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1.3 Fundamentos da prevenção e da repressão do abuso do processo

1.3.7 Os deveres gerais dos sujeitos processuais

1.3.7.3 O dever de prontidão

O dever de prontidão constitui a face temporal do dever de lealdade, inspirado no princípio da celeridade. Consiste no dever de as partes exporem suas razões em juízo e proporem suas provas na primeira oportunidade que tiverem para falar nos autos ou o quanto antes possível, evitando que um dos litigantes surpreenda o outro com lances que este não espera415 416. Contribui, assim, para que o processo seja realmente um jogo com cartas abertas417.

Esse dever foi arrolado pelo “American Law Institute” e pela “Unidroit” como um dos “Principles of Transnational Civil Procedure”:

11.3 Na fase postulatória, as partes devem apresentar, de maneira razoavelmente detalhada, os fatos relevantes, seus argumentos jurídicos e a tutela requerida e descrever de maneira suficientemente precisa os meios de prova disponíveis para serem oferecidos em suporte de suas alegações. Quando motivos sérios justificarem a incapacidade de uma parte de fornecer detalhes razoáveis sobre fatos relevantes ou especificação suficiente dos meios de prova, a corte deve levar em consideração a possibilidade de que fatos e provas necessários sejam produzidos ulteriormente no curso do procedimento (tradução nossa).

É com espeque nele que os arts. 523 e 524 do CPC português estatuem que as partes têm o ônus de juntar às suas respectivas peças iniciais os documentos destinados a

415 LUSO SOARES, A Responsabilidade Processual Civil, p. 173.

416 Buzaid também identifica esse dever decorrente da lealdade processual, porém não utiliza a nomenclatura

“dever de prontidão”:

“A lealdade, como o étimo da palavra indica a toda evidência, consiste em pautar os atos em

correspondência com a lei. O Código de Processo Civil brasileiro disciplinou exaustivamente todas as manifestações das partes, estabelecendo os requisitos da petição inicial (art. 282), da contestação (arts. 300, 302 e 303) e a presunção de que são verdadeiros os fatos não impugnados, ressalvadas as exceções previstas no art. 302. Determina de modo preciso os meios legais de prova, distribuindo entre as partes o ônus de sua produção (art. 333). Para se ter uma idéia da lealdade processual, convém lembrar que o Código preceitua que ‘compete à parte instruir a petição inicial (art. 282) ou a resposta (art. 297) com os documentos necessários a provar-lhe as alegações’ (art. 306). Os dois momentos em que deve ser produzida a prova documental são, portanto, a petição inicial e a resposta. Não está, pois, em conformidade com a lei ocultar documento para só apresentá-lo em outra oportunidade, causando surpresa não só ao juiz como à parte contrária. Quem assim procede age com deslealdade” (Processo e Verdade no Direito Brasileiro, in Revista

de Processo, nº 47, p. 96).

417 Ao tratar do costume que os litigantes têm de tentar surpreender o adversário com um movimento que este

não espera, ao arrepio da lealdade processual, Carnelutti (Derecho y Proceso, p. 233) compara o processo com o jogo de cartas:

“A que jogo deve assemelhar-se o processo: ao jogo de xadrez ou ao dos naipes? A diferença entre os dois

está em que no primeiro o jogador não conhece os movimentos, mas conhece as armas do adversário; nas cartas, por outro lado, ignora também estas. A tentação das partes, no processo, é a de jogar cartas e não xadrez; o jogador de cartas põe sobre a mesa as cartas boas o mais tarde possível. Eu penso que o fair play

processual não consente esse comportamento. O processo, em suma, deveria ser um jogo a cartas descobertas” (tradução nossa).

provar os fundamentos da ação e da defesa, sancionando a apresentação feita até o encerramento da discussão em primeira instância e proibindo a junção tardia nos autos418.

Na Espanha, o dever de prontidão parece ter influenciado os arts. 270.2 e 286.4 da “Ley de Enjuiciamiento Civil”. O primeiro artigo comina multa para o litigante que apresenta prova documental depois da fase postulatória do processo (ou seja, depois da demanda e da contestação ou, eventualmente, da “audiencia previa al juicio”), sem ser nos casos excepcionais previstos no art. 270.1 da “Ley de Enjuiciamiento Civil” (documento novo, elaborado depois da demanda, da contestação ou da “audiencia previa al juicio”; ou cuja existência a parte ignorava; ou que a parte não podia obter anteriormente por causas que não lhe podem ser imputadas), movido por intuito protelatório ou má-fé processual. De acordo com o segundo dispositivo, a parte que alega fundamentos fáticos novos depois de preclusos os atos de alegação previstos na lei deve ser condenada ao pagamento de multa, contanto que haja indícios de que o fato poderia ter sido suscitado nos momentos processuais ordinariamente previstos para esse fim e que se constate ânimo dilatório ou má-fé processual na alegação extemporânea.

