ELEITORAL EM ALGUNS PAÍSES NA AMÉRICA LATINA
2.2. AS CONQUISTAS FEMININAS NA POLÍTICA DO BRASIL
Muito se foi discutido, e ainda o é, para que as candidaturas femininas sejam uma realidade em nosso contexto eleitoral.
Durante a reforma eleitoral de 2015, foi criada a Lei de Participação Feminina na Política (Lei n.º 13.165/2015) que garantia e determinava a promoção e a difusão da participação feminina na política, alterando a Lei dos Partidos Políticos (Lei n.º 9.096/95, art. 44, V) estabelecendo que os programas de promoção e difusão da participação política das mulheres devem ser criados e mantidos pela secretaria da mulher do partido ou, se esta não existir, pelo seu instituto ou fundação de pesquisa e de doutrina-ção e educadoutrina-ção política,
Além disso, de acordo com a Resolução TSE n.º 23.546/2017, art.
22, a aplicação de recursos do Fundo Partidário em programas de promo-ção e difusão da participapromo-ção política das mulheres deve ser realizada em cada esfera partidária, de acordo com as orientações e responsabilidade do órgão nacional do partido.
Na política, no ano de 1997, a Lei n.º 9.604 estabeleceu que os parti-dos políticos ou coligações devem reservar cota mínima para candidaturas de cada sexo, o que fez com que o espaço político para a mulher
brasilei-ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)
ra crescesse, fazendo com que a participação feminina na política tivesse mais visibilidade e respeito. Assim, pela legislação eleitoral, nas eleições proporcionais (vereadores, deputados estaduais e federais), cada partido ou coligação deve preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. É o que prevê o artigo 10, § 3º da Lei das Eleições, c/c Art. 20 da Resolução TSE n.º 22.156/2006.
Em maio de 2018, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral confirmou, por unanimidade, que os partidos políticos devem reservar pelo menos 30 % dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, Fundo Eleitoral, para financiar campanhas de mulheres candidatas no período eleitoral, o fundo partidário deve ser usado, no mínimo, 30 % com as mulheres e o tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita no rádio e televisão também deveriam seguir esse patamar de 30 %.
Nesse ponto, conforme entende o TSE, a quota de sexo deve ser entendida como cota de gênero, tanto é que, nas palavras do Prof. Clever Vasconcelos:
Não será possível a substituição de candidatos fora dos percentuais estabelecidos para cada sexo (gênero), nem mesmo por ocasião do preenchimento das vagas remanescentes. (REsp 17.433/2000)”
(VASCONCELOS, 2020, p. 148).
Resta claro, assim, que o intuito da norma é dar efetividade à parti-cipação feminina no cenário eleitoral, até como forma de compensação histórica pela falta de representatividade que o gênero teve no decurso do tempo.
Ocorre que, em que pese a Lei das Eleições tenha obrigado a pre-sença de ao menos 30% candidaturas de mulheres, é recorrente a prática dos partidos que tentam burlar as obrigações com candidaturas fictícias, apenas para alegar oficialmente que cumpriram a cota, através do registro de candidaturas de mulheres que efetivamente não realizam atos de cam-panha, o que o judiciário tem buscado a compelir.
Em decisão do Recurso Especial Eleitoral n° 193-92.2016.6.18.0018 o TSE firmou o entendimento que a presença de candidatas “laranjas”
deve levar à cassação de toda a chapa. O entendimento do tribunal foi feito no julgamento do caso de cinco candidatas à Câmara de Vereadores de
Valença do Piauí, que tiveram votação inexpressiva, não praticaram atos de campanha nem tiveram gastos declarados em suas prestações de contas.
A decisão do TSE cassou o mandato de seis dos 11 vereadores da Câmara de Valença do Piauí.
Entenderam como manifesta a fraude no preenchimento da cota mí-nima de gênero os fatos de que algumas das candidatas escolhidas em con-venção não praticaram atos de campanha, sequer compareceram às urnas, não receberam votos e/ou, ainda, tinham familiares próximos disputando o mesmo cargo.
A fraude na cota de gênero de candidaturas representa afronta à isonomia entre homens e mulheres que o legislador pretendeu assegurar no art. 10, § 3º, Lei n.º 9.504/97, a partir dos ditames constitucionais relativos à igualdade, ao pluralismo político, à cidadania e à dignidade da pessoa humana.
A mais recente conquista feminina no cenário político vem com a recente Emenda Constitucional 111, a qual dispõe:
Art. 2º Para fins de distribuição entre os partidos políticos dos re-cursos do fundo partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), os votos dados a candidatas mulheres ou a candidatos negros para a Câmara dos Deputados nas eleições reali-zadas de 2022 a 2030 serão contados em dobro.
