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OS UNIFORMES ESPORTIVOS E OS DIREITOS DA MULHER

No documento DIVERSIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 174-177)

UNIFORMES: ENTRE “BURKINI” E BIQUÍNI

2. OS UNIFORMES ESPORTIVOS E OS DIREITOS DA MULHER

Antes dos Jogos Olímpicos na Era Moderna, quando eram realizados na Grécia Antiga, a mulher era excluída das competições, pois não pode-ria desempenhar a condição de cidadã (PEREIRA, 2019, p. 47). Havia naquela época atividades restritas aos homens, que com o tempo foi se alterando, sendo as mulheres aceitas nos Jogos Olímpicos.

No século XVIII, as mulheres tinham baixa inserção em alguns es-portes e não poderiam mostrar braços e nem pernas durante os exercícios, usavam saias sobrepostas e pesados vestidos, espartilhos, o que dificultava a locomoção e causava grandes desconfortos às atletas (OLIVEIRA, 2006, p. 115). Havia preocupações sobre a aparência da mulher durante a prática esportiva de maneira ‘moralista’, para evitar a vulgaridade e questões sobre a maternidade. Quando as mulheres podiam participar de esportes, havia restrição a algumas modalidades como bochas e de arco e flecha.

Apesar do significativo aumento das mulheres nos esportes e nos jo-gos Olímpicos, ainda persistem questões sobre a busca pela igualdade de gênero e o respeito aos direitos da mulher. Ainda é necessário dar maior

ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)

visibilidade às “questões de gênero e esportes nas políticas públicas”

(BRAUNER, 2015, p. 531).

Para tanto, é necessário entender o que é um uniforme: a palavra tem origem latina uniformis, conforme o dicionário Michaelis(2021)50, é um adjetivo com os seguintes significados:

1. Que se caracteriza pela ausência de variação, diversidade, inten-sidade, modo, grau etc.; idêntico, igual: O desenvolvimento eco-nômico não tem sido uniforme em todo o país.

2. Diz-se de superfície, cor etc. que não apresenta variação quanto a sua aparência; regular: Depois que passaram a massa corrida, a parede ficou uniforme.

3. Que é semelhante ou afim; análogo: O casal tem interesses uni-formes.

4. Que é constituído por elementos idênticos ou muito parecidos em um determinado aspecto; homogêneo: O nível dos alunos da turma de inglês é bem uniforme.

Conceitualmente, tudo que é uniforme tende a ser igual, semelhante, sem variações. No mesmo sentido, os principais objetivos dos uniformes es-portivos são: padronizar os jogadores do mesmo time e diferenciar do opo-nente, além de garantir a segurança e a mobilidade necessária para cada espor-te. Cada campeonato e Federação esportiva traz as pormenoridades exigidas para os uniformes. Assim, a liberdade de vestimenta é restringida durante as competições esportivas, conforme os padrões de cada esporte e competição.

Acontece que as regras de uniformes esportivos contêm diferenças de gênero: para mulheres são vestimentas mais cavadas, que cobrem menos o corpo, enquanto para homens as vestimentas são mais largas e cobrem mais o corpo, em especial regiões das nádegas, barriga e virilha.

Ora, qual a justificativa de obrigar a mulher exibir a virilha, a barriga e as nádegas enquanto, no mesmo esporte, os homens não são obrigados a exibir essas mesmas partes do corpo, ao revés, eles são autorizados a

50 Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis. Editora Melhoramentos Ltda. 2021.

Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasi-leiro/uniforme. Acesso em: 18 set. 2021.

cobri-las com seus uniformes, sem que isso prejudique os movimentos e o desenvolvimento das atividades esportivas? Qual a razão de exigir peças menores, mais coladas para as atletas femininas, enquanto para o mascu-lino são permitidas peças mais largas e cumpridas? Por que um short é considerado adequado para homens e “inadequado” para mulheres que praticam a mesma atividade? Justificativa esportiva: nenhuma. Isso não atrapalha a técnica, força, velocidade e rendimento do esporte.