No ordenamento jurídico brasileiro, o dever de prontidão pode ser inferido dos arts. 282, III e VI; 283; 300-302; e 396 do CPC, que versam sobre: (a) os ônus do autor de deduzir na petição inicial todos os fundamentos fáticos e jurídicos de seu pedido, de indicar as provas com que pretende demonstrar os fatos alegados e de já trazer para os autos os documentos indispensáveis à propositura da demanda; e (b) os ônus do réu de impugnar especificadamente, na contestação, todos e cada um dos fatos narrados na petição inicial, de alegar defesas de mérito indiretas (fatos impeditivos, modificativos e extintivos do direito do autor) e defesas processuais e de juntar aos autos documentos destinados a provar suas alegações. Há também dispositivos do Código de Processo Civil que preveem abrandamentos desses ônus, como o art. 264, que proíbe o autor de modificar a causa de pedir depois de feita a citação, exceto se houver o consentimento do réu, mantendo-se as mesmas partes, e que também veda toda e qualquer alteração da causa de pedir após o saneamento do processo; o art. 462, que estabelece que, se for verificado, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, o juiz deve levá-lo em consideração na sentença; o art. 303, que permite que o réu deduza novos fundamentos defensivos depois da contestação em três hipóteses: (1) se forem relativos a direito superveniente; (2) se competir ao juiz conhecê-los de ofício; ou

(3) se a lei expressamente permitir que sejam formulados em qualquer tempo e juízo; e o art. 397, que permite a juntada de documentos novos aos autos, desde que destinados a fazer prova de fatos ocorridos depois dos articulados ou para contrapô-los aos que foram produzidos nos autos419.

A doutrina e a jurisprudência nacionais têm, no entanto, relativizado a rigidez dessas regras que consubstanciam o dever de prontidão. Argumenta-se que a rigidez extremada diminui as faculdades das partes e o poder de direção processual do juiz, o que burocratiza o processo e o afasta do seu objetivo primordial de fazer justiça (processo justo e équo)420. Configuram exemplos dessa flexibilização:

a) como se disse anteriormente, os fatos constitutivos do pedido e a matéria de defesa devem ser apresentados, respectivamente, na petição inicial e na contestação, sendo vedadas a modificação da demanda pelo autor após a citação (a não ser que haja o consentimento do réu, até o saneamento do feito) e a dedução de novas alegações pelo réu em tempo ulterior (arts. 282, III; 300; 264; e 303 do CPC). Mas, se, inadvertidamente, for introduzida no processo causa de pedir não deduzida na inicial e o contraditório abranger essa nova realidade fática, Bedaque421 adverte que o juiz deve considerá-la, em prol das ideias da instrumentalidade das formas e da celeridade processual. Segundo o doutrinador, o respeito ao princípio do contraditório faz com que esse julgamento não seja considerado “extra petita”, logo, nulo. Somente se a falha comprometer definitivamente a ampla defesa e o contraditório é que se deve optar pela anulação;

b) a jurisprudência interpreta o art. 462 do CPC de maneira restritiva, exigindo que o novo fato constitutivo do direito do autor, verificado depois da propositura da ação, guarde nexo com os fatos afirmados na petição inicial, de modo que ele seria apenas um elemento omisso daqueles. Mas, com o mesmo argumento supracitado, Bedaque422 sustenta que, desde que seja respeitado o contraditório (inclusive possibilitando a produção de prova), não há prejuízo em se admitir a introdução de fatos supervenientes constitutivos do direito do autor que configurem causas de pedir novas, ou seja, fatos diversos dos afirmados na inicial;

419 Caso o projeto do novo Código de Processo Civil (Projeto de Lei nº 8.046/2010) seja aprovado nos termos

atuais, o dever de prontidão poderá ser inferido dos arts. 293, III e IV; 294; 325, 327 e 329; 421; 304; 480; 330 e 422, que têm redação parecida com a dos mencionados dispositivos do Código atual. Contudo, não haverá qualquer norma sancionadora de comportamentos que transgridam tal dever, como há atualmente nos arts. 22; 69, I; 113, § 1º; e 267, § 3º, do CPC em vigor.

