• Nenhum resultado encontrado

As garantias da igualdade e da ampla defesa (art 5º, “caput” e LV, da CF)

1.3 Fundamentos da prevenção e da repressão do abuso do processo

1.3.3 As garantias da igualdade e da ampla defesa (art 5º, “caput” e LV, da CF)

A democracia, entendida como governo do povo, pelo povo e para o povo, tem como um de seus valores fundantes a igualdade substancial. Segundo Afonso da Silva149, a democracia é o “regime de garantia geral para a realização dos direitos fundamentais do homem”, notadamente dos direitos econômicos e sociais, pois sem eles os direitos individuais não se concretizam realmente. Sendo os direitos econômicos e sociais direitos igualitários, o constitucionalista brasileiro afirma que a democracia constitui um instrumento de realização da igualdade substancial no plano prático.

O art. 5º, “caput”, da CF prevê a igualdade jurídico-formal ao estabelecer que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...]”. Esse tipo de igualdade visa apenas a abolir os privilégios, isenções pessoais e regalias de classe. Do ponto de vista histórico e político, tem suas raízes na reação da burguesia contra as desigualdades oriundas do regime feudal, tendo como fundamento a ideologia liberal e uma visão individualista do homem. Isolada, a igualdade formal pode incrementar as desigualdades e propiciar injustiça, uma vez que propõe a incidência da lei geral, abstrata e impessoal em todos igualmente, levando em conta apenas a igualdade dos indivíduos, sem considerar o fato de que os seres humanos já nascem desiguais. Entretanto, a Constituição também contém normas que buscam a igualização dos desiguais, constituindo, assim, reais promessas de busca da isonomia material. São exemplos disso os seguintes dispositivos constitucionais, dentre outros: o art. 3º, III, 2ª parte, e IV (“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: [...] III – [...] reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”); o art. 7º, XXX (“proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil”) e XXXI (“proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência”); o art. 196 (“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e

econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”) da CF150.

Como o processo civil moderno é considerado um “microcosmos” em relação ao Estado democrático, a igualdade também é vista como um valor de primeira grandeza na seara processual, assumindo a conotação de “princípio da igualdade das partes”151 (ou “princípio da paridade entre as partes”152). Segundo Afonso da Silva153, esse princípio é um corolário da igualdade perante a lei, como garantia constitucional indissoluvelmente ligada à democracia.

A importância da aplicação do princípio da isonomia no processo é patente. Somente com o respeito à garantia de que as partes litigam em igualdade de condições é que se tem a razoável certeza de que o provimento jurisdicional não é resultado da astúcia ou da superioridade econômica de uma das partes em detrimento da outra, mas sim fruto de um debate jurídico igual. Logo, é correto afirmar que o cumprimento dos escopos do processo depende da observância desse princípio, visto que, sem ele, corre-se grande risco de oferecer tutela jurisdicional a quem efetivamente não tenha razão154.

A igualdade das partes perante o órgão jurisdicional possui duas dimensões155: a) dimensão estática: determina que o legislador e o magistrado não criem desigualdades entre as partes. Há uma equiparação dos litigantes no que se refere à titularidade e fruição de poderes, faculdades e direitos, assim como à sujeição a deveres e ônus, assegurando a todos as mesmas possibilidades de obter um provimento jurisdicional favorável. Nesse aspecto, o princípio da igualdade consubstancia uma limitação ao legislador, que, ao elaborar a lei, deve reger situações idênticas com disposições iguais, atribuindo-lhes os mesmos ônus e as mesmas vantagens. Constitui, por outro lado, uma regra de interpretação para o juiz, que deve aplicar a lei de acordo com os critérios nela constantes, ficando proibido de interpretá-la de modo a criar distinções entre situações iguais156;

150 AFONSO DA SILVA, Curso de Direito Constitucional Positivo, pp. 211-212 e 213-215; PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, pp. 36, 38-39.

151 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 82, p. 213. 152 PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, p. 41.

153 Curso de Direito Constitucional Positivo, p. 218.

154 Nesse sentido: PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, pp. 42-43 e 47; BEDAQUE, Poderes Instrutórios do Juiz, pp. 101-102.

