fronteiras do corpo e fronteiras da alma)” (1920-24/2017b: 90).
O mundo material seria transformado em ambiente da personagem da obra através da combinação externa formal de tipo plástico-pictural que o autor desenvolve. No caso dos objetos estéticos verbais, são equivalentes volitivos-emocionais os que substituem representações externo- visuais. Afinal, esses objetos agem em torno da personagem sem se contrapor a ela, que é percebida como integral, uma vez que como objeto existe axiologicamente no outro e para o outro.
No primeiro capítulo de Marxismo e Filosofia da linguagem, “A ciência das ideologias e a filosofia da linguagem”, Bakhtin e o Círculo (VOLÓCHINOV/CÍRCULO DE BAKHTIN,
58 1929/2017) dissertam sobre essa especificidade de função na vida social no interior de cada campo de signos ou esferas ideológicas (imagens de arte, simbologia religiosa, proposições científicas normativa jurídica, etc.), que, em vista disso, orientam e refletem a realidade a seu modo. Consequente, o signo ideológico é parte material da realidade, e todos os fenômenos ideológicos apresentam como traço comum o seu caráter sígnico.
Para Bakhtin e o Círculo (VOLÓCHINOV/CÍRCULO DE BAKHTIN, 1929/2017), cada esfera ideológica tem materiais sígnicos especializados, signos e símbolos próprios do campo, além da palavra que pode assumir diferentes funções ideológicas. Desse modo, a palavra não pode substituir outros signos ideológicos; aliás, esses outros materiais sígnicos podem apoiar-se na palavra. Como Bakhtin e o Círculo sinalizam, “todas as manifestações da criação ideológica, isto é, todos os outros signos não verbais são envolvidos pelo universo verbal, emergem nele e não podem ser nem isolados, nem separados dele por completo (VOLÓCHINOV/CÍRCULO DE BAKHTIN, 1929/2017: 100-101).
No trajeto que fizemos ao longo de diversos textos de Bakhtin, tentamos sublinhar aqueles elementos que mais à frente inspiraram nossa análise; principalmente, como exprimimos em nossa introdução, as noções de gênero de discurso e dialogia verbo-visual. Propomos que a partir dessas noções pensemos as formas de mediação que desenvolvem os professores do cursinho por meio dos indícios discursivos no nosso arquivo digital. Assim, Bakhtin e o Círculo seriam os primeiros ombros sobre os quais nos alçaríamos para compreender as formas de mediação em diferentes esferas universitárias. O outro de nossos gigantes será Pêcheux, que a seguir apresentamos.
2.2. A perspectiva materialista da análise discursivo