420 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. II, § 633, p. 470. 421 Efetividade do Processo e Técnica Processual, pp. 131-133.

c) o art. 303 do CPC estatui que o réu deve deduzir todos os fundamentos de defesa já na contestação, salvo as exceções previstas em seus três incisos. Segundo Dinamarco423, os tribunais têm interpretado de maneira tão ampla esses casos excepcionais previstos nos incisos do art. 303 do CPC que a preclusão dos fundamentos da defesa transformou-se em uma exceção no sistema424. Entretanto, ele adverte que, de qualquer maneira, o réu pode ficar impedido de suscitar razão de defesa tardiamente, ainda quando se trate de fundamento admitido depois da contestação, se ficar constatada sua manifesta má-fé no retardamento da alegação ou se o procedimento encontrar-se em momento avançado (v.g., se o novo fundamento defensivo envolver fatos, eventual alegação tardia não poderá ser considerada quando já estiverem superados os momentos probatórios pertinentes; se o fundamento novo for de direito, não poderá ser admitido em momentos extremamente adiantados, quando for necessário instaurar debates sobre eles; nos graus superiores da jurisdição – STJ e STF –, o réu não poderá alegar fundamento defensivo que não tenha sido alegado e apreciado na instância precedente – prequestionamento). Bedaque425 vai além da interpretação das exceções do art. 303 do CPC e afirma que o magistrado não pode desconsiderar novas alegações que o réu tenha feito após a contestação, desde que a matéria tenha sido submetida ao contraditório e que se encontre demonstrada nos autos. Segundo o autor, o juiz não pode ignorar a realidade que consta dos autos apenas para homenagear a técnica processual;

d) não obstante o art. 396 do CPC exija que o autor junte à petição inicial, bem como o réu à contestação, os documentos com o quais pretendem provar a veracidade de suas alegações, admite-se que eles juntem provas documentais depois. O que se exige logo com a petição inicial são os documentos indispensáveis à propositura da ação (art. 283 do CPC), como, por exemplo, a certidão de casamento na ação de separação judicial426;

e) o art. 300 do CPC determina que o réu especifique as provas que pretende produzir já na contestação. Todavia, os juízes admitem que ele o faça depois, juntamente com o autor (art. 324 do CPC)427.

423 Instituições de Direito Processual Civil, vol. II, § 633, p. 471; e Instituições de Direito Processual Civil,

vol. III, § 1.071, pp. 490-491.

424 O autor ensina que, salvo situações particulares, apenas os seguintes fundamentos de defesa são realmente

inadmissíveis depois da contestação: (a) a compensação; (b) a incapacidade relativa do agente como vício dos negócios jurídicos; (c) o erro; (d) o dolo; (e) a coação; (f) a fraude; (g) a convenção de arbitragem; e (h) as nulidades processuais relativas.

425 Efetividade do Processo e Técnica Processual, pp. 137-138.

426 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. II, § 633, p. 471 e nt. 14. 427 DINAMARCO, Instituições de Direito Processual Civil, vol. II, § 633, p. 471.

Como se verá mais detalhadamente nos itens 2.6 e 2.7 “infra” alguns dispositivos do Código de Processo Civil sancionam quem viola o dever de prontidão: (a) o art. 22 estabelece que o réu que dilatar o julgamento da lide, em razão de não ter arguido na sua resposta fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, será condenado nas custas a partir do saneamento do processo e perderá, ainda que vencedor na causa, o direito a haver do vencido honorários advocatícios; (b) o art. 69, I, estatui que o réu que deixar de nomear à autoria, quando lhe competir, ficará obrigado a ressarcir perdas e danos; (c) o art. 113, § 1º, comina o dever de pagar integralmente as custas ao réu que não deduzir a incompetência absoluta no prazo da contestação ou na primeira oportunidade em que lhe couber falar nos autos; e (d) o art. 267, § 3º, determina que o réu que não alegar as defesas processuais previstas nos incisos IV, V e VI do mesmo dispositivo legal na primeira oportunidade que lhe caiba falar nos autos responderá pelas custas de retardamento do processo.