Estudámos a forma como os técnicos vêem as ACA por comparação com as organizações do sector público e privado (Gráfico 4.7).59 As seis variáveis expressas no gráfico foram submetidas a uma redução factorial pelo método ACP, obrigando à extracção de três componentes, designadamente: funcionamento e performance da ACA, comportamento dos associados e a forma de atendimento aos associados. Recorrendo ao teste de Kruskal Wallis verificámos a não existência de diferenças com significado estatístico em relação aos diferentes tipos de ACA (KW= 5,7; p=0,127; KW=3,4; p=0,331 e KW=6,5; p=0,091, respectivamente). 60
0% 20% 40% 60% 80% 100%
Eficácia geral Organização interna Funcionamento interno Cumprimento dos objectivos Atendimento aos ass./cooperantes Comportamento dos ass./cooperantes
Privado Próximo do Privado Intermédio Próximo do Público Público
0% 20% 40% 60% 80% 100%
Eficácia geral Organização interna Funcionamento interno Cumprimento dos objectivos Atendimento aos ass./cooperantes Comportamento dos ass./cooperantes
Privado Próximo do Privado Intermédio Próximo do Público Público
Gráfico 4.7 – Comparação das ACA em relação a organizações públicas e privadas
Assim, os técnicos das ACA vêem-nas como organizações privadas (cerca de 50%), ou próximas do sector privado (cerca de 60%), o que é congruente com muitas outras posições expressas pelos técnicos, designadamente sobre a procura constante de incremento da eficácia e do desenvolvimento das associações e cooperativas. É curioso notar como é muito pequena a percentagem de técnicos que classifica as ACA como organizações do sector intermédio (inferior a 20% em qualquer dos indicadores estudados), o que pode ser explicado por duas ordens de razões: porque, de facto, as organizações não evidenciam essas características, ou porque o conceito de sector intermédio é vago e relativamente desconhecido ou, ainda, por ambas as razões.
O estudo etnográfico subsequente permitiu-nos confirmar os três últimos indicadores do gráfico e compreender melhor o verdadeiro significado do comportamento dos
59 Reconhecemos a subjectividade da questão, no entanto, a maioria dos entrevistados recorreu à sua
experiência com os organismos públicos do Ministério da Agricultura e com empresas privadas ligadas ao sector agrário o que, julgamos, introduz alguma objectividade nas opiniões emitidas.
associados/cooperantes e do atendimento aos mesmos. Assim, quando os técnicos referem atendimento do tipo praticado nas organizações privadas (ou próximo do privado), querem de facto dizer que os associados/cooperantes são tratados com o máximo de atenções possível (é aqui que entra a componente de “apoio social”), tendo em vista, antes de mais, a manutenção do “cliente” (associado/cooperante) mas também a elevação da sua atitude associativa/cooperativa e do seu desempenho técnico. É, já se vê, uma estratégia de manutenção da “utilidade” da ACA num quadro de competitividade (entre ACA e outras organizações privadas), isto é, uma estratégia de sobrevivência organizacional. Já quando se referem ao comportamento dos associados/cooperantes do tipo dos clientes das organizações privadas (ou próximas desse comportamento) está subentendida uma certa cultura de exigência (em relação aos serviços/produtos que a ACA fornece) e de desprendimento em relação às outras obrigações associativas. Quando referem que o comportamento dos associados/cooperantes é mais próximo do de utente de serviços públicos referem-se, na verdade, a um certo “acanhamento”, receio até, de se dirigirem às ACA para resolverem os seus problemas; algo que, infelizmente, na opinião dos técnicos, tem a ver com as más experiências que esses mesmos agricultores vivem quando se dirigem a alguns serviços públicos do sector agrícola mas não só. O episódio da “Latinha de Biscoitos”, mais adiante descrito, é um exemplo perfeito.