Atualmente, os esportes parecem tratar com naturalidade a exibição do corpo feminino, com apelo estético, enquanto corpos masculinos não e dão aos homens a liberdade de cobri-los, sem que isso desrespeite algu-ma regra esportiva e implique em multas. Essa discussão é importante para entender conceitos e fenômenos que atingem as mulheres, mesmo que aparentemente sutis, mas servem de controle, violência e discriminação de gênero, ferindo a igualdade, o que não deve ser mais tolerado.

A violência contra a mulher possui características estruturais e estru-turantes, inclusive sobre o corpo e o mercado de trabalho, necessitando de ações afirmativas (DELGADO, CAPPELLIN, SOARES, 2000). Da mesma forma, as desigualdades de gênero nas múltiplas formas e perspec-tiva permeiam o ambiente esportivo sendo necessário questionar as regras esportivas de vestimenta sob o prisma da igualdade de gênero e respeito à liberdade sobre o próprio corpo.

A violência contra a mulher não envolve somente assédio sexual, es-tupro, assassinatos, mas também formas de discriminação e preconceito.

Teles e Melo (2002, p. 28) conceituam a discriminação como: “o ato de distinguir ou restringir que tem como efeito a anulação ou limitação do reconhecimento de direitos fundamentais no campo político, econômico, social ou em qualquer outro domínio da vida”.

Os casos destacados anteriormente permitem identificar que as atletas expressaram à vontade não exibir o próprio corpo durante a competição es-portiva e a imposição de multa como forma coercitiva para exibição de seus corpos — enquanto homens não são submetidos a este constrangimento — é uma decisão esportiva que carecem de igualdade de gênero e está relacionada à “supervalorização da estética corporal” para o desempenho atlético femini-no, tema abordado pelas autoras SOUZA, CAPRARO e JENSEN (2017).

Nota-se que os direitos humanos evoluíram, passando a reconhecer as mulheres como titulares de direitos e criaram formas de proteção,

in-ROGERIO BORBA DA SILVA (ORGS.)

clusive documentos internacionais voltados ao combate à violência contra a mulher e a promoção da igualdade de gênero, entre eles: Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, conhecida como CEDAW (1979) e a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção Belém do Pará (1994).

Nesses dois documentos internacionais, identificam-se os objetivos de eliminar as discriminações contra a mulher e preconceitos, promover a igualdade de tratamento relativa às condições de trabalho, à igualdade en-tre homem e mulher, à liberdade de movimento, ao direito à integridade física, mental e moral, por exemplo.

Conforme a constitucionalização de direitos humanos, eles adquirem eficácia que permeia todos os âmbitos de relações humanas, sejam elas pú-blicas , sejam privadas, entre Estado-cidadão, cidadão-cidadão e cidadão e instituições. Quando se trata da aplicação de direitos fundamentais, é pos-sível compreender a eficácia também às relações privadas, entre terceiros, relações horizontais, vinculando entidades privadas aos direitos (PINTO, 2016, p. 172). Nesse sentido, deveria incluir a prática de esportes: vinculada aos direitos da mulher, inclusive quando ela exerce atividades esportivas.

Dessa forma, quando, para o mesmo esporte, identificam-se exigências diferentes de uniformes em razão do gênero a fim de exibição de corpos fe-mininos, transporta-se uma maneira de discriminação de gênero, o que não deve ser aceitável em um Estado Democrático de Direito e nem sob o olhar do Direito Internacional Humano, os quais se baseiam na igualdade, sen-do necessário rever as normas de vestimentas esportivas discriminatórias, que exigem a exibição do corpo feminino, em especial a virilha, nádega e barriga, a fim de efetivamente respeitar a liberdade e a igualdade de gênero, direitos humanos fundamentais da mulher sobre o próprio corpo.

3. OS CÓDIGOS DE VESTIMENTAS NAS COMPETIÇÕES

No documento DIVERSIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 174-177)