Trata-se de uma norma transitória com vigência até 2030, mas com capacidade de fomentar a participação feminina, mas não apenas a par-ticipação “de fachada” com o preenchimento das cotas que existe desde 1997, mas uma participação efetiva, já que a contagem em dobro para cálculo dos Fundos de Financiamento considera o número de votos femi-ninos e não apenas de candidaturas.
Dessa forma, os partidos deverão atrair mulheres para a política, en-volvê-las no processo a ponto de terem pautas e eleitorado que adere a estas, já que o aumento dos recursos disponíveis para campanha (o que hoje representa grande parcela dos recursos possíveis, pela vedação do fi-nanciamento empresarial) depende dos votos efetivamente concedidos às mulheres e aos candidatos negros. Vale destacar que essa contagem em dobro se opera uma única vez, de modo que se a candidata mulher for negra, não se cumulam esses fatores.
ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)
A Emenda 111 coaduna, assim, com o entendimento do TSE, que reconheceu a caracterização de fraude à cota de gênero em vista da apre-sentação de candidaturas fictícias, assim entendidas aquelas “registradas com o único propósito de preencher a cota de gênero destinada ao sexo feminino, sem atendimento aos verdadeiros desígnios da norma eleito-ral de promover a inserção das mulheres no cenário político-partidário”
(REsp n° 193-92.2016.6.18.0018. TSE).
Ora, não basta à mulher ser convencida a ser candidata, para que o partido venha a fomentar os seus fundos de financiamento, as mulheres devem efetivamente ser votadas, o que se revela um grande marco, vez que os próprios partidos diligenciarão no sentido de promover uma inserção real feminina e, via de mão dupla, aumentar a representatividade da classe.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse momento, a busca pelo espaço da mulher no ambiente público começa a ser firma de modo mais visível, destruindo preconceitos e teses ultrapassadas, instituindo dignidade e construindo um modelo de socie-dade calcada no respeito.
A promoção da diversidade no âmbito eleitoral é fundamental para uma igualdade de gênero dentro da política brasileira. Nesse sentido, o financiamento de campanha, a obrigação de conscientização da popula-ção da participapopula-ção da mulher na política, a cota de gênero, a reserva dos fundos eleitoral e partidário, tempos de espaço na mídia durante a campa-nha, tudo isso, legaliza ação afirmativa para igualdade de gênero e maior equidade nas disputas eleitorais.
Mesmo constantemente questionadas por consultas aos órgãos eleito-rais e ações judiciais diversas, o propósito de maior participação feminina na política de nosso país deve ser um propósito de todos.
A Emenda Constitucional 111 avança na discussão pois impõe ao Par-tido Político maior compromisso com as mulheres. Não se trata aqui de maior valorização da candidatura feminina, mas uma maneira importan-te de fomentar o tratamento equitativo duranimportan-te as campanhas eleitorais.
Muito ainda tinha que se conseguir, visto que a conquista dos direitos e de independência trouxe à tona uma violência antes invisível. Ou seja, a
manutenção das conquistas femininas ainda exigia uma consolidação edu-cacional de nossa sociedade.
Neste sentido, a história das conquistas de direitos na sociedade bra-sileira denota uma luta para transformar as relações sociais que envolvem a mulher, com a inserção de uma consciência individual e coletiva. Des-construir e criticar as totalidades universais formadas, inclusive o arsenal de concepções teóricas dominantes é o objeto da crítica feminista (BAN-DEIRA, 2008).
Para além da mudança das regras eleitorais e partidárias, a paridade de gênero deve vir acompanhada de políticas estruturais que garantam à mu-lher o acesso paritário não só no âmbito político, mas social, educacional, na saúde e no trabalho. Não se trata o tema apenas de fortalecer a partici-pação eleitoral das mulheres, mas sim, da efetiva mudança do cenário po-lítico em que as mulheres tenham mais respeito e participação igualitária.
Para tanto, o Estado, os meios de comunicação a sociedade civil or-ganizada, a Academia, os Partidos Políticos devem se comprometer a de-fender e estender os benefícios para uma política de paridade efetiva. Além disso, a educação na família deve ser uma premissa, em que a mulher te-nha seu espaço de maneira igualitária em qualquer espaço social.
Política integrada com políticas públicas para reduzir as disparidades no acesso à justiça e bem-estar que existem entre os gêneros é o caminho que tem levado as mulheres para uma vida digna. Ainda faltam muitos objetivos a serem alcançados, principalmente quando se trata de afazeres domésticos e trabalho formal. Ainda carregamos a ideia da mulher solíci-ta, simpática, boa esposa, mãe e principalmente dona de casa.