4.2.4 –Modus vivendi das ACA
4.2.4.1 – Tarefas realizadas pelos técnicos
O leque de tarefas desempenhadas pelos técnicos das ACA é muito vasto e diversificado. Talvez por isso, os técnicos, num misto de desabafo e de orgulho, comecem por responder: Tudo! Nós aqui fazemos de tudo…61. Entre essas tarefas temos:1. Trabalho administrativo: inclui o atendimento aos associados/cooperantes, a gestão da comunicação e da informação da ACA com outras entidades, a componente administrativa-burocrática das tarefas técnicas, como a manutenção e actualização de ficheiros, documentação, entre outras;
2. Apoio técnico no campo: muito vulgar entre as ACA que desenvolvem programas de protecção integrada e as que trabalham com raças autóctones e ainda as de âmbito florestal; parte deste apoio tem lugar no gabinete do técnico, mas aí é classificado (pelos técnicos) como atendimento e geralmente centra-se nos aspectos legal-burocráticos; embora a designação apoio técnico predomine, alguns técnicos também designam este conjunto de tarefas como trabalho de extensão; 3. Concepção de projectos de investimento: é uma tarefa que pode ser decomposta
em tarefas parciais de diferente índole como o estudo das condições técnico produtivas (estudo de terrenos e outros activos das explorações; estudo de documentos); concepção do estudo técnico e do estudo económico-financeiro; acompanhamento e facilitação do processo legal-burocrático que enquadra o projecto; execução da componente administrativa; acompanhamento do processo de aprovação e, em caso positivo, o acompanhamento da implantação do projecto.
61 Viríamos a compreender o verdadeiro significado desta resposta no decurso do trabalho etnográfico (cf.
ponto 3.1.3), quando se tornou clara a importância da versatilidade (ou polivalência) dos técnicos, qualidade essencial tendo em conta as circunstâncias em que, no geral, decorrem as actividades das ACA.
4. Candidaturas aos subsídios: preenchimento dos formulários oficiais; despacho dos mesmos para as entidades receptoras; facilitação, quando necessária, do processo de obtenção dos documentos de acompanhamento das candidaturas. Estas tarefas são classificadas como tarefas técnicas (devido ao rigor necessário para tirar o máximo partido das ajudas sem incorrer em ilegalidades) e também tarefas administrativas, devido à tramitação burocrática inerente;
5. Coordenação e monitorização da formação profissional, a maioria desempenha apenas tarefas de monitorização de acções de formação profissional efectuadas no âmbito das ACA respectivas (formador), porém, alguns assumem também a coordenação da mesma. A coordenação inclui: selecção dos formandos e dos formadores; acompanhamento das actividades pedagógicas; elaboração do dossier pedagógico e do dossier financeiro (sujeitos a fiscalização frequente); avaliação das acções. Fora do âmbito das acções de formação profissional, mas de certa forma complementares, têm lugar acções de sensibilização dos associados/cooperantes para questões tão diversas como: subsídios, higiene e segurança no trabalho agrícola, educação ambiental, entre outras;
6. Contabilidade e gestão das explorações agrícolas: tarefa reservada aos centros de gestão ou então às associações e cooperativas com secção de contabilidade e gestão, consta de: contabilidade simplificada das explorações agrícolas e/ou, em alguns casos, a contabilidade financeira; a realização dos “Conselhos de Gestão”, nos quais se discutem os resultados técnicos e financeiros obtidos pelas explorações; em alguns casos estes conselhos de gestão (colectivos) são substituídos e/ou complementados por aconselhamento individual. Tal como a tarefa precedente, esta é composta por uma componente técnica e por uma componente administrativa; a manutenção das contabilidades pressupõe algum (muito) trabalho durante o ano de acompanhamento dos registos de produção e organização da documentação; o preenchimento e entrega das declarações do IVA e do IRS ou IRC também são facilitados;
7. Acções de animação e informação: incluindo uma gama muito diversificada de tarefas como a organização de concursos, exposições, feiras, encontros/convívios, reuniões; coordenação e edição de revistas e/ou boletins informativos, os quais são particularmente importantes para a divulgação de informação, sistemas de avisos, prazos de candidaturas às ajudas, entre outras. São tarefas composta por componentes técnicas e administrativas, mas são normalmente classificadas de tarefas de animação e, mais raramente, de extensão.