155 PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, p. 34; DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 82, pp. 213-214.

b) dimensão dinâmica: estatui que o legislador e o magistrado devem neutralizar as desigualdades substanciais que porventura existam entre as partes, dando tratamento formalmente desigual aos desiguais, na medida das suas desigualdades. Diz respeito às desigualdades substanciais resultantes de fatores externos ao processo, como a pobreza, a desinformação e as carências culturais e psicossociais. São manifestações dessa faceta da isonomia entre as partes, dentre outras: a promessa constitucional e legal de assistência jurídica integral e gratuita aos necessitados (arts. 5º, LXXIV; e 134 da CF; Lei nº 1.060/50); a prioridade de tramitação, em todas as instâncias, dos procedimentos judiciais de interesse de idosos ou pessoas portadoras de doença grave (arts. 1.211-A a 1.211-C do CPC; art. 71 da Lei nº 10.741/03); a prerrogativa de foro da mulher nas ações de separação judicial e de divórcio (art. 100, I, do CPC); os poderes instrutórios do juiz (art. 130 do CPC)157.

Ambas dimensões encontram-se previstas no art. 125, I, do CPC, que atribui ao juiz o poder-dever de “assegurar às partes igualdade de tratamento”158. Dinamarco159 leciona que esse dispositivo inclui entre os deveres primários do magistrado a prática e a preservação da igualdade entre as partes, de modo que ele é obrigado não só a agir com igualdade em relação a todos os litigantes, mas também a neutralizar desigualdades.

O mandamento da isonomia das partes relaciona-se intimamente com outros princípios, como o da imparcialidade do juiz160. Isso porque o juiz parcial é propenso a buscar o favorecimento de uma das partes, comprometendo o tratamento isonômico dos litigantes, o qual é necessário para que o processo possa oferecer tutela jurisdicional a quem efetivamente tenha razão161.

Outro tema muito próximo do princípio da isonomia é a garantia da ampla defesa (art. 5º, LV, da CF), pois a paridade entre as partes implica igualdade nas oportunidades de participar do processo, empregando livremente os instrumentos processuais disponíveis com o objetivo de convencer o juiz a proferir julgamento favorável162. Como dizem

157 Acerca desta última manifestação da faceta dinâmica do princípio da igualdade processual, consultar:

BEDAQUE, Poderes Instrutórios do Juiz, pp. 97-107; PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, pp. 43, 44 e 46-47.

158 O projeto do novo Código de Processo Civil (Projeto de Lei nº 8.046/2010) menciona expressamenteo

princípio da igualdade das partes em seu art. 7º: “É assegurada às partes paridade de tratamento em relação

ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz velar pelo efetivo contraditório”.

159 Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 82, p. 213. 160 PORTANOVA, Princípios do Processo Civil, p. 41.

161 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. I, § 82, p. 214; AFONSO DA SILVA, Curso de Direito Constitucional Positivo, pp. 218-219.

Comoglio, Ferri e Taruffo163, a defesa, considerada como um direito e uma garantia de conteúdo efetivo, consagra formas adequadas de colaboração dinâmica das partes no curso de todo o processo, de modo que seja sempre concedida a elas, sobre bases paritárias, uma possibilidade efetiva de influir na formação da convicção do juiz a respeito da decisão da demanda164. Assim, o art. 5º, LV, da CF, ao prever a ampla defesa como direito fundamental, assegura aos litigantes a paridade de armas processuais de ataque e defesa165, abrangendo: (a) o direito de deduzirem alegações adequadas, que efetivamente sejam aptas a fazer valer sua pretensão ou defesa no processo judicial; (b) o direito de provarem essas mesmas alegações; e (c) sobrevindo decisão adversa, o direito de interporem o recurso cabível para o caso166.

Ocorre que, em algumas situações, a atuação abusiva de um litigante é dirigida a tolher o direito constitucional de ampla defesa da parte contrária, o que acaba culminando em uma ruptura do equilíbrio de interesses que o ordenamento jurídico processual estabelece para fazer respeitar a plena igualdade de tratamento entre as partes. É o caso, por exemplo, do demandante que, dolosamente, descumpre o ônus de instruir a petição inicial com os documentos indispensáveis à propositura da demanda e introduz nos autos, extemporaneamente, alguma prova documental pré-constituída. Essa conduta ímproba desrespeita o dever de prontidão, como se verá no item 1.3.7.3 “infra”, e também contraria os direitos constitucionais de ampla defesa e de igualdade das partes, uma vez que prejudica gravemente a estratégia defensiva do demandado, que constrói toda sua argumentação fática e jurídica com base nos documentos que constam dos autos no momento em que formula sua defesa167.