Nas palavras do Ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fa-chin, Relator da ADI 5617:
[...] Conclama o Supremo Tribunal Federal a robustecer a vedação à discriminação por gênero (art. 1º, IV, da CRFB) para realizar a promoção de uma sociedade plenamente justa, solidária e livre e a promessa constitucional da igualdade. Tal como a paz, não haverá verdadeira democracia enquanto não se talharem as condições para tornar audíveis as vozes das mulheres na po-lítica.
[...]
ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)
É preciso reconhecer que ao lado do direito a votar e ser votado, como parte substancial do conteúdo democrático, a completude é alcançada quando são levados a efeito os meios à realização da igualdade. Só assim a democracia se mostra inteira. Caso contrário, a letra Constitucional apenas alimentará o indesejado simbolismo das intenções que nunca se concretizam no plano das realidades. A participação das mulheres nos espaços políticos é um im-perativo do Estado e produz impactos significativos para o funcionamento do campo político, uma vez que ampliação da participação pública feminina permite equacionar as medidas destinadas ao atendimento das demandas sociais das mulheres.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGUIAR, Neuma. Patriarcado, sociedade e patrimonialismo. Soc. es-tado. Brasília , v. 15, n. 2, p. 303-330, Dec. 2000. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/S0102-69922000000200006. Acesso em:
20 mar. 2020.
ARAÚJO, E. A arte da sedução: sexualidade feminina na colônia. In:
DEL PRIORE, M. (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997. p. 45-77.
BANDEIRA, Lourdes. A contribuição da crítica feminista à ciência. Re-vista estudos feministas. Florianópolis, v.16, n.1, abr.2008.
BARATTA, Alessandro. O paradigma do gênero: da questão criminal à questão humana. In: CAMPOS, Carmen Hein de (org.). Crimino-logia e feminismo. Porto Alegre: Sulina, 1999.
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. 2ª edição, volume 2. São Pau-lo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civiliza-ção Brasileira, 2003.
CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da Cons-tituição. 4. ed. Coimbra: Almedina, 2007.
DA SILVA, Ellen; LOPES HARVEY, Isadora. A política de cotas na américa latina como impulsora da representação feminina na câma-ra baixa. Revista Eletrônica de Ciência Política, [S.l.], v. 7, n.
1, jul. 2016. ISSN 2236-451X. Disponível em: doi: http://dx.doi.
org/10.5380/recp.v7i1.45772. Acesso em: 03 out. 2021.
DEL PRIORE, M. História das mulheres: as vozes do silêncio. In: FREI-TAS, M. C. (org.). Historiografia brasileira em perspectiva.
4.ed. São Paulo: Contexto, 2001.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Ruth M. Klaus: 3ª. Centauro Editora, São Paulo, 2006.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal. São Paulo:
Global, 2003.
NARVAZ, Martha Giudice; KOLLER, Sílvia Helena. Famílias e patriar-cado: da prescrição normativa à subversão criativa. Psicol. Soc., Por-to Alegre, v. 18, n. 1, p. 49-55, Abril. 2006. Disponível em https://doi.
org/10.1590/S0102-71822006000100007.Acesso em: 21 fev. 2020.
PATEMAN, Carole. O Contrato Sexual. Stanford: Stanford University Press, 1988.
PINSKY, Carla Bassanezi. Estudos de Gênero e História Social. Revis-ta Estudos Femininos, Florianópolis, v. 17, n. 1, 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=s ci_arttext&pid=S-0104-026X2009000100009. Acesso em: 25 jul. 2019.
PRIORE, Mary Del. A mulher na história do Brasil. São Paulo:
Contexto, 1994.
SOIHET, Rachel. História das mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamar-ion. et all. Domínios da história: ensaios de teoria e metodolo-gia. Rio de Janeiro: Editora Campos, 1997.
ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)
SPOHR, Alexandre Piffero et al. Participação Política de Mulheres na América Latina: o impacto de cotas e de lista fechada. Revista Es-tudos Feministas, v. 24, n. 2, 2016. Disponível em: https://doi.or-g/10.1590/1805-9584-2016v24n2p417. Acessado em : 03 out. 2021.
RECURSO ESPECIAL ELEITORAL N° 193-92.2016.6.18.0018.
Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esr- c=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwijvf7B2abzAhXRpZU-CHQPUBjUQFnoECA4QAQ&url=http%3A%2F%2Finter03.
tse.jus.br%2Fsjur-consulta%2Fpages%2Finteiro-teor-downloa- d%2Fdecisao.faces%3FidDecisao%3D513402%26noChache%-3D-782354934&usg=AOvVaw1qkdnuJvbqoeMI7C6vXi5u . Aces-so em: 30 set.2021.