8. Administração, gestão e desenvolvimento da ACA, inclui as tarefas administrativas e técnicas inerentes à existência social e legal da organização, assim como o delineamento, concepção, elaboração e implantação de acções estratégicas de desenvolvimento dos recursos e das actividades organizacionais. É nestas tarefas que ganha grande expressão o “jogo” de actores entre os técnicos e os dirigentes das ACA. A administração da ACA inclui, obviamente, a preparação e realização dos actos sociais estatutários, como as reuniões dos órgãos sociais e das assembleias-gerais, podendo, caso se justifique, o técnico, enquanto tal, participar das mesmas;
9. Coordenação de técnicos e funcionários: tarefa que está muito relacionada com a precedente, devendo-se o destaque ao facto de exigir dos técnicos capacidades cognitivas e relacionais (afectivas) necessárias a gestão e coordenação de recursos humanos e do trabalho em equipa. É normalmente desempenhada pelos técnicos
mais antigos (não necessariamente os com maior formação académica) da ACA, podendo desempenhar ou não qualquer cargo de direcção da mesma;
10. Registo zootécnico e identificação animal: conjunto de tarefas de índole técnica, administrativa e legal-borucrática que, no caso do registo zootécnico, implica a identificação, classificação e registo dos animais no Livro Genealógico da raça respectiva, assim como a identificação e registo no sistema SNIRB;
11. Gestão da produção, transformação e comercialização: igualmente um conjunto de tarefas de índole técnica, administrativa e legal-borucrática, desempenhada pelas ACA com actividade comercial, designadamente as cooperativas e adegas cooperativas, muito comuns aos técnicos (enólogos; responsáveis pelos lagares de azeite cooperativos, responsáveis pelas secções de compra e venda de algumas cooperativas; daquelas ACA que gerem marcas DOP ou IGP). Inclui a gestão e coordenação de pessoal, materiais e equipamento; de stocks de factores e de produtos; de carteiras de clientes; de sistemas de distribuição;
12. Experimentação e investigação: tarefa desempenhada sobretudo por enólogos, pelos que desenvolvem trabalhos de protecção integrada e ainda pelos técnicos envolvidos e/ou responsáveis pelas raças animais autóctones. Em alguns casos, trata-se de programas de experimentação e investigação em parceria com instituições do Ensino Superior e do Ministério da Agricultura; noutros casos, são iniciativas individuais de experimentação e de investigação, destinadas a resolver problemas práticos, por exemplo: adaptações e desenvolvimento de soluções ao nível da tecnologia de vinhos, desenvolvimento de processo de protecção integrada e desenvolvimento de novos produtos;
13. Representação da ACA: umas vezes em substituição dos dirigentes das ACA, outras vezes acompanhando estes por motivos técnicos.
Pedimos aos técnicos para tipificarem as tarefas em: técnicas, gestão, administrativas, animação e outra. De uma forma geral, os técnicos não tiveram grande dificuldade em proceder a esta questão, no entanto registaram-se hesitações ou discrepâncias que devemos registar, designadamente: as tarefas de extensão rural são consideradas pela maioria como tarefas técnicas, porém alguns preferem inclui-las nas tarefas de animação social ou então tratá-las individualmente; a formação profissional é largamente vista como uma tarefa técnica, embora alguns prefiram tratá-la individualmente; a coordenação da formação profissional é vista como uma tarefa técnica/administrativa/de gestão. Tendencialmente, verifica-se, que os técnicos enólogos são os mais restritivos no que respeita às tarefas que classificam como técnicas, reservando-as para as relativas às operações de produção e de tecnologia dos vinhos; pelo contrário, os menos restritivos são os técnicos envolvidos na protecção integrada e os ligados às raças autóctones.
Ressalvando que as tarefas reais são constituídas por todos, ou alguns, destes tipos de tarefas (é mais apropriado falar em componentes de tarefa em vez de tipos de tarefa) e ressalvando que o dia de trabalho normal tem mais do que as habituais oito horas diárias, os técnicos estimam da forma expressa no Gráfico 4.8 a repartição do tempo pelas diferentes componentes de tarefa.
70% 15%
12% 2% 1%
Técnicas Administrativas Gestão Outras Animação
Gráfico 4.8 – Repartição do tempo do técnico segundo as diferentes componentes de tarefas
Mais de dois terços do tempo (70%) é dedicado à execução da componente técnica das tarefas; à componente administrativa e de gestão são dedicados 15% e 12%, respectivamente. A componente animação e outras são residuais, no entanto, o valor encontrado para a componente animação está subestimado, porque diz respeito apenas a tarefas que os nossos entrevistados reconhecem como tal: concursos, feiras, exposições e convívios. Existe uma componente de animação social “diluída” na realização das outras tarefas, que alguns dos nossos entrevistados reconhecem mas são incapazes de mensurar. Alguns consideram-na igualmente como componente técnica, ou então denominam-nas como tarefas de extensão, em ambos os casos porque na sua execução mobilizam conhecimentos específicos: Alguma coisa do que aprendemos na sociologia e/ou extensão rural... na altura não percebíamos a razão destas disciplinas no nosso curso, mas agora faz-nos jeito. Também durante o trabalho etnográfico verificámos que esta tal componente de animação social diluída incluía ainda o que classificamos (nós) como “apoio social” ou “cuidado”.